Ontem fui ter com o meu irmão ao casino de Lisboa. Neste último mês tornei-me sócia de uma parelha-maravilha ao disponibilizar-lhe o capital necessário para ele efectuar apostas na roleta. Basicamente eu largo o guito ele abençoa-o com a sua estratégia.
Idiota, murmurarão vocês, enquanto se apiedam desta que aqui escreve.
Calminha, replicarei eu, molhando o indicador enquanto faço a contagem das notas.
Dez pessoas em roda de uma máquina virtual, nove literalmente apopléticas. De vez em quando ouvia-se um “P.. da máquina, que granda filha da p..., que m.. de máquina, f...-se que esta m... tá toda f..., c.. ma f..”. Nas primeiras vezes ainda me assustei mas à 6.º: “ SUA P... NÃO TE FICAS A RIR, MÁQUINA DE UM C.... VOU-TE PARTIR TODA, AI TÁS-TE A RIR TÁS A CRESCER PRA MIM???” e eu olho para o homem, colérico, a levantar a mão a um televisor como quem diz “vá, responde lá agora sempre quero ver o que é que dizes”, e o televisor, coitado, simplesmente a mostrar o jogo e susceptível de ser digitado para se efectuar a aposta, sinceramente senti pena daquele ser amorfo.
Saímos com um sorriso na cara e o dinheirinho no bolso.
O meu irmão é muito cagalhoto em inúmeras situações, mas noutras lá se redime e torna-se num ser híbrido quase que, atrever-me-ei, interessante.
(embora indubitavelmente semítico e de uma avareza aflitiva, onde é que já se viu 10% a quem generosa e altruisticamente injectou o capital?)
Será que só sou eu que vejo laivos de pedofilia na relação do Manuel O Português e o Zezinho de "O meu Pé de Laranja Lima"? 9 (NOVE) anos depois do início deste blogue muita gente alvitrou sobre tudo menos isto. Portanto tenho concluir que sim, sou só eu.
quarta-feira, janeiro 24, 2007
terça-feira, janeiro 23, 2007
Albânia -> Chelas
Há 2 anos atrás, Lisboa recebeu o encontro mundial juvenil de Taizé, no qual, num amoroso abraço ecuménico, se distribuiu várias nacionalidades por várias paróquias. Após 2 dias descobri, sem grande surpresa confesso, (esta minha alma esclarecida alumia-me os meandros mais obscuros da humanidade) que:
- Os italianos, suecos, finlandeses, holandeses, franceses e monegascos foram todos colocados na Linha de Cascais, nas paróquias, a título meramente exemplificativo, de Paço D´Arcos, Oeiras, Algés e Parede.
- Os romenos, moldavos, lituanos, ucranianos e tártaros da crimeia foram todos corridos a pontapé para a Damaia e a Reboleira, conhecendo inclusive dois polacos que foram repatriados para o Cacém.
Eu - ah e tal já repararam que mandaram os pobrezinhos para as zonas mais ranhosas? Os bielorussos ficaram todos num pequeno sotão do Pendão, os de Milão em luxosos aposentos nas casas estorilenses espraiadas à beira-mar.
Alguém ligeiramente ofendido e que não mora no município da capital: Então o que é que se retira do facto de 5 chechenos terem ido parar a Torres Vedras?
Olhei para ele, esbocei um sorriso amarelo (o que a juntar aos olhos auspicia mesmo uma valente anemia falciforme) e concluí que não havia saída. Eu e a minha grande boca suburbana.
- Os italianos, suecos, finlandeses, holandeses, franceses e monegascos foram todos colocados na Linha de Cascais, nas paróquias, a título meramente exemplificativo, de Paço D´Arcos, Oeiras, Algés e Parede.
- Os romenos, moldavos, lituanos, ucranianos e tártaros da crimeia foram todos corridos a pontapé para a Damaia e a Reboleira, conhecendo inclusive dois polacos que foram repatriados para o Cacém.
Eu - ah e tal já repararam que mandaram os pobrezinhos para as zonas mais ranhosas? Os bielorussos ficaram todos num pequeno sotão do Pendão, os de Milão em luxosos aposentos nas casas estorilenses espraiadas à beira-mar.
Alguém ligeiramente ofendido e que não mora no município da capital: Então o que é que se retira do facto de 5 chechenos terem ido parar a Torres Vedras?
Olhei para ele, esbocei um sorriso amarelo (o que a juntar aos olhos auspicia mesmo uma valente anemia falciforme) e concluí que não havia saída. Eu e a minha grande boca suburbana.
segunda-feira, janeiro 22, 2007
Mu
Auferido o precioso salário, aqui vou eu (fogo no rabo, - que rabo? – perguntará o costumado anónimo) directa à casa das malas. Ao fim de 4 meses de namoro a uma carteira linda de pele castanha, estico o American Express Platina e saio da loja radiante, abraçada à espécime com as beiças a tremer de felicidade.
À noite vou ao cinema, mas como entretanto haviam esgotado os bilhetes para o “Scoop”, lá entro, meio contrariada, no único filme disponível aquela hora: “Geração Fastfood”. Arrepiando caminho, esclareço que no final fui obrigada a visionar uma cena de abate bovino, no qual se viam vacas a serem içadas por uma perna num prelúdio de acto homicida e assisti a todo um ciclo produtivo que ocorre no matadouro.
Após 10 minutos de membros estraçalhados, de olhos obliterados, litradas de sangue jorrado e pele arrancada, fico meio tonta e levanto-me.
Olho para a mala nova, nem 24 horas na minha posse, e, agarro-a enojada com a pontinha de dois dedinhos, pedindo mil perdões ao animal que ali jazia.
Acto contínuo, passo pela zona de restauração e fiquei louca a salivar por um duplo cheeseburger.
Comi-o e já é oficial, sou um ser humano totalmente execrável.
À noite vou ao cinema, mas como entretanto haviam esgotado os bilhetes para o “Scoop”, lá entro, meio contrariada, no único filme disponível aquela hora: “Geração Fastfood”. Arrepiando caminho, esclareço que no final fui obrigada a visionar uma cena de abate bovino, no qual se viam vacas a serem içadas por uma perna num prelúdio de acto homicida e assisti a todo um ciclo produtivo que ocorre no matadouro.
Após 10 minutos de membros estraçalhados, de olhos obliterados, litradas de sangue jorrado e pele arrancada, fico meio tonta e levanto-me.
Olho para a mala nova, nem 24 horas na minha posse, e, agarro-a enojada com a pontinha de dois dedinhos, pedindo mil perdões ao animal que ali jazia.
Acto contínuo, passo pela zona de restauração e fiquei louca a salivar por um duplo cheeseburger.
Comi-o e já é oficial, sou um ser humano totalmente execrável.
quinta-feira, janeiro 18, 2007
Sexo forte? Isto?
Cenário idílico, o amanhecer numa falésia do Guincho. O meu namorado, com a sua voz forte mas timbre doce sussurra-me:
- Tens os lábios mais bonitos que já alguma vez vi.
Sorrio, envergonhada, incitando-o a continuar:
- E o teu narizinho perfeito, que eu sei que é teu, só teu, és senhora do teu nariz!
Eu coro, rindo-me baixinho e querendo ouvir mais;
- E os teus olhos..
Soergue-me o queixo, cuidadosamente, olhando-me nos olhos com uma doçura infinita:
- E os teus olhos..
Olhar mais atento
- Estranho, os teus olhos são...são amarelos, têm em baixo uma bolsa de gordura, tipo sebo saturado. Tens que ver isso, olhos amarelados não pode ser coisa boa. Será que é contagioso? Que horror, é que são mesmo amarelados!
Honra e bom proveito não cabem em saco estreito. Irada virei costas ao ocaso e obriguei-o a levar-me a casa.
- Tens os lábios mais bonitos que já alguma vez vi.
Sorrio, envergonhada, incitando-o a continuar:
- E o teu narizinho perfeito, que eu sei que é teu, só teu, és senhora do teu nariz!
Eu coro, rindo-me baixinho e querendo ouvir mais;
- E os teus olhos..
Soergue-me o queixo, cuidadosamente, olhando-me nos olhos com uma doçura infinita:
- E os teus olhos..
Olhar mais atento
- Estranho, os teus olhos são...são amarelos, têm em baixo uma bolsa de gordura, tipo sebo saturado. Tens que ver isso, olhos amarelados não pode ser coisa boa. Será que é contagioso? Que horror, é que são mesmo amarelados!
Honra e bom proveito não cabem em saco estreito. Irada virei costas ao ocaso e obriguei-o a levar-me a casa.
quarta-feira, janeiro 17, 2007
É idiota, ´tás a ver?
Fui hoje à minha primeira consulta de pré-operatório oftalmológico num hospital público.
Entrei lá às 9h30, a hora previamente marcada, e fui atendida às 13h15.
Mal entro vejo um médico novo, de rosto irado e olhos coléricos.
- ESTÃO A CHAMAR POR SI DESDE AS 9 HORAS!!! PARA A PRÓXIMA ESTEJA MAIS ATENTA! FRANCAMENTE!!!
Dos grasnidos que coligi pareceu-me ainda que me chamou um ou outro nome, de qualquer forma fiquei a titubear porque algo ali me transcendia.
- Mas eu ... – inicio
- Estou a brincar Susana! Estou só a brincar - ri-se enquanto me aperta a mão vigorosamente.
Já não é muito normal um desconhecido fazer-nos isto.
Já não é muito normal um desconhecido licenciado em Medicina fazer-nos isto.
Mas alguém cometer semelhante acto (muito espirituoso, por sinal) a quem esteve 3 anos, repito, três (três) anos em lista de espera é completamente suicida.
Olhei para o espelho das letras e apeteceu-me quebrar-lho em pleno crânio. Desviei a atenção para uns óculos garrafais com dois kgs de lentes e imaginei-os desferidos sobre um baixo ventre desprevenido.
Respirei fundo e sorri falsamente (tenho uns olhos miseráveis mas um sorriso amoroso).
Estranho pensar que colocarei a minha visão à mercê de um ser humano que literalmente NÃO VÊ, nem com uma lupa multifocal, que é o palerma do hospital.
Entrei lá às 9h30, a hora previamente marcada, e fui atendida às 13h15.
Mal entro vejo um médico novo, de rosto irado e olhos coléricos.
- ESTÃO A CHAMAR POR SI DESDE AS 9 HORAS!!! PARA A PRÓXIMA ESTEJA MAIS ATENTA! FRANCAMENTE!!!
Dos grasnidos que coligi pareceu-me ainda que me chamou um ou outro nome, de qualquer forma fiquei a titubear porque algo ali me transcendia.
- Mas eu ... – inicio
- Estou a brincar Susana! Estou só a brincar - ri-se enquanto me aperta a mão vigorosamente.
Já não é muito normal um desconhecido fazer-nos isto.
Já não é muito normal um desconhecido licenciado em Medicina fazer-nos isto.
Mas alguém cometer semelhante acto (muito espirituoso, por sinal) a quem esteve 3 anos, repito, três (três) anos em lista de espera é completamente suicida.
Olhei para o espelho das letras e apeteceu-me quebrar-lho em pleno crânio. Desviei a atenção para uns óculos garrafais com dois kgs de lentes e imaginei-os desferidos sobre um baixo ventre desprevenido.
Respirei fundo e sorri falsamente (tenho uns olhos miseráveis mas um sorriso amoroso).
Estranho pensar que colocarei a minha visão à mercê de um ser humano que literalmente NÃO VÊ, nem com uma lupa multifocal, que é o palerma do hospital.
terça-feira, janeiro 16, 2007
Anita vai ao grego
No Sábado passado fui a um jantar a casa de uma amiga, refeição essa que haveria de consistir num prato normal, cozinhado pela anfitriã, e um outro vegetariano, elaborado por um nosso amigo.
Quando entro na sala deparo-me com um cenário retirado directamente do 2.º capítulo do Génesis:
De um lado um tabuleiro delicioso de bacalhau com natas, com parmesão gratinado e acabamentos de luxo.
Do outro lado, um tabuleiro com meia dúzia de alcachofras, quatro beringelas e umas susbtâncias mortas que boiavam reluzentes atreladas a um par de grelos regados a vinagrete. Pareceu-me ainda vislumbrar (mas não garanto) uma anémona do mar viva com duas lentilhas a fazer de corninhos e um inverterbrado indecifrável que variava entre um cavalo-marinho e um peixe-abrótea há muito em decomposição.
Ah pois, e aqui o dilema bíblico... perante aquela mesa dividida, no fundo nada mais que a árvore da ciência do Bem e do Mal, que fazer?
- ferir susceptibilidades de um mui amigo vegetariano e dedicado, e alambazar, regalada, o meu bandulho naquele tentador bacalhau gratinado?
- Ferir susceptibilidades do meu nobre estômago e comer o que a mim, à vista desarmada, se me assemelhava a algo muito perto de cócó? (a dignidade da minha amiga estava, desde há muito, assegurada, pois um bando de indigentes esfomeados clamavam pelo bacalhau desde que lhe tinham posto a vista em cima)
Enfim, perante a questão, tomei a que me parecia ser a melhor e mais equitativa solução: comer um pouco de cada um dos pratos.
Adianto que o bacalhau soube-me a nêsperas, os grelos a cevada e nem com meio litro de tisana Pleno fiquei recomposta da violência a que submeti o meu sistema digestivo. Por segundos, visualizei o suco peptídeo a descer, fumegante, o meu duodeno, e então assomou-se-me tudo à boca à laia de represália.
Se tentarmos agradar a todos o mais provável é acabarmos com a cara ou o rabo na sanita, por isso, jovens deste país, não sejam provincianos como eu e tenham a hombridade de, perante semelhante situação, dar um passo em frente e, mão ao peito, olhar no horizonte afirmar: “amigos amigos, comezainas à parte. Eu opto pelo bacalhau e digo NÃO às beringelas”.
Quando entro na sala deparo-me com um cenário retirado directamente do 2.º capítulo do Génesis:
De um lado um tabuleiro delicioso de bacalhau com natas, com parmesão gratinado e acabamentos de luxo.
Do outro lado, um tabuleiro com meia dúzia de alcachofras, quatro beringelas e umas susbtâncias mortas que boiavam reluzentes atreladas a um par de grelos regados a vinagrete. Pareceu-me ainda vislumbrar (mas não garanto) uma anémona do mar viva com duas lentilhas a fazer de corninhos e um inverterbrado indecifrável que variava entre um cavalo-marinho e um peixe-abrótea há muito em decomposição.
Ah pois, e aqui o dilema bíblico... perante aquela mesa dividida, no fundo nada mais que a árvore da ciência do Bem e do Mal, que fazer?
- ferir susceptibilidades de um mui amigo vegetariano e dedicado, e alambazar, regalada, o meu bandulho naquele tentador bacalhau gratinado?
- Ferir susceptibilidades do meu nobre estômago e comer o que a mim, à vista desarmada, se me assemelhava a algo muito perto de cócó? (a dignidade da minha amiga estava, desde há muito, assegurada, pois um bando de indigentes esfomeados clamavam pelo bacalhau desde que lhe tinham posto a vista em cima)
Enfim, perante a questão, tomei a que me parecia ser a melhor e mais equitativa solução: comer um pouco de cada um dos pratos.
Adianto que o bacalhau soube-me a nêsperas, os grelos a cevada e nem com meio litro de tisana Pleno fiquei recomposta da violência a que submeti o meu sistema digestivo. Por segundos, visualizei o suco peptídeo a descer, fumegante, o meu duodeno, e então assomou-se-me tudo à boca à laia de represália.
Se tentarmos agradar a todos o mais provável é acabarmos com a cara ou o rabo na sanita, por isso, jovens deste país, não sejam provincianos como eu e tenham a hombridade de, perante semelhante situação, dar um passo em frente e, mão ao peito, olhar no horizonte afirmar: “amigos amigos, comezainas à parte. Eu opto pelo bacalhau e digo NÃO às beringelas”.
sábado, janeiro 13, 2007
Lol.
Esta semana, para não variar, encontrava-me na sala de trabalho partilhada com os restantes sub-30, quando, no meio da costumada demência infantil e graçolas despropositadas, ouve-se uma frase lançada não só com sotaque germânico mas com a seriedade que lhe é acoplada:
" AS AFTAS ARRRDEM E AS FRRRRRRIDAS IDEM"
Aquele gentio todo riu-se em uníssono.
Eu sorrio e acrescento: "ah, é coincidência não é? que quer dizer em alemão?"
Silêncio sepulcral na sala.
"Estou a gozar" - esclarece-me pacientemente a autora da piada hilariante. "É como dizer Sida em japonês - iraokumata"
Silêncio (meu)
Enfim, é a geração que temos, de invulgar, aguçada e acutilante inteligência social. De um humor cirurgicamente mordaz e requintado.
Requiem pela Função Pública.
" AS AFTAS ARRRDEM E AS FRRRRRRIDAS IDEM"
Aquele gentio todo riu-se em uníssono.
Eu sorrio e acrescento: "ah, é coincidência não é? que quer dizer em alemão?"
Silêncio sepulcral na sala.
"Estou a gozar" - esclarece-me pacientemente a autora da piada hilariante. "É como dizer Sida em japonês - iraokumata"
Silêncio (meu)
Enfim, é a geração que temos, de invulgar, aguçada e acutilante inteligência social. De um humor cirurgicamente mordaz e requintado.
Requiem pela Função Pública.
quinta-feira, janeiro 11, 2007
ESTC
Ontem fui à Escola Superior de Teatro e Cinema, na Amadora. Se eu fosse de fazer intrigas quase que diria que:
- ou tinha sido violentamente abduzida e estava nos confins de outra galáxia
- ou, e numa perspectiva mais modesta, em pleno ensaio geral de uma pantomina do Cantiflas. (das piores, as últimas de 1970).
Depois de quase ter morrido de susto quando avistei uma rapariga literalmente igualzinha ao Aladino, com umas pantufas pontiagudas e umas calças de balão, apaguei-me definitivamente quando choquei de frente com uma miúda com umas gigantescas galochas vermelhas de verniz , com chapéu de guizos amarelo a condizer.
Com as minhas calças de vinco, casaco preto e botas de salto senti-me uma doente externa do Amadora Sintra. Mas esperei pacientemente pela minha amiga e fiz o ar mais composto que consegui.
Até ver um professor com umas peúgas da serra da estrela pelos joelhos, calçando uns All Star castanhos com umas línguas de fogo. Aí benzi-me e fugi escola fora, só parei na estação e escondi-me atrás de um congolês. Senti-me infinitamente mais segura.
- ou tinha sido violentamente abduzida e estava nos confins de outra galáxia
- ou, e numa perspectiva mais modesta, em pleno ensaio geral de uma pantomina do Cantiflas. (das piores, as últimas de 1970).
Depois de quase ter morrido de susto quando avistei uma rapariga literalmente igualzinha ao Aladino, com umas pantufas pontiagudas e umas calças de balão, apaguei-me definitivamente quando choquei de frente com uma miúda com umas gigantescas galochas vermelhas de verniz , com chapéu de guizos amarelo a condizer.
Com as minhas calças de vinco, casaco preto e botas de salto senti-me uma doente externa do Amadora Sintra. Mas esperei pacientemente pela minha amiga e fiz o ar mais composto que consegui.
Até ver um professor com umas peúgas da serra da estrela pelos joelhos, calçando uns All Star castanhos com umas línguas de fogo. Aí benzi-me e fugi escola fora, só parei na estação e escondi-me atrás de um congolês. Senti-me infinitamente mais segura.
quarta-feira, janeiro 10, 2007
A Velhice
A semana passada recebi uma chamada da minha avó, que me comunica numa voz sofrida:
“Susana, hoje faltou a água, eu ando esquecida e não fechei a torneira, quando cheguei a casa tinha a cozinha toda inundada e agora certamente que estraguei a loja de baixo, só tem televisões e rádios, com certeza que nada se aproveita e eu vou ter que pagar tudo”.
Fez uma pausa e adiantou: “Não te preocupes que não vou deixar dívidas, vendo a minha casa e alugo um quartinho barato”.
Fui logo ter com ela, que, ainda em estado letárgico e agarrada a um terço, rezava condoída uns responsos e arranjava forças para começar o encaixotamento dos seus pertences.
Dirigi-me à tal loja dos electrodomésticos. O homem tinha apenas a soleira da porta pingada e mesmo assim quase que aposto que foi o “Jacob”, canídeo do homem do talho em pleno processo de marcação de território.
Depois de saber que não, não tinha que alugar um quartinho, revigorou-se-lhe a alma e, como qualquer velho que se preze, apressou-se a desancar a Junta, a Carris, o homem do talho e a Caixa Nacional de Pensões (já eu não ser metida ao barulho foi mero golpe de sorte).
Despedi-me com dois beijinhos: “a velhice não perdoa..” – ri-me
“Panela velha é que faz comida boa” - retorquiu
“Gaba-te cesto que..”
“Pimenta no cu dos outros é refresco.” – interrompeu-me, altiva, fechando-me a porta na cara.
É a riqueza da neta, esta minha avó.
“Susana, hoje faltou a água, eu ando esquecida e não fechei a torneira, quando cheguei a casa tinha a cozinha toda inundada e agora certamente que estraguei a loja de baixo, só tem televisões e rádios, com certeza que nada se aproveita e eu vou ter que pagar tudo”.
Fez uma pausa e adiantou: “Não te preocupes que não vou deixar dívidas, vendo a minha casa e alugo um quartinho barato”.
Fui logo ter com ela, que, ainda em estado letárgico e agarrada a um terço, rezava condoída uns responsos e arranjava forças para começar o encaixotamento dos seus pertences.
Dirigi-me à tal loja dos electrodomésticos. O homem tinha apenas a soleira da porta pingada e mesmo assim quase que aposto que foi o “Jacob”, canídeo do homem do talho em pleno processo de marcação de território.
Depois de saber que não, não tinha que alugar um quartinho, revigorou-se-lhe a alma e, como qualquer velho que se preze, apressou-se a desancar a Junta, a Carris, o homem do talho e a Caixa Nacional de Pensões (já eu não ser metida ao barulho foi mero golpe de sorte).
Despedi-me com dois beijinhos: “a velhice não perdoa..” – ri-me
“Panela velha é que faz comida boa” - retorquiu
“Gaba-te cesto que..”
“Pimenta no cu dos outros é refresco.” – interrompeu-me, altiva, fechando-me a porta na cara.
É a riqueza da neta, esta minha avó.
domingo, janeiro 07, 2007
A mete nojo
Esta semana fui chamada como SOS para acudir a uma boa amiga que tinha ficado sem namorado, do qual gosta imensamente e sem o qual não perspectiva vida futura alguma.
Estrada fora, a 150 à hora, lá chego a casa dela onde a encontro lavada em lágrimas.
Bla bla bla, pieguice para aqui, miminho para ali " e deixa estar que assim ficas melhor", "és uma mulher fantástica, vais ser muito feliz", até que ela, no meio de um soluço entrecortado e antes de um suspiro mais prolongado me diz:
"pois, e agora parece que toda a gente tirou a semana para me chatear, o editor da FHM inglesa já me mandou nao sei quantos e-mails para eu ser capa em Março, já estou cansada de tanta conversa e propostas de reunião".
E eu, o mais pausadamente que consegui, arfando ligeiramente até não conseguir respirar de todo: "Desculpa?... capa de Março da FHM inglesa?"
"Sim, que cena burgessa, já viste? como se eu não tivesse mais em que pensar"
A sério, nunca, em toda a minha larga existência, me apeteceu tanto partir os dentes a alguém.
E lá ficou ela, com o seu mega corpo de sonho a marinar o seu desgosto.
Estrada fora, a 150 à hora, lá chego a casa dela onde a encontro lavada em lágrimas.
Bla bla bla, pieguice para aqui, miminho para ali " e deixa estar que assim ficas melhor", "és uma mulher fantástica, vais ser muito feliz", até que ela, no meio de um soluço entrecortado e antes de um suspiro mais prolongado me diz:
"pois, e agora parece que toda a gente tirou a semana para me chatear, o editor da FHM inglesa já me mandou nao sei quantos e-mails para eu ser capa em Março, já estou cansada de tanta conversa e propostas de reunião".
E eu, o mais pausadamente que consegui, arfando ligeiramente até não conseguir respirar de todo: "Desculpa?... capa de Março da FHM inglesa?"
"Sim, que cena burgessa, já viste? como se eu não tivesse mais em que pensar"
A sério, nunca, em toda a minha larga existência, me apeteceu tanto partir os dentes a alguém.
E lá ficou ela, com o seu mega corpo de sonho a marinar o seu desgosto.
sexta-feira, dezembro 29, 2006
Evitem a nacional 2
Vou hoje de viagem para Portimão.
Na mala, para além do secador novo da Rowenta, das botas, tops e cereais da Kelog´s levo:
- trivial pursuit
- party & co
- uno (sweet jesus)
- pictionary (junior!)
- e 3 jogos para a playstation
Palavra de honra,(psiu, calem-se) ainda há uns meses me mortificava por ir fazer a provecta idade de 26 anos mas descobri, afinal, que há muito tempo que estou acabada.
Por favor, abstenham-se de contar o quão acelerada foi a vossa passagem de ano. Qualquer relato de episódio mais excitante do que jogar três rodadas do "keimps" a pares será considerado uma afronta à parca dignidade da autora deste blogue.
Até para o ano, que nenhum de nós seja estatística.
Na mala, para além do secador novo da Rowenta, das botas, tops e cereais da Kelog´s levo:
- trivial pursuit
- party & co
- uno (sweet jesus)
- pictionary (junior!)
- e 3 jogos para a playstation
Palavra de honra,(psiu, calem-se) ainda há uns meses me mortificava por ir fazer a provecta idade de 26 anos mas descobri, afinal, que há muito tempo que estou acabada.
Por favor, abstenham-se de contar o quão acelerada foi a vossa passagem de ano. Qualquer relato de episódio mais excitante do que jogar três rodadas do "keimps" a pares será considerado uma afronta à parca dignidade da autora deste blogue.
Até para o ano, que nenhum de nós seja estatística.
quarta-feira, dezembro 27, 2006
Corporatión mierdosa
Não sou muito apologista da teoria da conspiração, mas tenho cá para mim que cada reclame (outdoor ou televiso) que a Corporatión Dermosetética lança, é unica e exclusivamente para me levar aos arames, quiçá ao abismo da loucura.
Depois daquele mimo de "Os homens não gostam de celulite", ao que a indústria feminina deveria ter enfaticamente respondido " e as mulheres não gostam de pilas ranhosas com menos de 24 cm".
(sabendo que 97% das mulheres têm celulite, e sabendo que só 3% dos homens têm pirocas acima dos 20 cm, acho melhor mas é cada um dos sexos remeter-se às suas impefeições, caladinhos e sem grande alarido, que assim ficam todos a ganhar. ou a perder menos.)
Hoje de manhã sou obrigada a visionar o novo anúncio daquela espelunca.
O homem convida a mulher para sair ao que ela responde, e bem, "não fiz a depilação".
Ele, de um modo inqualificavelmente porco, chauvinista e atroz, responde: "mas tu ainda te depilas?" (a mensagem-base é: sua grande labrega, ainda andas de volta da cera quente quanto poderias ter-te já submetido ao tratamento de fotodepilaçao a um preço simbólico?)
Haveria ele de me perguntar semelhante coisa. Acordava passadas 2 horas num curral de porcos amarrado a uma manjedoura. E novo arraial de murraças até ele perceber que isso não só não se pergunta a uma senhora, como é suposto demonstrar que não se percebe minimamente do assunto.
Não gostam de celulite e querem depilações fotoeléctricas! Mais alguma coisinha?
Depois daquele mimo de "Os homens não gostam de celulite", ao que a indústria feminina deveria ter enfaticamente respondido " e as mulheres não gostam de pilas ranhosas com menos de 24 cm".
(sabendo que 97% das mulheres têm celulite, e sabendo que só 3% dos homens têm pirocas acima dos 20 cm, acho melhor mas é cada um dos sexos remeter-se às suas impefeições, caladinhos e sem grande alarido, que assim ficam todos a ganhar. ou a perder menos.)
Hoje de manhã sou obrigada a visionar o novo anúncio daquela espelunca.
O homem convida a mulher para sair ao que ela responde, e bem, "não fiz a depilação".
Ele, de um modo inqualificavelmente porco, chauvinista e atroz, responde: "mas tu ainda te depilas?" (a mensagem-base é: sua grande labrega, ainda andas de volta da cera quente quanto poderias ter-te já submetido ao tratamento de fotodepilaçao a um preço simbólico?)
Haveria ele de me perguntar semelhante coisa. Acordava passadas 2 horas num curral de porcos amarrado a uma manjedoura. E novo arraial de murraças até ele perceber que isso não só não se pergunta a uma senhora, como é suposto demonstrar que não se percebe minimamente do assunto.
Não gostam de celulite e querem depilações fotoeléctricas! Mais alguma coisinha?
sábado, dezembro 23, 2006
So this is Christmas...
Quando era pequena passava 364 dias à espera do próximo dia de natal; 364 dias à espera do meu aniversário e, no tempo em que as estações do ano ainda se regiam pelo calendário gregoriano e pela lei de Deus, 300 dias pelo primeiro dia de praia.
(Quando menciono "pequena" refiro-me aos meus primeiros 13 anos de vida. Depois dei o meu primeiro beijo e as minhas prioridades viraram-se todas do avesso).
Isto para dizer que amanhã é véspera de Natal e não não estou em estado de choque farejando tudo o que é buraco à procura de prendas, gritando vivas corredor adentro. Não estou a rezar os mercenários 3 Pai-Nosso e 3 Ave-Maria para ver se me dão um "Crocodilo Dentista" nem um walkman para as cassetes dos Popeline.
Amanhã já é 24 de Dezembro e estou muito contente porque cá continuo com os meus.
Feliz Natal para todos.
(Quando menciono "pequena" refiro-me aos meus primeiros 13 anos de vida. Depois dei o meu primeiro beijo e as minhas prioridades viraram-se todas do avesso).
Isto para dizer que amanhã é véspera de Natal e não não estou em estado de choque farejando tudo o que é buraco à procura de prendas, gritando vivas corredor adentro. Não estou a rezar os mercenários 3 Pai-Nosso e 3 Ave-Maria para ver se me dão um "Crocodilo Dentista" nem um walkman para as cassetes dos Popeline.
Amanhã já é 24 de Dezembro e estou muito contente porque cá continuo com os meus.
Feliz Natal para todos.
sexta-feira, dezembro 22, 2006
Natal, wee
Quando eu tinha uns 14 anos e estava sentada à mesa na ceia de Natal, fui advertida pelo meu pai para fazer menos barulho. Com efeito, eu, a mais velha de 12 primos, liderava as hostes e cantava a plenos pulmões esse saudoso hit dos Europe: “it´s the final countdown!!” , a que cada primo, por respectiva ordem de idades, respondia “tururu-ruuuu, tururututuuuuu!!”
Ao fim da 5ª vez, e ainda ia o refrão na minha prima Ana Maria, apanhei uma lambada sem apelo nem agravo, isto à frente de toda a gente.
As crianças sustiveram a respiração, até que a prima mais novinha, ainda não sabendo muito bem distinguir o Bem do Mal, rejubila com o tabefe rindo-se ruidosamente e batendo as palminhas. O gáudio pegou-se pelo que em pouco mais de 2 segundos a mesa natalícia desdobrava-se em gargalhada colectiva.
Menos eu, evidente. Com as pupilas sanguinárias, lanço um olhar poderoso ao meu pai.
Ele, meio sem jeito, ri-se e diz:
- Não ias em contagem decrescente? Lá deves ter chegado ao zero...
E desata a mesa noutra barrigada de riso.
E são assim os meus natais. Repletos de amor, dignidade e compaixão.
Ao fim da 5ª vez, e ainda ia o refrão na minha prima Ana Maria, apanhei uma lambada sem apelo nem agravo, isto à frente de toda a gente.
As crianças sustiveram a respiração, até que a prima mais novinha, ainda não sabendo muito bem distinguir o Bem do Mal, rejubila com o tabefe rindo-se ruidosamente e batendo as palminhas. O gáudio pegou-se pelo que em pouco mais de 2 segundos a mesa natalícia desdobrava-se em gargalhada colectiva.
Menos eu, evidente. Com as pupilas sanguinárias, lanço um olhar poderoso ao meu pai.
Ele, meio sem jeito, ri-se e diz:
- Não ias em contagem decrescente? Lá deves ter chegado ao zero...
E desata a mesa noutra barrigada de riso.
E são assim os meus natais. Repletos de amor, dignidade e compaixão.
quinta-feira, dezembro 21, 2006
Terror na auto-estrada IV
Tenho um pavor profundo por algo que, regra geral, penso não intimidar ninguém.
Não sei explicar, mas cada vez que avisto um polícia sinaleiro e este emite uma ordem qualquer, a minha vista turva, começo a ver desfocado e não consigo simplesmente apreender o que me estão a ordenar.
Ontem à noite, aqui numa Belas empenhada em obras, vejo uma dessas coisas no meio da estrada. À medida que me aproximo sinto as minhas células nervosas a ficarem privadas de oxigénio. Nada posso fazer, aquele monstro está no meio da estrada a olhar para mim como quem diz “anda cá que já te vou mimear uma ordem dúbia e trapaceira e depois não percebes, não cumpres e eu apito, vou atrás de ti, mando-te encostar, o tráfego atrás de ti acumula-se, turistas tiram fotos e faço-te passar uma vergonha incalculável” (Belém, Janeiro de 2006)
Quanto a ontem, testemunhas presenciais asseguram que ele esticou um braço e com a mão direita fez-me sinal para avançar. Eu quase que juro que o polícia bateu as palmas, prendeu os polegares nos suspensórios e dançou o Quebra-Nozes.
Fiquei na dúvida entre avançar, parar, fazer inversão de marcha em cima da passadeira ou atirar-me contra o muro dos Correios. Pelo sim pelo não, avancei e fechei os olhos.
Saí incólume, como eu adoro golpes de sorte.
Não sei explicar, mas cada vez que avisto um polícia sinaleiro e este emite uma ordem qualquer, a minha vista turva, começo a ver desfocado e não consigo simplesmente apreender o que me estão a ordenar.
Ontem à noite, aqui numa Belas empenhada em obras, vejo uma dessas coisas no meio da estrada. À medida que me aproximo sinto as minhas células nervosas a ficarem privadas de oxigénio. Nada posso fazer, aquele monstro está no meio da estrada a olhar para mim como quem diz “anda cá que já te vou mimear uma ordem dúbia e trapaceira e depois não percebes, não cumpres e eu apito, vou atrás de ti, mando-te encostar, o tráfego atrás de ti acumula-se, turistas tiram fotos e faço-te passar uma vergonha incalculável” (Belém, Janeiro de 2006)
Quanto a ontem, testemunhas presenciais asseguram que ele esticou um braço e com a mão direita fez-me sinal para avançar. Eu quase que juro que o polícia bateu as palmas, prendeu os polegares nos suspensórios e dançou o Quebra-Nozes.
Fiquei na dúvida entre avançar, parar, fazer inversão de marcha em cima da passadeira ou atirar-me contra o muro dos Correios. Pelo sim pelo não, avancei e fechei os olhos.
Saí incólume, como eu adoro golpes de sorte.
quarta-feira, dezembro 20, 2006
Gajas...
Código de Hamurabi 1600 a.C., sociedade babilónica, capítulo IX relativo à injuria e difamação:
127º - Se alguém difama uma mulher consagrada ou a mulher de um homem livre e não pode provar deverá arrastar-se esse homem perante o juiz e tosquiando-lhe (??) a fronte.
132º - Se contra a mulher de um homem livre é proferida difamação por causa de um outro homem, mas ela não é encontrada em contacto com outro, ela deverá saltar ao rio pelo seu marido.
Portanto, se alguém difama uma freira ou uma respeitada senhora de sociedade, e nada se provar, o desditoso criminoso é submetido à vergonha incomparável de lhe tosquiarem (mais rigor, babilónicos, mais rigor!) a testa. (ficamos num indelével mistério caso seja acossada uma noviça ou a legítima esposa de um carroceiro)
Se uma senhora casada é difamada por burburinhos sexuais, e não se confirmar a marotice, atira-se ao rio e sublinho que não é molhar os pezinhos à beira-mar mas sim lançar-se de cabeça do ponto mais alto da cidade.
Posto isto, façamos a conjugação das duas disposições legais:
Se houver difamação e for tudo uma grande mentira:
- o difamador, a não ser que seja uma aberração da natureza e tenha barba na testa, sai exactamente como entrou: ileso.
- A difamada, cujo único crime é ser mulher babilónica casada, suicida-se, e atenção, não é pela sua desonra, mas sim pela do idiota do marido!
Tremo só de pensar se vivesse neste época. Ou tinha a sorte de ser gajo e andava sempre no gozanço a lançar rumores sórdidos sobre miúdas com a malta da associação ou era gaja e acabava invariavelmente aos 13 anos com os queixos sepultados no fundo do mar. (Por isso é que tinham jardins suspensos. Para o mergulho ser maior.)
127º - Se alguém difama uma mulher consagrada ou a mulher de um homem livre e não pode provar deverá arrastar-se esse homem perante o juiz e tosquiando-lhe (??) a fronte.
132º - Se contra a mulher de um homem livre é proferida difamação por causa de um outro homem, mas ela não é encontrada em contacto com outro, ela deverá saltar ao rio pelo seu marido.
Portanto, se alguém difama uma freira ou uma respeitada senhora de sociedade, e nada se provar, o desditoso criminoso é submetido à vergonha incomparável de lhe tosquiarem (mais rigor, babilónicos, mais rigor!) a testa. (ficamos num indelével mistério caso seja acossada uma noviça ou a legítima esposa de um carroceiro)
Se uma senhora casada é difamada por burburinhos sexuais, e não se confirmar a marotice, atira-se ao rio e sublinho que não é molhar os pezinhos à beira-mar mas sim lançar-se de cabeça do ponto mais alto da cidade.
Posto isto, façamos a conjugação das duas disposições legais:
Se houver difamação e for tudo uma grande mentira:
- o difamador, a não ser que seja uma aberração da natureza e tenha barba na testa, sai exactamente como entrou: ileso.
- A difamada, cujo único crime é ser mulher babilónica casada, suicida-se, e atenção, não é pela sua desonra, mas sim pela do idiota do marido!
Tremo só de pensar se vivesse neste época. Ou tinha a sorte de ser gajo e andava sempre no gozanço a lançar rumores sórdidos sobre miúdas com a malta da associação ou era gaja e acabava invariavelmente aos 13 anos com os queixos sepultados no fundo do mar. (Por isso é que tinham jardins suspensos. Para o mergulho ser maior.)
segunda-feira, dezembro 18, 2006
Snif
Tive que ir no fim de semana a Espanha, conduzindo um turbo 2.5. Para mim, que andei 2 anos num Seat Marbella, (carro (?) que, para além de não ter um pingo de dignidade era tão seguro como um refúgio de zinco em noite de trovoada e frequentemente ultrapassado por bandos de caracóis. Engessados. ),parecia que estava a conduzir num sonho.
Mãos no volante, olhos na estrada, avisto logo após a fronteira, já dentro de território nacional, uma placa gigante na qual se lia: “LISBOA – 294 KM”. O telemóvel toca, era o meu pai e precisava do carro. Informo-o da distância que ainda falta e prometo novos contactos quando estivesse a aproximar-me. Passados 8 minutos telefono-lhe, satisfeita:
“ Tou, Pai? Sou eu, olha, já só faltam 107 km”. Silêncio do outro lado.
“Susana, ignora os marcos pequeninos da berma da estrada e lê só as placas grandes azuis. Faltam 107 para acabar essa estrada, mas faltam 300 para chegares aqui.” e desliga-me o telemóvel na cara. “Santo Deus” – ainda ouvi eu antes dele desligar.
(Também estranhei ter feito 200 km em pouco mais de 5 minutos, mas acho que perdi a noção da realidade montada no jacto-bomba).
Estive a pensar calmamente e resolvi atribuir as culpas à Brisa. Pois e tal, maior rede de auto-estradas ibérica, com uma evolução brilhantemente sustentada e linda história de sucesso empresarial bla bla bla.Que tal não brincarem com os sentimentos dos outros e acabarem com esses marcos ridículos a indicar os kms restantes para o fim de uma via? WHO CARES, FOR GOD´S SAKE?! Quero é saber quantos faltam para chegar sã e salva ao meu destino.
Cheguei a casa e voltei a ouvir o mesmo: “E é esta gente licenciada.”.
Mãos no volante, olhos na estrada, avisto logo após a fronteira, já dentro de território nacional, uma placa gigante na qual se lia: “LISBOA – 294 KM”. O telemóvel toca, era o meu pai e precisava do carro. Informo-o da distância que ainda falta e prometo novos contactos quando estivesse a aproximar-me. Passados 8 minutos telefono-lhe, satisfeita:
“ Tou, Pai? Sou eu, olha, já só faltam 107 km”. Silêncio do outro lado.
“Susana, ignora os marcos pequeninos da berma da estrada e lê só as placas grandes azuis. Faltam 107 para acabar essa estrada, mas faltam 300 para chegares aqui.” e desliga-me o telemóvel na cara. “Santo Deus” – ainda ouvi eu antes dele desligar.
(Também estranhei ter feito 200 km em pouco mais de 5 minutos, mas acho que perdi a noção da realidade montada no jacto-bomba).
Estive a pensar calmamente e resolvi atribuir as culpas à Brisa. Pois e tal, maior rede de auto-estradas ibérica, com uma evolução brilhantemente sustentada e linda história de sucesso empresarial bla bla bla.Que tal não brincarem com os sentimentos dos outros e acabarem com esses marcos ridículos a indicar os kms restantes para o fim de uma via? WHO CARES, FOR GOD´S SAKE?! Quero é saber quantos faltam para chegar sã e salva ao meu destino.
Cheguei a casa e voltei a ouvir o mesmo: “E é esta gente licenciada.”.
sexta-feira, dezembro 15, 2006
O Infortúnio
Ontem fui brutalmente arrancada da cama às 23h00.(Para quem me conhece bem, sabe que isso equivale a acordarem-me às 5h da manhã, aos pontapés na nuca, enquanto me fazem lanhos na testa e me obrigam a cuspir metade dos dentes)
Era o meu irmão. Arrastando-me por uma perna, força-me a visualizar qualquer coisa no portátil dele.
É um vídeo caseiro do telemóvel. Mostra o Ruy de Carvalho, o Vitorino de Almeida, e mais uns quantos actores em amena cavaqueira com ele. “Já filmei hoje ” – informa, orgulhoso.
RAP a semana passada, protagonista cinematográfico nesta. Com cachet pago pelo ICAM, vulgo nós, cidadãos malfadados.
É triste, mas começo a desenvolver um sentimento inqualificável em relação a este ser deprimente que vive no quarto ao lado do meu. Conheci-o pequenino, com um escroto minúsculo e trocando amorosamente os “ss” por “x” .
E agora é este ser inominável que só me dá desgostos - não trabalha mas tem uma conta choruda, faz filmes mas é trôpego, vegeta o dia todo mas diz que estuda muito no IST, joga no casino e nunca perde, é roto mas só tem namoradas giras.
Que incentivo é este para se ser um elemento válido da sociedade como até agora fui? Cumpridora como poucas, bem-educada e responsável, trabalhadora e afável, consciente e bem-formada.
Amanhã vou-me colocar à porta do centro de dia da paróquia, com 10 gramas de haxixe numa mão e duas reservas de urânio na outra. Roubo tudo quanto é velhote, subtraio as suas próprias bengalas e ainda lhes aplico vigorosas bordoadas na bacia.
Depois é ir para casa, lançar-me para o sofá de braços estendidos e esperar pela boa sorte.
Ou pela brigada de narcotráfico.
Era o meu irmão. Arrastando-me por uma perna, força-me a visualizar qualquer coisa no portátil dele.
É um vídeo caseiro do telemóvel. Mostra o Ruy de Carvalho, o Vitorino de Almeida, e mais uns quantos actores em amena cavaqueira com ele. “Já filmei hoje ” – informa, orgulhoso.
RAP a semana passada, protagonista cinematográfico nesta. Com cachet pago pelo ICAM, vulgo nós, cidadãos malfadados.
É triste, mas começo a desenvolver um sentimento inqualificável em relação a este ser deprimente que vive no quarto ao lado do meu. Conheci-o pequenino, com um escroto minúsculo e trocando amorosamente os “ss” por “x” .
E agora é este ser inominável que só me dá desgostos - não trabalha mas tem uma conta choruda, faz filmes mas é trôpego, vegeta o dia todo mas diz que estuda muito no IST, joga no casino e nunca perde, é roto mas só tem namoradas giras.
Que incentivo é este para se ser um elemento válido da sociedade como até agora fui? Cumpridora como poucas, bem-educada e responsável, trabalhadora e afável, consciente e bem-formada.
Amanhã vou-me colocar à porta do centro de dia da paróquia, com 10 gramas de haxixe numa mão e duas reservas de urânio na outra. Roubo tudo quanto é velhote, subtraio as suas próprias bengalas e ainda lhes aplico vigorosas bordoadas na bacia.
Depois é ir para casa, lançar-me para o sofá de braços estendidos e esperar pela boa sorte.
Ou pela brigada de narcotráfico.
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