terça-feira, dezembro 21, 2010

Fui Mãe Natal. Duvido que volte a sê-lo.

(Post atrasado, mas muito sentido)

Dia 20 de Dezembro, fui com a minha associação distribuir umas prendinhas aos miúdos lá de um bairro. Naturalmente, recusei-me vestir de homem (Pai Natal) e optei pela versão feminina de Mãe Natal, de decote e casaco cintado, que sempre fui gaja de muito brio e sexyness - embora com umas calças vermelhas 44 h-o-r-r-í-v-e-i-s.

Finda a noite, prendas e cabazes entregues, suada mas feliz, apercebi-me que um velho absolutamente caquético acabara de cair de umas escadas abaixo e por aí ficara assustadoramente inerte, olhos revirados e língua dependurada.

Corri para ele o melhor que as calças 44 mo permitiam e esbofetei-o até revirar novamente os olhos a uma posição considerada relativamente normal (acho que se ele não ia morrendo do trambolhão ia morrendo da minha manobra de reanimação).

"ONDE MORA?! RÁPIDO!" - exclamei aterrorizada antes que ele morresse e eu ficasse em braços com um cadáver por identificar.

"terceiro c" - titubeou o velho mais velho que eu jamais havia visto na minha vida (acho que os cabo-verdianos duram todos claramente mais de 110 anos)

Subi ao 3.º c à velocidade da luz e toquei à porta.

Duas crianças abrem-me a porta. Primeiro, o pasmo silencioso. Depois, a felicidade espelhada nos rostos:

"AHHHHHHHHHH, É A MÃE NATALLLLLLLLLLLLLLL!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! PRENDAAAAAAAASSSSSSSSSS!!"; " E O PAI NATAL?!" "PAI NATALLLLL!!!" - perguntam eles tentanto gulosamente espreitar por detrás de mim.

É realmente aflitivo. Os impacientes dos petizes saltitam e saltitam, e aparece um irmão mais novo, que por sua vez embala um outro ainda mais novo e todos batem palmas, e derretem-se em efusiva alegria até que eu tenho mesmo que avisar:

- hum... meus queridos, oiçam-me, os paizinhos estão?

- SIM!!!! SIM!!! MÃE NATAL!!!! PRENDAS!!!

-Então digam-lhes que... hum.. digam que caiu para ali um velho das escadas abaixo e deve ser o vosso avô, bisavô, ou coisa do género. Digam aos pais que é melhor irem lá abaixo ´tá? - explico eu enquanto arregaço as calças e preparo-me para fugir escada abaixo, mas com cuidado que o piso estava realmente escorregadio. E é o que faço, não sem antes me aperceber da choradeira crioula que já havia contagiado o prédio inteiro.

O homem sobreviveu (parece que tinha ido à rua fazer um chichi. Credo, é esta a famigerada sabedoria da Velhice?).

E eu fui, orgulhosamente e sem margem para dúvidas, no ano de 2010 a pior Mãe Natal de que há memória, sem saco de prendas e, pior, sem qualquer sensibilidade feminina para dar más/péssimas notícias.

Assim sou eu. Ansiosa pela quadra natalícia de 2011 ;)