segunda-feira, outubro 22, 2007

A Lição

Aqui há uns tempos uma menina ex-projecto crescer, de origens humildes, revelou grande em voltar a pertencer à associação, desta feita como animadora.

Ouro sobre azul, não fosse o facto dessa menina não jogar com o baralho todo. Mas enfim, parafuso a mais, parafuso a menos, lá fizemos uma reunião de introspecção e, tendo ido a votos, achámos que lhe deveriamos conceder uma oportunidade de integrar o projecto.

Assim sendo, convocámo-la a uma reuniãozita na capela, e, condescendentes, lá lhe comunicámos que a aceitávamos como monitora, tinha era que se portar bem e não morder ninguém.

Feliz, a adolescente agradeceu-nos. Mas adiantou, logo de seguida, que não poderia participar na colónia de férias porque ia a correr para a China.

Entreolhámo-nos subtilmente. O mais longe que a miúda tinha ido na vida foi de autocarro da junta à aldeia do Sobral, aquela das miniaturas do barro.

- ah, então vais para a China... - comentou alguém

- vou, vou à China, vou a correr! - completou ela orgulhosa.

Não sabiamos se haviamos de rir pela imagem da miúda a correr esbaforida até à China ou lamentar pela inimputabilidade de uma rapariga tão nova.

Lá lhe demos dinheiro para um gelado e ficámos ainda a rir um bocado à pala dela.

Até a termos visto no Telejornal, medalha de ouro ao peito, acabada de chegar dos Special Olympics de Xangai.

domingo, outubro 14, 2007

O meu carro

Ah pois é, após anos incessantes de labuta rigorosa, comprei o meu primeiro carro. Escusado será dizer que, durantes os primeiros dias, esta viatura de um azul lindíssimo foi a luzinha dos meus olhos.

Ele eram beijos, afagos ternurentos, um roçar de nariz na porta do condutor, carícias breves mas intensas.

Orgulhosa, levo-o pela primeira vez a passear, acedendo a um pedido desesperado do meu irmão, para o ir buscar ao Técnico a propósito de nem sei o quê.

Tiro o carro da garagem ( tarefa hercúlea devido aos 4 pilares gigantes, uma máquina de costura, uma máquina de passar a ferro, um estaminé de parafernália electrónica e dois veículos estacionados).

E lá vou eu estrada fora, uma lágrima a querer descair e o peito ardendo de felicidade. Estaciono, vou ter com ele ao bar, três dedos de conversa com os colegas e regressamos a casa.

No parque de estacionamento, o choque, o terror puro. Do lado direito do carro, riscos gigantes.

Depois de um pseudo-colapso anafilático, recuperei a consciência e desatei a correr para a portaria, em direcção aos seguranças. E lá foi o meu irmão atrás de mim, esbracejando tal como eu, exigindo ver as cassetes de vigilância e vociferando ameaças expressas contra colegas, funcionários e membros do Conselho de Direcção e Comité Científico.

Exaustos, e após uma promessa solene que no dia seguinte haveria uma averigação oficiosa ao incidente, regresso a casa simplesmente deprimida, mas ainda assim confiante nas autoridades.

Entramos dentro da garagem e a primeira coisa que se avista é um pilar branco listado de azul. O meu irmão olha para mim, rancoroso:

- "já viste a figura que andei a fazer?"

Naquela altura senti mesmo as orelhitas a baixarem-se-me, um ratinho perdido no esgoto, um pequeno Ratatui órfão de família e de amor.

Moral:
Os riscos no estúpido do pilar sairam.
Equimoses no meu lindo carro azul.
Uma grande dor de alma.

sábado, outubro 06, 2007

I see dead people

Exposição do Corpo Humano

(não, não vou discutir se os espécimes eram asiáticos ou africanos, recuso-me a entrar numa discussão inútil e por demais evidente - asiáticos - ou há todo um universo mitológico que se desmorona).


Entro numa sala e vejo um caixote de vidro repleto de maços de tabaco, inseridos numa ranhura pelos corajosos visitantes. Por cima, uma inscrição que incita: "Deixe de fumar, agora".

Excitada, vou buscar o Renato à sala das artérias

(muito esquisito é este miúdo, a chatear-me porque me detive no único corpo nu de uma mulher nesta exposição machista - peço perdão por ser curiosa e ter uma oportunidade única de saber se sou anatomicamente normal - enquanto ele próprio fica 20 minutos em frente a uma árvore bronquiológica, exclamando de olhos vidrados: que lindo, que lindo)

Arrasto-o até chegarmos ao caixote do tabaco. Inquiro-o: "então, é desta?"

Ele observa, guloso, os maços de tabaco. Olha para ambos os lados, e vendo-nos sozinhos, desafia-me: "achas que consegues meter a mão no buraco?" Incrédula, olho com atenção o hiper-racional e sensato namorado que supunha ter. Julgo ver uma sumida linha de saliva a descer-lhe rosto abaixo.

Fugi dali horrorizada. Tenho que repensar o ultimato do "o Malboro ou eu". Não sei viver sozinha.

sexta-feira, setembro 28, 2007

A Dúvida

Esta semana fui assistir ao julgamento de uma colega, que envolvia um seu arguido um pouco sui generis, preso num estabelecimento prisional.

Fui com a minha amiga Zélia, comparsa das brincadeiras, e sentámo-nos as duas no banco das visitas, emocionadas com o início da audiência.

Mas o certo é que, ainda esta nem tinha sido aberta, já vinha um Sr. Funcionário Judicial, a suar em bica, lívido de desespero, sem articular palavra conexa:

- o arg.. o ar..fug.. arghhh o arg..

E eu e a Zélia a mirá-lo atentas, tentando decifrar a charada:

- o arg...arghhh...o arg..oh meu ..fug.. arghh e atirava com a cabeça para trás e a língua para fora,

Finalmente apareceu outro Funcionário, com um pacote de açúcar, enfiou-lho garganta abaixo e o homem lá recuperou a consciência:

- o arguido..ó meu Deus, o arguido... fugiu! Não está na cela, fugiu!

Motim na sala, só faltou os restantes arguidos atirarem-se janela fora, com pânico de um arguido foragido - quiçá armado - esquecendo-se, por momentos, que eles próprios, num certo momento da sua vida, foram uns pequenos patifes.

Até que vem uma Funcionária, lúcida como qualquer mulher que se preze, e acalmou os 2 Funcionários esclarecendo-os:

- O arguido já vem aí.

Burburinho.

E segundos depois, entra uma mulher de porte altivo, cabelos pretos escorridos, calças justas e botas altas, batôn nos lábios e o rabinho a dar a dar.

Silêncio.

- Foi erro do guarda, explica a Funcionária, enquanto olha invejosa para a D. Travesti

Pois é, parece que quem deveria ter metido o arguido na cela dos homens, se entreteve tanto e tão bem a olhar para as suas maminhas baloiçantes e quadris rebolantes, que se esqueceu estar perante um travesti NÃO OPERADO por isso, e para todos os efeitos legais, tinha um pénis (minúsculo e atrofiado, segundo me confidenciou - hihi) e dois testículos (pequenitos também, tipo isto..)

Mas no meio disto tudo, se há uma coisa que eu aprendi ou reforcei é:

- os homens são particularmente estúpidos, especialmente se estão à rectaguarda de um travesti, absorvendo o seu traseiro bojudo e a babarem-se farda abaixo.

- Eu, enquanto espectadora igualmente à rectaguarda, percebi que não vale a pena um travesti operar-se e pôr proteses no rabo,

se tem umas costas largas de dois metros que só lhes falta estar à porta do Mussulo a barrar entradas e a conduzir um saxo cup.

Espero que seja absolvido. a.

quinta-feira, setembro 20, 2007

Um grito de revolta

Quem me conhece sabe que o meu cabelo tem vida própria. Só lhe falta ter dentes e dois olhos lá pelo meio. De resto, faz o que quer de mim, rebola-se, abespinha-se e depois faz um pequeno capacete do lado esquerdo que simpelsmente me enoja, mas é meu e vou ter que viver com isso.

Acontece que a única coisa que o semi-domina é um daqueles pentes tipo piolhos, com um cabo de aço muito fininho e que serve para fazer um risco decente em cima da cabeça.

Tendo eu ido a uma prisão que não é das mais rigorosas, levei o pente no meio de um livro. Quando a mala passou pela máquina raio-x, accionaram-se toda uma panóplia de sons agudos, luzes vermelhas e portas que se fecharam atrás de mim. Guardas armados até ao pescoço cercaram-me e obrigaram-me a abrir a mala.

Resignada, abri o livro e saquei do pente dos piolhos. Depois de um momento de descontracção, durante o qual os guardas se riram, e friso bem, RIRAM do meu pente, lá passei a mala outra vez pela máquina raio-x.

E mais uma vez a máqui a apitou louca, descontrolada, e guardas armados se posicionaram atrás de mim, evitando uma possível fuga.

- QUE MAIS TEM AÍ? - vociferou o chefe. Tremelicante, abro a minha mala e não vislumbro nada de mal.

- Nada..- asseguro, enquanto rezo baixinho para que não me abram a caixinha dos tampões maxi .

Pois é que foram mesmo directos a ela. Inspeccionaram-na, com ar intrigado, enquanto me apetecia gritar: NÃO SÃO TORPEDOS SENHORES, EU METO ISSO NO PIPI

Depois de uma breve inspeccionadela e alguns sorrisos cúmplices com os restantes colegas, o guarda devolve-me a caixa dos tampões, seguro que não foi aquilo que fez disparar a máquina. E com uma fila de 50 familiares dos presos atrás de mim, furiosos pelo tempo de espera, finalmente o denso mistério resolve-se:

- O QUE É ISTO? -pergunta ele enquanto segura num objecto comprido cor de rosa

- É um baton- esclarece, solícito, outro guarda mais novo.
- Ah, pois é, é um baton - confirma o chefe. - vá, passe lá

E devolvem-me o objecto supostamente letal, que de baton tem muito pouco, já que é um comprido frasco de perfume da sephora, mas enfim, o que eu queria era vir-me embora antes que as visitas me fizessem a folha.

- Desculpe, o meu pente - peço eu com os melhores modos que consigo.
E devolvem-mo rindo, mortinhos para me aconselharem Quitoso.

Tive pena daqueles pobres de espírito. Se não sabem sabem distinguir um baton de um frasco de perfume, sabe-se lá o que é que aquela gente inventa na intimidade. Ofereceram-me em tempos uma t-shirt que dizia "boys, clitoris it´s not a greek island"

Tudo isto para dizer que tenho pena daquelas esposas.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Só naquela

Palavra que não sou de intrigas (há quem afiance que sim),

mas, tipo: é impresão minha, ou o Jumbo de Alfragide desapareceu?
É que ou eu estou sempre muito bêbeda quando desço os cabos d´ávila ou então aquela coisa não está mesmo lá.

E como nunca ouvi ninguém interpelar-me dizendo "ó susana, já reparaste que o Jumbo já não está no mesmo sítio", e nos últimos tempos o que mais oiço é "susana, já reparaste que conduzes no meio da estrada estiveste a beber ou quê" ,

começo a pensar que isto talvez seja uma cabala, e, a ser, advirto desde já que a minha condução é perfeitamente ajustada à realidade social e NÃO A VOU alterar. Não gosto de me atirar às bermas,

peço perdão por ter visão lateral.

Caso não seja, tenho medo. Muito medo.

quinta-feira, agosto 23, 2007

Nasceu uma estrela. Origem: Desconhecida

Olá.

Hoje faço 27 anos e vou-vos contar porque é que neste dia, 23, descobri uma verdade horripilante.

Este ano o meu pai resolveu pintar a casa toda por dentro. Quando eu me apercebi de semelhante intenção, o meu coração parou. Explico: Eu tenho um péssimo hábito - chunga, é certo, mas tão reconfortante que é: colar cenas nas paredes.

A minha sorte até agora foi o meu pai nunca ter pintado o meu quarto. O que significa 7 anos ininterruptos de coladelas nas paredes, nem eu própria sei bem de quê,

mas essencialmente posters de macacos vestidos de bebés e com duas fraldas (juro, não sei o que me deu), luas com caras e querubins em tons pastel, enfim, tudo isto colado com fita-cola daquelas para atar ligaduras, é que a minha mãe trabalhava no Hospital do Desterro e trazia essas gosmas de graça para casa (vulgo furtadas).

Por isso, se fizerem um pequeno esforço, conseguirão imaginar o estado lastimável das paredes por debaixo daqueles posters de refinado bom gosto.

Dia 19: o meu pai pinta a sala - tremo
Dia 20: o meu pai pinta o corredor - continuo temerosa
Dia 21: o meu pai anuncia que vai começar a pintar os quartos. Não diz qual será o primeiro - fico com dor de barriga. Começa pelo do meu irmão.
Dia 22: antes de eu ir trabalhar apercebo-me que se dirige ao meu quarto. Saio de casa em estado catatónico.

Dia 22 às onze da noite, já quase dia 23 : pé ante pé meto as chaves à porta. Não oiço gritos nem urros cossacos. Benzo-me e vou cumprimentar os meus pais.

Faltam 15 minutos para a meia-noite ou seja, para deixar de ser a Susana, a Javardola e voltar ser a recordação afectuosa daquele bebé, um pouco estranho de enormes pés, mas no fundo uma promissora promessa e consolo para aqueles ansiosos jovens pais.

Já viste as paredes do teu quarto? - oiço eu vindo da sala.

Dirijo-me a ele e faço o meu olhar de traquinice, só me faltou a fisga no bolso e os peúgos rotos a arrastar pelo chão.

Deu-me um beijo e um calduço suave, encarando-me com um sorriso carinhoso no rosto. "Vitória", pensei. "Que timming excepcional"!

Hoje passei a manhã INTEIRA a raspar a parede com uma espátula e diluente celuloso. E palavra de honra que ainda não acabei. Só posso ser adoptada.

segunda-feira, agosto 20, 2007

SPORTING

6ªF vendi-me.

Em traços gerais, porque a história é longa:

- 6ª à noite
- matar tempo entre as 20h e as 23h
- solidão

não, não me prostituí.

Pior. Fui ver o Sporting-Académica. (eu sou do Benfica).


Pior ainda:

O meu irmão, que me levou, assistiu ao jogo num camarote onde estavam os familiares do capitão de equipa. Eu, a preta da família, assisti ao jogo entalada entre um gajo semi-nu a tocar tambor e cheirar a azedo, letras garrafais escritas no peito "Directivo XXI", e entre uma azeiteira simplesmente assustadora que cuspia a valorosos decibéis " Ó Briosa vai p´puta que vos pariu",

não sei o que é que se passou, mas quando dei por mim, entoava muito animada hinos e expressões bizarras tipo "Tunél" e "Stotofixe", sem nunca sequer ter percebido afinal a que equipa pertencia a baliza à minha frente, e acreditem...

foi tãaaao fofo! E palavra, quase que me vieram as lágrimas aos olhos quando cantei "Até morrer, Sporting Allez", primeiro de comoção depois, um súbito ataque de riso só de imaginar se aqueles histéricos sonhassem que eu era do Benfica.

Enfim, lá saí contente: matei as três horas e no dia seguinte saí no Record.

Pudera, a única gaja com dentes na claque.

PS- Directivo Ultra XXI , se alguém nessa claque souber ler, afianço que este blogue é meramente lúdico e acabo por caricaturar um pouco o cenário. De qualquer forma, não sabem onde eu moro.

sexta-feira, agosto 17, 2007

Nova lei da imigração

Descobri um local onde qualquer clima de terror armado tipo Serra Leoa parece brincadeirinha de boiolas.

Quem já lá foi, sabe reconhecer imediatamente o sítio a que me refiro.

Os que ainda não acertaram, nunca foram. Ao SEF.

O Sef é um local simplesmente aterrador, escuro como breu (e não me refiro à homogeneidade dos africanos). A primeira vez que lá entrei, e afianço que ainda não tinha transposto os dois sapatinhos, ouvi um sonoro "OIÇA LÁ SUA PALHAÇA ONDE É QUE VOCÊ PENSA QUE VAI?".

Já nem me lembro o que balbuciei, mas ainda antes de lhe responder já eu estava a ouvir do ouro lado , num claro sotaque nordestino, " É PUTA É, VAI-SE PÔR NO FIM DA FILA!", apoiada por vigorosos aplausos de uns quantos ignorantes que nem percebiam o português e me olhavam lascivamente para os tornozelos.

Enfim, um cenário bucólico, ideal para uma jovem de 26 anos se desenvolver emocional e socialmente. Começo a sentir saudades da faculdade.

quinta-feira, agosto 16, 2007

A proprietária

oh joy oh happiness tenho um portátil no meu quarto há 15 dias.

15 dias? então porque não escrevi antes? fácil: o portátil foi-me gentilmente cedido por australiano, tipo da austrália, e o teclado é simplesmente uma coisa assustadora. Como eu sou um bocado burra, o meu irmão não me ajuda, o meu pai chega cansado da labuta e o meu namorado mora longe, eu, na minha sacramental ignorância achei que, por algum motivo, eu tinha que criar atalhos nas teclas para todos os caracteres que faltavam. E eram muitos. o ç, o ~, os acentos, uma parafernália de letras que sempre tive por certas e afinal percorrem insondáveis caminhos conforme os países e respectivos continentes.

Isto para dizer que durante 15 dias tentei colocar atalhos em todas as letrazinhas. Claro que para me lembrar das teclas tive que criar um caderninho e, posteriormente, fazer umas etiquetas e colocar com um bocado de cuspo mais ou menos onde calhava.

Graças ao meu bom Deus, e estando eu já prestes a ter um colapso nervoso daqueles que dão psicose e eventual internamento,

chorando baba e ranho por demorar 5 minutos a escrever a palavra coração e acertar com os parentesis e abre-aspas, chega finalmente o meu irmão de férias, ri-se às gargalhadas com as minhas etiquetas salivadas e cheias de dedadas bem sujas,

e em 30 segundos vai ao painel de controle, altera a opção de "teclado - portugal" e vai para a casa de banho, ainda a enxugar as lágrimas do rosto.

Eu, por turno, não sabia se também havia de secar as minhas ou continuar a chorar num registo dilacerado.

Optei por me rir. E por contar a toda a gente. Sou pouco esperta mas lambi um Toshiba a custo zero. MUAHHHHHHH

terça-feira, julho 31, 2007

Já agora

quem é que teve a pouca urbanidade de apagar os meus últimos 5 ou 6 posts?

X ou Y eis a questão

Um destes dias precisei desesperadamente de um favor. Depois de pedir a todos os meus amigos de infância, de liceu, da rua e da catequese e de ter recebido umas valentes negas, dei-me por vencida e fiz a única coisa que, por mais abjecta que fosse, era a única possível: pedi ao meu irmão.

Às duas da manhã lá fui eu, de fininho, com alguns rodeios e meias palavras, sorrisos temperados e muita, tanta!, boa-educação, e perguntei:

- Podes dar boleia amanhã a 4 crianças da associação para podermos ir à praia de Carcavelos?

Acto contínuo, ele responde :

- Posso.

Estranho.

- São é 30 euros, mais 5 para a gasolina.

- Mas é pelas crianças!

- 30 euros, e pagos agora.

Chulo.

Mas depois, uma ideia brilhante. Fui directa à mala da minha mãe, abri a carteira e retirei duas notas de €10 e umas moedas. Depois, fui ao quarto da minha mãe, acordei-a com uns tabefes nas costas e expliquei:

- mãe, tirei-te 30 euros.

ela, num profundo estado de sonolência, inquire: "porquê?"

ao que eu respondo, num porte egrégio e profundamente digno:

- é o preço a pagar por teres educado uma criança que tinha tudo para ser normal numa verdadeira besta sem qualquer noção de abnegação e delicadeza.

Calou-se.

E eu ri-me, ri-me, até no dia seguinte ser acordada às sete e meia aos gritos pela minha mãe para ir devolver os trinta euros. Devolvi e, chorosa, lá fui ao meu "migalheiro" e retirei o dinheiro.

Agora o deprimente da história (verídica, o que seria da minha vida sem o PC), é que no dia seguinte algumas crianças faltaram.

Susana, à porta da capela, mais uma vez de fininho e numa infinita doçura:

- Olha, afinal já não preciso de boleia. Faltaram 5 miúdos.

- Ok.

Ok? Então e a explosão de loucura mais o acesso de cólera galopante?

- Tchau - lança ele, entanto põe o carro a trabalhar.

- Anda cá, dá-me então o dinheiro!

- Já ajuda no Sudoeste- grita ele já no fim da rua.


Porquê pai?...
Bela merda de cromossoma que foste generosamente doar. Não valia mais teres outra gaja?

segunda-feira, maio 28, 2007

Scream

Fui obrigada num destes dias a tomar contacto com um cliente acusado de um homicídio. Quando digo tomar contacto, refiro-me unicamente a pegar num dossier de arquivo azul escuro, folhear os relatórios e autos de detenção e, mais importante, observar as fotografias apensas ao processo.

E agora passo a enunciar a forma profissional como o fiz:

Com os olhos fechados, peguei nas fotografias e coloquei-as no parapeito da janela. (só esta operação minuciosa demorou-me uns tortuosos 5 minutos, durante os quais embati em todos os objectos imóveis e inertes existentes naquele gabinete).

Após uns minutos de respiração descontrolada, inspirei fundo e disse para comigo própria que a Humanidade estava dependente de mim e se eu não olhasse para as fotos o mundo iria explodir e morríamos todos e para toda a eternidade. (shiuu, é infantil mas infalível)

Então, de longe dos meus 13 metros de distância da janela, pálpebras cerradas, testa franzida e um nojo incontrolável só de pensar em livores cadavéricos,

ganhei coragem e descolei os olhos.
(Estão a ver o Kevin do Sozinho em Casa? Só me faltou a espuma de barbear e a falta de pilosidade, vulgo bigodes). A minha boca abriu, arregalei-me toda e gritei.

Malta, é oficial, tenho mamas e não tenho tomates.
Três vivas para as brigadas de homicídio do meu país.

quinta-feira, maio 10, 2007

Condução sem carta. Dá para acreditar?

E o insólito aconteceu.


Ontem estava particularmente bem disposta. Tinha um julgamento de manhã, mas uma coisa ligeirinha, sem dramas.


Lá fui eu para o tribunal, a assobiar contente com o casaco pendurado ao ombro e óculos de sol a enfrentar confiante o mundo.


Começa a audiência, o juiz fala, o procurador, fala, e a Susana começa a discursar. Não sou de intrigas nem falsas modéstias, mas quando estou bem disposta falo e até falo bem.

Ainda a procissão ia no adro, e eu, inflamada exaltava as virtudes do meliante que ali estava, quando este, subitamente, se agarra ao peito e cai no chão.


Sem saber muito bem o que fazer, e até porque não sou de deixar coisas a meio, ainda largo duas ou três palavritas sumidas. Mas depois de o ver estendido no chão a minha sensibilidade feminina, vulgo 6º sentido, manifestou-se e aí eu achei por bem calar-me.


De qualquer forma, também não me parece que naquela altura alguém me estivesse a ouvir, especialmente a juíza que se tinha levantado e levado a mão à cabeça desesperada e a procuradora que fugiu como um tiro para o segundo piso, onde decorria um julgamento de vários médicos.


Depois, lá vem o INEM, leva o meu arguido e eu fico na sala, sozinha, sentada numa cadeira ao canto


ridícula na toga xs que não me serve, a olhar para a biqueira da bota e a pensar para com os meus botões que tudo mas tudo me acontece.


Felizmente o arguido sobreviveu ao ataque cardíaco e foi internado.


Agora a questão que se coloca:
Quem é que lhe vai comunicar a sentença?
CREDO, EU NÃO!

ps- para os mais incrédulos, é favor confirmar na secretaria dos juízos criminais de lisboa

segunda-feira, maio 07, 2007

não é mentira, é mentirinha

Num destes dias tive que escrever numas alegações porque é que Belas era um melhor sítio para uma criança viver que uma aldeola perdida ali para os lados de Vila Franca.

Tudo começou numa audiência em que ninguém parecia saber onde se situava a minha ilustre terra. Fiquei de trombas porque essa não é, definitivamente, uma pergunta que alguém civilizado faça.
Depois, outro ainda teve a inóspita lembrança de me perguntar se a minha terra tinha algum jardim!

Se tem algum jardim???!!! Imaginei-me imediatamente de dedo em riste apontado ao nariz: " Meretíssimo seu energúmeno, mais informo que Belas É um jardim. "

Mas fiquei calada que nem um rato a trincar nervosamente a beiça. Vinguei-me nas alegações escritas, adiantando todas as maravilhosas qualidades da terra, o seu património natural, vegetal, arquitectónico e geográfico,

a ilustre serra da carregueira, os jardins, as quintas e solares aristocráticas, as fontes palacianas e o aqueduto das águas livres , (bolas, até mencionei as pegadas dos dinaussauros de carenque)

- por acaso ter-se-ão violentamente enganado os visionários construtores do Belas Clube de Campo e do Lisboa Sports Club? I DONT THINK SO!

Escrevi tanto e de tal maneira que no fim até eu própria me convenci que Belas era o local ideal para se viver,

nela imaginando os meus filhinhos em alegres gargalhadas brincando no seu triciclo debaixo do alpendre, um marido garboso lendo um livro (culto) de mecânica aeronáutica (macho, muito macho) recostado numa árvore de frutos,
E eu, magra, sem barriga, ombros ossudos com as clavículas à mostra, peito erguido e cabelo preto escorrido nas costas, a comer um pacote de cheeto´s de queijo ou daqueles cones de milho, feliz e serena.

Depois esbofeteei-me duas vezes na face e acordei para a vida.
Caramba, não vejo a hora de ter dinheiro me submeter a uma mamo e a uma lipo e mudar-me para o Estoril.

quinta-feira, maio 03, 2007

Para o damião não sei o quê

Houve uma pessoa que me escreveu e disse que o facto de eu ter passado a moderar os comentários reflecte a minha posição de, eventualmente,

não ser boa pessoa e não gostar de discutir nem receber críticas.

É notório que este ser amorfo pura e simplesmente nunca leu o blogue nem sequer os comentários.

Porque sou apologista da filantropia e gosto muito de partilhar, adianto-te que nunca recusei um comentário

mas infelizmente há uma pessoa, leitora deste blogue, que sofre de perturbações mentais e e escreve 10 comentários pornográficos ou simplesmente dementes por dia, para cada post, escrevendo ainda ameaças graves.

Por consideração a quem me lê, e devido aos muitos pedidos para que moderasse os comentários pois chegava a ser confrangedor ter que ler semelhante coisa,

acedi, e deixou de ser automático.

Por conseguinte, arruma as botinhas e o acordeão, e vai chatear outro blogue, porque se bateste à porta errada foi, definitivamente, esta.

Freak

Quem é? O Preconceito, novamente.

Recebi ontem um arguido.

Mulato, um verdadeiro armário, vinha com a cara feita num bolo, repleta de hematomas e nódoas negras.

Sentou-se à minha frente a um metro de mim.

Instintivamente, segurei no telefone portátil pronta a desferir-lhe um golpe mortal caso tivesse a infeliz ideia de me agredir e tentei descalçar uma das botas para me melhor colocar em debandada.

Muito calmo, esteve 10 minutos ininterruptos a elucidar-me sob as suas anteriores condenações e levantou-se para ir embora.

Para quebrar o gelo, eu, sempre com as minhas brilhantes e oportunas intervenções, aponto para as equimoses e digo "então adeus e até ao dia julgamento, não se meta é em mais confusões!"

Ele estaca e olha para mim.

Um arrepio percorre-me e penso interiormente que, daí a um minuto, se não falecer, ficarei pelo menos comatosa no Amadora-Sintra.

"Confusões?" – inquire
Esboço o famigerado sorriso icterício.

"Sou diabético há muitos anos. Ultimamente, quando vou pôr os meus miúdos ao infantário ou vamos brincar para o jardim, fico sem força e desmaio.

No Sábado estava na Igreja à espera da minha filha que ia a sair da catequese e bati na esquina de um banco. Levei 12 pontos".

diabetes?
catequese?
filha?
Igreja?


Com os olhos marejados, só não o levei para minha casa, deitei-o no sofá , calcei-lhe uns peuguinhos da Serra da Estrela, enrolei-o num cobertor de lã caprina e depositei-lhe um beijo amoroso na testa

porque simplesmente não calhou.


Senegalês escoriado – bhacccc
Senegalês religioso e diabético – quero. adoro.

sexta-feira, abril 20, 2007

m...´s anatomy

Fui ao centro de saúde (inominado, para não ser presa daqui a 4 dias). Ir aquele antro psicotrópico é sempre uma experiência aterradora, especialmente o acto de sentar nos sofás mais andrajosos que há memória, repletos de todos os bichos conhecidos na ciência da Parasitologia, e ainda ficar frente a frente com a minha médica de família que suspeito desconhecer a totalidade das consoantes.

Há já algum tempo que a epitetei como a profissional mais burra de todos os tempos, de todas as civilizações, de todos os campos gravitacionais.

Esta semana, depois de 5 horas nos famigerados e mega-povoados sofás, entrei no gabinete da médica ainda a coçar-me por dentro da blusa num processo complexo de limagem de antebraço (pulga ou piolho, acabei por não descobrir). A doutora, extremosa como sempre, nem perguntou o motivo da comichão. (Suspeito que se entrasse de braço dado com um macaco idoso a escorregar por uma liana ela nem bateria uma pestana).

Respirei fundo, refreei o meu ímpeto maléfico de lhe dar um pontapé na fuça e estendi-lhe um relatório de umas análises com uma mão coçando-me aflitivamente com a outra.

"Você não tem nada" – respondeu aquele Cu diplomado.

Como nada, pensei. Ainda nem há 20 segundos tinha lido nas observações o nome da infecção.
"Drª, penso que..penso que não, acho que tenho.." – titubeei eu

"Não tem nada" – repetiu

"Então e isso que está aí escrito nas observações?" – questionei em voz sumida

"Hum. Ah,está bem" - condescendeu

Palavra de honra. Não existe uma merdinha qualquer de um juramento de Hipócrites ou Hipólito? Será que o mencionado senhor sonha que semelhante negligência estava prestes a ser cometida não fosse a sagacidade e lucidez de espírito desta pobre sobrevivente que hoje (miraculosamente!) vos escreve?

Sempre gostava de saber o que é aquela primata antropóide estava a fazer nesse dia.
Eu, ofendida e em pose altiva, pelo menos aquela que é permitida a uma pessoa acossada de pulgas-saltimbancas desde os dedos dos pés até à base da nuca, saí do gabinete.

Nunca mais lá volto, Deus queira que nunca mais fique doente ou então que me dê clarividência para me auto-medicar. Coitado do Pobre.

terça-feira, abril 17, 2007

CARAMELO! CHOCOLATE

Estou sem palavras.

Há 20 minutos atrás, enquanto deambulava pelo maravilhoso mundo da Wkipédia pesquisando sem qualquer rumo criterioso (jurista estatal blá blá blá), deparei-me com uma lista de síndromes. Emocionada e, convenha-se, com louvável paciência e tempo livre, analisei um a um.
De repente, sem apelo nem agravo travo conhecimento com o síndrome de Ehlers-Danlos ou Cutis elastica.

Aprofundo esta doença genética. Descubro que um dos sinais consiste em tocar com a língua no nariz.

Lentamente, em frente ao monitor, estico a língua.
Após uma breve hesitação e muito cautelosamente, soergo-a na vertical.
Grito lancinante.

Tremendo, leio o resto do artigo e descubro que o grau de gravidade do síndrome determina a expectativa de vida do paciente.

...Xau amigos. Depois de ter passado pela nefasta sensação da língua a acariciar-me gentilmente a testa suspeito que não vou chegar à ternura dos 40.

2 conclusões se retiram:
- se eu fosse depravada e solitária grandes aventuras se adivinhariam (nota do editor: não sou)
- F...se antes isto que o de Tourette