segunda-feira, outubro 22, 2007

A Lição

Aqui há uns tempos uma menina ex-projecto crescer, de origens humildes, revelou grande em voltar a pertencer à associação, desta feita como animadora.

Ouro sobre azul, não fosse o facto dessa menina não jogar com o baralho todo. Mas enfim, parafuso a mais, parafuso a menos, lá fizemos uma reunião de introspecção e, tendo ido a votos, achámos que lhe deveriamos conceder uma oportunidade de integrar o projecto.

Assim sendo, convocámo-la a uma reuniãozita na capela, e, condescendentes, lá lhe comunicámos que a aceitávamos como monitora, tinha era que se portar bem e não morder ninguém.

Feliz, a adolescente agradeceu-nos. Mas adiantou, logo de seguida, que não poderia participar na colónia de férias porque ia a correr para a China.

Entreolhámo-nos subtilmente. O mais longe que a miúda tinha ido na vida foi de autocarro da junta à aldeia do Sobral, aquela das miniaturas do barro.

- ah, então vais para a China... - comentou alguém

- vou, vou à China, vou a correr! - completou ela orgulhosa.

Não sabiamos se haviamos de rir pela imagem da miúda a correr esbaforida até à China ou lamentar pela inimputabilidade de uma rapariga tão nova.

Lá lhe demos dinheiro para um gelado e ficámos ainda a rir um bocado à pala dela.

Até a termos visto no Telejornal, medalha de ouro ao peito, acabada de chegar dos Special Olympics de Xangai.

domingo, outubro 14, 2007

O meu carro

Ah pois é, após anos incessantes de labuta rigorosa, comprei o meu primeiro carro. Escusado será dizer que, durantes os primeiros dias, esta viatura de um azul lindíssimo foi a luzinha dos meus olhos.

Ele eram beijos, afagos ternurentos, um roçar de nariz na porta do condutor, carícias breves mas intensas.

Orgulhosa, levo-o pela primeira vez a passear, acedendo a um pedido desesperado do meu irmão, para o ir buscar ao Técnico a propósito de nem sei o quê.

Tiro o carro da garagem ( tarefa hercúlea devido aos 4 pilares gigantes, uma máquina de costura, uma máquina de passar a ferro, um estaminé de parafernália electrónica e dois veículos estacionados).

E lá vou eu estrada fora, uma lágrima a querer descair e o peito ardendo de felicidade. Estaciono, vou ter com ele ao bar, três dedos de conversa com os colegas e regressamos a casa.

No parque de estacionamento, o choque, o terror puro. Do lado direito do carro, riscos gigantes.

Depois de um pseudo-colapso anafilático, recuperei a consciência e desatei a correr para a portaria, em direcção aos seguranças. E lá foi o meu irmão atrás de mim, esbracejando tal como eu, exigindo ver as cassetes de vigilância e vociferando ameaças expressas contra colegas, funcionários e membros do Conselho de Direcção e Comité Científico.

Exaustos, e após uma promessa solene que no dia seguinte haveria uma averigação oficiosa ao incidente, regresso a casa simplesmente deprimida, mas ainda assim confiante nas autoridades.

Entramos dentro da garagem e a primeira coisa que se avista é um pilar branco listado de azul. O meu irmão olha para mim, rancoroso:

- "já viste a figura que andei a fazer?"

Naquela altura senti mesmo as orelhitas a baixarem-se-me, um ratinho perdido no esgoto, um pequeno Ratatui órfão de família e de amor.

Moral:
Os riscos no estúpido do pilar sairam.
Equimoses no meu lindo carro azul.
Uma grande dor de alma.

sábado, outubro 06, 2007

I see dead people

Exposição do Corpo Humano

(não, não vou discutir se os espécimes eram asiáticos ou africanos, recuso-me a entrar numa discussão inútil e por demais evidente - asiáticos - ou há todo um universo mitológico que se desmorona).


Entro numa sala e vejo um caixote de vidro repleto de maços de tabaco, inseridos numa ranhura pelos corajosos visitantes. Por cima, uma inscrição que incita: "Deixe de fumar, agora".

Excitada, vou buscar o Renato à sala das artérias

(muito esquisito é este miúdo, a chatear-me porque me detive no único corpo nu de uma mulher nesta exposição machista - peço perdão por ser curiosa e ter uma oportunidade única de saber se sou anatomicamente normal - enquanto ele próprio fica 20 minutos em frente a uma árvore bronquiológica, exclamando de olhos vidrados: que lindo, que lindo)

Arrasto-o até chegarmos ao caixote do tabaco. Inquiro-o: "então, é desta?"

Ele observa, guloso, os maços de tabaco. Olha para ambos os lados, e vendo-nos sozinhos, desafia-me: "achas que consegues meter a mão no buraco?" Incrédula, olho com atenção o hiper-racional e sensato namorado que supunha ter. Julgo ver uma sumida linha de saliva a descer-lhe rosto abaixo.

Fugi dali horrorizada. Tenho que repensar o ultimato do "o Malboro ou eu". Não sei viver sozinha.