segunda-feira, março 02, 2020

Emoções fortes nas Berlengas


Tenho que contar esta história de foro profissional com alguma cautela (e quem me conhece sabe que cautela é uma palavra ulcerosa que me consome por dentro).

Existem várias delegações da PJ por este país fora. Esta história decorre numa delas. Chamar-lhe-ei Polícia Judiciária das Berlengas, não comprometo ninguém.

Fui contactada por um cliente recorrente, daqueles que só se mete em problemas e do mais diferenciado que existe, se não é do cu é das calças, impressionante.

 Que é que foi?”
“Ah e tal, rusgas em casa…armas…bla bla bla eu não fiz nada;
                Mas  eu tenho  muito medo”.

Adoro esta honestidade intelectual. Fui ter com ele, lá numas moitas escondidas do bairro.
Pedi esclarecimentos exactos. Voltou a falar em armas, mostrou-me o mandado de busca que o pai lhe tinha enviado pelo WhatsApp (furibundo, ofereceu-lhe até uma sova) e  afiançou-me que isto era um equívoco, que não era nada com ele.

Li o mandado e as considerações que o juiz tinha tecido. Efectivamente a palavra “armas” estava lá escrita, mas nada de muito alarmante. "Isso é uma história de uma rixa, bla bla bla e eu não tenho nada a ver com isso”

Explicou-me onde estava no dia daquela ocorrência. Olhos nos olhos. Posso ser uma idiota e achar que se podem panar bifes do lombo, mas EU SEI LER a cara de um inocente.

Precisava de dinheiro, e só o justificaria com uma deslocação à Polícia Judiciária. Somei prós e  contras, avaliei sumariamente a possibilidade de ele ficar realmente preso, ou ser apenas constituído arguido, reli aquele mandado de busca tão clean, super ligeiro e boa onda e decido avançar.

 - Vamos à PJ, peça dinheiro ao seu pai.
 - ARGHHHHHH não quero, que medo. (Fiquei na dúvida se medo seria ir à PJ ou aos bolsos do pai, calculei com fosse um misto dos dois).

Dinheirinho no soutien, e lá fomos nós bater à porta desta PJ. Aparece o Sr. Inspector do processo  - chamar-lhe-ei  Sr.  Inspector Cara de Cu à Paisana (CCP), para salvaguardar identidades, embora mais de 2/3 se encaixe nesta categoria.

Quando pus o meu pé dentro daquela sala, vi logo que estavam reunidas todas as condições para aquilo dar MERDA DA GROSSA.

Na sala estavam vários inspectores, homens e mulheres, que trocaram uns olhares entre si, senti imediatamente ondas hertzianas estranhíssimas.  Uma espécie de hostilidade mal direccionada.

Fomos conduzidos para a mesa mais distante da porta. Oiço do outro lado da sala: “Ó CCP, já informaste o Chefe?”
” – CCP sorriu.
E eu pensei: “ JÁ FOSTE. Susana, és uma jumenta”.

Foram-lhe comunicados em voz clara e bem audível, todos os factos de que era suspeito. Cada frase que eu ouvia, a minha tensão arterial subia.

O Insp CCP começa a desfiar o rol de armas envolvidas e relacionadas com o meu constituinte, caçadeiras de canos serrados, espadas, catanas, sabres e baionetas. E percebo que havia uma vítima mortal a lamentar.

Eu tinha a certeza que o burro do meu cliente era, apesar de tudo, inocente (embora não pareça à luz da factualidade apontada). Mas muito burro, NUNCA SE  MENTE AO ADVOGADO! DEIXEM AS MENTIRAS PARA NÓS!!

Enquanto ouvia os factos - para os quais não estava definitiva e psicologicamente preparada, e com as risotas de hienas dos PJ atrás de mim, senti-me uma bruxa a ser queimada em praça pública. A advogada estúpida que conduziu directamente o seu cliente para o calaboiço.

O Inspector CCP, num tom meio disfarçado de gáudio com ilusória seriedade (nem devia estar a acreditar na sorte naquele dia), pede-me que o acompanhemos até lá “abaixo”.

O cliente vai ainda sem algemas. Começo a tentar visualizar escapatórias possíveis, mas o gajo tem excesso de peso enfim, um pesadelo. O cliente/pré-recluso entra numa sala, supostamente para fazer o cliché fotográfico e eu fico cá fora, toda lixada da vida.
Depois,

O ACONTECIMENTO DO ANO:  O cliente sai, e SAI EM LIBERDADE! Embora em profundo choque, recomponho-me como quem nunca equacionou outra hipótese, dou umas boas tardes ríspidas ao Cara de Cu à Paisana, enquanto o olhar dele soletra-me claramente: “é uma   questão   de  TEMPO”, e saio de rabinho a dar a dar,  toda contente.

No dia seguinte, choque outra vez: Insp CCP telefona-me. “Aparentemente” as fotografias tinham ficado “mal tiradas”. Pergunta-me se podemos lá ir, ainda durante a parte da manhã.

MERDA PARA ISTO TUDO, qualquer dia dá-me um treco. Disse que ia falar com o cliente .

Aconselhei-me com vários advogados da velha guarda. “Não o podem prender nessas circunstâncias” asseguram-me.  Vai. Não é certamente para nenhuma fotografia, mas vai e tenta perceber o que é que ele quer” – incentiva-me um colega.

E lá fui eu e o cliente pré-obeso. Voltamos às masmorras cá em baixo. Levam o homem não sei para onde e aparece o Insp. CCP. Seriedade SINISTRA.  Preparo-me para o embate.

- Dra.
- Sim, Sr. Insp. CCP
- SEI DE UMA COISA.

Estou numa situação de areias movediças, mas ao menos este PJ faz tudo à tromba estendida e eu respeito bastante a frontalidade.

Cruzei os braços e encarei-o de frente. Aguardei pelas exigências (a chantagem até poderia ser benéfica para todos os envolvidos, prejudicando-se eventualmente um terceiro, era uma questão de sopesar interesses).

O olhar dele endureceu.
- E É SOBRE SI.

Gelei. Ahhhhhh cum c…, eu sabia que ainda ia sobrar para mim! Tenho  uma quota-parte de delinquente, fiz coisas que não devia, ir na minha peugada deve ter sido relativamente simples.

Silêncio.

- “OPÁ !DESCOBRI O SALSICHA!!! SOU FÃ!! ADOREI, ADOREI!!!Desde ontem que já li quase tudo para trás! Não consegui parar! Adorei! Grande escrita, parabéns! Sou fã!”!

Se um unicórnio protésico me aparecesse à frente naquele momento, eu não ficaria mais atónita do que estava.

A transformação dele foi absolutamente surpreendente. Já não estava em modo de mono/autoridade mas sim de adorável diabrete.

“Tive que a pesquisar na internet porque não tinha o seu número. Encontrei este Salsicha…espectáculo… já não me ria assim há já muitos anos”. “Por favor, escreva mais”.

Em choque anafilático, agradeci os elogios inesperados; o cliente repetiu efectivamente as fotografias e saí com ele para a rua. O sol brilhava, os pássaros chilreavam, o mundo tinha cores vivas.

“Isto há dias do car..” – pensei eu.

E no dia 22 de Fevereiro, pela primeira vez neste ano de 2020, voltei a escrever. Obrigada a quem me lê e, 

                                      muito especialmente, ao Senhor Inspector ex CARA DE CU.

Obviamente vou re-denominá-lo, embora possa levar algum tempo: tenho muita imaginação mas nunca apelidei amavelmente um polícia em toda a minha vida. Saí oficialmente da minha zona de conforto. E com muito gosto.



4 comentários:

redonda disse...

Que incrível encontrar um fã assim, com sentido de humor e porque este fã tem sentido de humor e levou a que aparecesse um novo post fico fã dele!

Susana disse...

Redondinha, só tu é que andas aqui! O resto da malta é toda facebookiana...

Já tinha saudades de ler comentários no blogue e depois NÃO retribuir a resposta porque via no tlm e não dava jeito nenhum!

Estou num computador, yupiii!!

Anatomia disse...

Uau! Eu a achar que estava desativado e afinal regressaste no dia do meu aniversário! Excelente prenda!

Susana disse...

Olá Ana Raquel, fico feliz por teres gostado do meu presente!!Parabéns