terça-feira, dezembro 21, 2010

Fui Mãe Natal. Duvido que volte a sê-lo.

(Post atrasado, mas muito sentido)

Dia 20 de Dezembro, fui com a minha associação distribuir umas prendinhas aos miúdos lá de um bairro. Naturalmente, recusei-me vestir de homem (Pai Natal) e optei pela versão feminina de Mãe Natal, de decote e casaco cintado, que sempre fui gaja de muito brio e sexyness - embora com umas calças vermelhas 44 h-o-r-r-í-v-e-i-s.

Finda a noite, prendas e cabazes entregues, suada mas feliz, apercebi-me que um velho absolutamente caquético acabara de cair de umas escadas abaixo e por aí ficara assustadoramente inerte, olhos revirados e língua dependurada.

Corri para ele o melhor que as calças 44 mo permitiam e esbofetei-o até revirar novamente os olhos a uma posição considerada relativamente normal (acho que se ele não ia morrendo do trambolhão ia morrendo da minha manobra de reanimação).

"ONDE MORA?! RÁPIDO!" - exclamei aterrorizada antes que ele morresse e eu ficasse em braços com um cadáver por identificar.

"terceiro c" - titubeou o velho mais velho que eu jamais havia visto na minha vida (acho que os cabo-verdianos duram todos claramente mais de 110 anos)

Subi ao 3.º c à velocidade da luz e toquei à porta.

Duas crianças abrem-me a porta. Primeiro, o pasmo silencioso. Depois, a felicidade espelhada nos rostos:

"AHHHHHHHHHH, É A MÃE NATALLLLLLLLLLLLLLL!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! PRENDAAAAAAAASSSSSSSSSS!!"; " E O PAI NATAL?!" "PAI NATALLLLL!!!" - perguntam eles tentanto gulosamente espreitar por detrás de mim.

É realmente aflitivo. Os impacientes dos petizes saltitam e saltitam, e aparece um irmão mais novo, que por sua vez embala um outro ainda mais novo e todos batem palmas, e derretem-se em efusiva alegria até que eu tenho mesmo que avisar:

- hum... meus queridos, oiçam-me, os paizinhos estão?

- SIM!!!! SIM!!! MÃE NATAL!!!! PRENDAS!!!

-Então digam-lhes que... hum.. digam que caiu para ali um velho das escadas abaixo e deve ser o vosso avô, bisavô, ou coisa do género. Digam aos pais que é melhor irem lá abaixo ´tá? - explico eu enquanto arregaço as calças e preparo-me para fugir escada abaixo, mas com cuidado que o piso estava realmente escorregadio. E é o que faço, não sem antes me aperceber da choradeira crioula que já havia contagiado o prédio inteiro.

O homem sobreviveu (parece que tinha ido à rua fazer um chichi. Credo, é esta a famigerada sabedoria da Velhice?).

E eu fui, orgulhosamente e sem margem para dúvidas, no ano de 2010 a pior Mãe Natal de que há memória, sem saco de prendas e, pior, sem qualquer sensibilidade feminina para dar más/péssimas notícias.

Assim sou eu. Ansiosa pela quadra natalícia de 2011 ;)

quarta-feira, outubro 27, 2010

O caranguejo toxicodependente que lia clássicos franceses

Eu sei que era suposto falar da Madeira, parte II, mas voos mais nobres se levantam:

Eu e J, em julgamento de um recluso preso por nem sei quantas toneladas de crimes, e a responder, invariavelmente, por mais uns quantos. Na realidade, já iamos a rir no corredor antevendo os bons momentos que irira constituir aquela audiência de julgamento - (muito compungidos, no entanto, dada a dignidade da profissão e do cidadão se condói com a realidade do mundo do crime ).

E por que riamos nós? É que este senhor é, provavelmente taco a taco com a traveca, o cliente mais interessante e curioso que eu tenho. Vejamos: - toxicodependente há 25 anos, portador da doença bipolar, anarquista, ferrador de cavalos nos tempos livres, surdo de um ouvido mas técnico de som, cego de um olho mas tatuador profissional,fala 5 línguas, filho de um ex-embaixador, lê Émile Zola - "mas tenho uma preferência pelos escritores bizantinos" (medo!!), enfim, este julgamento por furtos simples prometia.

Pérolas avulsas:

(Explicando que tinha sido detido por populares furibundos à porta de um Pingo Doce)" Meretíssima, eu juro, eles atiraram-se a mim e eram à vontade mais de 15! Caí ao chão, placaram-me e eu fiquei para ali...olhe, eu fiquei para ali que nem um.. olhe, que nem um caranguejo de pinças para o ar! (contenho o riso visualizando a cena e nem posso olhar para o J);

"Meretíssima, palavra de honra, quando ouvi o carro da polícia... Meretíssima... eu juro por tudo quanto é sagrado, nunca em toda a minha vida me senti tão aliviado!" (Mais uma vez nem posso olhar para o J, e felizmente ele não me vê. Só o oiço num riso fininho tentando não se engasgar).

E para terminar (questionado acerca do seu arrependimento ): "Se estou arrependido?! Meretíssima, estou preso há já 1 ano e o que eu queria mesmo era, com o devido respeito e perdoe-me a expressão, era mas é fazer uma data de bebés com a minha mulher... Eu sei lá..., sei lá, uns 20 ou 30! "

Su e J deslizam cadeira abaixo a rir que nens uns perdidos, perante a simbólica mas pungente expressão "fazer uma data de bebés", já nem querendo saber com quem e muito menos a quantidade exacta!! Bem, bebés bebés, só se for com as pacientes do hospital psiquiátrico. Conseguimos o internamento em vez de pena de prisão. Duo Broa de Mel no seu melhor.

terça-feira, outubro 19, 2010

A Madeira, a UNESCO, e os Parvos Parte I

O meu sonho de criança foi desde sempre ir à Madeira. Nomeadamente visitar o Curral das Freiras e floresta Laurissilva, grande e glorioso património da Humanidade (bem, criança talvez não, apontemos talvez para os 26/27 . 28 no máximo. tenho 30. buáá).

Bem, este Verão fui então com uns amigos para o Funchal durante uma semana. Depois de ultrapassada a eterna questão de sempre - descolagem e aterragem em absoluto estado de pânico, aos murros e convulsões contra os assentos do avião e companheiros de viagem (sim, aviãofóbica, e então?);

fiz a voltinha recomendada: comi bolo do caco, vomitei-me nos teleféricos, bebi poncha e brisas até não apertar o cinto, abarrotei-me de bolos de mel, fiz amizade com baratas voadoras absolutamente gigantescas, beijei de língua todas as bandeirolas, cartazes, porta-chaves e t-shirts com o corpo do Cristiano (enfim, o normal) e passei,

juntamente com o ignorante do Nelson, a chamada grande, grande vergonha social:

Susana e Nelson, felicíssimos em terras de Bartolomeu Perestrelo e entretidos no comércio de rua: Muito bom dia, se faz favor, quanto custa este Caralhete ?

Vendedor de meia-idade (ligeiramente intrigado): Nâm pêrcebéi, éste quéé?

Nelson - em alto e bom som, para o senhor perceber o seu sotaque continental, referindo-se ao instrumento musical dos bonequinhos de pau adornados com trajes da região:

(Susana ficou desta vez calada, antevendo possível engano)

- Muito bom dia, se faz favor, quanto custa este C-A-R-A-L-H-E-T-E? - soletrou ele, enquanto apontava de dedo em riste e sorriso franco e aberto para os ditos bonequinhos.

Vendedor (revoltado até às entranhas): QUÉE??!!!! ÊSTE É ÂM BRÂMQUEINHE!!(Brinquinho) ÃM BRAMQUEINHE!! - SEI DAQUEI MÁLCRIADE! !! uivou ele, enquanto nos tentava acertar (maldosamente, mesmo!) com um Brinquinho, que de brinquinho não tinha nada, mais parecia um gigantesco mastro vertical com uma colónia de duendes a acasalar.

Enfim, quero crer que um amigo mais humorizado do Nelson o tenha enganado e, ele, inadvertidamente, nos tenha enganado a nós. Só sei que mal tivemos tempo de fugir colina abaixo (ultrapassando os carrinhos de cestos que, pelos vistos, atingem a alucinante velocidade de 0.02 km/hora).

Bonito, logo no 1.º dia na cidade do Funchal e já estávamos marcados por um comerciante andropáusico com objectos fálicos perfurantes na mão e uma vontade doida de nos sovar.

A viagem ao arquipélago prometia. ..E prometeu, conforme desfecho idiótico que seguirá oportunamente em brevíssimo post II (juro).

P-S- Um grande beijo para as senhoras da Biblioteca da UAL que parece que me lêem. Mistérios insondáveis, não os questiono.

domingo, setembro 12, 2010

30 anos e 20 dias

Como escrevinhei para aqui algures, depois de vir de férias escreveria com a regularidade desejada, quer por vocês, pacientes leitores, quer por mim própria, que criei o Salsicha com tanto amor e carinho num dia de estágio completamente desesperante, no ano de 2005.

5 anos depois, reflicto (respiro fundo, fecho os olhos suavemente, abro-os novamente, a realidade é crua e una): MEU DEUS DO CÉU, EU JÁ TENHO 30 ANOS!!!! COMO É POSSÍVEL SEMELHANTE DIABOLIZAÇÃO DA MINHA PESSOA??!! 30 ANOS!!

Lembro-me como se fosse ontem de estar em em Armação de Pêra, em pleno Agosto, a festejar os meus 10 anos orgulhosa que nem um pavão macho, e olhar compadecidamente para a minha mãe que, exactamente uma semana depois, perfez os 30. "30 anos" - pensei eu: "Coitadinha, qualquer dia bate as botas".

E agora, chegou a minha vez.

O que dantes era para mim a antecâmara da sepultura, é hoje em dia a minha idade biológica. O que verdadeiramente me vale, é que sei exactamente quem sou por dentro. Continuo a ser a mesma miúda ruim, amoral , burra e trafulha de sempre.

Noutro dia dei por mim a dizer a alguém: "quando for grande, vendo o Citroen e compro um Nissan Qashqai". A pessoa silenciou-se, confusa. Eu própria enrubesci.

Isto tudo para me desculpar por não ter escrito atempadamente. É que tive mesmo um momento de reflexão que, felizmente, passou relativamente rápido (essas coisas da introspecção reservam-me a minha futura adultez. Que há-de vir...mas não para já).

Até lá, viva a criancice, a falta de autonomia e espírito crítico. Viva o Salsicha, que iniciei com 25 anos e permanece igual aos 30, exactamente com o mesmo registo diabólico de pós-adolescente!

Teoricamente, sou adulta. Na prática, estou no limbo dos infantes. Ninguém tem 30 anos...

terça-feira, agosto 17, 2010

Fábulas de Esopo: O Velho e a PT

Regressei hoje da Madeira (A viagem dará um post avulso, mas isto, tenho mesmo que partilhar):

Vim para o escritório e vou logo cumprimentar o meu colega ancião (86 anos, recordo)

- então Dr., já se entendeu com a PT por causa do telefone?

- Olhe, o telefone já está. Quanto à a internet recebi um fax a dizer (põe as lunetas e reproduz): " não é possível comunicar com o servidor DNS principal - n.º ..., o diagnóstico da rede enviou um ping (?) para o sistema anfitrião remoto mas não recebeu resposta".

Tira as lunetas. Lacrimeja um pouco e eu nem sei o que lhe hei-de dizer porque, objectivamente, nem percebi que tipo de comunicação linguística era aquela.

- então e o que vai fazer? - inquiri

- Estive a pensar e já decidi: não há a mínima esperança. Pensei primeiro em assomar à varada e lançar-me em salto olímpico de natação, com pirueta e tudo. Depois reflecti e achei que se calhar ia esparrilhar demasiado sangue e era capaz de não ser bonito.

...

- Mas não se preocupe Susana, tenho já aqui um frasco de cicuta - é simples e eficaz, em sobredose mata por paragem cardio-respiratória e eu já dei instruções, expressas, para não me reanimarem - aquietou-me .

Encostei-me à ombreira da porta. Ele, ar sofrido e extenuado, repetiu: "Filhos da puta destes gajos da PT".

segunda-feira, agosto 09, 2010

1 razão científica para nos dedicarmos à meditação taoista

Sexta feira, 14h tarde: Susana na sala do seu escritório, tranquila, ar sereno, incenso de menta . De repente, gritos tresloucados e absolutamente insanos, vindos do escritório de um dos advogados mais antigos, respeitados e educados (condecorado!) do país, com a provecta idade de 86 anos.

Levanto-me num ápice, imaginando um qualquer nigeriano de marreta em punho escalando o 3 .º andar tentando-lhe roubar o cofre e abro a porta de rompante.

O Dr., de telefone em punho, gritava das profundezas das entranhas para o interlcutor, cuja identidade só descobri 5 minutos depois.

Sucintamente, ele bramia o seguinte:

- VOCÊS, VOCÊS SÃO UMA CAMBADA DE MALFEITORES, UNS GRANDESSÍSSIMOS ASNOS!

-imperceptível- interlocutor

- META!!! META EM TRIUNAL ! PEÇO-LHE PELO AMOR DE DEUS, META PARA EU TER O PRAZER, O DELEITE DE VOS ESFREGAR NESSA CARA DE JUMENTOS A MINHA OPOSIÇÃO E PEDIR UMA INDEMNIZAÇÃO POR LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ. PELO AMOR DE DEUS, METAM-ME EM TRIBUNAL E JÁ HOJE!!

-imperceptível - interlocutor

-TA-LI-BANS!! VOCÊS SÃO UMA ASSOCIAÇÃO CRIMINOSA, SÃO UNS VERDADEIROS TALIBANS, E ISTO COM A DEVIDA VÉNIA AOS TALIBANS, QUE AO MENOS LUTAM POR UMA CAUSA! VOCÊS SÃO SIMPLESMENTE UM BANDO DE ASNOS E INCOMPETENTES, QUE COMETEM SEMPRE OS MESMOS ERROS SIMPLESMENTE PORQUE SÃO ESTÚPIDOS E BURROS QUE NEM PORTAS! CAMBADA DE BESTAS ANALFABETAS INQUALIFICÁVEIS E INOMINÁVEIS! BESTAS AO QUADRADO! Com licença.

E desligou o telefone.

Eu , amarelo-icterícia, estava em estado de choque encostada à ombreira da porta. Quando o velhote terminou os seus insultos, virou-se calmamente na minha direcção, limpou o suor da testa com o seu lenço de cambraia, sentou-se na poltrona, recuperou o fôlego e disse-me, olhos nos olhos:

" Susana, peço-lhe desculpa por este palavreado vulgar de carroceiro. Mas é que este filhos da puta DESTES GAJOS DA PT, é a 20ª vez que lhes digo que não quero um número de telefone novo, apenas quero portabilidade, há 6 mês que andamos nisto e ainda não me entenderam! Porra, desisto. Ainda bem que ando na meditação budista há 15 anos, senão ia lá e pessoalmente metia uma bomba naquela administração toda, ia Picoas, ia Entrecampos, ia tudo".

Voltei para a minha sala, lívida de pavor. Eu já sou sanguinolenta aos 30, imagine-se aos 80. Nunca em toda a minha vida tinha assistido a tamanha crise de nervos por causa de uma multinacional. Vou na próxima quarta feira (quando vier de férias weeeeeeeee), à minha 1ª aula de Tai Chi. Não quero morrer de enfarte do miocárdio antes dos 50.

sábado, agosto 07, 2010

Geronimooooo!

Após um interregno de um post por mês (velhos tempos de função pública: 2 post/dia em horário happy hour!!), 3 avisos:

- os posts deixam de ter moderação de comentários ( Santa Rita de Cássia ouviu-me, psicopata stalker foi finalmente internado e, mais importante, sem acesso à internet para me mimosear com as suas habituais ameaças/juras de amor idiótico-depressivas);

- ainda a meio de Agosto regressarei em força, com toda minha estupidez e verborreia habitual;

- tenho tanto para contar e tão pouca disciplina para o fazer mas, prometo, vou tentar fazer felizes aqueles que me lêem de manha, a tomar o pequeno almoço (david 4 ever); aqueles que me lêem porque gostam de se regozijar com a desgraça alheia (infinitos ao quadrado), enfim,

voltarei.

Salsicha Girl on fire!

P.S.- E casada com a bardajona de Alfama! Charcutaria refinada...

terça-feira, maio 25, 2010

Um Olhar contemporâneo sobre a Pornografia Hi-tec

Confrades, no seguimento de um comentário a um post, no qual se inquiria como rabisca um cego uma impugnação à Emel, partilho convosco o sguinte:

- o cego é um génio
- o génio tem um Acer Ferrari (cujo som de arranque é precisamente o do barulho da Ferrari F1 e que faz questão de em qualquer situação (principalmente julgamentos), colocar no volume máximo, matando de susto magistrados e funcionários que ficam sempre a tremer olhando para todos os lados)
- o cego tem dedos (e que sensibilidade digital...)
- o génio tecla no computador e ouve, orgulhoso, aquilo que escreveu
- o génio faz questão de impugnar as multinhas Emelescas com valorosos argumentos (ex: "A advocacia tem por finalidade a defesa do Interesse Público, de todo e qualquer cidadão, e não se compadece com pausas para verificar quantos minutos de estacionamento lhe restam a cada momento".)

Portanto:

o José rabisca, pinta e martela pregos como qualquer um de nós. Ouve a SicNotícias, lê a Visão em braille (com a diferença de que não vê os bonecos) e adora falar no Skipe com brasileiras muito dadas.

Mais:

Adoramos os dois aterrorizar as pessoas que descansam ao pé dos carros nas áreas de serviço das auto-estradas, respondendo o José em alto e bom som à minha pergunta do: "Guias tu ou guio eu?", com um: "Eu, claro, dá-me as chaves" , enquanto vai bengalando até descobrir a porta do condutor e se senta ao volante... (pavor genuíno na expressão dos automobilistas).

Enfim. Ele é como nós, com a excepção de que tem acesso livre a um programa informático que tem monitor adaptado, de sites muito, muito marotos mesmo, EM DETALHADO RELEVO.

Roam-se.

quarta-feira, abril 28, 2010

Duo Broa de Mel (Susana e José) Parte II

Eu e o José temos um cliente velhote, um trabalhador que pretende ser ressarcido pela entidade patronal, na ordem dos € 45.000.

Conversa telefónica entre o José mercenário-mor e a advogada da empresa, com a Susana super atenta a tirar apontamentos para aprender:

José: bla bla bla, queremos € 45.000;

advogada: bla bla bla bla , oferecemos € 2.500;

José: € 2,500 ao meu cliente? Já agora ó colega, com o devido respeito que é muito e merecido,

colega: delicadezas

José: por que é que não se salda a dívida com um penico de cerâmica de Sacavém a dizer "Lembrança do meu Baptismo"?

Larguei a caneta, tapei os ouvidos com as mãos, e cantarolei o mais baixo que consegui, de olhos completamente cerrados, de forma a não ouvir os impropérios do outro lado da linha (não fui feita para assistir à pancadaria moral das negociações).

Abri um olho. José ria.

- bolas, não sei como és capaz de dizer essas coisas a uma advogada...
- pois digo, € 2.500, isso é coisa que se ofereça? Por esse valor nem eu cantava, que sou ceguinho!


Escusado será dizer que seguiu tudo para tribunal.

Duo Broa de Mel (Susana e José) Parte I

Recebi € 400 de multas da Emel para pagar, por carta registada. Choraminguei-me ao meu colega de escritório José, o que é cego e muito pragmático:

- agora tenho que ir pagar esta m.., diz aqui que se não pagar voluntariamente tiram-me a carta de condução! - solucei eu

- Pagar à EMEL??!! Mas tu és doida? ISSO É UM DESPRESTÍGIO PARA TI ENQUANTO ADVOGADA!! - indignou-se o José

Meti as orelhitas para baixo.

- ainda por cima vem aí o Papa - acrescentou. -Perdão, indulto, amnistia, alguma coisa há-de calhar, disse ele, enquanto rabiscava uma impugnação manhosa pespegada de mentiras.

Não sei o que faria sem ele.

quarta-feira, março 31, 2010

Conchita e o Violador

Foi veiculado pela comunicação social que um certo violador levou uma surra de um skinnhead. Sorrio enternecida. É absolutamente amoroso como a realidade suplanta a ficção.

O skin jamais lhe poderia ter dado uma tareia. Por mais estranho que possa soar, confesso que ele até granjeia de alguma simpatia minha, uma vez que sempre se revelou um verdadeiro cavalheiro para com as minhas clientes transsexuais. A verdade é que quem lhe aplicou uns murritos só pode ter sido uma amiga dele, uma traveca de ideias fixas e punhos fortes.

Quando conheci esta "senhora" na prisão, sustive a respiração: tinha um rabo de silicone gigante, implantado décadas antes na Nicarágua por um talhante de vão de escada. Com o passar dos anos, o rabo descolou-se literalmente para os lados, pelo que as nádegas dela estavam em cima de cada anca e abanavam-se por todos os lados. Muito medo.

Quando a Conchita Cabeluda entrou na prisão, pensei que ia ser linchada numa questão de horas em pleno pátio.

Volvidas semanas, descobri que já tinha marido português na cela (casado e com filhos), aviava metade dos guineenses e era fonte de lei para todos, sem excepção, respeitada como ninguém (Já deixei de tentar perceber a população reclusa há muito tempo.)

Portanto:

- travecas medonhas mas líderes de opiniões em prisões masculinas? Estranho mas verdadeiro.
- skins violentos que mandam outros skin comprar tapetes felpudos para as travecas não andarem com os pés frios no chão da cela ? Estranho mas verdadeiro.
- violadores aterrados com skins, coladinhos às paredes que nem ratos sempre que se aproximam das celas deles, mas quando dão por isso estão mas é a levar com um murro no meio da cabeça de uma transsexual furiosa, com um rabo nicaraguense descosido dos lados?

Nem tenho palavras.

quarta-feira, março 10, 2010

Snowgirls 2011 - eu vou!

Fui ao snowgirls (gajas, snowboard, serra da estrela). Sempre soube que nem tenho preparação física para chegar com as mãos aos joelhos, quanto mais andar a arrastar uma prancha, serra acima serra abaixo dentro de umas botas de 4 kgs.

Eu sabia ao que ia, mas nunca suspeitei ser a piorzinha de 100 miúdas. Primeiro, todas tinham a vantagem de se conseguirem levantar sozinhas (É que isto de ser sempre içada por alguém, tipo a apanha da baleia, enfraquece-nos o orgulho e o corpo).

Depois tinham a preciosa vantagem de, apesar de não conseguirem ainda travar, conseguiam lançar-se para o chão e recomeçar tudo de novamente. Ora eu, por qualquer síndrome psíquico ainda desconhecido, tinha PAVOR de me atirar para o chão, sempre pensando que se o fizesse, e com os meus delicados pés presos à prancha, o osso da tíbia da perna esquerda ia para um lado e o fémur da direita para o outro. Nada bonito de se imaginar.

1ª descida:

Susana é içada pelo monitor,
coloca-se desportivamente de lado, preparando-se para surfar na neve ,
inicia a descida,
ganha balanço,
começa a achar que a descida está a ser vertiginosa de mais para a sua destreza física de foca,
distingue ao longe um grupo sentado de costas na neve, ouvindo atentamente um monitor.
imagina que se a prancha passar pelo meio deles é capaz de ainda decepar 5 ou 6,
pensa em atirar-se para o lado,
rapidamente afasta essa perigosa ideia uma vez que tem outra melhor,
projecta a voz e grita em plenos pulmões, ouvindo-se em toda a cadeia montanhosa: SAIAAAAAAAM DA FRENTEEEEEEEE!
o grupo olha para trás e lança-se em várias direcções,
Susana passa por entre eles, alguém a agarra pelo colete e ela cai enterrando-se na neve de cabeça para baixo,
Ouve vozes distantes,
Perguntam-lhe: "como é que te chamas?"
Ela desenterra a cabeça, atordoada,
"Susana" - responde baixinho (imaginando que a vão expulsar da estância),
"SUSANA, ÉS A MAIOR!" - gritam histéricos, enquanto batem palmas e pedem para tirar fotos, situação à qual acede bastante orgulhosa.

Quase tão emocionante quanto a queda da mota. Dei cabo de um joelho mas já marquei fisioterapia. E para o ano há mais.

domingo, fevereiro 21, 2010

Finalmente, caso-me...

É com os olhos rasos de lágrimas e um nó na garganta que anuncio que vou-me casar no próximo mês de Março.

29 anos de vida

25 anos que deixei de ser filha única

19 anos de escola

15 anos desde o meu primeiro beijo

9 anos depois do meu primeiro desgosto de amor


e finalmente vou-me casar!!!!!!!!!!!! - em representação de um homem que está preso em S. Paulo por assalto à mão armada a cumprir 12 anos de cadeia. Uma jóia de pessoa, naturalmente.

A noiva com a qual vou contrair matrimónio em representação desse patife vive em Alfama, berra que nem uma doida, assoa-se às mangas, escreve o nome dela com erros ortográficos, tem um rabo que parecem dois e é tremendamente parva pelo que não lê de certeza este blogue para me vir pedir contas das chibadelas!

Desumanidades medievais à parte, preferia passar uma década numa penitenciária brasileira superlotada de tuberculosos do que casar com aquela gaja e vir viver com ela para Portugal.

Vai ser um casamento muito bonito.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

O voo picado da Linguiça (eu)

Ainda não postei aqui que o ano passado tive a insólita ideia de comprar um motociclo.

A ideia era conduzir por Lisboa serpenteando de cabelo ao vento por entre os carros, cruzando avenidas, e superando mil obstáculos. Ora o confronto com a realidade foi duro. A verdade é que só sabia zizaguear estrada fora, tentando travar com pés e gritando pela minha mãe com ar de louca esgazeada.

Sempre que conseguia travar (geralmente com a língua dependurada e as solas dos sapatos a fumegar), ficava imóvel uns segundos maldizendo a minha pessoa e as minhas estúpidas ideias, jurando para nunca mais.

Ora este sábado tinha a minha primeira e verdadeira experiência motard. Cabo da Roca e marina de Oeiras. E aí vai Salsicha, cabelo encrespinhado no capacete, nariz a pingar estalactite e olhos rasos de lágrimas de emoção e stress, a tentar superar-se e , afinal, não morrer.

A5, ic 19, Cril, Crel, marginal, fiz tudo!!! Naturalmente sempre escoltada pelos simpáticos motards, dois à frente, dois atrás - ( a 35/h, tenho a leve sensação que nunca mais vou saber destes passeios).

Fiquei mesmo feliz e orgulhosa da minha competência técnica. Até chegar à casa dos meus pais e espetar-me dolorosamente numa curva a 10 metros da garagem.

Levantei-me num ápice a fim de evitar vergonhas, sacudi o blusão e calcei novamente os ténis (percebo agora a utilidade das botas). Depois levantei a mota, observei quase que comovida os estragos no alcatrão (sim, leram bem, no alcatrão) e fui a coxear para casa merdalejando a minha vida.

À distância de 3 dias, a moral desta minha primeira queda? Venham mais (preferencialmente de colete protector e cotoveleiras), sinto-me outra, O MUNDO É MEU!

sábado, janeiro 23, 2010

História não-profissional mas que invarialmente mete ladrões

Ontem, sexta-feira, um idiota de um ladrão assaltou-me o carro que estava estacionado mesmo junto à PJ. Fora o pormenor do objecto furtado (o computador portátil do meu colega e amigo cego José), a situação foi de uma intensa e giríssima emoção.


1.º saimos os 2 (eu e o José) das instalações da PJ para regressarmos à viatura;
2.º regressámos e observámos (mais eu) que a pasta do portátil que estava brilhantemente escondida debaixo do banco do condutor, está agora vazia em cima do banco;
3.º lançámos impropérios contra os cabrões dos ladrões e dos advogados deles e regressámos indignados à Pj;
4.º Amena cavaqueira com os inspectores do piquete que se queixam também dos cabrões dos ladrões e dos advogados deles;
5.º José tem a peregrina ideia de dizer que eu fui a advogada do ladrão que assaltou a PJ;
6.º Silêncio inicial mas, para meu alívio, risota pegada;
7.º Eu, não querendo ficar atrás, tenho a peregrina ideia de contar que o José foi advogado de um ladrão que limpou 50 euros ao inspector que o tinha detido dizendo-lhe "se eu já não almoço, tu também não";
8.º Risada no piso inteiro: inspectores do piquete, seguranças e mulheres da limpeza.

Até que..

9.º Dizem-me que o meu veículo vai ser submetido a exame lofoscópico e de vestígios biológicos;
10.º Fico mortificada de vergonha só de pensar nos vestígios que devem estar escondidos naqueles bancos, mas não tenho alternativa senão entregar-lhes as chaves;
11.º Informam-me que encontraram impressões digitais muito nítidas, no vidro da frente na parte de dentro;
13.º Rezo interiormente para que não sejam as minhas patinhas nalguma noite de amor tresloucado;
14.º Tiram-me as impressões digitais, não coincidem. (alívio)

Às nove da noite voltamos finalmente para o carro, eis quando o José diz-me que o ladrão é muito estúpido, não levou o objecto mais valioso...

- Então? - perguntei eu
- A minha bengala de infra-vermelhos que vibra e fala. Vale mais de 1500€!

Pensámos ao mesmo tempo no mercado negro dos amblíopes e rimos noite fora.

sábado, janeiro 16, 2010

A Vingança (Parte VII)

(Nota de rodapé: a partir de hoje vou escrever todas as semanas. Mesmo.)

Durante duas décadas e meia, sofri horrores na mão de um irmão mais novo absolutamente doido. Imaginem um miúdo hiperactivo, no sentido clínico da coisa, que:


- em todos os transportes rodoviários e edifícios públicos do país, se lançava de pernas e braços abertos para o chão e ladrava selvaticamente, com olhos canídeos e quase que juro que conseguia fingir que espumava da boca;

- sempre que me via de namorado novo na escola (e, meu Deus, se fui impúdica), exigia quinhentos paus para se manter calado na hora de jantar, e mesmo assim, durante esta, com ar matreiro puxava a manga do nosso progenitor e dizia com ar manhoso: "sabes pai..." , apenas para me aterrorizar;

- nas colónias de férias dizia a toda a gente que eu tinha piolhos e carraças;

- em plena missa lançava arrotos monumentais e olhava para mim de lado, com ar surpreendido;

- atirava laranjas à cabeça dos traseuntes do 1.º andar e, se alguém fosse a casa pedir explicações, abria a porta com um aspecto transfigurado, de termómetro na boca a espirrar para um lenço.

Mas, anos depois, teve a paga que merecia. Foi trabalhar para a Disney em Londres. "Mas isso é bom", dizem vocês, "a fazer o quê?"
...

A FAZER JOGOS DE COMPUTADOR BEM MARICONÇOS DO URSINHO WINNIE THE POO !!




Portanto, o meu irmão trabalha com um mamífero da família dos ursídeos de pelagem amarela que veste um sensual top vermelho e está sempre rodeado dos seus amigos (e vive com o Piglet).


Sinto-me vingada.