Esta é uma história sobre
valores humanos e, sobretudo, Gratidão.
Há uns anos que eu tenho a 8.ª
maravilha do mundo, algo chamado “dístico da EMEL”, que me permite estacionar
no Saldanha em Lisboa, todo o ano, por 12€ (sim, chorem todos, chorem muito).
No entanto, antes deste
encanto, eu tinha que estacionar o meu carro e entregar a chave a um Sr. que
era muito alcoólico, mas muito gentil, e que me punha os tickets dentro do
tablier quando chegavam os psicopatas da EMEL.
Esclareço que o senhor andava
sempre roxo das quedas monumentais que dava naquela calçada, mas nunca falhou
nenhum ticket. Levava €20 pelo serviço.
Acreditem ou não, aquele Sr. Alcoólico,
que mal se aguentava nos caniços, tinha uma fiel freguesia estimada em mais ou
menos 50 pessoas, e a coisa funcionava muito bem: de manhã as pessoas
entregavam as chaves dos seus veículos, ao final do dia os condutores iam recolhendo
as suas chaves.
Se ficássemos a trabalhar até
depois das 18h30, era o próprio Sr Alcoólico, já bêbedo que nem um cacho, que
nos ia entregar as chaves aos respectivos prédios. Claro que muitas vezes estava
tão bêbedo, tão bêbedo, que demorava uma eternidade a encontrar o nosso local
de trabalho, primeiro porque se enganava 20 vezes na localização o prédio, e
depois enganava-se 20 vezes no andar. Demorava uma média de 10 minutos para
encontrar a nossa chave, mas sabia-as todas de cor.
Ora, naquela altura, havia um
mito urbano que dizia que esse Sr. Alcoólico era um ex engenheiro de renome,
que tinha trabalhado muitos anos no estrangeiro e que estava prestes a receber
uma reforma choruda.
De ressalvar que o homem, que
era avinhado mas muito esperto, percebeu que eu era a advogada mais
desorientada do Saldanha e pedia-me sempre dinheiro adiantado.
Apelava-me frequentemente
ao coração, chorando-se com a renda em atraso do quarto em que vivia, a falta
de comida, os pijamas rotos; mas depois voltava a pedir-me dinheiro como se
nada fosse, esquecendo que eu tinha já tinha pago e afiançando a pés juntos que
eu estava a dever a última mensalidade.
(Eu andava sempre permanentemente
confusa, acho que fui enganada todos os meses, uma vez que ele ficava ofendidíssimo
com a minha insinuação de que já tinha pago, e normalmente adiantado. Ainda assim,
mesmo que eu pagasse 40€, tinha a vida salva e isso não tinha preço).
Tudo isto para dizer o
seguinte: uma vez ele apareceu todo sorridente, lágrimas nos olhos e disse que
finalmente tinha-lhe sido atribuída uma reforma de Inglaterra e recebia 3500€
por mês! Mostrou-me uma carta e tudo.
Fiquei chocada por um
alcoólatra crónico, sempre sentado no vão de escadas, ganhar mais que eu. Mas depois
agarrou-me na não, olhou-me nos olhos, um olhar de perfeito bêbedo mas tão
sincero e comovido e disse-me:
“ mas eu não esqueço quem me fez bem, não esqueço, nunca irei esquecer. Por
isso eu vou continuar por aqui, afinal, não tenho ninguém na vida, só vos tenho
a vocês, e não tenho palavras para vos agradecer o que fizeram por mim,
sobretudo a Susana” (ahhhhhh pois!!! naquele momento tive a confissão tácita que ele me
enganava sempre, e fazia-me pagar 2 vezes ao mês, o lambão).
Primeiro fiquei super aliviada.
Não saberia o que fazer ao meu carro se não fosse o Sr. Alcoólico.
E também fiquei emocionada. Aquele
homem, bêbedo ou não, estava-me grato, e a gratidão é uma palavra maravilhosa, um
sentimento nobre, de um poder imenso.
Epá, então não é que NUNCA MAIS
VI O FILHO DA P*** NA MINHA VIDA!!! NUNCA!!!!
6 comentários:
:) pode ter desaparecido mas de certeza que continua grato!
Foram palavras de bebedeira. Acordou e lembrou-se que 3500 euros compram amigos suficientes!
Ó malvada, escreve mais se "fáfabô"!!!
E pronto, também adorei este! Adoro esta visão da vida das pessoas. Afinal a nossa vida é igual a todas as outras, temos é de saber olhar para ela ;-))
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