domingo, outubro 19, 2008

A Hérnia: O Início

Vou-vos contar uma história linda na minha vida.

Num belo fim de tarde no verão de 1992, tinha eu 12 anos, estava a flirtar com um rapaz vizinho da minha tia num café lá da rua. Entretanto, tive a brilhante ideia de me sentar na esplanada - não numa cadeira -, mas sim num pneu coberto de cimento com um cilindro de ferro, que servia habitualmente para encaixar o chapéu-de-sol da esplanada.

Acontece que o chapéu estava guardado na despensa e eu, armada em boa, resolvi sentar-me com grande atitude em cima desse pneu sem reparar no cilindro de ferro. Não consigo traduzir por palavras nem sequer expressões onomatopeicas, a dor excruciante que senti quando o meu cóxcis se rachou naquele ferro. Foi violento.

E violento foi também o facto de eu descobrir, com essa idade, que com o cóxcis fendido e todo o meu ser a entrar em shut down, eu não soltei um pio nem demonstrei a mais ligeira perturbação...

Pelo contrário, para não dar o braço a torcer e anunciar ao mundo que tinha o osso do rabo estilhaçado, eu aguentei UMA TARDE INTEIRA no café,lançando piadas e rindo-me das suas histórias, sem ele jamais suspeitar que aquele miuda que ali estava, deveria era ser imediatamente imobilizada numa maca a aguardar cirurgia.

Contas feitas, esse flirtzinho aos 12 anos rendeu-me uma deformação no último disco da coluna vertebral que por sua vez originou uma hérnia discal que, pasme-se, vive comigo há 14 anos... Foi claramente um flirt mal jogado,

e que nem sequer valeu a pena, uma vez que nesse mesmo ano ele foi viver para a terra dos avós em Vilarinho da Castanheira (nunca mais me esqueço) e quando o reencontrei há uns três anos, verifiquei desolada que ele tinha uns quantos dentes podres e dava-me, na melhor das hipóteses, pelo meu umbigo.

Concluo assim que, em situações embaraçosas que envolvam os conceitos de "rabo" , "ferro" e "fractura-luxação coccígea", ponderem os prós e contras de uma eventual chamada para a Emergência Médica.

- Caso optem pela chamada telefónica, adianto que podem poupar muitas dores de traseiro e muitos e muitos euros em analgésicos narcóticos e TACs sacro-lombares.

- Caso optem pela total discrição e por um resto de tarde a flirtar ( abstraindo portanto da Experiência de Quase-Morte de rachar o ânus até ao último ossinho), certifiquem-se apenas que esse rapaz:

1.º - vai continuar a viver na vossa comarca ou, caso tenha mesmo que se mudar, não vá parar ao município de Carrazeda de Ansiães ;

2.º - tem hábitos de higiene oral senão diários, pelo menos regulares;

3.º -metricamente falando, tem grandes probabilidades de, na fase pós-puberdade, não se quedar nuns horripilantes 1.62 .

Assinado: portadora de hérnia discal mais burra de todos os tempos.