sábado, maio 09, 2020

Chéquia: Parte I


O meu irmão foi pai, em Janeiro de 2020. Sim, choque. Para quem foi acompanhando o blogue, eu sei … ele era apenas uma criança estúpida presa no corpo de um rapaz feio, mas realmente cresceu e já tem 35 anos. Há uns anos enamorou-se de uma checa, foi viver para aquele país que, aos olhos dele, é simplesmente soberbo. Adiante.

Eu nunca tinha lá ido: sem filhos, fui a destinos que me eram mais aprazíveis; com filhos, e após a peregrina aventura de ter ido aos estúdios do Harry Potter em Londres (sonho de pré-adultez), e ter ficado uma semana com 3 menores; não faço ideia como é que alguém se aventura a ir mais longe que Badajoz. 

Eu e os meus pais marcámos viagem para Viena, aeroporto equidistante do de Praga, mas mais económico. Com relutância, lá marco para 3 dias após a data prevista para o parto. Por mim teria ido logo às 38 semanas, para a apanhar ainda grávida que nem um pote e assistir a tudo desde o início, com um baldezinho médio de pipocas.

O voo era às 7h30 da manhã, por isso na noite anterior vou para casa dos meus pais. Ahh que bom regressar ao meu antigo quarto, longe de casa, sem guerras para mediar e casas de banho para inspeccionar e estar simplesmente sozinha.

Deito-me na minha antiga cama e tento ver televisão. Choque. NÃO VEJO! Literalmente não vejo, as legendas são minúsculas, a minha televisão é para lá de pré-histórica e eu vou fazer 40 anos.

Nessa madrugada acordamos, vamos para ao aeroporto com uma larga antecedência: o meu pai é o monarca da pontualidade. Lá andámos a ver souvenirs - umas latas de sardinha giras, queijadas de Sintra, ginginhas e vamos para o gate.

Zona de embarque deserta - não me admira, o tuga é sempre aquele atraso de vida…

Não, esperem, somos informados que NÓS acabámos de perder o avião.

A minha mãe ia tendo um enfarte, que constrangimento alheio meu Deus, o meu pai fica perturbadoramente calado (recriminando-se interiormente), e eu fico traumatizada, a segurar a minha mãe e a pensar no anunciado mega jantar checo prometido pelo meu irmão.

Eu sei que ainda eram 7h da manhã, mas só via deliciosos acepipes a passarem em câmara lenta à minha frente. Ainda por cima havia uma enxurrada de gente checa para nos receber em festa, com fanfarra de majoretes e foguetes. QUE VERGONHA.

Bilhetes novamente comprados, um dia inteiro no aeroporto (dali já ninguém arrancava o meu lastimoso pai), ar miserável e às 19h embarcamos finalmente, rumo à Áustria.

Eu choro sempre nas descolagens e aterragens, e também vou boa parte do caminho em soluços entrecortados. Sim, faço parte do gang de gente estranha que não percebe que, estatisticamente, é mais provável morrer num acidente de carro do que de avião, pois este é MUITO MAIS SEGURO. É super seguro enquanto TUDO ESTIVER BEM com as rodinhas lá no ar, gaivotas distantes, os motores sem chamas, trem de aterragens com os fusíveis todos.

MAS, se acontecer alguma coisa, TENHO ZERO DE PROBABILIDADE DE NÃO MORRER, dá para perceber a diferença? Peço perdão se tenho o meu instinto de sobrevivência astronomicamente alto.

Choradeira voo todo, encostada a uma compreensiva alemã (os meus pais ficaram mais à frente, a fingirem que não me conheciam) - a minha mãe ainda olhava para trás de vez em quando para se rir, e depois cochichava com o meu pai e hilariavam-se para ali os dois. Sem ressentimentos. Aterrámos em Viena. Alugámos um carro e dois alertas sérios do funcionário do rent a car:

1.º Comprar a vinheta da auto-estrada na Republica Checa, logo na PRIMEIRA estação de serviço depois da fronteira. Coimas severas.
2.º- Aconselhável seguro extra, contra mossas no carro. Ri-me. O meu pai é anti-seguros, é um perfeccionista. Se é para conduzir, não só é para NÃO TER acidentes, como também ANTECIPAR AS ESTUPIDEZES dos outros condutores e evitá-los, sem que eles mesmos se apercebam. (Acho que os elementos clássicos da Natureza ou causas fortuitas não contam para o meu pai).      

Apesar de advertido do  IMENSO GELO existente nas estradas em pleno Janeiro, o meu pai é um homem prudente, mas confiante. Faz ponto de honra em não ter seguro suplementar. Então fica estipulado que cada mossa no carro serão 800€. Fair enough seus lambões, pensou o meu pai.

E lá vamos nós no carro, todos pipocas com destino a ZLIN, na República Checa. O meu pai liga logo o seu GPS, todo fancy e infalível, e pede que o co-pilote. A minha mãe estava ao lado dele, mas costuma atrapalhar mais que ajudar, por isso ele nem se deu ao trabalho de perguntar. (Digamos que eu ao pé da minha mãe sou um poço de serenidade, eficiência e atenção. Sim, é grave a esse nível - mas tem muitas qualidades, verão quais).

Lá vamos nós seguindo criteriosamente o GPS, o meu pai fez apenas uma vez o percurso Viena- Zlin, no carro do meu irmão, mas até reconhece alguns lugares, tudo jóia, o mundo é lindo.

Já eram 11h noite (ó jantar faustoso… cobicei-te tanto). Andámos, andámos, a porra da fronteira nunca mais chegava, a auto-estrada era lastimável. Andámos mais uns 45 minutos e finalmente passámos o que parecia ser uma zona limítrofe do pós-guerra. Fronteira?... Invulgar, no mínimo.

Pareceu-me ver polícias uniformizados, mas depois constatei que os funcionários do serviço do lixo também tinham uma farpela parecida. Ainda hoje não sei o que eram.

Uns camiões atravessados no que me parecia ser uma berma, roulottes de churros (fome, fome). Continuámos, um ambiente algo seboso, rodeados por uma zona florestal sombria, pouquíssima iluminação, estrada mal alcatroada. Estranho. Uns metros à frente, eis a estação de serviço onde teríamos que comprar a vinheta da auto-estrada checa.

Saio eu e o meu pai. Piso solo checo e só quero pedir desesperadamente um hamburger. Entramos numa estação de serviço completamente às moscas, com 4 metros quadrados. Escura, com um cheiro estranho. Já vi cenários de thrillers  BEM MAIS AMISTOSOS que este.

O meu pai aborda a funcionária, uma senhora muito simpática mas muito mal-parecida e,  por entre gestos - porque aparentemente ela NÃO PERCEBE NADA DE INGLÊS ( e o meu pai não domina ainda o checo, mas está a aprender),

Ele, numa sinalética adorável diz, friccionando polegar e indicador: “want to buy” e faz um quadrado com as mãos (vinheta), aponta para o chão e diz “Czech” e finge que conduz um volante.

Ela reage estranhamente. Acho que pensa que É UM ASSALTO. Realmente ele foi muito expressivo. Não me choca ele ter-lhe transmitido gestualmente: dá-me todo o teu dinheiro, senão ponho-te num caixão e enterro-te no subsolo checo e fujo a sete pés no meu carro.

E eu não tinha melhor apresentação, olheirenta, literalmente agarrada a um hamburguer (que ainda hoje não sei o que era porque não conseguia ler a embalagem e não tinha bonecos ilustrativos).

Então a senhora diz, apontando também para o chão: NO, NO CZECH!

Eu e meu pai entreolhámo-nos. Dirijo-me a ela com um mau pressentimento.
- NO CZECH?

- NO! – respondeu  -NO CZECH! Aponta novamente para o chão e grita: SLOVENSKO!

Viro-me para o meu pai. – Slovensko? Em que sentido?!

- Slovensko no sentido de: ESLOVÁQUIA! Estamos no PAÍS ERRADO!


Ó C´UM C…! Instinto de sobrevivência reage instantaneamente. Atenção: NADA CONTRA eslovacos/eslovaquienses:

MAS EU VI A MERDA DO FILME HOSTEL! NÃO ME LIXEM!! VAMOS MORRER TODOS!

 (ok, óbvio que sobrevivi para contar a história. Mas com que custo?)

FIM DA I PARTE




segunda-feira, abril 27, 2020

HIPERFOCO 2


Continuação:

Por quem sois, boa gente… então acharam que ERA EU na foto? Eu ainda NÃO FIZ A CIRURGIA e não, não ANDO ENROLADA EM CELOFANE .

No ano passado, fui então à consulta com o 1.º cirurgião, o tal que tinha a casa centesimal (não acredito que não sabia isto), a mais que o 2.º .

Eu até conheço bem o hospital, mas tenho-vos a dizer que o piso da cirurgia plástica reconstrutiva é diametralmente oposta do de obstetrícia ou ortopedia (pessoas distintas vs grávidas e coxos feios).

Foi a hora e meia mais emocionante que passei, à espera de uma consulta, em toda a minha vida. Todos se entreolhavam furtivamente, tentando perceber o que levaria cada um de nós ali. (Eu então, estava possessa, em modo de espionagem  soviética).

Eu bem que perscrutei (narizes, queixadas, mamas de uvas, carecas, flancos gorduchos), mas f…. que me caia aqui um raio, se aqueles filhos da mãe já não tinham sido todos intervencionados e iam às consultas de manutenção de pós-operatório.

Outra hipótese:  levavam, como eu, um mega body redutor (que me custou quase 150€, e que só uso em dias de suplício emotivo), e que escolhi precisamente para a consulta com o Professor Dr., para esta ser mais impactante (para ambos).

Chamam o meu número, levanto-me da cadeira, totalmente embalada a vácuo. Entrei radiosa na sala da consulta, nasci para a Tragicomédia.

O médico tinha exactamente a mesma cara de cu que aparecia na foto do site do hospital. Eu sabia tanta coisa da vida pessoal dele que chegava a ser ridículo. O tal escândalo, a solução encontrada pela Administração Hospitalar, a casa para arrendar em Oeiras e bem…a parte mais infantil do Hiperfoco: pedi ao Pedro para ver a facturação da Unipessoal dele, na base de dados empresarial eInforma (à conta disto descobri também a morada de casa).

De mim, ele só sabia o meu nome (!) (se é que tinha olhado para a agenda).

Pediu para me despir. Ainda hoje estou traumatizada por ter ido uma vez a um ortopedista (escrevi isto no blogue, em 2008), que me pediu para despir e para baixar as mãos até aos pés. Ora a minha pessoa, que ia somente queixar-se de uma hérnia nas costas, sabia lá que tinha que fazer exercícios e tirar as calças,

ficou ali com a alma doente e umas cuecas a dizer "follow me" bem no  MEIO DO RABO em letras vermelhas.

 https://salsichanaotedesgraces.blogspot.com/2008/11/?m=0   (o que eu já ri agora a reler isto),

Despi-me de uma assentada, super dramática. Baixo o heróico body até às ancas, Jessica Rabitt desaparece e fica Susana em modo de Anciã Africana Desnudada, e olho-o de frente, sem medo.

Vejo no olhar dele um lampejo muito, mas muito breve de surpresa. Os anos de experiência valem ouro, eu sempre disse. Mas os meus olhos de lince, atentos a qualquer reacção na pupila, não deixam escapar nada. Tive a confirmação que a minha situação clínica era, para ele, inesperada e séria.

Manuseou-me as mamas e, para minha surpresa, em vez de me levantar o avental da barriga, detém-se nos músculos por cima do umbigo. Estrafega-mos com as duas mãos.
   
- “ Quantas gravidezes? – inquiriu
- “Duas” - respondi (sei que parecem 14, mas foram apenas 2)
- “Quantos quilos ganhou?
- “Quase 30 em cada uma” 
-“Portanto 60 kgs ganhos, e 60 kgs perdidos.”

 Penso que beneficiaria de uma abdominoplastia, com transposição do umbigo e reparação músculo-aponevrótica.” CREDO.

- “ E o peito?” - perguntei
- “Uma redução mamária também é de ponderar, SE tiver problemas na coluna”.

Roleta russa de emoções. Por um lado fiquei a saber que lixei os músculos aponevróticos, sabe Deus o que isso é. Por outro lado, em relação ao peito, aquele “se” fez tanta diferença. Um brilhante cirurgião plástico (quiçá o melhor), a ajuizar que uma intervenção nas minhas mamas pelo umbigo (que por seu turno terá que ser transposto, medo, medo), só se justificaria caso me causassem dores! Oh Joy oh Happiness…

-  “Posso falecer nestas cirurgias?”
- “Sim, tem riscos associados”
- “Já lhe faleceu alguma paciente?”
-“ Sim”.

Silêncio.

-“Mas com comorbidades associadas, decorrentes de cirurgias bariátricas”.
- “Ok”. Saquei da agenda.”Para quando Prof.?”
- “Mas não quer pensar sobre o assunto”?
-  “Está pensado” (e estava, foi um pensamento processado num túnel vertiginoso do hiperfoco) - Dia 16 de  Dezembro, pode ser? As 2 cirurgias ao mesmo tempo?
- “Sim, mas não é o ideal”.
- “Mas pode?”
- “Sim”.

MARCADO. 

Consulta com 2.º cirurgião. Tudo muito similar ao 1.º hospital privado, com excepção da sala de espera, que era enorme e com toda uma panóplia de consultas de especialidade misturadas, não deu para perceber quem ia para o quê. Que pena.

Entrei, mandou-me logo deitar na marquesa. Era um homem muito, muito bonito, especialmente para quem está na antecâmara da sepultura (63 anos). Atirou-me as mamas para a direita e para esquerda. Levantou-me a barriga e espreitou.

Sentámo-nos. A conversa foi similar, embora este tenha dito que eu beneficiaria com a redução mamária, sem demais considerações.

- “Prof. Podemos já marcar na sua agenda, por favor” (ó Deus, só precisava de um poucochinho menos de impulsividade, um niquinho).
 - “Não quer pensar antes?”
- “Já pensei. Dia 16 de Dezembro?” (para ser ainda mais emocionante sair deste imbróglio).

MARCADO. Dois cirurgiões para o mesmo dia e sem qualquer estimativa cirúrgica. Sou oficialmente uma bomba-relógio. Entretanto, recebo o orçamento operatório de ambos. Um era ligeiramente mais caro que o outro, mas os dois muito próximos da  TOTAL INSUSTENTABILIDADE.

Choro um bocado e mando um email às respectivas assistentes a perguntar qual seria a estimativa monetária de apenas 1 cirurgia, a da barriga. Recebo os novos cálculos, limpo novamente as lágrimas, mas deito mãos ao trabalho. 

Num carpimento total, sofro, poupo dinheiro que sei que não conseguirei juntar até 16 de Dezembro, e por isso remarco a cirurgia, com ambos (óbvio), para o dia 16 de Abril.

Entrei num período profissional a que chamei “Honorários da Pança”, pois sempre que tinha um cliente novo ou extorquisse um antigo, focava-me em poupar uma percentagem para a cirurgia.

Com que médico?! Não me preocupei com isso, resolvo muito melhor os problemas sob total pressão. Continuei a adiar. Mas, em Março deste ano,  tinha a consulta com cada um dos anestesistas, de cada um dos cirurgiões. Chegara o momento.

Googlei-os novamente. Hiperfoco de 15 minutos para cada um. Pedi ajuda a Deus, pois sei que isto é assunto sério, embora pareça fútil e pedi orientação espiritual. 

Eis que descubro, no meio de tanta merdice internética, uma Dissertação de um médico brasileiro para a obtenção do grau de Mestre, cujo Orientador tinha sido o 1.º cirurgião.

A dedicatória era terna, sincera, agradecia a sua “Capacidade de análise do perfil dos seus alunos, pelo seu Dom no ensino da Ciência inibindo sempre a vaidade em prol da simplicidade e eficiência”. Por instinto, googlei e esta frase está escrita por praticamente TODAS as dissertações por esse Brasil fora ahahaah!! Zucas levados da breca!

Mas o TEMA captou-me a atenção. Não era copiado (por isso não posso transcrever aqui), mas era semelhante a: (…)Competitividade: OS REAIS FACTORES DE ESCOLHA”.

Ainda a rir-me por causa da dedicatória, escusei-me de ler os factores.... Deus iluminou o meu caminho com sentido de humor. À cautela, googlei o 2.º médico. Nada de agradecimentos plagiados, poucos Orientandos… era um bonitão, mas era uma seca.

Enviei um e-mail à assistente do 2.º cirurgião, menti com quantos dentes tinha na boca (Deus franziu o sobrolho) e cancelei a cirurgia.

A outra ficou marcada para dia 16 de Abril de 2020 e paguei, com o coração despedaçado, parte dela.

PUMBA! Vírus, China, mortes, quarentena, pânico, máscaras fpp3. (Eu sei que as minhas sinapses falham, que sou uma pessoa impulsiva e errática, mas sei reconhecer uma pandemia quando ela me explode na cara). 

Cirurgia desmarcada, claro. Estou de quarentena, cheia de saúde, cheia de fome e cheia de comida na despensa, local onde me desloco amiúde e escondo deliciosa comida dos miúdos (pães de leite, donuts, ovos da Páscoa Ferrero Rocher), atrás de pacotes de amido de milho e latas de feijão frade.

Não, eles não lêem este blogue. Só vêem Tik Tok. Comida em segurança. Pança a crescer vertiginosamente.


sábado, abril 25, 2020

HIPERFOCO. Adoro.


Em plena pandemia do COVID-19 (tão agradecida por não ter familiares nem amigos doentes!), e com o tlm sempre a tocar por causa dos reclusos que, já por si são psicóticos, mas com medo da infecção são totalmente passados dos carretos;

levo com  um recluso particularmente histérico…um  ex-stripper do Babilónia, revoltadíssimo, a exigir que eu envie um email à Direcção Geral dos Serviços Prisionais, porque acha que uma das cozinheiras daquela prisão, é uma grandessíssima porca e NÃO LAVA AS MÃOS! Fingi que enviei o e-mail, basta pôr um espaço a mais na dgsp.pt que o e-mail não é entregue. Mas tenho o comprovativo de envio. E ele fica tão feliz. TÃO BURRO E TÃO FELIZ.

Adiante, trago hoje um assunto muito pertinente para o mundo hodierno: A CIRURGIA PLÁSTICA. E sim, este é um post dirigido a mulheres e homens, porque implantes capilares também contam como intervenção e, além disso, o dinheiro também irá sair da vossa conta, quer se apercebam, quer não.

Desde o ano de 2000 que tomei a decisão de reduzir a peitaça.Até que, no ano de 2018, percebi que voos mais altos se levantavam /descaiam. L  Afinal, atenta a nova Mega Pança de Sacristão, o resto era um NÃO-PROBLEMA.  

 Eu tenho duas características super engraçadas, mas que me causam alguns transtornos.

A primeira é que, por um lado, o meu foco de atenção é muito difícil de controlar voluntariamente mas, por outro lado (que reverso da medalha emocionante!), – ( que até pode parece ser uma bênção, mas também pode dar em divórcio): se existir algo que me atraia e seja fonte de estimulação, entro em modo de HIPERFOCO e esqueço não só as minhas necessidades básicas, como tudo o resto (tostadeiras ligadas, bebés com fome, chichi reprimido).

 (Posso dizer que só escrevo no BLOGUE em modo de HIPERFOCO, sem Pedro por perto).

A 2ª característica é a minha IMPULSIVIDADE, que me leva a dizer sim a tudo que me propõem e ainda vou mais longe: EXIJO DATAS! Depois, é só ter uma trabalheira danada para desfazer o que fiz de errado (que, regra geral, é QUASE TUDO).

Isto para dizer que um dia destes,  entrei em  HIPERFOCO em relação à cirurgia plástica, nomeadamente à   ADBOMINOPLASTIA, de preferência com redução mamária.

Foi tudo numa questão de dias. Só não o foi numa questão de horas, porque as consultas demoram tempo (arghhh  ESPERAR, que coisa INSANA!!!).

Até tive a brilhante ideia de inscrever-me num grupo de apoio de cirurgias plásticas em Portugal. Aderi durante 2 dias, tempo necessário para perceber que tinha que fugir dali a sete pés: só existiam ali pessoas dementes, a cometerem erros ortográficos GRAVÍSSIMOS , sem noção da realidade, com perguntas infantis. E pior ainda eram as respostas, de pessoas igualmente dementes, e que (porcas!), já tinham feito as cirurgias e ali exibiam as suas fotos do antes e depois.

Daquele grupo de alienadas não retiraria nada de produtivo. Tinha que ser eu a tratar disto. Inicio as hostilidades:  

FASE 1 DO HIPERFOCO DA CIRURGIA PLÁSTICA:

Pesquisei TODOS os licenciados em MEDICINA entre os anos de 1980 até 1985 (décadas de experiência, desde que actualizadas, parece-me bem).Desses, separei os 15 médicos com a melhor MÉDIA na ESPECIALIDADE de Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética (tive que avaliar com acuidade o curriculum vitae de cada um). 

Depois, escolhi os DOUTORADOS. Entretanto apurei que uns já tinham morrido, outros não exerciam, alguns eram muito mal-parecidos. Quedei-me com uns 7 ou 8. Desses 7 ou 8, relevei outros requisitos: que fossem ou já tivessem sido  DIRECTORES DE SERVIÇO de Cirurgia Plástica de Hospitais PÚBLICOS, e que exercessem ou tivessem exercido as funções de Professores Universitários (informação disponível  no Diário da República). Apurei 3 médicos.

FASE 2
Agora, a parte dura. O 1.º e 2.º candidatos tinham apenas UMA CASA DECIMAL de diferença na média. Aliás, acho que nem era uma casa decimal, era 0,01 e eu não sei como é que isso se chama, enfim, os 2 tinham todos os requisitos básicos, ambos tinham estagiados nos mais prestigiados centros, frequentaram simpósios eloquentes, davam palestras. O 3.º era um velho conhecido da brigada do croquete e da tv, meio alucinado.


FASE 3
Evidentemente, tinha que dissecar a vida pessoal deles. Ver o curriculum vitae é muito fácil, mas descobrir ORDINARICES GIRAS é um assunto muito mais crítico. Com os nomes completos (sim, não basta o nome profissional),  embrenhei-me na sordidez da internet.

Eis quando, de repente, emoção das emoções: um deles tinha-se demitido por causa de um ENORME ESCÂNDALO INTERNO no hospital! O escândalo vinha discriminado e pareceu-me até um pouco injusto (não gosto de injustiças). Marquei logo consulta com ele. O 2.º tinha cara de poucos amigos (estilo Miguel Sousa Tavares, adoro, adoro). Também simpatizei e marquei consulta. O 3.º... necessidade ir à televisão? Risquei-o da lista.


Entretanto,

Monólogo da sogra (profissional de saúde) quando soube que eu estava a pensar fazer 2 cirurgias no mesmo dia:

1.º “As tuas mamas são lindas”. (Hum…argumento frágil, está a preparar-me para o seguinte);

2.º “A redução mamária é muito complexa, e ficam-se com grandes cicatrizes!”AHAHAH, hilariante! Sogra, que venha a cicatriz mais feia do mundo e a mama repuxadinha que eu assino já de cruz. Aliás, com cicatrizes posso eu bem, tenho uma na perna bem reluzente, de 8 cm, fonte de grande orgulho e manancial de histórias inventadas.

3.º “A redução mamária é muito complexa, perde-se muito sangue”. Hum...Não gosto de sangue, muito menos de perdas súbitas e abundantes de sangue, ainda por cima do meu, que é A negativo, um tipo super ranhoso. 

4.º” A abdominoplastia…quer dizer…qualquer mulher tem uma barriga, até fica bonito e.. “ Cala-se.
 Enquanto falava desapertei as calças de ganga, pus a pança de fora em todo o seu esplendor. Imagens que valem por mil palavras.

Silêncio.

Vi que estava com pena de mim. Até eu fiquei com pena dela por estar com pena de mim. Depois puxei as calças e voltei a ter pena apenas de mim própria.

-  Ok, faço primeiro a barriga. Depois logo se vê”. Tenho uma leve esperança que, com um ventre bonito, as mamas até pareçam mais sinceras.

Entretanto, já fui a 2 consultas com os 2 cirurgiões e foi escolha fácil. Muito fácil. No próximo post completo o resto, a escrita já já vai longa e tenho que dispersar antes que chegue o ditador. Acho que o João acabou por não lanchar (mas também ainda não se queixou)…


Até ao próximo post, amanhã . Agora vou retirar os seios de cima do teclado e esperar que desçam carinhosamente até ao umbigo. 






quarta-feira, abril 08, 2020

O meu amigo José


Hoje vou falar-vos de uma pessoa muito importante na minha vida. É um grande amigo meu, que, à minha semelhança, e apesar de grandes falhas nas sinapses nervosas, tem qualidades inigualáveis. A personalidade dele (do Eneagrama e do senso comum)  é a do Entusiasta, é o Optimista nato, aquele que “vê” o copo sempre meio cheio.

 Quem já leu o blogue recordar-se-á do José, o meu colega ADVOGADO CEGO, e com o qual já vivi aventuras que não fosse eu uma GAJA e ele NÃO VER UM CU, seríamos tal e qual o Tom Sawyer e o Huckevberry Finn - (ele o heróico e divertido Sawyer, eu sua fiel seguidora das barracas Finn).

Atentem, por favor. O meu amigo Entusiasta, Optimista é:

CEGO - não é zarolho - é mesmo cego profundo; não tem olfacto porque tem uns pólipos gigantescos no nariz, tem asma, sinusite; é diabético, tem distúrbios de filtrações dos rins, não pode comer muitas proteínas, DOCES PROIBIDOS PARA O RESTO DA VIDA.

Mas, a vida, para ele, é um ENORME PAGODE! Costuma é lamentar-se de não ter mais dinheiro para consumir pornografia naqueles computadores com monitores com relevo, mas nada que ele não ultrapasse com outros expedientes.

*Lembrei-me agora que um dia ele foi convidado para ser presidente de uma grande instituição de “invisuais e amblíopes”. Não aceitou: “Eu?!Deus me livre! Aquilo é tudo uma CAMBADA DE CEGUETAS!” benzeu-se ele, ateísta convicto.

Estivemos hoje ao telefone a recordar algumas histórias do blogue. (O José, por fazer parte daquele grupo que se apaga num estalar de dedos caso o vírus o apanhe, está altamente barricado em casa e, infelizmente, é um infortunado não pode propriamente ver NETFLIX. )

Relembrámos com saudade a  História não-profissional mas que invarialmente mete ladrões” :http://salsichanaotedesgraces.blogspot.com/2010/01/historia-nao-profissional-mas-que.html

Resumo básico: Era uma vez um ladrão filho da puta que estroncou a fechadura do meu veículo e furtou o computador do José, que estava brilhantemente escondido sabe Deus aonde, ele não tem propriamente muita noção de espaço e senso direccional e eu escudo-me no meu deficit de atenção.

Pormenor: isto foi na R. Gomes Freire, literalmente EM FRENTE AO PORTÃO DA POLÍCIA JUDICIÁRIA! Há ladrões cá com uma afoiteza, que eu e José até ficámos tristes por não termos tido oportunidade de o conhecer.

Já na porta de casa dele, o José larga-se a rir. O computador furtado estava num estado já pré-depressivo e valia uns 300€. Mas, no meu carro, tinha estado camuflado um item muito mais valioso: a sua BENGALA FALANTE E VIBRATÓRIA, com 2 meses de uso e com o preço base de 2500€!!

Eu já tinha reparado na sua bengala topo de gama (digamos que pais de José são como os pobrezinhos da Comporta, mas mais educados e inteligentes), que vibrava quando se aproximava de obstáculos (nada de muito ostensivo). 

O que eu não sabia é que, caso vibrasse, ele tinha a opção do suporte áudio, a fim de verbalizar que impedimentos se avizinhavam (frases feitas de uma base de dados, ditadas por uma voz feminina brasileira). Fiquei maravilhada porque nunca me tinha apercebido do áudio; perguntei por que não o usava.

“Sabes lá o que eu passo com esta gaja” – desabafou.  “Brasileiras…”
Conta-me tudo”.
“Começa a falar naquela voz de piroca: mais para baixo, mais para o lado, avance, para cima e eu … GRANDE ERECÇÃO no meio do metro de Picoas! Não dá pá!”.

Muito bom. E assim se esventram 2.500€ porque a Voz, para um cego, é praticamente tudo.

Ainda assim, mesmo não gostando particularmente da bengala, e como bom Entusiasta que é, achou hilariante a incompetência do larápio, ficou todo contente e bateu imensas palmas.

Hoje ao telefone:
 - Então como estás ?
 - Óptimo! A dar brilho à minha medalha!
  - Hum… conotação sexual?
 - Nada. Zero. Estou literalmente a limpar a minha medalha de ouro com um paninho de flanela e pasta de dentes.
 - Choca-me…
 - Nunca te disse que uma vez ganhei um campeonato de judo lá no S. João de Brito?
- Judo?! Ganhaste ? E ele também era cego?
- Não, não era cego mas era ESTÚPIDO! Enganou-se nas horas. Ganhei por falta de comparência. Fiz uma festa naquele dia! Minha rica medalha!

Oiço-o aplaudir e beijocar qualquer coisa do outro lado de telefone.

E por falar no S. João de Brito, lembrei-me de outra história que ele me contou.

O José, líder nato para a cretinice própria da adolescência, era alvo de severos ralhetes por parte de um tal Padre Gaspar, eclesiástico elegante, paramentado com lindas batinas e estolas ao pescoço.

 Ele, nada podia fazer. Na realidade, enquanto presidente da associação de estudantes até tinha um especial dever de zelo, o que muito contrariava a sua natureza de pandegueiro.  Mas congeminou um plano. 

Pediu de joelhos aos progenitores que fossem a um canil e adoptassem o cão mais feio, mais famélico, mais pulguento e enrodilhado em moscas que lá existisse. Os pais, que anos antes até tinham sugerido a compra de um cão bem ensinado, mas que José, educadamente, declinou - porque o que ele queria mesmo era um ALCE (!), acharam peregrina a ideia do canídeo ranhoso, mas sempre era melhor que nada.

E assim, lá chegou à metrópole, assustado de morte, o cão mais feio de sempre resgatado do canil de Pedrógão Grande. À chegada, foi presenteado com uma linda placa. “GASPAR” lia-se, em letras garrafais. José mandou ampliar a foto, desenhou-lhe uma espécie de uma estola, e colou-a carinhosamente no seu cacifo. Padre Gaspar ROSNOU FEIO!

Adoro Entusiastas....Exemplos de personalidades dados pela Desciclopédia do Eneagrama:Teletubies, Muppets, Deadpool e gays em geral (adoro gays, subscrevo).Esclarecimento: podia ser, mas este meu amigo não é gay.

Um gigantesco abraço ao meu afectuoso José, que mesmo nas alturas mais sombrias, me obriga sempre a ver o copo meio cheio. De absinto alucinógeno.

Padre Gaspar contemplando a sua foto no cacifo e amaldiçoando o dia em que aceitou a candidatura no Colégio S. João de Brito do ceguinho fofinho e sobredotado. 




terça-feira, março 24, 2020

Em tempos de quarentena...nada a ver.


Vou falar-vos de um curso que tirei há uma década atrás, e que se tornou numa das coisas mais IMPORTANTES na minha vida,

e através da qual percebi a motivação de todas, mas absolutamente todas, as acções estranhíssimas que já tomei na vida.

Há 10 anos, dois amigos extremamente perspicazes e cautelosos, falaram-me de um curso chamado ENEAGRAMA, ensinado nas faculdades de Psicologia da Ivy League. Um curso em que (muito sinteticamente), se ensina que já na Antiguidade existiam 9 padrões de comportamentos ou personalidades. Eles vinham perturbados.

Fiz esse curso com uma amiga minha, VIRGEM E UMA GRANDESSÍSSIMA BEATA.

Descobri então que a minha personalidade é designada a de TIPO 8: “A Confrontadora (parte chata)/PROTECTORA (parte fofa)”: sou forte e quero proteger quem não o é, e o  meu pecado capital, que me assombra desde que sou gente até que morra, e que pode ser mitigado mas nunca erradicado, é a LUXÚRIA.

Eu estava em choque... realmente tenho um historial absolutamente admirável de broncas, confusões, próprias e de terceiros, do "estás comigo ou estás contra mim”, o mundo é uma selva e a LEI É A DO MAIS FORTE. 

Concomitantemente, percebi que também a minha amiga virgem também estava profundamente chocada, mas na realidade nunca chegámos a debater bem este assunto uma vez que, minutos após começarmos a falar da nossa personalidade, principiámos as duas um DEBATE ENÉRGICO em plena sala.

Aparentemente, aos olhos dos outras personalidades, nós as 2 estávamos a brigar, mas na realidade estávamos apenas a trocar argumentos vigorosos, nariz com nariz. Nada mais.

A malta do curso viu-nos a resfolegar e fazer peito, até porque também a minha amiga virgem tinha toda uma energia que eu, à data, associei à falta de sexo. Motivo da ilusória contenda (bastante válido):

Ambas achámos que tínhamos a personalidade Confrontadora/Protectora, mas recusávamo-nos a aceitar que a outra também a tinha! Ou seja eu, a bitch luxuriosa, recusava-me a aceitar que uma virgem deslambida (eye roling) se atrevesse a dizer que tinha a mesma personalidade que a minha. E vice-versa, já que ela, enquanto trucidava o meu carácter aludindo a questões porcas e chamando-me à tromba estendida de Carne Fraca, benzia-se e pedia a Jesus para me perdoar por eu ser tão burra e com tão pouco discernimento.

Trocaram-se argumentos valorosos, voaram intensas canetas pelos ares, perdigotos em todas as direcções. Imediatamente interveio o professor que nos ministrou o curso, perguntou o que se passava, e cada uma explicou, exactamente ao mesmo tempo e tentando sobrepor o tom de voz à outra, que era CIENTÍFICAMENTE IMPOSSÍVEL ambas termos a mesma personalidade tipo 8,

EU - Até porque ela tem 30 anos e é virgem, (luxuriosa o c…) ;
ELA- E ela é uma tarada mas não é protectora. Ela assusta toda a gente só de arregalar os olhos!

(Inchei o peito de orgulho).

E…. bem, o cabrão estava a rir-se. - “Realmente, aqui a palavra chave para nos ajudar a identificar esta personalidade é a Luxúria”. – esclareceu.

Eu arreganhei logo a tacha à virgem deslambida. Burra, a achar que era igual a mim… Mete a tua inexistente luxúria no cu e vai procurar outra personalidade – pensei.

Mas…Luxúria não é simplesmente no sentido sexual da palavra, mas sim no significado de Intensidade, Exuberância, Energia. São intensas em tudo o que fazem. Oito ou oitenta, tudo ou nada. E, nesse sentido, e sexualmente falando, podem até ser imorais por um lado, ou moralistas rígidas, por outro” .

Calámo-nos, combalidas. Ele não sabia da minha vida privada, e muito menos que ela era virgem.

“Tenho a dizer-vos que me parece que na realidade, têm exatactamente a mesma personalidade”. Virou-se e falou para o resto da turma “Percebem agora quando disse que era muito fácil identificar os Confrontadores? “, e apontou para nós as duas, todas descabeladas a arfar, parecíamos dois orangotangos em disputa por comida.

Risota generalizada daqueles lambe-cus .

No final da manhã, fomos almoçar juntas, super emocionadas e intrigadas. Conversámos entusiasticamente, fazendo uma retrospectiva sobre as nossas supostas diferenças. Eu comi pernil assado que nem um abade, ela depenicou 3 bagos de qualquer coisa e um bocado de brócolos.

Regressámos ao curso, melhores amigas, como sempre. As pessoas totalmente incrédulas, a olharem para nós.

“Ah, pormenor: este tipo de personalidade, por exteriorizar tão bem a sua visceralidade interior, no fundo a sua Raiva, explode, resolve o assunto e fica tudo óptimo numa questão de minutos. Não remoem ódios.”– esclareceu o professor. 

O Eneagrama ensinou-me também que nem todos têm que pensar como eu (aqui foi o choque principal. O horror, o descalabro, noites sem dormir), e existem outras 8 personalidades maravilhosas por esse mundo fora, que agora entendo melhor.

Acima de tudo, aprendi que apesar de ser uma Bruta Encouraçada, o meu caminho é tentar baixar a guarda e ser uma pessoa assumidamente Vulnerável e continuar ainda assim, a tentar ser Protectora dos Frascos e Comprimidos. A Madre Teresa de Calcutá, eu e Trump temos exactamente a mesma personalidade de Confrontadores/Protectores, embora ela esteja no topo, ele na cauda, e eu um cu acima dele.

Mas como caricaturar é o melhor remédio, pois não nos devemos levar muito a sério, eis a descrição absolutamente maravilhosa que a Desciclopédia faz da Personalidade o Confrontador/Protector ou, dito de outra forma:



O Mandão Infantil

São psicopatas sanguinolentos, teimosos e vivem se achando o rei da cocada preta. Essas pessoas não pensam em nada que não tenha sangue, tem mania de querer fazer antes de todo mundo, ele vai disputar até a oportunidade de ser eletreocutado.
São geralmente líderes de torcidas organizadas e assassinos em série.
Fazem várias coisas ao mesmo tempo, tudo mal feito. 


(E esta sou eu.. Que orgulho desmedido).


Ps- Percebi então que a minha amiga virgem não se exaltou por falta de sexo. Foi pura intensidade. Na noite de núpcias estraçalhou marido em mil pedaços. Eu não vi. Pagava para ter visto, mas não consegui, a minha intensidade de coscuvilhice contendeu com a dela de privacidade.

É, decididamente, das minhas pessoas preferidas com quem conversar.


sexta-feira, março 13, 2020

O Perninhas

Fui contactada por uma alemã imponente, que me pediu para visitar o seu namorado, um amável  recluso africano, com 1.95 metros de altura, preso por tentativa de homicídio qualificado. E lá vou eu, toda entusiasmada para o EP, adoro histórias de faca e alguidar (especialmente sem falecimentos pelo meio).

Nessa 1.ª visita, fiquei assoberbada de emoções. NUNCA TIVE ninguém que me matraqueasse TANTAS PALAVRAS, e contando-me TÃO POUCO em TANTO TEMPO. Eu estava num frangalho emocional sem precedentes.

Quando finalmente ele chega ao FACTO ILÍCITO propriamente dito…eu já tinha desligado há que tempos. Regra geral desligo em, aproximadamente, 20 minutos, e eu já estava ali há mais de 1 hora e meia. A parte boa é que realmente eu tenho uma capacidade excepcional de fingir que estou a ouvir pessoas. É um dom, confesso.

Eis quando ele PÁRA de contar (o quer que seja que ele tinha dito), e eu farejo silêncio. Ele olha para mim, ávido de uma resposta que o aquiete enquanto alegado homicida.

Estou numa situação delicada, perdi-me há, pelo menos, 30 minutos atrás. E quando digo perdi-me, não minto. Não fazia porra de ideia do que ele me estava a perguntar, se é que era uma pergunta. Até poderia ser uma ameaça, por Deus…sou tão incauta que até me irrito a mim própria. E ele continuava a olhar para mim, calado.

Também eu optei por permanecer em silêncio mas, note-se, um silêncio muito expressivo. É um olhar de compaixão acompanhado de uma exalação de ar, controlada mas incisiva - como quem se depara com algo que, se não fosse tão inacreditável e injusto como  prisão preventiva, até dava para rir. 

Eis que ele, inopinadamente, salva-me. E apavora-me, também.

Chega a cadeira para junto de mim (MEDO!) e com uma rapidez alucinante, nem tive tempo de perceber ao que ia, ele iça uma perna gigante rasando o meu nariz, arregaça as calças e exibe-me, triunfante… uma GRANDESSÍSSIMA PERNA DE PAU!

E quando digo grande…não se olvide que ele tem praticamente 2 metros. Cada mão dele, é uma nalga minha. Digamos que o meu deficit de atenção eclipsou-se no imediato e nunca estive tão atenta na vida.

Penso que mostrar-me a perna de pau foi, concomitantemente, um acto de exibicionismo e de contextualização criminosa. Ficou extremamente claro que aquela condição era algo que não lhe causava qualquer constrangimento, mas sim um certo orgulho. Deixou-me até tirar e publicar uma fotografia.

Fiquei a pensar que um gesto vale por mil palavras,  e f…, aquele homem esteve ali a entendiar-me com banalidades deprimentes, quando afinal tinha um apontamento colossal debaixo das calças (boçalmente falando, até seriam duas).

E recomeça a falar, volta a desfiar o seu rol de queixas, e aí sim, eu entro em modo de sobrevivência, activo todos os meus neurónios memoriais, e apanho o que se segue:

-  foi uma luta entre primos;
- motivo: honra e mais não sei quê, ainda hoje não estou totalmente esclarecida, isto dos africanos e da sua honorabilidade é uma questão sociológica interessante;
- com caçadeira;
- tiro no tórax;
- INEM salvou o primo;
- foi só para o assustar (ok. bem-sucedido).

And last but not least:

O tiro disparado foi unicamente para se defender, porque o primo irritou-se com não sei o quê,  e ele é MUITO PERNETA e o outro primo é MUITO LESTO e corre que nem um gato-bravo e ele ficou com medo! (obrigo-me a não rir).

Palavra de honra: EU ACREDITO MESMO que esta pessoa não teve intenção de matar. E quem conhece a minha adorável personalidade distorcida: quando eu acredito, ACREDITO MESMO. E a Verdade, é a MINHA VERDADE. E quero obrigar os outros a também acreditarem, nem que seja ao chapadão, o que em tribunal me frustra imenso, como imaginam, nunca sei o que fazer à minha visceralidade incontida.

Naquele julgamento, transfigurei-me numa gorila enjaulada (elegantemente vestida). Entra a vítima (“vítima o car… “pensei eu – “filho da p…, queixinhas de merda, vai-te encher de moscas”), e preparo-me para o trucidar, fico doente com pessoas dissimuladas.

O Sr.Vítima/Falso de Merda entra, vai para o lugar que lhe indicam, olha para trás para o banco dos réus, vira-se, corre em direcção ao arguido e TUNGAS! ESPETA UM GRANDE ABRAÇO NO PERNINHAS!!!E o ambiente é mágico, ambos carinhosamente estreitados, submersos na sua própria realidade espacio-temporal (até que  os guardas prisionais se atiram para cima dos dois, pensando que se estão novamente a tentar matar).  

Odeio dar parte de fraca, mas aquilo foi muito comovente. Mas lá se foi toda a minha estratégia processual. O Sr. Vítima/Falso de Merda é, afinal, uma jóia de pessoa, e eu não tenho como atacar pessoas vulneráveis. Tratei-o na palminha das mãos, perguntando à generosa vítima se havia perdoado o ofensor e ele chora e diz que sim, que ele próprio também teve muita culpa!

À saída abraçam-se outra vez, os guardas já a passarem-se dos carretos com tanta ternura e movimentos bruscos. O Ministério Público pede prisão, mas suspensa. 

No dia da leitura, o Perneta é sentenciado a 5 anos de prisão, suspensa na sua execução e sujeita um regime de prova - coisa simples a tratar com técnicas de reinserção social, unicamente 2 vezes por ano. É imediatamente libertado.

Ele dá-me um grande abraço que quase me estropia, e notem que eu tenho arcaboiço (o homem por não ter uma perna deve dar montes de importância aos membros superiores: ora mune-se de armas e dá tiros, ora abraça-as vigorosamente. Homem interessante… deve ser uma roleta russa de emoções ser-se amigo dele).

Como saiu em liberdade, combinei com o guarda prisional ir levá-lo ao EP no meu carro, para ele ir buscar os seus pertences (e ver se lambia mais qualquer coisinha...nem que fosse o almocinho). O Pernas pede para ir à casa de banho. O senhor guarda fica ali comigo no corredor, à espera do mandado de libertação.

E lá vai o arguido à casa de banho dos homens, no piso 2 do grandioso tribunal de Almada (vai aos saltinhos meio coxos - relembremos que aquilo não é propriamente uma prótese de fibra de carbono).

 O homem demora. Mau…concedemos que ele só tem uma perna e como bom africano de 2 metros deve ter um pichão enorme e super trabalhoso. Mas já estava a demorar demais…. Espreitamos para dentro de um outro corredor onde estão as casas de banho e as salas de testemunhas e vimos o arguido a regressar.

E aí, eu e o guarda quase que rebentamos de riso. Atrás dele: a sinalética da casa de banho dos homens - era, nada mais nada menos, que uma figura masculina, SEM UMA PERNA!

A sério, nesse dia Deus estava super bem disposto: agraciou-me com um cliente correctíssimo, com um colectivo de juízes e MP sensatos, com uma condenação perfeitamente justa e fez-me rir tanto à porta da casa de banho de homens -  lugar o qual, por princípio e por definição, eu odeio, tenho nojo e DÁ-ME VÓMITOS!

Cereja no topo do bolo:

O Pernas FALTOU A TODAS as entrevistas da Reinserção Social. Falhou o regime de prova e revogaram-lhe a pena suspensa, tornando-se efectiva. Está neste momento a bater com os COSTADOS E A SUA ÚNICA PERNA num EP da zona Centro.

Tive vontade de o estoirar  mas, como sabem, estou no limiar da delinquência mas ainda do lado de cá. Continuámos amigos.


.