domingo, abril 01, 2018

Cozinhar: Parte Infinita



Uma das minhas avós tem um livro que sempre me causou um misto de cólera e exaltação, chamado: " A Mulher na sala e na cozinha".

Esta obra-prima, de uma  prendada Laura Santos, mais do que um livro com receitas simples para eu ensaiar no fogão, como bacalhau de caldeirada à fragateira ou cabeça de porco com feijão branco e hortaliça, é na realidade um verdadeiro compêndio sobre economia doméstica,  que ensina  à mulher como trabalhar na boa ordem, asseio e zelo  da sua cozinha.

 Eu, que gosto de manter os amigos por perto, mas os inimigos mais  perto ainda, pedi-lhe o livro. A minha avó, que soube que eu, já com 16 anos, tentei  fazer puré no passevite com batatas cruas, deu-mo, esperançada.

Este livro da década de 70, que tem na capa uma jovem beleza de Petrarca, com uma graciosa blusa branca de decote drapeado e rímel nas pestanas de cima e de baixo (enfim, a imagem típica de quem acabou de fazer a tal cabeça de porco), teve sempre o condão de me fazer sentir um homem, e feio.

Num capítulo dedicado ao esmero e apresentação da refeição,  a D. Laura adverte, por exemplo, a pôr sempre na mesa  de jantar uma cestinha para o pão, coberta com um naperon de organdi, uma taça com fruta da época e uma cantarinha de barro com água fresca. Que estupidez. Com 4 filhos em casa, o mais novo de 6 semanas, mando-os beber água directamente da torneira e  atiro com umas carcaças para cima da mesa . Depois, é descascar umas tangerinas e obrigá-los a  limpar as mãos à toalha da mesa ou aos pijamas.

Mas, para mim, a parte mais perturbante do livro é aquela em que  a autora avisa insistentemente e deixa boa nota: a dona de casa deve levantar-se bem cedo de manhã- antes do marido, aprumar-se, arranjar o cabelo e maquilhar-se com discrição a fim de, quando este já se tiver levantado,  lhe levar uma xícara de café. A importância deste gesto? Toda. Ou é ela a preparar-lhe a chávena... ou será mais tarde a SECRETÁRIA DO MARIDO!

AUTCH!

Não deixo de achar ternurento ela fiar-se na ideia que mantém o marido de rédea curta com um bom penteado. Eu, pelo sim pelo não, e não obstante a minha farta cabeleireira, iniciei-me recentemente nas aulas de  POLE DANCE. Têm sido as piruetas (para já, no chão) mais complicadas que já dei em toda a minha vida mas, macacos me mordam se não estou dispensada da galinhola à transmontana!

E se um dia, precisar mesmo, mesmo de cozinhar, fá-lo-ei num total pranto, MAS calçada com os meus  novos sapatos de STRIPPER.

Desta não te lembraste tu, pois não Laura Santos? Rima: merda pra ti e os teus naperons de organdi .



quinta-feira, março 29, 2018

Maternidade, outra vez


Já tive o meu 2.º filho. Quase 2 meses depois deste nascimento, sinto-me a regressar à vida real, provinda de uma espécie de Brumas de Avalon do Puerpério. Poderia ter sido um período místico e comevedor,  mas não, foi um profundo DESESPERO. Ao género de, e muito simplistamente, “como é que me fui meter nesta merda outra vez. Este pensamento começou horas antes da cesariana e terminou, sensivelmente, ontem.

Este bebé, o João, é muito fofo: tem um cabelo farto e preto que lhe cai elegantemente sobre o pescoço e as orelhas, assim como um nariz ainda meio esborrachado, não recuperado do inchaço. Desde o início que me fez lembrar alguém, mas quem seria? Pensei, pensei, avaliei-o. Subitamente, uma epifania:

O meu filho João é a cara chapada do Clancy Wiggum, chefe da polícia dos Simpson. Em versão saudável, não corrupta e fofinha. Deus me ajude.

Nos dias que passei na maternidade, andei a cirandar pelos quartos todos. O mulherio, que está na tal fase apalermada das brumas nebulosas do pós-parto, quedava-se todas pelos seus  aposentos, e se não fosse eu andar a percorrer corredores e a espreitar para dentro dos quartos, não teria constatado 3 coisas:

1.º- Que o meu filho (não obstante assemelhar-se a um desenho animado), era o bebé mais distinto daquela maternidade, com as suas suíças elegantes e cabelo hirsuto, um ar meio bebé/meio revisor oficial de contas. Um orgulho.

2.º  Ao invés, eu era a mãe com o ar mais desgraçado daquele hospital. Curiosamente, no 1.º dia, constatei que fui a única a fazer cesariana. Em bom rigor, tinha a obrigação moral de ser a mais aprumada, uma vez que a minha bacia não abriu e a vagina permaneceu intacta. Mas a realidade é que há algo em mim (uma maldição? genética?) que não me permite ficar com um ar de pessoa após um parto. Uma cara gigantesca de balão, com uns dentes lá perdidos no meio da boca. Um retrato fiel da galinácea do “Chicken Run”.

3.º - Apesar de estar um farrapo,  inicialmente senti-me um farrapo jovem, com imenso potencial para recuperar. Foi por isso que encarei com profundo horror, a quantidade de mães muito mais NOVAS do que eu! Um escândalo!!  Mães que horas antes tinham o cérvix completamente escanquerado mas, em questão de horas, estavam prontas para ir ao cinema.  Ao meu lado  ficou uma rapariga de 19 anos, fresca e airosa. Reflecti: eu com 19 anos tinha que pedir autorização à minha mãe para ir à Feira do Livro, quanto mais atrever-me a ter relações sexuais completas.

A realidade é que os meus 37 anos, ao lado daquela juventude folgosa, colocaram-me naquela semana numa situação de pré-menopusa e foi uma sensação muito, muito estranha. Ou seja, eu parecia não só uma Galinha, mas uma Galinha VELHA. À saída, tiram-me uma fotografia. Eu bem que não queria, mas lá apanhei o cabelo e apresentei meu melhor sorriso. Ficou algo semelhante a isto: