segunda-feira, maio 28, 2007

Scream

Fui obrigada num destes dias a tomar contacto com um cliente acusado de um homicídio. Quando digo tomar contacto, refiro-me unicamente a pegar num dossier de arquivo azul escuro, folhear os relatórios e autos de detenção e, mais importante, observar as fotografias apensas ao processo.

E agora passo a enunciar a forma profissional como o fiz:

Com os olhos fechados, peguei nas fotografias e coloquei-as no parapeito da janela. (só esta operação minuciosa demorou-me uns tortuosos 5 minutos, durante os quais embati em todos os objectos imóveis e inertes existentes naquele gabinete).

Após uns minutos de respiração descontrolada, inspirei fundo e disse para comigo própria que a Humanidade estava dependente de mim e se eu não olhasse para as fotos o mundo iria explodir e morríamos todos e para toda a eternidade. (shiuu, é infantil mas infalível)

Então, de longe dos meus 13 metros de distância da janela, pálpebras cerradas, testa franzida e um nojo incontrolável só de pensar em livores cadavéricos,

ganhei coragem e descolei os olhos.
(Estão a ver o Kevin do Sozinho em Casa? Só me faltou a espuma de barbear e a falta de pilosidade, vulgo bigodes). A minha boca abriu, arregalei-me toda e gritei.

Malta, é oficial, tenho mamas e não tenho tomates.
Três vivas para as brigadas de homicídio do meu país.

quinta-feira, maio 10, 2007

Condução sem carta. Dá para acreditar?

E o insólito aconteceu.


Ontem estava particularmente bem disposta. Tinha um julgamento de manhã, mas uma coisa ligeirinha, sem dramas.


Lá fui eu para o tribunal, a assobiar contente com o casaco pendurado ao ombro e óculos de sol a enfrentar confiante o mundo.


Começa a audiência, o juiz fala, o procurador, fala, e a Susana começa a discursar. Não sou de intrigas nem falsas modéstias, mas quando estou bem disposta falo e até falo bem.

Ainda a procissão ia no adro, e eu, inflamada exaltava as virtudes do meliante que ali estava, quando este, subitamente, se agarra ao peito e cai no chão.


Sem saber muito bem o que fazer, e até porque não sou de deixar coisas a meio, ainda largo duas ou três palavritas sumidas. Mas depois de o ver estendido no chão a minha sensibilidade feminina, vulgo 6º sentido, manifestou-se e aí eu achei por bem calar-me.


De qualquer forma, também não me parece que naquela altura alguém me estivesse a ouvir, especialmente a juíza que se tinha levantado e levado a mão à cabeça desesperada e a procuradora que fugiu como um tiro para o segundo piso, onde decorria um julgamento de vários médicos.


Depois, lá vem o INEM, leva o meu arguido e eu fico na sala, sozinha, sentada numa cadeira ao canto


ridícula na toga xs que não me serve, a olhar para a biqueira da bota e a pensar para com os meus botões que tudo mas tudo me acontece.


Felizmente o arguido sobreviveu ao ataque cardíaco e foi internado.


Agora a questão que se coloca:
Quem é que lhe vai comunicar a sentença?
CREDO, EU NÃO!

ps- para os mais incrédulos, é favor confirmar na secretaria dos juízos criminais de lisboa

segunda-feira, maio 07, 2007

não é mentira, é mentirinha

Num destes dias tive que escrever numas alegações porque é que Belas era um melhor sítio para uma criança viver que uma aldeola perdida ali para os lados de Vila Franca.

Tudo começou numa audiência em que ninguém parecia saber onde se situava a minha ilustre terra. Fiquei de trombas porque essa não é, definitivamente, uma pergunta que alguém civilizado faça.
Depois, outro ainda teve a inóspita lembrança de me perguntar se a minha terra tinha algum jardim!

Se tem algum jardim???!!! Imaginei-me imediatamente de dedo em riste apontado ao nariz: " Meretíssimo seu energúmeno, mais informo que Belas É um jardim. "

Mas fiquei calada que nem um rato a trincar nervosamente a beiça. Vinguei-me nas alegações escritas, adiantando todas as maravilhosas qualidades da terra, o seu património natural, vegetal, arquitectónico e geográfico,

a ilustre serra da carregueira, os jardins, as quintas e solares aristocráticas, as fontes palacianas e o aqueduto das águas livres , (bolas, até mencionei as pegadas dos dinaussauros de carenque)

- por acaso ter-se-ão violentamente enganado os visionários construtores do Belas Clube de Campo e do Lisboa Sports Club? I DONT THINK SO!

Escrevi tanto e de tal maneira que no fim até eu própria me convenci que Belas era o local ideal para se viver,

nela imaginando os meus filhinhos em alegres gargalhadas brincando no seu triciclo debaixo do alpendre, um marido garboso lendo um livro (culto) de mecânica aeronáutica (macho, muito macho) recostado numa árvore de frutos,
E eu, magra, sem barriga, ombros ossudos com as clavículas à mostra, peito erguido e cabelo preto escorrido nas costas, a comer um pacote de cheeto´s de queijo ou daqueles cones de milho, feliz e serena.

Depois esbofeteei-me duas vezes na face e acordei para a vida.
Caramba, não vejo a hora de ter dinheiro me submeter a uma mamo e a uma lipo e mudar-me para o Estoril.

quinta-feira, maio 03, 2007

Para o damião não sei o quê

Houve uma pessoa que me escreveu e disse que o facto de eu ter passado a moderar os comentários reflecte a minha posição de, eventualmente,

não ser boa pessoa e não gostar de discutir nem receber críticas.

É notório que este ser amorfo pura e simplesmente nunca leu o blogue nem sequer os comentários.

Porque sou apologista da filantropia e gosto muito de partilhar, adianto-te que nunca recusei um comentário

mas infelizmente há uma pessoa, leitora deste blogue, que sofre de perturbações mentais e e escreve 10 comentários pornográficos ou simplesmente dementes por dia, para cada post, escrevendo ainda ameaças graves.

Por consideração a quem me lê, e devido aos muitos pedidos para que moderasse os comentários pois chegava a ser confrangedor ter que ler semelhante coisa,

acedi, e deixou de ser automático.

Por conseguinte, arruma as botinhas e o acordeão, e vai chatear outro blogue, porque se bateste à porta errada foi, definitivamente, esta.

Freak

Quem é? O Preconceito, novamente.

Recebi ontem um arguido.

Mulato, um verdadeiro armário, vinha com a cara feita num bolo, repleta de hematomas e nódoas negras.

Sentou-se à minha frente a um metro de mim.

Instintivamente, segurei no telefone portátil pronta a desferir-lhe um golpe mortal caso tivesse a infeliz ideia de me agredir e tentei descalçar uma das botas para me melhor colocar em debandada.

Muito calmo, esteve 10 minutos ininterruptos a elucidar-me sob as suas anteriores condenações e levantou-se para ir embora.

Para quebrar o gelo, eu, sempre com as minhas brilhantes e oportunas intervenções, aponto para as equimoses e digo "então adeus e até ao dia julgamento, não se meta é em mais confusões!"

Ele estaca e olha para mim.

Um arrepio percorre-me e penso interiormente que, daí a um minuto, se não falecer, ficarei pelo menos comatosa no Amadora-Sintra.

"Confusões?" – inquire
Esboço o famigerado sorriso icterício.

"Sou diabético há muitos anos. Ultimamente, quando vou pôr os meus miúdos ao infantário ou vamos brincar para o jardim, fico sem força e desmaio.

No Sábado estava na Igreja à espera da minha filha que ia a sair da catequese e bati na esquina de um banco. Levei 12 pontos".

diabetes?
catequese?
filha?
Igreja?


Com os olhos marejados, só não o levei para minha casa, deitei-o no sofá , calcei-lhe uns peuguinhos da Serra da Estrela, enrolei-o num cobertor de lã caprina e depositei-lhe um beijo amoroso na testa

porque simplesmente não calhou.


Senegalês escoriado – bhacccc
Senegalês religioso e diabético – quero. adoro.