quinta-feira, março 29, 2007

Arma Letal 1

Lembram-se daquele frasco de doce de gila, que tão negligentemente ofereci ao meu diabético pai ? Tentei remediar o estrago, comprei-lhe as peúguinhas mas o certo é que fiquei com a compota ao deus-dará.

Vai daí, lembrei-me de a reciclar e oferecer à minha avó materna agora no seu 74.º aniversário.
Ontem veio cá jantar. Após o lauto festim desencanta um saco plástico do LIDL e endereça-mo:

- Toma Susana, é aquele doce de gila. Não gostei, mais valia o pão-de-ló – apalestrou ela, com uma profunda sensibilidade nazi.

O meu pai olhou para mim. Eu olhei para ele. Sorri. Ele não.
Conclusão, saiu-me bem cara aquela prenda de € 2.

Fiquei com um pai ofendido, uma avó desconsiderada e um produto simplesmente ascórbico nas mãos.
(vou guardá-lo para a troca de prendas com os meus colegas. Que não lerem este blog, naturalmente).

segunda-feira, março 26, 2007

O Cabeleireiro e o Homossexual

Já há algum tempo que foi por mim constatado que todos os cabeleireiros são homossexuais.

Excepto um amigo meu que, pelo contrário, nada deve às hormonas masculinas e esquemas tipológicos de sedução, engate a fins, e sempre se saiu muito bem com o sexo oposto. Demasiado bem, dirão alguns compinchas invejosos, que ficam a jogar póquer em casa enquanto ele se diverte pelas noites catalãs.

Este fim de semana ficámos todos num quartel militar.
Ele, um relações públicas por excelência, conversava entusiasticamente com dois ou três militares.

Eu, cujo cabelo desenfreado (e o qual nunca, numa vida de 26 anos consegui dominar) insistia em entrar olhos, nariz e orelhas adentro, fui ter com ele e pedi-lhe que me pusesse um ganchinho.
Ele logo agarrou no dito e, com inigualável mestria manejou-o de forma a que a minha franja psicótica se mantivesse 10 minutos acachapada à cabeça.

3 homens completamente imóveis fitavam o meu amigo num misto de horror e incompreensão.

Aquele que ainda há 1 minuto conversava num vozeirão de macho tinha não só acabado de pegar num gancho da Hello Kitty, como o tinha manuseado e, inclusive, colocá-lo destramente numa cabeça humana, sem ter furado nenhum olho ou orifício mais próximo.
Pior, tinha ainda chamado a mencionada cabeça para, veja-se!, o colocar do outro lado para "ficares com o rosto menos pesado e um visagismo mais leve".

Realmente, mexer em cabelos não é necessariamente gay. Mas só em casos muito, muito especiais.

quinta-feira, março 22, 2007

xarope de seiva?

Ainda reportando aquele assunto da minha burra, andrajosa e socialmente lastimável conhecida que quer ir fazer os exames da PJ - esquecendo-se do pormenor de que não consegue correr, mal respira e praticamente não anda (já se alvitrou que ela teria um ou dois pares de grilhões ocultados pelos tornozelos) –

ontem ela veio falar comigo e com umas amigas.

Conversou nem 5 minutos. Afastou-se. Vimo-la a descer, devagar devagarinho, tal qual como tivesse acabado de parir um filho e não quisesse rebentar os pontos do perineu.

Ficámos quedas a observar o fenómeno. Após uns minutos de atenta reflexão, alguém quebrou o silêncio e avançou:

- Talvez vá fazer uma rigorosa dieta.

Ficámos caladas a olhar para ela.

- Quer dizer..talvez fique a soro – corrigiu

Continuámos a fitá-la.

- Ok, se calhar só lá manda uma perna.

Muito bem, gosto de raciocínios assim. Segmentados mas puramente lógicos.

segunda-feira, março 19, 2007

Pai há só um. mas por pouco

Hoje, dia do Pai, cometi o maior sacrilégio que tenho memória.

Logo pela manhã, o meu pai foi-me esconjurar ao quarto, bradando que eu sou sempre a mesma coisa, uma grande mandriona e "levanta os pés e põe-nos a mexer!".

Pois é, desta vez não levantei os ditos e rodopiei-os em pequenos círculos, obedecendo em sentido estrito à ordem clamada (o meu sentido de humor é simplesmente fascinante).

Não, desta vez eu corri para os braços dele, exclamei "Feliz Dia do Pai!!" e ofereci-lhe uma lembrancinha que comprei à Marta, para ajudar o Grupo de Jovens dela: um frasco de um doce de gila caseiro.

Bem, se o arrependimento matasse o homem tinha-se fulminado diante dos meus olhos. Com um ar repleto de remorso e amargura, o sr. meu pai agradeceu-me emocionado e enfiou a viola no saco.

Chego ao trabalho, orgulhosa de tamanha lição de generosidade.
Anuncio a dádiva.

Vira-se uma colega: - "Mas ó Susana, o teu pai não tens diabetes?"
"F.., ca..., q m..!"
- " Bem, mais valia dares-lhe logo duas cápsulas de cianeto".

É o que dá uma gaja esforçar-se e tentar inovar.
Lá vou eu ter que ir à Massimo comprar-lhe o anual par de peúgos.

sexta-feira, março 16, 2007

Retrato de um País

Ontem fiquei mais 45 minutos para além do meu horário de trabalho, a terminar um processo. Quando saí da sala dei de caras com o Director. Este, profundamente chocado, olhou para mim como se eu o tivesse mandado vendar os olhos, pegar numa lambreta e obrigado a fazer acrobacias no Poço da Morte.

Encostou-se à ombreira da porta e, após uns segundos de recobro, perguntou-me o que é que eu estava ali a fazer.

Estive a analisar um processo – adiantei.

O Sr. Director perscrutou-me, incrédulo. E eu, de um azul ciático, esboço um sorriso demente e fico estática no mesmo sítio.

Fitou-me mais uma vez chocado e acabou por ir-se embora, voltando-se ainda 2 ou 3 vezes para se certificar que eu não era um espectro óptico exorcizado.

45 (quarenta e cinco minutos!). Nem quero imaginar o que sucederia se lá tivesse ficado uma hora completa. (No mínimo uma acção de inabilitação seguida de internamento compulsório).

quarta-feira, março 14, 2007

A maldade

Soube que uma rapariga minha conhecida vai fazer o exame para a PJ, já no final deste mês.

Situação Fáctica:
Mede 1.55 e pesa 81 kg (nota de rodapé: valor estimativo arredondado por defeito).
É má, estúpida e cheira a adega de viticultor .
Não é particularmente esperta mas está a estudar aturadamente para os exames escritos.

Situação Hilariante:
Ela não sabe que para entrar para a Polícia Judiciária, não basta ter brilhante nota e dar umas corridinhas com as mamonas a ondular seduzindo inspectores-júri com taras sado-obesas. Existe mesmo um requisito mínimo, que inclui uma tabela anexa e que indica que meias-lecas como nós, de 1.55 a 1.60 têm que ter no máximo 58 kilos bem medidos nas balanças oficiais.

Auto-Avaliação:
Básica? Sou.
Má? Concedo.
DELATORA? Jamais.

Elemento moral da história:
Não vou abrir a boca.

segunda-feira, março 12, 2007

Despique desigual

Hoje logo pela fresquinha, ligo a televisão e fico ao corrente de um sem número de roubos não sei do quê (cabos de bronze ou ferro ou similares), numa terreola bragantina, que obstaram a que os seus habitantes pudessem usufruir da electricidade.

Jornalista (num tom profissional, sereno e circunspecto): então e como é que se apercebeu que tinha falhado a electricidade?

O Verdadeiro Português (com um ar nobre e compungido)- ´Tão, eu ´tava na Internet. A ver.. (pausa) na internet..a pesquisar. A ver umas coisas... (Pausa) (ganhando balanço) Estava a pesquisar– completa ele, mas com os olhos fitos nas algibeiras.

Sabem onde estão as "Mulheres de Bragança", que tão bravamente pugnaram pela recatez dos seus lares contra as brasileiras assanhadas?
Estão num cantinho enegrecido junto à lareira a chorarem copiosamente pelos tempos que eram e já não voltam a ser.

Transmontanas esforçadas –0 / Pornografia Livre- 30

sexta-feira, março 09, 2007

Homem, mas dos honestos

Ontem não comemorei o Dia Internacional da Mulher, porque basicamente sou um homem.

Chegada do ginásio, e garanto-vos que é a verdade nua e crua, a primeira coisa que faço é arregaçar as mangas, ficar praticamente em ceroulas e obrigar cada colega meu a apalpar-me os bíceps, tríceps e, num dia particularmente produtivo, os glúteos e a parte interna das coxas.

Em tempos ria-me impiedosamente da boçalidade e trejeitos rurais dos gajos da musculação, daqueles que, fazendo 40 flexões e levantando 60 kgs se prostravam frente ao espelho mirando-se jubilosos de hercúleo feito, e lançavam breves olhares de soslaio certificando-se que, no mínimo, três sócios e dois visitantes cirandavam nas redondezas.

Actualmente sou aquela que faz meia flexão de joelhos (assumidamente aldrabada) , levanta uma toalha com um braço e a garrafa de água mais chave do cacifo na outra e fica assim, imóvel , bebendo sofregamente a sua imagem reflectida no espelho, e cada vez que, à laia de músculo uma ligeira batata, bem, hum..., enfim, uma minúscula ervilha assoma no seu (em tempos taberneiro!) braço,

lança urros de alegria e abraça o primeiro indigente que lhe apareça no meio da rua.

Esperem até conseguir levantar uma barra.

terça-feira, março 06, 2007

Q.E. = 0

Sábado, numa escala, depois dos dez minutos mais entediantes de toda a minha vida, sou chamada para falar com um detido.

Vou até aos calabouços, saltitante e pró-activa, e deparo-me com o alegado criminoso.
Dirijo-me à cela e avisto o menino mais amoroso, mas quando digo amoroso, é mesmo FOFUXO na mais genuína e gritante acepção da palavra.
Um rapazinho dos seus 18 aninhos, olhos enormes rasos de água, ponteados por umas enormes pestanas pretas, estava sentado num banco com os bracinhos cruzados no colo. As mãos, nervosas, aquietavam os cotovelos nus, e a pobre criança tremia como varas verdes, olhando para a biqueira dos sapatos numa vergonha inominável. Quando se apercebeu da minha presença, ergueu os olhos suplicantes, e , com o beicinho a tremer, levou as mãos ao peito numa prece contrita. Basicamente, pareceu-me um gatinho recém-nascido à procura de um pires de leite e uma pequena posta de perca do rio.

Encostei-me docemente às grades e, olhando-o directamente naqueles maviosos olhos azuis perguntei-lhe num tom maternal: "então, porque é que estás aqui?"

- "assalto à mão armada, com caçadeira de canos serrados"

E eu, discretamente, afasto-me das grades

e faço o sinal da cruz

(E ele, continuando
"posse de droga, tentativa de homicídio" - E mais uns quantos crimes os quais nem sabia que existiam quanto mais o regime penal aplicável).

Fugi calabouços fora, a repensar a minha inteligência emocional e capacidade de avaliar pessoas e situações. Nitidamente, é má. Condoídamente (levará acento?) má.

sexta-feira, março 02, 2007

Runaway Train

Já vos aconteceu estarem a sair do metro, correndo pela vida para tentarem apanhar o comboio,
verem o monitor que anuncia as partidas e chegadas e repararem que, curiosamente nesse mesmo minuto, está prevista a entrada de um Roma Areeiro na linha 8,

então sobem meio estropiados as escadas rolantes e, felizes (suspirando de alívio!), ouvem o barulho da locomotiva,

mas depois reparam que estão numa ponta da plataforma e o Roma Areeiro passa por vós e estranhamente parece ir parar somente na outra ponta,

então vocês correm, calcanhares nas costas e braços esvoaçantes (versão Tom Sawyer/Entrecampos) tentando alcançar a última composição,

e, finalmente, apercebem-se que o comboio NÃO está a chegar mas sim a IR-SE EMBORA,

e que estão a correr esbaforidos estação fora, perseguindo um comboio em pleno andamento, enquanto os palermas da linha 7 e linha 2 de dedo em riste apontam para vocês e se riem à boca podre?

Já?
Muito mais aquietada, obrigada.


(PS- houve quem alvitrasse, e mal (aqui no cubículo laboral) que este post tem demasiadas semelhanças com outro. Desafiei-os a nomearem qual. Não conseguiram. Estendo a pergunta (e uma paulada na testa) a quem tiver a mesma opinião. )