sexta-feira, junho 20, 2008

Uma manhã no Linhó

Tendo conseguido mais uma cliente, fui conversar melhor com ela ao estabelecimento prisional. A Verónica tinha 28 anos, um companheiro mas não tinha filhos. Estava acusada de dois acrimes de roubo e confessou-se profundamente arrependida. "Foi a droga, desgraçou-me" - lamentou-se Verónica, enquanto limpava as lágrimas de uma dor sincera. "quando sair daqui...só quero endireitar a minha vida".

Fitei-a um pouco desconcertada. É que a Verónica era um preto musculado chamado Vítor, com quase dois metros e só com um dente da frente. Usava um toutiço repuxado no meio duma cabeça feia e pintava as beiças de carmim. Usava ainda um top preto decotado (com as alcinhas brancas do soutien propositadamente à mostra), não obstante a ausência absoluta e confrangedora de quaisquer mamas. As calças eram brancas,daquelas de gingar na capoeira, num elastano fininho que deixava transparecer o montinho dos testículos e uma pichota pouco envergonhada.

"Isto não é vida para ninguém.." - repetiu laconicamente Verónica, enquanto eu tentava desviar as vistas daquele único dente que o angolano tinha na gengiva de cima. "Claro Verónica, isto não é vida". Tradução: se queres ser uns transsexual decente arranja os dentes da frente e não uses calças justas enquanto tiveres pila de africano.

Não sei o que assustou mais o empregado da loja roubada, se a ordem para meter os 900 euros no saco, se a mão do homem que empunhava o revólver ter as unhas pintadas de rosa fushia com uns cristaizinhos embutidos. Espero que o seguro dele cubra o stress pós-traumático.

quarta-feira, junho 11, 2008

A insustentável leveza de ser gay

Descobri eu por estes dias que um amigo meu (e quando digo amigo, é na mais plena acepção verbalística da coisa), é homossexual praticante.

Reparem, o choque não reside no facto de ele se deleitar nos braços peludos de outro homem. (confesso que as práticas sexuais entre duas pilas amigas deixam-me profundamente intrigada, mas nada que me tire o sono).

Ora o choque desta revelação residiu então, não no facto deste meu amigo ser, enfim, boiola, mas sim no facto de ele ter tido um terror puro de me contar devido... ao meu blogue....Pois é, parece que no meio de tantas expressões pouco valorosas para os homossexuais, que pelos vistos eu inadvertidamente (hihihi) escrevi, acabei por desincentivar qualquer ser homoafectivo a desabafar comigo.

Ora, eu sempre defendi o carácter lúdico e pobretanamente didáctico do salsicha. Sei que escrever expressões semelhantes a agasalha o croquete e abafador de costeletas mostram-se pouco motivantes para uma partilha homossexual mais profunda.

Efectivamente vocês amam-se através dos rabos, e essa situação leva-me inevitavelmente a comentários mais porcalhotes, mas sempre, sempre, na brincadeira e sem qualquer maldade aqui da Su.

Um beijo grande para todos os cuecão de couro meus amigos e que têm medo de mim ( - medo de mim? como querem que não vos chame mariquinhas?!) Sabem bem que a porta estará sempre aberta. A da frente.