Eu
tenho uma avó muito engraçada. É muito velha e vive em Queluz onde se arrasta vagarosa com uma
bengala, sempre a escorregar na rua e enfiada no Amadora-Sintra com
quedas aparatosas.
Quando
ela vai para Ferreira do Zêzere, a sua terra, ocorre um fenómeno espantoso. Ela
deixa de ser muito velha para ser apenas pouco velha.
No
último fim de semana, fomos lá com ela e os meus pais para a terra. Quando
olhei para trás, já o Francisco tinha apanhado a bengala a fingir-se de idoso e
vejo a minha avó a correr fazenda abaixo a gritar “vou ver as minhas
pêeeeeeeeeeeeeeeeras!!!”.
Quando
a apanhei no regresso, tentei pará-la e devolver-lhe a bengala. Ela vinha
carregada com dois baldes de fruta podre, um em cada braço (tentando
convencer-me que estava deliciosa) e esquivando-se à minha placagem, largou os
baldes em andamento e desatou a correr
outra vez na direcção oposta gritando “ ó c´chópa deixa-me, que eu vou apanhar as minhas nêeeeeeeeeeeeeesperas!!!”
Era uma imagem grotesca. A velha que antes se socorria da bengala, agora literalmente
corre, com a combinação branquinha a ver-se por debaixo da bata e uns pezinhos
muito lamacentos enfiados numas crocs do meu pai.
Ao
fim da noite lá chegou. Censurei-a por andar até tão tarde sozinha, sem
telemóvel, podia acontecer qualquer coisa…. Interrompeu-me e queixou-se:“ó c´chopa não me atentes, não tens um marido para ir ver? Francisco, queres
ouvir uma cantiga que te vou ensinar?”
Estremeci.
Eu já conheço as cantigas dela, o Pedro não. E ela estava em modo de “terra”.
Começou,
estridente: “ERA UMA VEZ, UM GATO MALTEZ, CAGOU-TE NA CABEÇA, NÃO SOUBE O QUE FEZ!”
Não
vale a pena impedi-la. Fará 10 vezes pior.
2 comentários:
Ahahahahahahaha!!!
É tão querida não é?
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