sábado, dezembro 13, 2008

Bimby 4ever

Quando eu era mais nova, desde os meus 14 anos, esta minha mãe xeiretava tudo o que fosse possível acerca da minha privada. Suponho que fosse para proteger as minhas virtudes e dotes de donzela imaculada, certo é que, qualquer que tenha sido a sua motivaçao, a minha mãe falhou, e muito, embora eu não possa acusá-la de não se ter esforçado:

-Nos acampamentos da catequese, lá estava ela vestida de caqui escondida atrás das sebes;
- nas míticas raves à tarde no liceu, lá estava ela de auscultadores a um canto a fingir que metia som;
- nas festas de anos, fazia sempre questão de entrar com um lanchinho enquanto jogávamos ao "quarto escuro", tendo sempre conseguido estragar todos os beijos com língua, apalpanços de rabos e roçares de maminhas que se proporcionaram na minha adolescência.

Enfim, todo um conjunto de situações que me faziam passar vergonhas e me sugestionaram que o que a minha mãe queria é que eu ficasse a viver com ela para todo o sempre, e, obviamente, muito virgem e burra. No entanto, este meu entendimento tem vindo a ser posto em causa, uma vez que descobri que, neste momento, o que a minha mãe quer é ver-me da casa para fora.

Começou subtilmente, com umas conversas acerca das minhas primas mais novas, que já sairam do lar, desfiando ainda o rol das filhas das amigas que já se haviam emancipado. Depois, tornou-se mais explícita, e eu fui ouvindo e calando. Mas, o mês passado, o golpe foi muito baixo.

A minha mãe chegou a casa com uma Bimby debaixo do braço. Fiquei louca de alegria, quase que perdi os sentidos com a emoção. E ela "Susana, isto fica para ti, mas só abres quando tiveres na tua casa nova".

Fiquei confusa.

"Mas mãe, eu vivo contigo".
"Eu sei." - vincou ela, dando meia-volta com o meu tesouro, escondendo-o algures nas profundidades da garagem.

Ainda só toquei na Bimby uma vez. Sonho com ela todos os dias. Já comecei a ver casas em Algés.

terça-feira, dezembro 02, 2008

O espectro do Banco Alimentar

Não sou de intrigas, mas duas horas de voluntariado no Banco Alimentar num supermercado equivalem , em termos de exaustão emocional, a um mês de ansiedade esperando pela conta da PT e a tareia que se segue (o horror inominável, especialmente quando se tem o namorado em Angola).

Tudo no Banco Alimentar me irrita.


- quer contribuir? - pergunto eu, sorriso nos lábios, linda e lampeirinha que nem um anjo
- ah a minha mãe já deu esta manhã.

( e então minha p..., o que é que eu tenho a ver com isso? e tu, não tens mãozinhas para dar aos pobres, o que é que a tua mãe tem a ver com o assunto ? E ontem que eu saiba não é hoje minha grande porca suína) - pensei eu, com um sorriso nos lábios após responder - "Concerteza, obrigada!"

- ah, já dei à bocado. (com alguma imaginação ou vergonha na cara, alguns inventam um qualquer nome de cadeia de supermercados)
(e então meus grandas sumíticos socialistas, custa muito oferecer uma segunda vez é?? E eu lá tenho cara de parva para acharem que me fico com essa resposta e continuamos todos amigos, como se nada fosse e o mundo continuasse a girar?!)

E uma coisa me intriga: fico sinceramente fula quando as pessoas não respondem ao apelo alimentar. Fico, confesso. Apetece-me desferir pontapés na cabeça, injuriá-los até à quinta casa, faço um esforço danado para não demonstrar a ira crescente que me assola.

Mas esta minha fúria nada se compara quando um "não" é proferido por um gajo do ginásio, daqueles armários quadrados todos musculados e com gel espetado naquelas cabeças ocas.
Bule-me sinceramente com os nervos. Todo o meu ser se eriça e apetece-me quebrar ossos.
Deve ter uma explicação científica, mas de momento nada me ocorre. Odeio simplesmente gajos do ginásio que não levam o saquinho do Banco Alimentar.


Portanto, tudo bons sentimentos nesta linda iniciativa de acçõo social. E vocês, contribuiram?

segunda-feira, novembro 24, 2008

Podre parte VIII

Caríssimos descobri, pelos piores meios, que os ortopedistas que consultamos pela primeira vez não se limitam a analisar os nossos raios-x e ressonâncias magnéticas. Não. No mês passado, um ortopedista recusou a sacola dos exames que eu lhe estendia e pediu-me que me despisse.

Após um breve hesitação, acedi e fiquei apenas com a cueca da promoção da Calzedonia a 1 euro com o sugestivo dizer: "follow me" estampado a letras vermelhas bem no meio do rabo - (realmente o barato sai caro e a dignidade não tem preço).

Mas triste foi quando o ortopedista me pediu que tocasse com os dedos das mãos no chão, enquanto ele, à rectaguarda, avaliava a decrepitude da minha actuação:

Eu jovem viçosa no fulgor dos seus 28 anos, tentava chegar com os braços baloiçantes aos dedinhos dos pés, sendo que o máximo que consegui foi tocar e de relance no ínicio duma tíbia,

e, atenção, isto com os joelhos completamente entortados para dentro. Senti-me tão graciosa quanto um canguru a recolher bolotas na estrada, mas enquanto o marsápio tem pêlo, eu tinha apenas umas cuecas enfiadas pelo rabo adentro.

Suspirei de alívio quando ele me disse para me levantar, mas fiquei aterrorizada quando me mandou deitar na maca e içar o joelho ao nariz. Não pela parte de que obviamente a minha perna esticada aponta apenas e unicamente para o tecto, mas sim pela já habitual dicotomia mulher/depilação-não tenho tempo-fica para amanhã.

Bom, saí daquela Cuf como se tivesse levado uma tareia. Derrotada, humilhada e oficialmente podre a cair de caquética.Não sei como é possível fazer as aulas de power jump, com os joelhos a bater nas beiças, mas certo é que as faço e todinhas até ao fim.

Remeto-me às sábias palavras do padre Alberto, pároco da minha juventude que calava sempre as minhas questões difíceis (quem sou, donde venho, que Jesus espera de mim, porque é que o rapaz da escola de quem eu gosto se chama Ovídio Pequeno) com um encolher de ombros e um sumido"mistérios da fé..." e que me fazia bulir com os meus nervos adolescentes.

Tinhas razão Beto, tinhas razão. Mistérios da Fé. Eu sou a prova viva disso.

domingo, outubro 19, 2008

A Hérnia: O Início

Vou-vos contar uma história linda na minha vida.

Num belo fim de tarde no verão de 1992, tinha eu 12 anos, estava a flirtar com um rapaz vizinho da minha tia num café lá da rua. Entretanto, tive a brilhante ideia de me sentar na esplanada - não numa cadeira -, mas sim num pneu coberto de cimento com um cilindro de ferro, que servia habitualmente para encaixar o chapéu-de-sol da esplanada.

Acontece que o chapéu estava guardado na despensa e eu, armada em boa, resolvi sentar-me com grande atitude em cima desse pneu sem reparar no cilindro de ferro. Não consigo traduzir por palavras nem sequer expressões onomatopeicas, a dor excruciante que senti quando o meu cóxcis se rachou naquele ferro. Foi violento.

E violento foi também o facto de eu descobrir, com essa idade, que com o cóxcis fendido e todo o meu ser a entrar em shut down, eu não soltei um pio nem demonstrei a mais ligeira perturbação...

Pelo contrário, para não dar o braço a torcer e anunciar ao mundo que tinha o osso do rabo estilhaçado, eu aguentei UMA TARDE INTEIRA no café,lançando piadas e rindo-me das suas histórias, sem ele jamais suspeitar que aquele miuda que ali estava, deveria era ser imediatamente imobilizada numa maca a aguardar cirurgia.

Contas feitas, esse flirtzinho aos 12 anos rendeu-me uma deformação no último disco da coluna vertebral que por sua vez originou uma hérnia discal que, pasme-se, vive comigo há 14 anos... Foi claramente um flirt mal jogado,

e que nem sequer valeu a pena, uma vez que nesse mesmo ano ele foi viver para a terra dos avós em Vilarinho da Castanheira (nunca mais me esqueço) e quando o reencontrei há uns três anos, verifiquei desolada que ele tinha uns quantos dentes podres e dava-me, na melhor das hipóteses, pelo meu umbigo.

Concluo assim que, em situações embaraçosas que envolvam os conceitos de "rabo" , "ferro" e "fractura-luxação coccígea", ponderem os prós e contras de uma eventual chamada para a Emergência Médica.

- Caso optem pela chamada telefónica, adianto que podem poupar muitas dores de traseiro e muitos e muitos euros em analgésicos narcóticos e TACs sacro-lombares.

- Caso optem pela total discrição e por um resto de tarde a flirtar ( abstraindo portanto da Experiência de Quase-Morte de rachar o ânus até ao último ossinho), certifiquem-se apenas que esse rapaz:

1.º - vai continuar a viver na vossa comarca ou, caso tenha mesmo que se mudar, não vá parar ao município de Carrazeda de Ansiães ;

2.º - tem hábitos de higiene oral senão diários, pelo menos regulares;

3.º -metricamente falando, tem grandes probabilidades de, na fase pós-puberdade, não se quedar nuns horripilantes 1.62 .

Assinado: portadora de hérnia discal mais burra de todos os tempos.

quinta-feira, setembro 04, 2008

Vai mas é

Tenho um amigo, o Pedro, que gosta imoderadamente dos sketches do Nuno Lopes nos Contemporâneos, principalmente dos "vai mas é trabalhar". Foi assim que eu, que não vejo muita televisão sem ser axn, ia ouvindo as façanhas do Nuno Lopes (que sempre achei uma sexyness total) e, um bocado à deriva, tomava a nota mental de que quando pudesse tinha que ir ver isso no youtube.

Ora no fim de semana passado fui descansar para a terra dos meus avós. Note-se que naquela aldeia só existem eucaliptos, cagalhotas de cabra e sete velhos. E pelos vistos, existe também o Nuno Lopes dos Contemporâneos.

Simpático, conversador e interessado. Medo. É que eu, sempre com tanto paleio para tudo, especialmente o que não interessa, não consegui articular ideias uma vez que nunca tinha visto o programa e ao tentar recordar desesperadamente as actuações do Pedro, apenas o vazio se me assomava.

Ao invés, o analfabeto do meu irmão apalastrava demoradamente sobre os Contemporâneos e o Programa da Maria (Rueff), tendo ainda desbobinado o sketche do anão praticamente por ordem alfabética. O Nuno Lopes ria-se abertamente e eu, ansiosa, olhava para um e para outro qual bola de ping-pong e tentava meter a colherada sempre que podia. O que, em abono da verdade, não aconteceu.

Então quando começaram os dois a discutir cinema sueco e a mencionar nomes que eu nem consigo aqui soletrar, dei-me finalmente por vencida e voltei a sentar-me na soleira da porta a apanhar sol. Passaram o resto da semana juntos, em passeatas e festinhas de aldeia sempre em aceso diálogo. Sim, já se alvitrou que eles seriam gays, mas acreditem, não sou uma entendida mas aquele actor parece-me bem macho.

O estranho disto nem foi bem olhar para a direita e ver uma horta com nabiças e repolhos, e olhar para a esquerda e ver o Nuno Lopes, deitado na minha espreguiçadeira a conversar em tronco nu.

O estranho foi saber que aquele que é considerado um dos melhores actores de teatro, cinema e televisão em Portugal, contratado pela Rede Globo e galardoado nos globos de ouro, no festival de cinema luso-brasileiro e no festival de cinema de berlim, achou que, num qualquer período da vida dele, conversar com o meu irmão seria bem mais proveitoso do que falar comigo! Francamente, o mundo está ou não perdido?

Spooky

sexta-feira, agosto 29, 2008

Guiada pela mão..

Tenho uma grande amiga minha que, não obstante ser muito iluminada para a realidade da vida, é muito séria e crê piamente que a masturbação é pecado e que Jesus recrimina. É bonita, sexy, inteligente e bem-formada, mas devido a qualquer perturbação congénita descompensou nalgum lado e tudo a que lhe cheire a clítoris fá-la benzer-se com uma mão e tapar-se pudicamente com a outra (sem, no entanto, se tocar).

Esta minha amiga, por volta do mês de Maio disse-me que me ia contar algo: ( a tremer de antecipação, pensei que ela fosse finalmente contar-me que se tinha "entretido" ! - o que me tornava vitoriosa após todas as discussões que já tivémos e que acabaram, invariavelmente, comigo roxa de nervos prestes a dar-lhe um pontapé na fuça para ver se ela se mancava para a vida )

e, com o seu ar sério e porte seguro explicou-me:

"Susana, já decidi que até o mais tardar até Setembro, se Deus quiser, vou sair do emprego onde estou, sem ferir quaisquer susceptibilidades dos meus patrões, vou arranjar um excelente trabalho, bem remunerado, com seguro médico e parque de estacionamento." Ri-me.


Ora esta minha amiga, que trabalhava com uns miudos ranhosos de 10 anos num pré-fabricado de lata num monte aqui perto,


viu o seu contrato a termo ser rescindido no dia 27 de Agosto e soube hoje, dia 29, que entrou num dos maiores grupos construtores portugueses, com seguro médico, lugar no parque de estacionamento e a ganhar dolorosamente bem. Vai começar a trabalhar 2ª feira, dia 1 de Setembro.


Senhor Jesus: peço mil desculpas pela "situação" de terça-feira à noite. Estava sozinha, desocupada.. Sei que actualmente estou demasiado conspurcada para Te pedir o quer que seja, mas espero que compreendas que não vivo perto do Renato e o meu corpo por vezes ressente-se. E se eu Te disser que não volto a pecar?


...sim, já sei. Inoportuna Omnipresência. :(

sexta-feira, julho 18, 2008

Idiota-Mor

Sábado à noite, festa de aniversário de um amigo que comemorava a entrada nos 30 (medo).

Depois do jantar, malta sentada no chão à volta do perímetro da sala pronta para alinhar num jogo chamado "como é o teu?". Basicamente, uma pessoa sai fora da sala enquanto as outras esolhem uma parte do corpo para descrever. Quando essa pessoa regressa, tem que questionar os presentes a fim de descobrir que parte anatómica foi afinal escolhida.

Sai o Renato. Após saturada discussão, escolhemos o "céu da boca". Ele regressa à sala e começa a perguntar, um a um "como é o teu"?

Ouvem-se variadas e maliciosas respostas: é húmido, vermelho, escorregadio, sedoso, faz sons, molhado, entre outros adjectivos.

Chega à minha vez e eu, a transbordar de amor digo: "o meu...deseja-te" e semi-cerrei os olhos, imaginando os longos beijos que já trocámos, aquele palato maravilhoso que tão deliciosamente acolhe o meu!

Então ele fica meio parado, com um ar distante, provavelmente ponderando as respostas já dadas, e arrisca:

"o ânus?"

Toda a sala explodiu em gargalhada. "O ÂNUS??"-gritei eu, apanhada completamente desprevenida com os olhos sanguinários trucidando-o de alto a baixo.

Chamei-lhe todos os nomes possíveis, enquanto ele tentava desesperadamente explicar-se, dizendo que estava distraído a pensar nos outros comentários e tinha acabado por nem ouvir a minha resposta.

Balanço da noite:

- Susana, morta de vergonha e note-se, sem qualquer proveito;
- Renato, o acidental herói sodomizador.

Só lhe voltei a dirigir palavra anteontem porque afinal, vamos hoje de FÉRIAS! Mesmo assim ele que venha aninhar-se para os meus lados que eu logo lhe dou a distracção...

saudações vereneantes para todos.

sexta-feira, julho 11, 2008

álvaro de campos

Ia eu a descer o Chiado esta semana, quando vejo um grupinho do que me pareceu serem à distância 3 amigos amish. Vestiam paletó preto, com um chapéu de cartola também preto, e apoiavam-se numa bengala, mas como estavam de costas não consegui visualizá-los melhor.

Pouco curiosa como sou, cheguei-me o mais possível junto a eles, quando, de repente um se virou e chocou de lado contra mim. Surpreendida, verifico que afinal não eram 3 amish nem nada que se assemelhasse, mas sim 3 Fernandos Pessoa de bigodes e tudo!

Acontece que aquele que chocou contra mim ficou a fitar-me sem desviar os olhos e eu, nervosa, temendo estar na presença de 3 tresloucados fugidos do Júlio, continuei a descer a Rua Nova do Almada como se nada fosse ( poetas mortos em triplicado? todos os dias).

Para minha imensa vergonha, vira-se o 1.º Fernando Pessoa e berra aos meus ouvidos: "Ó MINHA DOCE OFÉLIA!". E os outros todos seguem-se-lhe também a berrar e declamam estrofes inteiras. Obviamente que eu não fiquei para as ouvir, já que fugi chiado abaixo à velocidade estonteante a que as minhas socas mo permitiam.

Para meu infortúnio e grande gáudio dos turistas, aqueles 3 doidos desceram a rua atrás de mim sempre a declamar em grande estardalhaço até que eu, num golpe de génio, me escondo na Caixa Geral de Depósitos e eles continuam em direcção ao Terreiro do Paço.

Devia estar profundamente branca, porque o segurança do banco chega-se ao pé de mim a rir-se e diz" a semana passada eram o Gil Vicente! Isto são iniciativas malucas da Câmara".

No meio do azar ainda tive sorte. Gil Vicente? 3 homens de collants e calções de balão atrás a perseguirem-me enquanto declamavam "o monólogo do vaqueiro" ia ser demais para o meu pobre coração.

E no fim, fica a dúvida, seria o próprio ou heterónimo?

segunda-feira, julho 07, 2008

Ser criança é...

No fim de semana passado, a nossa associação dos miúdos participou numa corrida de carrinhos de rolamentos. O nosso carro era um portento, consistente numa tábua de um roupeiro, com duas cordas a fazer de volante e um pau colado a uma roda de borracha a servir de travão (- somos assim, sempre preocupados com os mínimos pormenores).

A corrida foi numa rua íngreme aqui da terra, cortada ao trânsito e repleta de pessoas e fardos de palha nas valetas. E eis que ela se inicia.O nosso carrinho foi logo o primeiro. Começou muito bem, com uma saída numa bisga incalculável.

O nosso condutor era um dos miúdos, um pré-adolescente de 11 anos - que tinha ameçado de morte todos os colegas da associação caso não fosse ele a conduzir a viatura - que sorria vitorioso enquanto a sua carapinha esvoaçava por fora do capacete.

Desolador foi depois, quando a meio da rua o carro perde a força e fica por ali a marinar ao pé de uns caixote do lixo.

As pessoas que antes aplaudiam, riam-se agora de dedo em riste. A criança, envergonhada, choramingava agarrado ao pau do travão, tentando pateticamente balancear de novo o carrinho com os seus ténis mais que rotos.

Entretanto os outros miúdos do grupo, com o instinto vingativo ao rubro resolvem aplicar-lhe um vigoroso pontapé nas costas e a criança, morta de susto com as mãozitas a raspar no asfalto lança-se novamente na corrida e acaba por terminá-la em tempo recorde.

Ficámos em último lugar, desclassificados por batotice.O cenário? Enternecedor, com o condutor choroso a soprar nas mãos esfoladas e os outros miúdos todos a cuspir asneiras em crioulo.

é que é mesmo isto, afinal, a beleza de ser criança...
Saudades, muitas.

sexta-feira, junho 20, 2008

Uma manhã no Linhó

Tendo conseguido mais uma cliente, fui conversar melhor com ela ao estabelecimento prisional. A Verónica tinha 28 anos, um companheiro mas não tinha filhos. Estava acusada de dois acrimes de roubo e confessou-se profundamente arrependida. "Foi a droga, desgraçou-me" - lamentou-se Verónica, enquanto limpava as lágrimas de uma dor sincera. "quando sair daqui...só quero endireitar a minha vida".

Fitei-a um pouco desconcertada. É que a Verónica era um preto musculado chamado Vítor, com quase dois metros e só com um dente da frente. Usava um toutiço repuxado no meio duma cabeça feia e pintava as beiças de carmim. Usava ainda um top preto decotado (com as alcinhas brancas do soutien propositadamente à mostra), não obstante a ausência absoluta e confrangedora de quaisquer mamas. As calças eram brancas,daquelas de gingar na capoeira, num elastano fininho que deixava transparecer o montinho dos testículos e uma pichota pouco envergonhada.

"Isto não é vida para ninguém.." - repetiu laconicamente Verónica, enquanto eu tentava desviar as vistas daquele único dente que o angolano tinha na gengiva de cima. "Claro Verónica, isto não é vida". Tradução: se queres ser uns transsexual decente arranja os dentes da frente e não uses calças justas enquanto tiveres pila de africano.

Não sei o que assustou mais o empregado da loja roubada, se a ordem para meter os 900 euros no saco, se a mão do homem que empunhava o revólver ter as unhas pintadas de rosa fushia com uns cristaizinhos embutidos. Espero que o seguro dele cubra o stress pós-traumático.

quarta-feira, junho 11, 2008

A insustentável leveza de ser gay

Descobri eu por estes dias que um amigo meu (e quando digo amigo, é na mais plena acepção verbalística da coisa), é homossexual praticante.

Reparem, o choque não reside no facto de ele se deleitar nos braços peludos de outro homem. (confesso que as práticas sexuais entre duas pilas amigas deixam-me profundamente intrigada, mas nada que me tire o sono).

Ora o choque desta revelação residiu então, não no facto deste meu amigo ser, enfim, boiola, mas sim no facto de ele ter tido um terror puro de me contar devido... ao meu blogue....Pois é, parece que no meio de tantas expressões pouco valorosas para os homossexuais, que pelos vistos eu inadvertidamente (hihihi) escrevi, acabei por desincentivar qualquer ser homoafectivo a desabafar comigo.

Ora, eu sempre defendi o carácter lúdico e pobretanamente didáctico do salsicha. Sei que escrever expressões semelhantes a agasalha o croquete e abafador de costeletas mostram-se pouco motivantes para uma partilha homossexual mais profunda.

Efectivamente vocês amam-se através dos rabos, e essa situação leva-me inevitavelmente a comentários mais porcalhotes, mas sempre, sempre, na brincadeira e sem qualquer maldade aqui da Su.

Um beijo grande para todos os cuecão de couro meus amigos e que têm medo de mim ( - medo de mim? como querem que não vos chame mariquinhas?!) Sabem bem que a porta estará sempre aberta. A da frente.

quinta-feira, março 20, 2008

Era mesmo esta que me faltava

Isto há coisas que não lembram a ninguém, especialmente após os meus 3 ou 4 posts invejosos versando sobre raparigas bonitas e vistosas.

Há uns dias a Bianca, aproveitando uma distracção minha, avistou um gato e atirou-se muro fora com as 3 patas que lhe restam e desapareceu numa bisga. Só tive tempo de ir buscar as chaves e correr rua abaixo não fosse ela ficar definitivamente aleijada.

Ia eu, note-se, de pijama desirmanados (calças das ovelhas e camisola dos pinguins), sem soutien, de meias rotas e cabelos gordurosos ao vento, quando vem a subir a rua, a pé, na minha direcção, uma rapariga de dois metros, loira e de botas altas, que dá pelo nome de Merche Romero.

Afrouxei o sufciente de lhe lançar uns olhos gulosos e observar sofregamente tudo o que os meus olhos alcançavam.

E, meus confrades, que dor. Nenhuma mulher, acabada de acordar mas de bons sentimentos como a minha pessoa, deveria ser sumetida a tamanha humilhação. E lá continuei eu, de peúga rota em riste, na demanda do cão aleijado,

isto enquanto Merche Romero subia segura e bem formosa a minha rua (que, pasme-se, até nem tem saída).

Ora passados 3 dias, voltei a ver Merche.
E deste vez eu até estava vestida. De fato completo e botas altas. E caramba, continuei exactamente com a mesma sensação, basicamente uma refugiada libanesa, com ranho no nariz e cabelo colado à testa.

Dias depois o mistério resolveu-se. Um ex da dita é o meu mais recente vizinho, e não me refiro obviamente ao Cristiano, se não não estaria aqui a escrever estas linhas ao computador mas sim de binóculo em punho escondida no sotão,

pelo que algo me diz que me vou sentir ratazana de esgoto, lodosa e rexumenga muitas mais vezes que seria de esperar na minha própria terra, na minha própria rua.

"Ah e tal, é gira mas é bem burra, não te preocupes" - consolam-me os amigos.
Pois preocupo-me. E muito. E o menino Renato vai-me mas é passar a ir buscar ao quarteirão de cima que eu não quero cá misturas.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

abaixo as angolanas (do hi5!)

Eu disse todos os dias? ops, lapsus linguae...sou tão adoravelmente mentirosa não sou?

Agora que o meu R me vai deixar durante 1 mês, preciso de me distrair q.b. para não ficar a pensar o que é que ele andará fazer por aqueles caminhos sórdidos e repletos de podridão devassa chamada "Angola",

a cruzar destinos com miúdas de beiças mal pintadas cheias de calor e de maus princípios chamadas "angolanas do hi5". Quer dizer, não é de fonte segura, mas deduzo isso pelas fotos hereges das meninas nesse site.

Acreditem, cuscar o profile de uma angolana mais dada é certamente uma das experiências mais atrozes que tenho vivenciado nos últimos tempos.

E reparem, tenho visto muita coisa: VERÍDICO, noutro dia na R. Gomes Freire, vi um sem abrigo a fazer cócó no meio do passeio, limpou-se a uns papéis e com os mesmos tapou o montinho. Ainda sim, ver o rabo sujo de um adulto que não o nosso pai ou o nosso irmão a evacuar no meio de Lisboa é mais tranquilizante que ver uma angolana tentar seduzir no hi5.

E lá vai o meu R, belo que nem o mais belo dos deuses gregos para o meio da selva com aquelas abutres sedentas de paixão com uns traseiros gigantescos e seios pequenos clamando por carícias.

Medo. Desolação.

sábado, janeiro 05, 2008

Era uma vez uma Soraia Chaves

(ó gentinha apressada... )

E ano começou bem:

por já ter visto todos os filmes em cartaz no Arena Shoping (zona oeste), lá fui arrastada para uma obra prima do Tino e fui ver o Call Girl.

Olhei para o lado, Renato com olhos mortiços salivando despudoradamente, e ouvi: " esta Soraia Chaves é mesmo parecida com a Ana (ex)". Eu fiquei queda e engoli em seco.

E ele, continuando: "é que é mesmo parecida. até a maneira de mexer as mãos, o cabelo".

volto a encarar o écran, uma Soraia divina, beleza de Petrarca, com um top sem soutien (como é possível meu Deus), cabelo e mãos perfeitas. Ele continuava "nunca tinha reparado, é que são mesmo iguaizinhas, a Ana era é um bocadinho mais alta".

E eu, enterrada na cadeira, sem que que o salto das botas chegasse sequer perto do chão, com a barrigona a abarrotar de pipocas e tentando não arrotar a coca-cola, senti-me subitamente mal.

Verti umas lágrimas sem que ele se apercebesse. Funguei-me nas mangas e continuei a chorar baixinho, uma birrinha de inveja no fundo, cheia de pena de mim própria. Até que ele me diz novamente, sem descolar os ollhos do écran " e sabes quem é que esta me faz lembrar?"

com os olhos enevoados vejo uma Daniela Faria de cara lavada, linda e sexy.

Não sei o que me deu, mas possuída por uma coisa má virei-me para ele e gritei-lhe mesmo na cara " DEIXA-ME ADIVINHAR PARECE A TUA PRIMEIRA NAMORADA E EU PAREÇO É O BURRO DO SHREK!"

e larguei num pranto, frente a um Renato atordoado. E nesse momento volto a ter o meu namorado amoroso, que apercebendo-se da sua insensibilidade podre, me cobre de beijos e me acolhe no seu regaço dizendo "não sejas parvinha, és muito mais bonita que a Soraia Chaves".

Lanço-lhe um segundo olhar inquiridor e ele acrescenta solícito "E muito mais bem-feita, claro".

Continuo a fitá-lo impiedosa. Ele pensa um bocadinho e numa ligeira hesitação arrisca:

" E muito mais inteligente?".

Faço um aceno de assentimento e voltamos a abraçar-nos. Adoro quando a verdade é reposta e tudo acaba bem.