De
manhã, quando saio para trabalhar, tenho logo umas 10 chamadas não atendidas no
telemóvel. Eventualmente porque a minha manhã começa muitas vezes num período que,
por um qualquer Observatório
Astronómico, já não se denominaria “manhã”. Tipo um “antes de almoço,
mas mais cedo”. Adiante.
Naquele
dia devolvi as chamadas para telemóveis, e tinha lá um n.º fixo, que eu não
conhecia, nem vislumbrava donde pudesse ser, uma vez que eu conheço os
indicativos quase todos para evitar telefonemas de prisões que não me
interessem.
“263……hum…” “Vale de Judeus? Zezito de certeza! Nem pensar”. E não atendo hihihi (eventualmente
tenho que atender ao final do dia, após 30 chamadas frenéticas).
Então
liguei para aquele número fixo. Dantes a conversa inicial (quando eu era uma jovem advogada, snif), era sempre
complicada, porque muito dos telefonemas vinham de reclusos que, em abono da
verdade, para além de não serem santos eram uns paranóicos e desconfiados de
merda.
Antes
eu iniciava as hostilidades com uma empatia encantadora: “Olá,bom dia! Ligaram para mim há pouco, quem é?”. Resposta
invariável: “Eu não liguei para ninguém, o
que é queres?” e eu delicadamente: “Tinha
esta chamada não atendida, DE CERTEZA que ligou para mim”, “Não liguei nada, mas quem é que fala ,hã,
quem és tu?” “Eu sou advoga…” INTERROMPIAM LOGO!
-
“AHHHHHH SRA. DRA., como está, peço
imensa desculpa, não sabia quem era, olá como está? Passou bem, a família?”
Uma deprimência.
Volvida
uma década, faço logo uma alocução
inicial nos meus telefonemas para não me entediarem com as suas vozes e perguntas de idiotas. Devolvi
então a chamada e o telefone tocou.
Pessoa:
“Estou?”
Eu
(seca e claramente): “Bom dia, o meu nome
é SUSANA ALEXANDRE, sou ADVOGADA, tinha uma chamada não atendida deste número
há 10 MINUTOS ATRÁS. E sim, tenho a certeza, foi este número que ligou. Posso
saber com quem estou a falar?”
Pessoa:
“Bom dia, meu nome é PEDRO CARMO, tenho
uma empresa, SOU O TEU MARIDO, e na realidade, este é o teu número fixo de casa”.
Pessoa/Pedro/Marido:
“E não fui eu que liguei há 10 minutos
atrás, foi a Sra. Advogada que, para variar, não sabia do seu telemóvel, e ligou
do seu número fixo para encontrá-lo. Já agora grave este número no telemóvel
porque é o seu, há pelo menos, 6 anos. E convém tê-lo. Só naquela…”
(Glup)
Se
me dissessem há 20 anos - quando o conceito
de telemóvel era prosa narrativa de um concurso de ficção científica,
- que eu um dia não ia saber o meu
número fixo de casa, eu não acreditava.
Dantes,
os números fixos da nossa casa, dos melhores amigos e até vizinhos, eram memorizados
automaticamente! Mas ainda bem que hoje há telemóveis, eu hoje sou
completamente inapta para decorar um número de telemóvel que não seja o meu.
Efectivamente,
a memória deteriora-se. Noutro dia mandei o miúdo para a minha sogra e esqueci-me
de lhe vestir as cuecas. Eu esqueci-me de lhe vestir as cuecas!!!!
Claro
que pus a culpa imediatamente no pai, mas isso não invalida que eu estou a
ficar velha e esquecida.
Então
gravei o meu próprio número fixo de há 6 anos. Uma das coisas mais estranhas
que já fiz na vida. (E se já fiz coisas estranhas, até tremo só de pensar no
Juízo Final.)



