quinta-feira, julho 31, 2014

O DINHEIRO

Quando tinha 17 anos, o Pedro foi para uma (prestigiada) universidade no Canadá (1.º europeu a ser admitido) (POSSO GABÁ-LO? POSSO?! É que vou-me casar dia 4 de Outubro e quero gabar o meu Pedro). Sim, SALSICHA VAI-SE FINALMENTE CASAR Ó MEU DEUS, Ó MEU DEUS, BELISQUEM-ME!!!!!!!

Continuando,

O Pedro teve que ficar em casa de uns tios-avós milionários e, ao mesmo tempo, possivelmente as pessoas mais forretas deste planeta.

Era mais o tio-avô. Do estilo de tomar uma banhoca por semana, de utilizar a piscina pública às 3ªs feiras porque é o dia em que qualquer pessoa pode entrar sem pagar, normalmente eram os sem-abrigo e o tio-avô.

 (Uma 3ª feira obrigou o Pedro a ir com ele. Pendurou as calças e a t-shirt. Disse-lhe que não era preciso dar 20 cêntimos por um cacifo, uma vez que no Canadá é tudo gente séria.. Quando chegou tinham-lhe roubado as calças, e o homem andou desesperado em cuecas pela rua, a abrir os caixotes do lixo com a bengala, a ver se ainda encontrava a carteira). (O Pedro manteve-se a uma distância de segurança/vergonha de 10 metros).

Portanto. Era milionário mas era avarento. Infelizmente sofria de leucemia e mais umas 3 ou 4 doenças que agora não me recordo.

Um dia o Pedro perguntou-lhe por que motivo ele não gozava simplesmente a velhice dele e da mulher, e usufruiam dos bens, dinheiro, casas que detinham. Por  que não davam a volta ao mundo num jacto particular e compravam uma ilha qualquer.

O tio-avô ficou incrédulo com a pergunta.

O senhor já tinha uns 70 anos, tinha tido 2 acidentes de trabalho, um dos quais bastante grave, que lhe encurtou uma perna (andava com aquela bota simpática compensada), o outro menos grave mas que lhe lixou a coluna e tinha que andar de bengala.

"Por que é que eu não gasto dinheiro??!!!"
"Sim, por que não vai com a sua mulher passear, jantar fora, qualquer coisa?

"Ó filho, tenho que poupar, sei lá se um dia não posso precisar!!!"

Repito: Leucémico, uma perna mais curta que a outra, a coxear que se desunhava, dobrado numa bengala. Mas guardava o seu milhão para uma qualquer eventualidade, não fosse acontecer-lhe qualquer coisa.

 (Fui ao freeport snif, sentimento de culpa a extravasar, por isso gozo com os outros. Mais velhos. E falecidos.)

Salsicha vai-se casar, tudo lhe é perdoado.






sexta-feira, julho 18, 2014

Se conduzir, não se esqueça de...

Este post é dedicado a todos que, em determinado momento, se sentiram os seres humanos mais rascas deste mundo. E a vida continua.

Ia eu toda satisfeita com o Pedro às compras no Modelo (adoro ir às compras domésticas, sinto-me sempre super adulta e responsável).

As sobremesas estavam todas a 50% de desconto – imediato!! O Pedro, conduzindo o carrinho das compras, adverte-me que os nossos gelados (Cornetos 4 ever) iriam ser levados em último lugar para não derreter. Fiquei algo desconsolada porque tinha um legítimo receio que eles se esgotassem, mas não tive alternativa senão ir à merda das hortaliças e afins atrás dele (ODEIO COUVES E COMPANHIA!!! DÃO-ME NERVOS!!). Respiro fundo e continuo a empurrar o carrinho do Francisco (entretido com os seus próprios pés).

Finalmente, as compras terminaram. Agarrei nos meus queridos gelados e fomos para uma caixa de pagamento. Por ainda estar na fila, depositei-os cuidadosamente na prateleira das revistas e espreitei sofregamente a revista Nova Gente.
OMG! A  Bernardina do S.S. 4 está grávida?! Really?”

Entretanto, outra caixa de pagamento, muito mais longe, mas sem ninguém, abriu. O Pedro alcança-a facilmente. Eu lá vou a arrastar-me como sempre com os sapatos novos da Zara (saldos).

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Pedro (de cara fechada, incomodado): “É tudo?”
Eu (matutando e atingindo pensei: que estúpida, deixei lá os cornetos).
Volto para trás, por acaso até mais lesta que o costume e alcanço as duas caixas encantadoras de gelado. Regresso junto a ele com os cornetos numa mão, e a Bernardina gorda que nem uma texuga na outra (ainda não tinha acabado de ler. Para onde é que ela vai viver?)
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Pedro (rosto impassível): “Tens mesmo  a certeza que não te estás a esquecer de nada?
Fico confusa. As compras todas direitinhas conforme a lista que elaborei com a língua de fora durante 10 minutos. Não faltam o queijo e os 5 litros leite (itens OBRIGATÓRIOS lá em casa). Não falta absolutamente nada, sou a dona de casa perfeita!

Olho para trás. Olho para os lados.

E ao longe, na antepenúltima caixa, está o carrinho do Francisco. Não consigo perceber se ele está a chorar ou não porque está realmente distante (mas por acaso até acho que nem está, não obstante terem-se aglomerado umas quantas pessoas).

Que grande merda! Sinto-me uma carteirista detida em flagrante no 28. E lá vou eu buscar o meu filho em passo acelerado, sorrindo para as pessoas que entretanto se juntaram, como quem fez uma partida ao filho para ele aprender a não ser traquinas.  

O Pedro nada disse. Não precisa.

Posteriormente descansou-me um certo padre, rindo-se: “Susana, não és nada a pior mãe do mundo!! Mas realmente andas lá pelo rol”. É um pároco com muito sentido de humor.

NOT. Que homem estúpido! O que há de pior que um enxovalhamento paroquial??!

Então, seres humanos que já se sentiram muito rascas e a quem dediquei este desabafo… já se ajuizam melhor? Naturalmente que o título completo deste post é "Se conduzir, não se esqueça que tem um filho de 17 meses abandonado numa fila de supermercado, por muito aliciantes que sejam outros estímulos, vulgo gelados e revistas".


 (P.f.: a existirem, preciso de comentários meigos)