domingo, abril 30, 2017

Gosto de Prisões, salvo seja. Menos desta.

Caros leitores, quero dizer-vos que a PRISÃO de MONSANTO, apesar de ser de alta segurança, é a MAIOR SECA  de situação/coisa/edifício que eu já vi na minha vida. Não quero mentir, mas é um aborrecimento tal que, sempre que lá vou, tenho que beber antes um café duplo para não adormecer em cima da mesa, enquanto espero pelos reclusos.

Um destes dias fui ver um cliente meu e, ao contrário do que algumas pessoas julgam, eles não estão lá porque são todos perigosíssimos ou depravados sexuais de primeiro nível, mas também porque são pessoas que:
a) - Conseguem fugir com alguma facilidade e isso irrita, compreensivelmente, quem de direito;
b) Costumam entrar em grande pancadaria, género sovas desfiguradoras com quem quer que seja, arrancando antebraços à dentada,o que pode constituir um perigo para todos; 
c)- Costumam alinhar em motins pouco espertos e que raramente são resultado. Ou nunca.

Ora o meu recluso cabe nesta última alínea e, apesar de ser uma jóia de moço, tem um temperamento muito reactivo, de justiceiro e amante de briga alheia (tal como eu, mas felizmente ainda estou deste lado da bancada), e como assentiu numa qualquer idiotice motineira, foi lá parar à prisão de Monsanto. 

Como este estabelecimento prisional é de alta segurança, praticamente entramos na sala com a roupinha que temos no corpo e eventualmente um lápis mal afiado e umas folhas. O resto fica num cacifo. A sério,  nem uma canetinha e revistas para fazer bigodes no Jet7, quanto mais o meu telemóvel repleto de dados móveis para me viciar no Pinterest. Uma seca.

Naquele dia, fiquei  trancada numa sala 1 hora. Foi das coisas mais desesperantes da minha vida, eu própria já estava comovida com a minha tragédia. (Uma médica informou-me que era suposto as pessoas conseguirem estar sozinhas com elas próprias. Sem estarem a ler, a contemplar o oceano, ouvir música ou a dar festas no cão. Simplesmente sozinhas. Achei aquela frase completamente perturbadora. E claro que não consigo).

Entretanto lá fiz amizade com umas formigas, e aparece o cliente... Eu completamente FULA.
- "Peço imensa desculpa... mas não pude mesmo vir antes". - estava claramente comprometido.
-" Não?! Porquê?"
- "Eu estava a acabar de...de... jogar dominó". - respondeu embaraçado.

Fiquei com ar de macaca mal amanhada. Ele respirou fundo.

-" Estava a jogar dominó. A pares. Com o Pedro Dias. Era o meu par, não pude fechar o jogo..."
-  Ele está ali ao fundo, é aquele " - e apontou-me uma pessoa que se esfumou quase por magia.

Demorei uns 5 segundos. Confundo sempre dominó com xadrez, não sei o que é fechar um jogo, e Pedro Dias dizia-me algo, mas não sabia o quê. Olhei lá para o fundo e depois, a epifania. Alegado triplo homicida de Aguiar da Beira. (Entregou-se apenas com a mediação da RTP e Sandra Felgueiras).

Não costuma haver contacto físico entre nós, mas segurei na mão do recluso que ainda tremia.

- "Normalmente és estúpido. Mas desta vez fizeste bem. Nem sei como se joga dominó a pares, mas se ele era o teu, fizeste bem". - aquietei-o.

E saí logo dali bem rapidinho, com um CALAFRIO NO COSTEDO, estômago indisposto  e vontade de ser tudo na vida, menos advogada. Que medo. Coisas que não se explicam. Depois a vontade voltou, graças a Deus (e não gosto de invocar o Santo nome de Deus em vão). Sim, ainda bem que voltou. MAS, CHIÇA, QUE MEDO!!




(Eis onde se jogam graciosos jogos tradicionais como o dominó. Biblioteca. ) 

(Crédito da Fotografia: Visão)


(Credo, voltei a ter uma sensação de medo. Pode ser fome.)

sábado, abril 29, 2017

Crianças Felizes.

Tendo ido a um desses eventos caricatos que se chamam reunião de pais (que nem sei bem para que servem porque o miúdo só tem 4 anos, e quão de mau ou bom há para dizer de um anjo assim), mas lá fui. ESTADO DE CHOQUE. Recebi umas folhas a congratularem-me, uma vez que o menino já CONTAVA ATÉ 15, sabia IDENTIFICAR AS CORES e tinha destreza manual compatível com a sua faixa etária.

Apeteceu-me detonar qualquer artefacto à distância, estava profundamente irada com tamanha desonestidade intelectual. Até me ia recusar a rubricar tamanha mentira descabelada, mas depois percebi que na realidade não tinha que assinar nada (rosnido).

Quando o Pedro chegou  a casa, nem tive tempo para ir sentá-lo no sofá, buscar-lhe as pantufas, e levar uma xícara de chá como faço sempre. (Fora tudo o resto que lhe faço. Obrigada, obrigada).

Desabafei logo. Ai o miúdo sabe contar até 15?!  Então e eu não tive  que ir até ao Algarve com o miúdo a obrigar-me a CONTAR COM ELE ATÉ 90 (NOVENTA), e cada vez que ele se enganava obrigava-nos a RECOMEÇAR A CONTAGEM TODA DO INÍCIO (inequivocamente resquícios de neurose-obsessiva do meu irmão).

A Educadora não faz ideia do suplício dessa viagem... eu em Grândola quase que perdi a cabeça e abri a porta do carro para me atirar para  a berma da estrada, tudo isto e vem a senhora informar-me candidamente que ele conta até 15? ESCÂNDALO.

Mas, para não variar, o Pedro lê a informação escolar e fica muito satisfeito. Típico. Aquele homem vê beleza até na mais hedionda hemorroida proveniente de uma gravidez pesada. E, com carinho, aponta-me uma linha perdida lá pelo meio:

 - "Vês, é isto que verdadeiramente interessa. Nada mais".

Arranquei-lhe a folha. Parece que, entre a destreza manual e a autonomia no refeitório, faz-se a menção de que: "O Francisco é visivelmente uma criança feliz e divertida." Ok. Não tinha reparado. Demasiada informação pelo meio, e eu confundo-me facilmente.

 - "É nisso que temos que nos esforçar. Fazer dos nossos filhos crianças felizes" .

Posto isto, pai e filho vão jogar cumplice(i?)mente MARIOKART DELUXE 8 (jogo que consiste em disputar umas corridas numas trotinetes, num estádio olímpico repleto de animais e em que os corredores têm umas cascas de bananas que podemos atirar aos  nossos adversários (que me lembre, há um dinossauro meio roto, uma princesa, um gorila e o irmão do Mário, entre outras personagens encantadoras);

Eu, fico completamente posta de parte, na realidade só sirvo mesmo para descascar as cenouras do Francisco. Mas se isso o faz feliz... e é uma coisa tão simples (e mal parida...cenouras... blhaaccc).


Bem, ele é feliz, eu sou feliz, fico só na dúvida se devo subtrair-lhe, sorrateiramente ou não, a merda da TIARA DE DIAMANTES da Catarina da mesinha da cabeceira. Que nervos!!!Contribuirá a coroa brilhante para a sua felicidade?! Depois conto. Fica a foto para perceberem a minha angústia. Um grande bem-haja.