segunda-feira, abril 27, 2020

HIPERFOCO 2


Continuação:

Por quem sois, boa gente… então acharam que ERA EU na foto? Eu ainda NÃO FIZ A CIRURGIA e não, não ANDO ENROLADA EM CELOFANE .

No ano passado, fui então à consulta com o 1.º cirurgião, o tal que tinha a casa centesimal (não acredito que não sabia isto), a mais que o 2.º .

Eu até conheço bem o hospital, mas tenho-vos a dizer que o piso da cirurgia plástica reconstrutiva é diametralmente oposta do de obstetrícia ou ortopedia (pessoas distintas vs grávidas e coxos feios).

Foi a hora e meia mais emocionante que passei, à espera de uma consulta, em toda a minha vida. Todos se entreolhavam furtivamente, tentando perceber o que levaria cada um de nós ali. (Eu então, estava possessa, em modo de espionagem  soviética).

Eu bem que perscrutei (narizes, queixadas, mamas de uvas, carecas, flancos gorduchos), mas f…. que me caia aqui um raio, se aqueles filhos da mãe já não tinham sido todos intervencionados e iam às consultas de manutenção de pós-operatório.

Outra hipótese:  levavam, como eu, um mega body redutor (que me custou quase 150€, e que só uso em dias de suplício emotivo), e que escolhi precisamente para a consulta com o Professor Dr., para esta ser mais impactante (para ambos).

Chamam o meu número, levanto-me da cadeira, totalmente embalada a vácuo. Entrei radiosa na sala da consulta, nasci para a Tragicomédia.

O médico tinha exactamente a mesma cara de cu que aparecia na foto do site do hospital. Eu sabia tanta coisa da vida pessoal dele que chegava a ser ridículo. O tal escândalo, a solução encontrada pela Administração Hospitalar, a casa para arrendar em Oeiras e bem…a parte mais infantil do Hiperfoco: pedi ao Pedro para ver a facturação da Unipessoal dele, na base de dados empresarial eInforma (à conta disto descobri também a morada de casa).

De mim, ele só sabia o meu nome (!) (se é que tinha olhado para a agenda).

Pediu para me despir. Ainda hoje estou traumatizada por ter ido uma vez a um ortopedista (escrevi isto no blogue, em 2008), que me pediu para despir e para baixar as mãos até aos pés. Ora a minha pessoa, que ia somente queixar-se de uma hérnia nas costas, sabia lá que tinha que fazer exercícios e tirar as calças,

ficou ali com a alma doente e umas cuecas a dizer "follow me" bem no  MEIO DO RABO em letras vermelhas.

 https://salsichanaotedesgraces.blogspot.com/2008/11/?m=0   (o que eu já ri agora a reler isto),

Despi-me de uma assentada, super dramática. Baixo o heróico body até às ancas, Jessica Rabitt desaparece e fica Susana em modo de Anciã Africana Desnudada, e olho-o de frente, sem medo.

Vejo no olhar dele um lampejo muito, mas muito breve de surpresa. Os anos de experiência valem ouro, eu sempre disse. Mas os meus olhos de lince, atentos a qualquer reacção na pupila, não deixam escapar nada. Tive a confirmação que a minha situação clínica era, para ele, inesperada e séria.

Manuseou-me as mamas e, para minha surpresa, em vez de me levantar o avental da barriga, detém-se nos músculos por cima do umbigo. Estrafega-mos com as duas mãos.
   
- “ Quantas gravidezes? – inquiriu
- “Duas” - respondi (sei que parecem 14, mas foram apenas 2)
- “Quantos quilos ganhou?
- “Quase 30 em cada uma” 
-“Portanto 60 kgs ganhos, e 60 kgs perdidos.”

 Penso que beneficiaria de uma abdominoplastia, com transposição do umbigo e reparação músculo-aponevrótica.” CREDO.

- “ E o peito?” - perguntei
- “Uma redução mamária também é de ponderar, SE tiver problemas na coluna”.

Roleta russa de emoções. Por um lado fiquei a saber que lixei os músculos aponevróticos, sabe Deus o que isso é. Por outro lado, em relação ao peito, aquele “se” fez tanta diferença. Um brilhante cirurgião plástico (quiçá o melhor), a ajuizar que uma intervenção nas minhas mamas pelo umbigo (que por seu turno terá que ser transposto, medo, medo), só se justificaria caso me causassem dores! Oh Joy oh Happiness…

-  “Posso falecer nestas cirurgias?”
- “Sim, tem riscos associados”
- “Já lhe faleceu alguma paciente?”
-“ Sim”.

Silêncio.

-“Mas com comorbidades associadas, decorrentes de cirurgias bariátricas”.
- “Ok”. Saquei da agenda.”Para quando Prof.?”
- “Mas não quer pensar sobre o assunto”?
-  “Está pensado” (e estava, foi um pensamento processado num túnel vertiginoso do hiperfoco) - Dia 16 de  Dezembro, pode ser? As 2 cirurgias ao mesmo tempo?
- “Sim, mas não é o ideal”.
- “Mas pode?”
- “Sim”.

MARCADO. 

Consulta com 2.º cirurgião. Tudo muito similar ao 1.º hospital privado, com excepção da sala de espera, que era enorme e com toda uma panóplia de consultas de especialidade misturadas, não deu para perceber quem ia para o quê. Que pena.

Entrei, mandou-me logo deitar na marquesa. Era um homem muito, muito bonito, especialmente para quem está na antecâmara da sepultura (63 anos). Atirou-me as mamas para a direita e para esquerda. Levantou-me a barriga e espreitou.

Sentámo-nos. A conversa foi similar, embora este tenha dito que eu beneficiaria com a redução mamária, sem demais considerações.

- “Prof. Podemos já marcar na sua agenda, por favor” (ó Deus, só precisava de um poucochinho menos de impulsividade, um niquinho).
 - “Não quer pensar antes?”
- “Já pensei. Dia 16 de Dezembro?” (para ser ainda mais emocionante sair deste imbróglio).

MARCADO. Dois cirurgiões para o mesmo dia e sem qualquer estimativa cirúrgica. Sou oficialmente uma bomba-relógio. Entretanto, recebo o orçamento operatório de ambos. Um era ligeiramente mais caro que o outro, mas os dois muito próximos da  TOTAL INSUSTENTABILIDADE.

Choro um bocado e mando um email às respectivas assistentes a perguntar qual seria a estimativa monetária de apenas 1 cirurgia, a da barriga. Recebo os novos cálculos, limpo novamente as lágrimas, mas deito mãos ao trabalho. 

Num carpimento total, sofro, poupo dinheiro que sei que não conseguirei juntar até 16 de Dezembro, e por isso remarco a cirurgia, com ambos (óbvio), para o dia 16 de Abril.

Entrei num período profissional a que chamei “Honorários da Pança”, pois sempre que tinha um cliente novo ou extorquisse um antigo, focava-me em poupar uma percentagem para a cirurgia.

Com que médico?! Não me preocupei com isso, resolvo muito melhor os problemas sob total pressão. Continuei a adiar. Mas, em Março deste ano,  tinha a consulta com cada um dos anestesistas, de cada um dos cirurgiões. Chegara o momento.

Googlei-os novamente. Hiperfoco de 15 minutos para cada um. Pedi ajuda a Deus, pois sei que isto é assunto sério, embora pareça fútil e pedi orientação espiritual. 

Eis que descubro, no meio de tanta merdice internética, uma Dissertação de um médico brasileiro para a obtenção do grau de Mestre, cujo Orientador tinha sido o 1.º cirurgião.

A dedicatória era terna, sincera, agradecia a sua “Capacidade de análise do perfil dos seus alunos, pelo seu Dom no ensino da Ciência inibindo sempre a vaidade em prol da simplicidade e eficiência”. Por instinto, googlei e esta frase está escrita por praticamente TODAS as dissertações por esse Brasil fora ahahaah!! Zucas levados da breca!

Mas o TEMA captou-me a atenção. Não era copiado (por isso não posso transcrever aqui), mas era semelhante a: (…)Competitividade: OS REAIS FACTORES DE ESCOLHA”.

Ainda a rir-me por causa da dedicatória, escusei-me de ler os factores.... Deus iluminou o meu caminho com sentido de humor. À cautela, googlei o 2.º médico. Nada de agradecimentos plagiados, poucos Orientandos… era um bonitão, mas era uma seca.

Enviei um e-mail à assistente do 2.º cirurgião, menti com quantos dentes tinha na boca (Deus franziu o sobrolho) e cancelei a cirurgia.

A outra ficou marcada para dia 16 de Abril de 2020 e paguei, com o coração despedaçado, parte dela.

PUMBA! Vírus, China, mortes, quarentena, pânico, máscaras fpp3. (Eu sei que as minhas sinapses falham, que sou uma pessoa impulsiva e errática, mas sei reconhecer uma pandemia quando ela me explode na cara). 

Cirurgia desmarcada, claro. Estou de quarentena, cheia de saúde, cheia de fome e cheia de comida na despensa, local onde me desloco amiúde e escondo deliciosa comida dos miúdos (pães de leite, donuts, ovos da Páscoa Ferrero Rocher), atrás de pacotes de amido de milho e latas de feijão frade.

Não, eles não lêem este blogue. Só vêem Tik Tok. Comida em segurança. Pança a crescer vertiginosamente.


4 comentários:

redonda disse...

não será um sinal para não fazer a cirurgia?

bea disse...

Hummm...eu preferia ser gorda, ter barriga e mamas flácidas. De certeza que não me metia em apertos de body que me estrangulasse. Uso um ou outro body, mas ao invés da maioria, eu que visto M compro o L. Se me pergunta para que o uso, digo, nos vestidos mais justos não se nota a roupa interior que é uma coisa que me irrita, a liga da meia, a cuequinha, o soutien. Detesto. Mas se a faz mais feliz não ter barriga.... sou pelo bem estar individual, é ir em frente e esperar mais uns tempos, estilo seis ou sete meses, ou mesmo um ou dois anos pois como sabe isto de cirurgias marcadas vai depender da gravidade da situação e da disponibilidade que o dito vírus proporcione nos hospitais. Se for no público suponho que será sempre mais demorado.
Agora vou ler a sua crónica de dois mil e troca o passo. Por gostar da forma como escreve.
Bom dia! E mande sempre, que é como quem diz, escreva.

" R y k @ r d o " disse...

Que tudo corra bem . Que tudo aconteça de forma normal para bem do seu estado físico e psicológico. Tenho uma amiga que foi tirar a barriga e as coisas nem correram mal. Mas a uma irmã dela... fico-me por aqui.

Cumprimentos

Susana disse...

Redonda, nunca tinha pensado sob esse ponto de vista, mas acho que Deus não precisava de ir tão longe...


Bea, leia para trás, ficará a conhecer-me melhor e penso que se vai divertir. Eu vou relendo e rio.

Ricardo...isso NÃO SE FAZ!!!!