domingo, março 12, 2017

Nem dou título

O meu filho teve recentemente uma fissurinha no rabo, o que proporcionou longas horas de cumplicidade Mãe e Filho na casa de banho.

Era ele no trono lavado em lágrimas, e eu no chão no frio, sentada em cima das pernas, também em lágrimas, com um formigueiro desgraçado a consumir-me o músculo tibial.Conversávamos muito, e acabámos por chegar à parte em que ele tinha trazido no domingo anterior, de casa de uma amiguinha, uma linda TIARA.

Sim, a criança, agarrou-se à tiara da miúda e colocou-a delicadamente na própria cabeça rapada com gel . Olhou-se ao espelho e deve ter adorado o que viu, porque não só a levou para casa (a proprietária ficou tão admirada que não se importou que ele a subtraísse), como quis dormir com ela!

Tudo bem. Sem stress (mentira, escândalo).

Nesses  longos simpósios na casa de banho, esclareceu-me que um dia ia ter um bebé na barriga. Expliquei que apenas as meninas poderiam ter bebés. Olhou-me condescendente e repetiu: "Não, EU vou ter um BEBÉ na minha barriga, eu gosto muito de BEBÉS", e ajeitou majestosamente a sua tiara na cabeça rapada.

Ok. Sem stress.(mentira, surto de hiperventilação)

Nesta última sexta-feira, dia em que, aparentemente, a sua condição clínica melhorou, mas em que tivemos mais um colóquio de 1 hora na sanita, falámos sobre tudo. Sobre como era bom ir à terra da avó apanhar limões, como era giro calçar as galochas e ir à fazenda, depois ele confidenciou-me:

- "Mamã, sabes o que vou ser quando for grande?"

Olhei para a tiara cravejada de pedras preciosas, para a perninha cruzada de uma forma encantadora, nem que eu treinasse uma vida, ficaria sempre a anos luz de tanta elegância e distinção a defecar.

-" Queres ser.... bailarina é isso? Diz à mãe, é bailarina?  - estava consumida, o meu instinto de mãe dizia-me que era bailarina.

-" Não mamã. Quero ser Professora" .

- "Professor? Que giro, que profissão tão bonita! "

-"Não mamã, quero ser PROFESSORA"-  corrigiu-me, sem perder o porte altivo e sempre de coluna vertebral erecta.

 Chamei o Pedro, tivemos uma conversa franca: " Pedro. se o miúdo for GAY, só tenho este filho e acaba-se aqui a minha linhagem e quando eu falecer Susana desaparecerá para todo o sempre nesta vida terrena e não sobrará uma única micro-célula genética para me perpetuar! Nem uma merdinha de um protozoário com o meu DNA inscrito para recomeçar qualquer coisa que se assemelhe a mim !!!!!

Não acho bem, acho até muito mal!"


- "Achas que podemos tentar agora o 2.º filho ? "  (Bater de pestanas duplo)

Pedro, sintético:  "Agora não. E se for ratão pode ter um filho na mesma. Mas aí é que a fissurinha vai dar problemas a sério. Nem quero pensar no estado desse rabo".

Olhei para o meu Francisco, lindo como Jesus  (tentei ignorar a tiara). Querido 2.º filho, aguenta-te que não foi desta que o pai se comoveu. Paciência, vou pensar noutro ardil.







sábado, janeiro 07, 2017

EMEL é rabo.

Esta é uma história sobre valores humanos e, sobretudo, Gratidão.

Há uns anos que eu tenho a 8.ª maravilha do mundo, algo chamado “dístico da EMEL”, que me permite estacionar no Saldanha em Lisboa, todo o ano, por 12€ (sim, chorem todos, chorem muito).

No entanto, antes deste encanto, eu tinha que estacionar o meu carro e entregar a chave a um Sr. que era muito alcoólico, mas muito gentil, e que me punha os tickets dentro do tablier quando chegavam os psicopatas da EMEL.

Esclareço que o senhor andava sempre roxo das quedas monumentais que dava naquela calçada, mas nunca falhou nenhum ticket. Levava €20 pelo serviço.

Acreditem ou não, aquele Sr. Alcoólico, que mal se aguentava nos caniços, tinha uma fiel freguesia estimada em mais ou menos 50 pessoas, e a coisa funcionava muito bem: de manhã as pessoas entregavam as chaves dos seus veículos, ao final do dia os condutores iam recolhendo as suas chaves.

Se ficássemos a trabalhar até depois das 18h30, era o próprio Sr Alcoólico, já bêbedo que nem um cacho, que nos ia entregar as chaves aos respectivos prédios. Claro que muitas vezes estava tão bêbedo, tão bêbedo, que demorava uma eternidade a encontrar o nosso local de trabalho, primeiro porque se enganava 20 vezes na localização o prédio, e depois enganava-se 20 vezes no andar. Demorava uma média de 10 minutos para encontrar a nossa chave, mas sabia-as todas de cor.

Ora, naquela altura, havia um mito urbano que dizia que esse Sr. Alcoólico era um ex engenheiro de renome, que tinha trabalhado muitos anos no estrangeiro e que estava prestes a receber uma reforma choruda.

De ressalvar que o homem, que era avinhado mas muito esperto, percebeu que eu era a advogada mais desorientada do Saldanha e pedia-me sempre dinheiro adiantado.

Apelava-me frequentemente ao coração, chorando-se com a renda em atraso do quarto em que vivia, a falta de comida, os pijamas rotos; mas depois voltava a pedir-me dinheiro como se nada fosse, esquecendo que eu tinha já tinha pago e afiançando a pés juntos que eu estava a dever a última mensalidade.

(Eu andava sempre permanentemente confusa, acho que fui enganada todos os meses, uma vez que ele ficava ofendidíssimo com a minha insinuação de que já tinha pago, e normalmente adiantado. Ainda assim, mesmo que eu pagasse 40€, tinha a vida salva e isso não tinha preço).

Tudo isto para dizer o seguinte: uma vez ele apareceu todo sorridente, lágrimas nos olhos e disse que finalmente tinha-lhe sido atribuída uma reforma de Inglaterra e recebia 3500€ por mês! Mostrou-me uma carta e tudo.  

Fiquei chocada por um alcoólatra crónico, sempre sentado no vão de escadas, ganhar mais que eu. Mas depois agarrou-me na não, olhou-me nos olhos, um olhar de perfeito bêbedo mas tão sincero e comovido e disse-me:

mas eu não esqueço quem me fez bem, não esqueço, nunca irei esquecer. Por isso eu vou continuar por aqui, afinal, não tenho ninguém na vida, só vos tenho a vocês, e não tenho palavras para vos agradecer o que fizeram por mim, sobretudo a Susana” (ahhhhhh pois!!! naquele  momento tive a confissão tácita que ele me enganava sempre, e fazia-me pagar 2 vezes ao mês, o lambão).

Primeiro fiquei super aliviada. Não saberia o que fazer ao meu carro se não fosse o Sr. Alcoólico.

E também fiquei emocionada. Aquele homem, bêbedo ou não, estava-me grato, e a gratidão é uma palavra maravilhosa, um sentimento nobre, de um poder imenso.

Epá, então não é que NUNCA MAIS VI O FILHO DA P*** NA MINHA VIDA!!! NUNCA!!!!