sábado, setembro 24, 2016

No meu tempo...

 De manhã, quando saio para trabalhar, tenho logo umas 10 chamadas não atendidas no telemóvel. Eventualmente porque a minha manhã começa muitas vezes num período que, por um qualquer Observatório Astronómico, já não se denominaria “manhã”. Tipo um “antes de almoço, mas mais cedo”. Adiante.  

Naquele dia devolvi as chamadas para telemóveis, e tinha lá um n.º fixo, que eu não conhecia, nem vislumbrava donde pudesse ser, uma vez que eu conheço os indicativos quase todos para evitar telefonemas de prisões que não me interessem.

“263……hum…” “Vale de Judeus?  Zezito de certeza! Nem pensar”. E não atendo hihihi (eventualmente tenho que atender ao final do dia, após 30 chamadas frenéticas).

Então liguei para aquele número fixo. Dantes a conversa inicial (quando eu era uma jovem advogada, snif), era sempre complicada, porque muito dos telefonemas vinham de reclusos que, em abono da verdade, para além de não serem santos eram uns paranóicos e desconfiados de merda.

Antes eu iniciava as hostilidades com uma empatia encantadora: “Olá,bom dia! Ligaram para mim há pouco, quem é?”. Resposta invariável: “Eu não liguei para ninguém, o que é queres?” e eu delicadamente: “Tinha esta chamada não atendida, DE CERTEZA que ligou para mim”, “Não liguei nada, mas quem é que fala ,hã, quem és tu?” “Eu sou advoga…” INTERROMPIAM LOGO!
- “AHHHHHH SRA. DRA., como está, peço imensa desculpa, não sabia quem era, olá como está? Passou bem, a família?” Uma deprimência.

Volvida uma década, faço logo uma alocução inicial nos meus telefonemas para não me entediarem com as suas vozes e perguntas de idiotas. Devolvi então a chamada e o telefone tocou.

Pessoa: “Estou?”

Eu (seca e claramente): “Bom dia, o meu nome é SUSANA ALEXANDRE, sou ADVOGADA, tinha uma chamada não atendida deste número há 10 MINUTOS ATRÁS. E sim, tenho a certeza, foi este número que ligou. Posso saber com quem estou a falar?”

Pessoa: “Bom dia, meu nome é PEDRO CARMO, tenho uma empresa, SOU O TEU MARIDO, e na realidade, este é o teu número fixo de casa”.

Pessoa/Pedro/Marido: “E não fui eu que liguei há 10 minutos atrás, foi a Sra. Advogada que, para variar, não sabia do seu telemóvel, e ligou do seu número fixo para encontrá-lo. Já agora grave este número no telemóvel porque é o seu, há pelo menos, 6 anos. E convém tê-lo. Só naquela…”

 (Glup)

Se me dissessem há 20 anos - quando o conceito de telemóvel era prosa narrativa de um concurso de ficção científica, -  que eu um dia não ia saber o meu número fixo de casa, eu não acreditava.

Dantes, os números fixos da nossa casa, dos melhores amigos e até vizinhos, eram memorizados automaticamente! Mas ainda bem que hoje há telemóveis, eu hoje sou completamente inapta para decorar um número de telemóvel que não seja o meu.

Efectivamente, a memória deteriora-se. Noutro dia mandei o miúdo para a minha sogra e esqueci-me de lhe vestir as cuecas. Eu esqueci-me de lhe vestir as cuecas!!!!
Claro que pus a culpa imediatamente no pai, mas isso não invalida que eu estou a ficar velha e esquecida.

Então gravei o meu próprio número fixo de há 6 anos. Uma das coisas mais estranhas que já fiz na vida. (E se já fiz coisas estranhas, até tremo só de pensar no Juízo Final.)


domingo, setembro 11, 2016

Escatologia Aplicada (à vida real)


Para variar, mais uma história escatológica.Tem várias vertentes engraçadas (e já estou melhor), mas vou tentar não me dispersar:

Estando-me a sentir mal (em traços gerais, da barriga e dos rins), há já uma semana, decido ir às Urgências. Um médico examina-me, fala-me numa possível cólica renal, descobre uma  infecção, medica-me, fica chocado com o facto do meu filho ter entrado no pré-escolar com 3 anos e a filha dele com 4 não, e vou-me embora.

Continuando-me a sentir mal, o meu sogro vai a minha casa em SOS, apalpa todo meu epigastro, duodeno e intestinos e diz ao Pedro: “ Quanto à cólica não sei, mas infelizmente ela está CHEIA DE GASES”. (Pode piorar? Sim). “É que os gases não saem porque tem ali uma fezes muito duras na zona alta do intestino”.

Que stress, eu sou uma menina, eu não tenho gases. (Quanto às fezes contidas não há muito a fazer, um floater em 2010 havia-me já denunciado). Mas o meu sogro afiança que sim. De seguida, massaja-me vigorosamente com um óleo, ausculta-me a barriga e, esmerando-se no tom de voz: “ Xiiiii, QUE GUERRA QUE VAI AQUI DENTRO, CREDO!! Vai agora à casa de banho”.

Fui, deprimida que nem um cão. Quando voltei: “Então, muitos gases?” Pedro olha para mim divertidíssimo. E eu, mais morta que viva: “NÃO, mas obrigadinha, não se incomode mais, vá para casa, eu estou bem”.

 - “NÃO Susana, vou-te fazer mais massagens, até revolver essas fezes aí contidas, olha que  assim os gases não passam e dão muitas dores!!”. (vergonha, vergonha, vergonha)

E uma hora depois, aí sim, o Inferno desceu à Terra. O meu sogro saca de um Microlax da mala e ordena-me:“Agora introduzes isto no ânus (encolhi-me), e aguentas o mais que puderes.” “Depois” – continuou ele, com ar de mocho sábio: “ vais à casa de banho, e em 2 ou 3 bojardas mandas isso tudo cá para fora. Mesmo para partir a cerâmica. E depois chama-me que eu quero lá ir ver a cor disso”.

Foi uma situação absolutamente miserável, bati no fundo. Até 2 dias depois ter ido novamente às Urgências de outro hospital, e ter sido observada por um médico, angolano. Desta feita, a queixa era um pouco mais severa… fezes escuras, quase pretas, que indicavam um sangramento digerido.

Pergunta do médico: - “Aqui nesta sala, diga-me lá,…escuro como o quê?”

Eu olhei em volta, já quase desfalecida, com 5 horas de espera, e uma panóplia de análises e ecografias em cima. Estava num ponto de exaustão mental (o que não é muito difícil, em bom rigor). Olhei em volta… um gabinete muito feio, de um branco sujo quase bege. E já sem forças, olhei para ele e,  numa epifania disse: - “Dr., olhe,  escuro tipo.. olhe, TIPO A SUA COR!”.

E depois das palavras terem saído da minha boca, o meu coração praticamente parou. Senti um baque enorme no peito.  E pronto, ia levar um murro bem dado mas estava tão doente que era extremamente  triste apanhar naquela situação.

“Da minha cor”? Ahaha- riu-se imenso, levou a mão à testa e riu-se muito; - “Ahaha, essa é muito boa, mas assim vai ter mesmo que fazer uma colheita, mas não há-de ser muito grave porque sou preto mas há muito mais pretos do que eu!!

Para variar, roleta russa de emoções: que horror, não estava a acreditar que disse aquilo; que alívio, ele achou graça; duplo horror, colheita de cocó!!

No fim da consulta, após apalpar-me a barriga ("quantos filhos tem? só 1? tem a barriga toda aberta, não usou nenhuma cinta??!), e após examinar os relatórios, olhou para mim e disse com ar de feiticeiro da Nova Guiné: -” Susana, sabe quando é que uma mulher está plena de saúde,  ainda mais linda, cheia, cheia de graça e alegria”?

Tremi por dentro.

“QUANDO ESTÁ GRÁVIDA!!!” – e deu um murro na mesa.

Gritei.

E ele-  “Não minha querida, não está grávida, mas as mulheres ficam  tão lindas grávidas! A Susana é linda, mas grávida fica ainda mais linda de certeza!  Agora quando melhorar, compre um bom vinho, umas ostrazinhas, num final de serão, ao pé de uma lareira…”

Roleta de emoções 2: QUE MEDO!! QUE GIRO! QUE STRESS! QUE MÉDICO ENCANTADOR! SERÁ MALUCO?  QUE HOMEM ESPECTACULAR! TERÁ CÉDULA PROFISSIONAL? (DEVO AVISAR ALGUÉM DA ADMINISTRAÇÃO DO HOSPITAL?)

Quando cheguei à sala de espera contei ao Pedro, um branquela mercantil e economicista, e não posso propriamente reproduzir tudo o que disse, mas foi qualquer coisa como “MÉDICO DUM C… , FILHO DA P…, P… QUE O PARIU!!! RAIO DE MÉDICO, QUE IDEIAS PARVAS!! NÃO É ELE QUE OS SUSTENTA!! CAB… DUM C…”

Foi um dos momentos mais surreais da minha vida. E continuo inteira para o contar. Um bem-haja aos médicos angolanos com sentido  de humor e prático da vida.
NÃO ESTOU GRÁVIDA .

domingo, setembro 04, 2016

"Sai da frente PEDRO!!!"


Em baixo, está um VÍDEO da GoPro, que registou um pequeno descontrolo motor da minha pessoa, numa bicicleta e no que parecia ser uma inofensiva planície. Atenção: contém LINGUAGEM QUE HABITUALMENTE NÃO USO.

Em suma, até porque não há muito a dizer, Susana monta-se numa bicicleta, inicia a marcha na mesma, INEXPLICAVELMENTE começar a ganhar um balanço descomunal, e só depois se lembra que tem alguma baralhação em relação aos travões.  

É o que dá ter traços de deficit de atenção, hiperactividade e impulsividade, tudo ao mesmo tempo e na mesma pessoa.

Claro que baralhação nela é normal, mas aqui agrava-se porque em tempos teve uma pequena mota, e TODA a gente fez questão de ensinar que na mota, os pneus têm que se ser travados ao contrário da bicicleta (se não foi isto, foi algo parecido). Pelo que a baralhação passa do normal para agravada e, para piorar, acresce o facto de Susana quando entra em pânico tem dificuldade em distinguir a direita da esquerda.  

Basicamente, ultrapassa o Pedro no que lhe pareceu ser à velocidade da luz, diz asneiras feias, berra, desaparece no horizonte, vê a morte, revive  o “sai da frente Guedes!”, chora e reza. Ao fim de uns penosos 60 segundos de desc ontrolo total , consegue parar com a ajuda de Jesus.

(Entretanto, Pedro, que a tentou alcançar pedalando o mais que conseguiu, ria-se que nem um perdido. RIA-SE!!!!!!)

O vídeo, volta-se a advertir, contém linguagem de que Susana não se orgulha, mas que saiu do âmago do seu ser em momento de desespero. Tudo isto porque se esqueceu de perguntar ANTES de começar a pedalar, como é que se travava aquele instrumento diabólico, vulgo bicicleta podre.

Impulsividade d´um raio.