terça-feira, março 24, 2020

Em tempos de quarentena...nada a ver.


Vou falar-vos de um curso que tirei há uma década atrás, e que se tornou numa das coisas mais IMPORTANTES na minha vida,

e através da qual percebi a motivação de todas, mas absolutamente todas, as acções estranhíssimas que já tomei na vida.

Há 10 anos, dois amigos extremamente perspicazes e cautelosos, falaram-me de um curso chamado ENEAGRAMA, ensinado nas faculdades de Psicologia da Ivy League. Um curso em que (muito sinteticamente), se ensina que já na Antiguidade existiam 9 padrões de comportamentos ou personalidades. Eles vinham perturbados.

Fiz esse curso com uma amiga minha, VIRGEM E UMA GRANDESSÍSSIMA BEATA.

Descobri então que a minha personalidade é designada a de TIPO 8: “A Confrontadora (parte chata)/PROTECTORA (parte fofa)”: sou forte e quero proteger quem não o é, e o  meu pecado capital, que me assombra desde que sou gente até que morra, e que pode ser mitigado mas nunca erradicado, é a LUXÚRIA.

Eu estava em choque... realmente tenho um historial absolutamente admirável de broncas, confusões, próprias e de terceiros, do "estás comigo ou estás contra mim”, o mundo é uma selva e a LEI É A DO MAIS FORTE. 

Concomitantemente, percebi que também a minha amiga virgem também estava profundamente chocada, mas na realidade nunca chegámos a debater bem este assunto uma vez que, minutos após começarmos a falar da nossa personalidade, principiámos as duas um DEBATE ENÉRGICO em plena sala.

Aparentemente, aos olhos dos outras personalidades, nós as 2 estávamos a brigar, mas na realidade estávamos apenas a trocar argumentos vigorosos, nariz com nariz. Nada mais.

A malta do curso viu-nos a resfolegar e fazer peito, até porque também a minha amiga virgem tinha toda uma energia que eu, à data, associei à falta de sexo. Motivo da ilusória contenda (bastante válido):

Ambas achámos que tínhamos a personalidade Confrontadora/Protectora, mas recusávamo-nos a aceitar que a outra também a tinha! Ou seja eu, a bitch luxuriosa, recusava-me a aceitar que uma virgem deslambida (eye roling) se atrevesse a dizer que tinha a mesma personalidade que a minha. E vice-versa, já que ela, enquanto trucidava o meu carácter aludindo a questões porcas e chamando-me à tromba estendida de Carne Fraca, benzia-se e pedia a Jesus para me perdoar por eu ser tão burra e com tão pouco discernimento.

Trocaram-se argumentos valorosos, voaram intensas canetas pelos ares, perdigotos em todas as direcções. Imediatamente interveio o professor que nos ministrou o curso, perguntou o que se passava, e cada uma explicou, exactamente ao mesmo tempo e tentando sobrepor o tom de voz à outra, que era CIENTÍFICAMENTE IMPOSSÍVEL ambas termos a mesma personalidade tipo 8,

EU - Até porque ela tem 30 anos e é virgem, (luxuriosa o c…) ;
ELA- E ela é uma tarada mas não é protectora. Ela assusta toda a gente só de arregalar os olhos!

(Inchei o peito de orgulho).

E…. bem, o cabrão estava a rir-se. - “Realmente, aqui a palavra chave para nos ajudar a identificar esta personalidade é a Luxúria”. – esclareceu.

Eu arreganhei logo a tacha à virgem deslambida. Burra, a achar que era igual a mim… Mete a tua inexistente luxúria no cu e vai procurar outra personalidade – pensei.

Mas…Luxúria não é simplesmente no sentido sexual da palavra, mas sim no significado de Intensidade, Exuberância, Energia. São intensas em tudo o que fazem. Oito ou oitenta, tudo ou nada. E, nesse sentido, e sexualmente falando, podem até ser imorais por um lado, ou moralistas rígidas, por outro” .

Calámo-nos, combalidas. Ele não sabia da minha vida privada, e muito menos que ela era virgem.

“Tenho a dizer-vos que me parece que na realidade, têm exatactamente a mesma personalidade”. Virou-se e falou para o resto da turma “Percebem agora quando disse que era muito fácil identificar os Confrontadores? “, e apontou para nós as duas, todas descabeladas a arfar, parecíamos dois orangotangos em disputa por comida.

Risota generalizada daqueles lambe-cus .

No final da manhã, fomos almoçar juntas, super emocionadas e intrigadas. Conversámos entusiasticamente, fazendo uma retrospectiva sobre as nossas supostas diferenças. Eu comi pernil assado que nem um abade, ela depenicou 3 bagos de qualquer coisa e um bocado de brócolos.

Regressámos ao curso, melhores amigas, como sempre. As pessoas totalmente incrédulas, a olharem para nós.

“Ah, pormenor: este tipo de personalidade, por exteriorizar tão bem a sua visceralidade interior, no fundo a sua Raiva, explode, resolve o assunto e fica tudo óptimo numa questão de minutos. Não remoem ódios.”– esclareceu o professor. 

O Eneagrama ensinou-me também que nem todos têm que pensar como eu (aqui foi o choque principal. O horror, o descalabro, noites sem dormir), e existem outras 8 personalidades maravilhosas por esse mundo fora, que agora entendo melhor.

Acima de tudo, aprendi que apesar de ser uma Bruta Encouraçada, o meu caminho é tentar baixar a guarda e ser uma pessoa assumidamente Vulnerável e continuar ainda assim, a tentar ser Protectora dos Frascos e Comprimidos. A Madre Teresa de Calcutá, eu e Trump temos exactamente a mesma personalidade de Confrontadores/Protectores, embora ela esteja no topo, ele na cauda, e eu um cu acima dele.

Mas como caricaturar é o melhor remédio, pois não nos devemos levar muito a sério, eis a descrição absolutamente maravilhosa que a Desciclopédia faz da Personalidade o Confrontador/Protector ou, dito de outra forma:



O Mandão Infantil

São psicopatas sanguinolentos, teimosos e vivem se achando o rei da cocada preta. Essas pessoas não pensam em nada que não tenha sangue, tem mania de querer fazer antes de todo mundo, ele vai disputar até a oportunidade de ser eletreocutado.
São geralmente líderes de torcidas organizadas e assassinos em série.
Fazem várias coisas ao mesmo tempo, tudo mal feito. 


(E esta sou eu.. Que orgulho desmedido).


Ps- Percebi então que a minha amiga virgem não se exaltou por falta de sexo. Foi pura intensidade. Na noite de núpcias estraçalhou marido em mil pedaços. Eu não vi. Pagava para ter visto, mas não consegui, a minha intensidade de coscuvilhice contendeu com a dela de privacidade.

É, decididamente, das minhas pessoas preferidas com quem conversar.


sexta-feira, março 13, 2020

O Perninhas

Fui contactada por uma alemã imponente, que me pediu para visitar o seu namorado, um amável  recluso africano, com 1.95 metros de altura, preso por tentativa de homicídio qualificado. E lá vou eu, toda entusiasmada para o EP, adoro histórias de faca e alguidar (especialmente sem falecimentos pelo meio).

Nessa 1.ª visita, fiquei assoberbada de emoções. NUNCA TIVE ninguém que me matraqueasse TANTAS PALAVRAS, e contando-me TÃO POUCO em TANTO TEMPO. Eu estava num frangalho emocional sem precedentes.

Quando finalmente ele chega ao FACTO ILÍCITO propriamente dito…eu já tinha desligado há que tempos. Regra geral desligo em, aproximadamente, 20 minutos, e eu já estava ali há mais de 1 hora e meia. A parte boa é que realmente eu tenho uma capacidade excepcional de fingir que estou a ouvir pessoas. É um dom, confesso.

Eis quando ele PÁRA de contar (o quer que seja que ele tinha dito), e eu farejo silêncio. Ele olha para mim, ávido de uma resposta que o aquiete enquanto alegado homicida.

Estou numa situação delicada, perdi-me há, pelo menos, 30 minutos atrás. E quando digo perdi-me, não minto. Não fazia porra de ideia do que ele me estava a perguntar, se é que era uma pergunta. Até poderia ser uma ameaça, por Deus…sou tão incauta que até me irrito a mim própria. E ele continuava a olhar para mim, calado.

Também eu optei por permanecer em silêncio mas, note-se, um silêncio muito expressivo. É um olhar de compaixão acompanhado de uma exalação de ar, controlada mas incisiva - como quem se depara com algo que, se não fosse tão inacreditável e injusto como  prisão preventiva, até dava para rir. 

Eis que ele, inopinadamente, salva-me. E apavora-me, também.

Chega a cadeira para junto de mim (MEDO!) e com uma rapidez alucinante, nem tive tempo de perceber ao que ia, ele iça uma perna gigante rasando o meu nariz, arregaça as calças e exibe-me, triunfante… uma GRANDESSÍSSIMA PERNA DE PAU!

E quando digo grande…não se olvide que ele tem praticamente 2 metros. Cada mão dele, é uma nalga minha. Digamos que o meu deficit de atenção eclipsou-se no imediato e nunca estive tão atenta na vida.

Penso que mostrar-me a perna de pau foi, concomitantemente, um acto de exibicionismo e de contextualização criminosa. Ficou extremamente claro que aquela condição era algo que não lhe causava qualquer constrangimento, mas sim um certo orgulho. Deixou-me até tirar e publicar uma fotografia.

Fiquei a pensar que um gesto vale por mil palavras,  e f…, aquele homem esteve ali a entendiar-me com banalidades deprimentes, quando afinal tinha um apontamento colossal debaixo das calças (boçalmente falando, até seriam duas).

E recomeça a falar, volta a desfiar o seu rol de queixas, e aí sim, eu entro em modo de sobrevivência, activo todos os meus neurónios memoriais, e apanho o que se segue:

-  foi uma luta entre primos;
- motivo: honra e mais não sei quê, ainda hoje não estou totalmente esclarecida, isto dos africanos e da sua honorabilidade é uma questão sociológica interessante;
- com caçadeira;
- tiro no tórax;
- INEM salvou o primo;
- foi só para o assustar (ok. bem-sucedido).

And last but not least:

O tiro disparado foi unicamente para se defender, porque o primo irritou-se com não sei o quê,  e ele é MUITO PERNETA e o outro primo é MUITO LESTO e corre que nem um gato-bravo e ele ficou com medo! (obrigo-me a não rir).

Palavra de honra: EU ACREDITO MESMO que esta pessoa não teve intenção de matar. E quem conhece a minha adorável personalidade distorcida: quando eu acredito, ACREDITO MESMO. E a Verdade, é a MINHA VERDADE. E quero obrigar os outros a também acreditarem, nem que seja ao chapadão, o que em tribunal me frustra imenso, como imaginam, nunca sei o que fazer à minha visceralidade incontida.

Naquele julgamento, transfigurei-me numa gorila enjaulada (elegantemente vestida). Entra a vítima (“vítima o car… “pensei eu – “filho da p…, queixinhas de merda, vai-te encher de moscas”), e preparo-me para o trucidar, fico doente com pessoas dissimuladas.

O Sr.Vítima/Falso de Merda entra, vai para o lugar que lhe indicam, olha para trás para o banco dos réus, vira-se, corre em direcção ao arguido e TUNGAS! ESPETA UM GRANDE ABRAÇO NO PERNINHAS!!!E o ambiente é mágico, ambos carinhosamente estreitados, submersos na sua própria realidade espacio-temporal (até que  os guardas prisionais se atiram para cima dos dois, pensando que se estão novamente a tentar matar).  

Odeio dar parte de fraca, mas aquilo foi muito comovente. Mas lá se foi toda a minha estratégia processual. O Sr. Vítima/Falso de Merda é, afinal, uma jóia de pessoa, e eu não tenho como atacar pessoas vulneráveis. Tratei-o na palminha das mãos, perguntando à generosa vítima se havia perdoado o ofensor e ele chora e diz que sim, que ele próprio também teve muita culpa!

À saída abraçam-se outra vez, os guardas já a passarem-se dos carretos com tanta ternura e movimentos bruscos. O Ministério Público pede prisão, mas suspensa. 

No dia da leitura, o Perneta é sentenciado a 5 anos de prisão, suspensa na sua execução e sujeita um regime de prova - coisa simples a tratar com técnicas de reinserção social, unicamente 2 vezes por ano. É imediatamente libertado.

Ele dá-me um grande abraço que quase me estropia, e notem que eu tenho arcaboiço (o homem por não ter uma perna deve dar montes de importância aos membros superiores: ora mune-se de armas e dá tiros, ora abraça-as vigorosamente. Homem interessante… deve ser uma roleta russa de emoções ser-se amigo dele).

Como saiu em liberdade, combinei com o guarda prisional ir levá-lo ao EP no meu carro, para ele ir buscar os seus pertences (e ver se lambia mais qualquer coisinha...nem que fosse o almocinho). O Pernas pede para ir à casa de banho. O senhor guarda fica ali comigo no corredor, à espera do mandado de libertação.

E lá vai o arguido à casa de banho dos homens, no piso 2 do grandioso tribunal de Almada (vai aos saltinhos meio coxos - relembremos que aquilo não é propriamente uma prótese de fibra de carbono).

 O homem demora. Mau…concedemos que ele só tem uma perna e como bom africano de 2 metros deve ter um pichão enorme e super trabalhoso. Mas já estava a demorar demais…. Espreitamos para dentro de um outro corredor onde estão as casas de banho e as salas de testemunhas e vimos o arguido a regressar.

E aí, eu e o guarda quase que rebentamos de riso. Atrás dele: a sinalética da casa de banho dos homens - era, nada mais nada menos, que uma figura masculina, SEM UMA PERNA!

A sério, nesse dia Deus estava super bem disposto: agraciou-me com um cliente correctíssimo, com um colectivo de juízes e MP sensatos, com uma condenação perfeitamente justa e fez-me rir tanto à porta da casa de banho de homens -  lugar o qual, por princípio e por definição, eu odeio, tenho nojo e DÁ-ME VÓMITOS!

Cereja no topo do bolo:

O Pernas FALTOU A TODAS as entrevistas da Reinserção Social. Falhou o regime de prova e revogaram-lhe a pena suspensa, tornando-se efectiva. Está neste momento a bater com os COSTADOS E A SUA ÚNICA PERNA num EP da zona Centro.

Tive vontade de o estoirar  mas, como sabem, estou no limiar da delinquência mas ainda do lado de cá. Continuámos amigos.


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segunda-feira, março 02, 2020

Emoções fortes nas Berlengas


Tenho que contar esta história de foro profissional com alguma cautela (e quem me conhece sabe que cautela é uma palavra ulcerosa que me consome por dentro).

Existem várias delegações da PJ por este país fora. Esta história decorre numa delas. Chamar-lhe-ei Polícia Judiciária das Berlengas, não comprometo ninguém.

Fui contactada por um cliente recorrente, daqueles que só se mete em problemas e do mais diferenciado que existe, se não é do cu é das calças, impressionante.

 Que é que foi?”
“Ah e tal, rusgas em casa…armas…bla bla bla eu não fiz nada;
                Mas  eu tenho  muito medo”.

Adoro esta honestidade intelectual. Fui ter com ele, lá numas moitas escondidas do bairro.
Pedi esclarecimentos exactos. Voltou a falar em armas, mostrou-me o mandado de busca que o pai lhe tinha enviado pelo WhatsApp (furibundo, ofereceu-lhe até uma sova) e  afiançou-me que isto era um equívoco, que não era nada com ele.

Li o mandado e as considerações que o juiz tinha tecido. Efectivamente a palavra “armas” estava lá escrita, mas nada de muito alarmante. "Isso é uma história de uma rixa, bla bla bla e eu não tenho nada a ver com isso”

Explicou-me onde estava no dia daquela ocorrência. Olhos nos olhos. Posso ser uma idiota e achar que se podem panar bifes do lombo, mas EU SEI LER a cara de um inocente.

Precisava de dinheiro, e só o justificaria com uma deslocação à Polícia Judiciária. Somei prós e  contras, avaliei sumariamente a possibilidade de ele ficar realmente preso, ou ser apenas constituído arguido, reli aquele mandado de busca tão clean, super ligeiro e boa onda e decido avançar.

 - Vamos à PJ, peça dinheiro ao seu pai.
 - ARGHHHHHH não quero, que medo. (Fiquei na dúvida se medo seria ir à PJ ou aos bolsos do pai, calculei com fosse um misto dos dois).

Dinheirinho no soutien, e lá fomos nós bater à porta desta PJ. Aparece o Sr. Inspector do processo  - chamar-lhe-ei  Sr.  Inspector Cara de Cu à Paisana (CCP), para salvaguardar identidades, embora mais de 2/3 se encaixe nesta categoria.

Quando pus o meu pé dentro daquela sala, vi logo que estavam reunidas todas as condições para aquilo dar MERDA DA GROSSA.

Na sala estavam vários inspectores, homens e mulheres, que trocaram uns olhares entre si, senti imediatamente ondas hertzianas estranhíssimas.  Uma espécie de hostilidade mal direccionada.

Fomos conduzidos para a mesa mais distante da porta. Oiço do outro lado da sala: “Ó CCP, já informaste o Chefe?”
” – CCP sorriu.
E eu pensei: “ JÁ FOSTE. Susana, és uma jumenta”.

Foram-lhe comunicados em voz clara e bem audível, todos os factos de que era suspeito. Cada frase que eu ouvia, a minha tensão arterial subia.

O Insp CCP começa a desfiar o rol de armas envolvidas e relacionadas com o meu constituinte, caçadeiras de canos serrados, espadas, catanas, sabres e baionetas. E percebo que havia uma vítima mortal a lamentar.

Eu tinha a certeza que o burro do meu cliente era, apesar de tudo, inocente (embora não pareça à luz da factualidade apontada). Mas muito burro, NUNCA SE  MENTE AO ADVOGADO! DEIXEM AS MENTIRAS PARA NÓS!!

Enquanto ouvia os factos - para os quais não estava definitiva e psicologicamente preparada, e com as risotas de hienas dos PJ atrás de mim, senti-me uma bruxa a ser queimada em praça pública. A advogada estúpida que conduziu directamente o seu cliente para o calaboiço.

O Inspector CCP, num tom meio disfarçado de gáudio com ilusória seriedade (nem devia estar a acreditar na sorte naquele dia), pede-me que o acompanhemos até lá “abaixo”.

O cliente vai ainda sem algemas. Começo a tentar visualizar escapatórias possíveis, mas o gajo tem excesso de peso enfim, um pesadelo. O cliente/pré-recluso entra numa sala, supostamente para fazer o cliché fotográfico e eu fico cá fora, toda lixada da vida.
Depois,

O ACONTECIMENTO DO ANO:  O cliente sai, e SAI EM LIBERDADE! Embora em profundo choque, recomponho-me como quem nunca equacionou outra hipótese, dou umas boas tardes ríspidas ao Cara de Cu à Paisana, enquanto o olhar dele soletra-me claramente: “é uma   questão   de  TEMPO”, e saio de rabinho a dar a dar,  toda contente.

No dia seguinte, choque outra vez: Insp CCP telefona-me. “Aparentemente” as fotografias tinham ficado “mal tiradas”. Pergunta-me se podemos lá ir, ainda durante a parte da manhã.

MERDA PARA ISTO TUDO, qualquer dia dá-me um treco. Disse que ia falar com o cliente .

Aconselhei-me com vários advogados da velha guarda. “Não o podem prender nessas circunstâncias” asseguram-me.  Vai. Não é certamente para nenhuma fotografia, mas vai e tenta perceber o que é que ele quer” – incentiva-me um colega.

E lá fui eu e o cliente pré-obeso. Voltamos às masmorras cá em baixo. Levam o homem não sei para onde e aparece o Insp. CCP. Seriedade SINISTRA.  Preparo-me para o embate.

- Dra.
- Sim, Sr. Insp. CCP
- SEI DE UMA COISA.

Estou numa situação de areias movediças, mas ao menos este PJ faz tudo à tromba estendida e eu respeito bastante a frontalidade.

Cruzei os braços e encarei-o de frente. Aguardei pelas exigências (a chantagem até poderia ser benéfica para todos os envolvidos, prejudicando-se eventualmente um terceiro, era uma questão de sopesar interesses).

O olhar dele endureceu.
- E É SOBRE SI.

Gelei. Ahhhhhh cum c…, eu sabia que ainda ia sobrar para mim! Tenho  uma quota-parte de delinquente, fiz coisas que não devia, ir na minha peugada deve ter sido relativamente simples.

Silêncio.

- “OPÁ !DESCOBRI O SALSICHA!!! SOU FÃ!! ADOREI, ADOREI!!!Desde ontem que já li quase tudo para trás! Não consegui parar! Adorei! Grande escrita, parabéns! Sou fã!”!

Se um unicórnio protésico me aparecesse à frente naquele momento, eu não ficaria mais atónita do que estava.

A transformação dele foi absolutamente surpreendente. Já não estava em modo de mono/autoridade mas sim de adorável diabrete.

“Tive que a pesquisar na internet porque não tinha o seu número. Encontrei este Salsicha…espectáculo… já não me ria assim há já muitos anos”. “Por favor, escreva mais”.

Em choque anafilático, agradeci os elogios inesperados; o cliente repetiu efectivamente as fotografias e saí com ele para a rua. O sol brilhava, os pássaros chilreavam, o mundo tinha cores vivas.

“Isto há dias do car..” – pensei eu.

E no dia 22 de Fevereiro, pela primeira vez neste ano de 2020, voltei a escrever. Obrigada a quem me lê e, 

                                      muito especialmente, ao Senhor Inspector ex CARA DE CU.

Obviamente vou re-denominá-lo, embora possa levar algum tempo: tenho muita imaginação mas nunca apelidei amavelmente um polícia em toda a minha vida. Saí oficialmente da minha zona de conforto. E com muito gosto.