Para variar, mais uma história escatológica.Tem várias
vertentes engraçadas (e já estou melhor), mas vou tentar não me dispersar:
Estando-me a sentir mal (em
traços gerais, da barriga e dos rins), há já uma semana, decido ir às Urgências.
Um médico examina-me, fala-me numa possível cólica renal, descobre uma infecção, medica-me, fica chocado com o facto
do meu filho ter entrado no pré-escolar com 3 anos e a filha dele com 4 não, e
vou-me embora.
Continuando-me a sentir mal, o
meu sogro vai a minha casa em SOS, apalpa todo meu epigastro, duodeno e
intestinos e diz ao Pedro: “ Quanto à
cólica não sei, mas infelizmente ela está CHEIA DE GASES”. (Pode piorar? Sim). “É que os gases não saem porque tem ali uma
fezes muito duras na zona alta do intestino”.
Que stress, eu sou uma menina, eu não tenho
gases. (Quanto às fezes contidas não há muito a fazer, um floater em 2010
havia-me já denunciado). Mas o meu sogro afiança que sim. De seguida, massaja-me
vigorosamente com um óleo, ausculta-me a barriga e, esmerando-se no tom de voz:
“ Xiiiii, QUE GUERRA QUE VAI AQUI DENTRO,
CREDO!! Vai agora à casa de banho”.
Fui, deprimida que nem um cão. Quando
voltei: “Então, muitos gases?” Pedro
olha para mim divertidíssimo. E eu, mais morta que viva: “NÃO, mas obrigadinha, não se incomode mais,
vá para casa, eu estou bem”.
- “NÃO Susana, vou-te fazer mais massagens, até revolver essas fezes aí
contidas, olha que assim os gases não
passam e dão muitas dores!!”. (vergonha, vergonha, vergonha)
E uma hora depois, aí sim, o
Inferno desceu à Terra. O meu sogro saca de um Microlax da mala e ordena-me:“Agora introduzes isto no ânus (encolhi-me),
e aguentas o mais que puderes.” “Depois”
– continuou ele, com ar de mocho sábio: “ vais à casa de banho,
e em 2 ou 3 bojardas mandas isso tudo cá para fora. Mesmo para partir a
cerâmica. E depois chama-me que eu quero lá ir ver a cor disso”.
Foi uma situação absolutamente
miserável, bati no fundo. Até 2 dias depois ter ido novamente às Urgências de outro hospital,
e ter sido observada por um médico, angolano. Desta feita, a queixa era um pouco
mais severa… fezes escuras, quase pretas, que indicavam um sangramento digerido.
Pergunta do médico: - “Aqui nesta sala, diga-me lá,…escuro como
o quê?”
Eu olhei em volta, já quase desfalecida,
com 5 horas de espera, e uma panóplia de
análises e ecografias em cima. Estava num ponto de exaustão mental (o que não é
muito difícil, em bom rigor). Olhei em volta… um gabinete muito feio, de um
branco sujo quase bege. E já sem forças, olhei para ele e, numa epifania disse: - “Dr., olhe, escuro tipo.. olhe, TIPO A SUA COR!”.
E depois das palavras terem
saído da minha boca, o meu coração praticamente parou. Senti um baque enorme no
peito. E pronto, ia levar um murro bem
dado mas estava tão doente que era extremamente triste apanhar naquela situação.
“Da minha cor”? Ahaha- riu-se imenso, levou a
mão à testa e riu-se muito; - “Ahaha,
essa é muito boa, mas assim vai ter mesmo que fazer uma colheita, mas não há-de ser muito grave porque sou preto mas há muito mais pretos do que
eu!!
Para variar, roleta russa de
emoções: que horror, não estava a acreditar que disse aquilo; que alívio, ele
achou graça; duplo horror, colheita de cocó!!
No fim da consulta, após apalpar-me a barriga ("quantos filhos tem? só 1? tem a barriga toda aberta, não usou nenhuma cinta??!), e após examinar os relatórios, olhou para mim e disse com ar de feiticeiro da Nova
Guiné: -” Susana, sabe quando é que uma
mulher está plena de saúde, ainda mais linda,
cheia, cheia de graça e alegria”?
Tremi por dentro.
“QUANDO
ESTÁ GRÁVIDA!!!”
– e deu um murro na mesa.
Gritei.
E ele- “Não
minha querida, não está grávida, mas as mulheres ficam tão lindas grávidas! A Susana é linda, mas
grávida fica ainda mais linda de certeza! Agora quando melhorar, compre um bom vinho,
umas ostrazinhas, num final de serão, ao pé de uma lareira…”
Roleta de emoções 2: QUE MEDO!!
QUE GIRO! QUE STRESS! QUE MÉDICO ENCANTADOR! SERÁ MALUCO? QUE HOMEM ESPECTACULAR! TERÁ CÉDULA
PROFISSIONAL? (DEVO AVISAR ALGUÉM DA ADMINISTRAÇÃO DO HOSPITAL?)
Quando cheguei à sala de espera
contei ao Pedro, um branquela mercantil e economicista, e não posso propriamente
reproduzir tudo o que disse, mas foi qualquer coisa como “MÉDICO DUM C… , FILHO
DA P…, P… QUE O PARIU!!! RAIO DE MÉDICO, QUE IDEIAS PARVAS!! NÃO É ELE QUE OS
SUSTENTA!! CAB… DUM C…”
Foi um dos momentos mais surreais da minha
vida. E continuo inteira para o contar. Um bem-haja aos médicos angolanos com
sentido de humor e prático da vida.
NÃO ESTOU GRÁVIDA .



