quarta-feira, janeiro 24, 2007

O Vício ou as notas de 500

Ontem fui ter com o meu irmão ao casino de Lisboa. Neste último mês tornei-me sócia de uma parelha-maravilha ao disponibilizar-lhe o capital necessário para ele efectuar apostas na roleta. Basicamente eu largo o guito ele abençoa-o com a sua estratégia.

Idiota, murmurarão vocês, enquanto se apiedam desta que aqui escreve.
Calminha, replicarei eu, molhando o indicador enquanto faço a contagem das notas.

Dez pessoas em roda de uma máquina virtual, nove literalmente apopléticas. De vez em quando ouvia-se um “P.. da máquina, que granda filha da p..., que m.. de máquina, f...-se que esta m... tá toda f..., c.. ma f..”. Nas primeiras vezes ainda me assustei mas à 6.º: “ SUA P... NÃO TE FICAS A RIR, MÁQUINA DE UM C.... VOU-TE PARTIR TODA, AI TÁS-TE A RIR TÁS A CRESCER PRA MIM???” e eu olho para o homem, colérico, a levantar a mão a um televisor como quem diz “vá, responde lá agora sempre quero ver o que é que dizes”, e o televisor, coitado, simplesmente a mostrar o jogo e susceptível de ser digitado para se efectuar a aposta, sinceramente senti pena daquele ser amorfo.

Saímos com um sorriso na cara e o dinheirinho no bolso.
O meu irmão é muito cagalhoto em inúmeras situações, mas noutras lá se redime e torna-se num ser híbrido quase que, atrever-me-ei, interessante.
(embora indubitavelmente semítico e de uma avareza aflitiva, onde é que já se viu 10% a quem generosa e altruisticamente injectou o capital?)

terça-feira, janeiro 23, 2007

Albânia -> Chelas

Há 2 anos atrás, Lisboa recebeu o encontro mundial juvenil de Taizé, no qual, num amoroso abraço ecuménico, se distribuiu várias nacionalidades por várias paróquias. Após 2 dias descobri, sem grande surpresa confesso, (esta minha alma esclarecida alumia-me os meandros mais obscuros da humanidade) que:

- Os italianos, suecos, finlandeses, holandeses, franceses e monegascos foram todos colocados na Linha de Cascais, nas paróquias, a título meramente exemplificativo, de Paço D´Arcos, Oeiras, Algés e Parede.

- Os romenos, moldavos, lituanos, ucranianos e tártaros da crimeia foram todos corridos a pontapé para a Damaia e a Reboleira, conhecendo inclusive dois polacos que foram repatriados para o Cacém.

Eu - ah e tal já repararam que mandaram os pobrezinhos para as zonas mais ranhosas? Os bielorussos ficaram todos num pequeno sotão do Pendão, os de Milão em luxosos aposentos nas casas estorilenses espraiadas à beira-mar.

Alguém ligeiramente ofendido e que não mora no município da capital: Então o que é que se retira do facto de 5 chechenos terem ido parar a Torres Vedras?

Olhei para ele, esbocei um sorriso amarelo (o que a juntar aos olhos auspicia mesmo uma valente anemia falciforme) e concluí que não havia saída. Eu e a minha grande boca suburbana.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Mu

Auferido o precioso salário, aqui vou eu (fogo no rabo, - que rabo? – perguntará o costumado anónimo) directa à casa das malas. Ao fim de 4 meses de namoro a uma carteira linda de pele castanha, estico o American Express Platina e saio da loja radiante, abraçada à espécime com as beiças a tremer de felicidade.

À noite vou ao cinema, mas como entretanto haviam esgotado os bilhetes para o “Scoop”, lá entro, meio contrariada, no único filme disponível aquela hora: “Geração Fastfood”. Arrepiando caminho, esclareço que no final fui obrigada a visionar uma cena de abate bovino, no qual se viam vacas a serem içadas por uma perna num prelúdio de acto homicida e assisti a todo um ciclo produtivo que ocorre no matadouro.

Após 10 minutos de membros estraçalhados, de olhos obliterados, litradas de sangue jorrado e pele arrancada, fico meio tonta e levanto-me.
Olho para a mala nova, nem 24 horas na minha posse, e, agarro-a enojada com a pontinha de dois dedinhos, pedindo mil perdões ao animal que ali jazia.
Acto contínuo, passo pela zona de restauração e fiquei louca a salivar por um duplo cheeseburger.
Comi-o e já é oficial, sou um ser humano totalmente execrável.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Sexo forte? Isto?

Cenário idílico, o amanhecer numa falésia do Guincho. O meu namorado, com a sua voz forte mas timbre doce sussurra-me:

- Tens os lábios mais bonitos que já alguma vez vi.

Sorrio, envergonhada, incitando-o a continuar:

- E o teu narizinho perfeito, que eu sei que é teu, só teu, és senhora do teu nariz!

Eu coro, rindo-me baixinho e querendo ouvir mais;

- E os teus olhos..

Soergue-me o queixo, cuidadosamente, olhando-me nos olhos com uma doçura infinita:

- E os teus olhos..

Olhar mais atento

- Estranho, os teus olhos são...são amarelos, têm em baixo uma bolsa de gordura, tipo sebo saturado. Tens que ver isso, olhos amarelados não pode ser coisa boa. Será que é contagioso? Que horror, é que são mesmo amarelados!

Honra e bom proveito não cabem em saco estreito. Irada virei costas ao ocaso e obriguei-o a levar-me a casa.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

É idiota, ´tás a ver?

Fui hoje à minha primeira consulta de pré-operatório oftalmológico num hospital público.

Entrei lá às 9h30, a hora previamente marcada, e fui atendida às 13h15.

Mal entro vejo um médico novo, de rosto irado e olhos coléricos.

- ESTÃO A CHAMAR POR SI DESDE AS 9 HORAS!!! PARA A PRÓXIMA ESTEJA MAIS ATENTA! FRANCAMENTE!!!

Dos grasnidos que coligi pareceu-me ainda que me chamou um ou outro nome, de qualquer forma fiquei a titubear porque algo ali me transcendia.

- Mas eu ... – inicio

- Estou a brincar Susana! Estou só a brincar - ri-se enquanto me aperta a mão vigorosamente.

Já não é muito normal um desconhecido fazer-nos isto.
Já não é muito normal um desconhecido licenciado em Medicina fazer-nos isto.
Mas alguém cometer semelhante acto (muito espirituoso, por sinal) a quem esteve 3 anos, repito, três (três) anos em lista de espera é completamente suicida.

Olhei para o espelho das letras e apeteceu-me quebrar-lho em pleno crânio. Desviei a atenção para uns óculos garrafais com dois kgs de lentes e imaginei-os desferidos sobre um baixo ventre desprevenido.
Respirei fundo e sorri falsamente (tenho uns olhos miseráveis mas um sorriso amoroso).

Estranho pensar que colocarei a minha visão à mercê de um ser humano que literalmente NÃO VÊ, nem com uma lupa multifocal, que é o palerma do hospital.

terça-feira, janeiro 16, 2007

Anita vai ao grego

No Sábado passado fui a um jantar a casa de uma amiga, refeição essa que haveria de consistir num prato normal, cozinhado pela anfitriã, e um outro vegetariano, elaborado por um nosso amigo.

Quando entro na sala deparo-me com um cenário retirado directamente do 2.º capítulo do Génesis:

De um lado um tabuleiro delicioso de bacalhau com natas, com parmesão gratinado e acabamentos de luxo.

Do outro lado, um tabuleiro com meia dúzia de alcachofras, quatro beringelas e umas susbtâncias mortas que boiavam reluzentes atreladas a um par de grelos regados a vinagrete. Pareceu-me ainda vislumbrar (mas não garanto) uma anémona do mar viva com duas lentilhas a fazer de corninhos e um inverterbrado indecifrável que variava entre um cavalo-marinho e um peixe-abrótea há muito em decomposição.

Ah pois, e aqui o dilema bíblico... perante aquela mesa dividida, no fundo nada mais que a árvore da ciência do Bem e do Mal, que fazer?

- ferir susceptibilidades de um mui amigo vegetariano e dedicado, e alambazar, regalada, o meu bandulho naquele tentador bacalhau gratinado?
- Ferir susceptibilidades do meu nobre estômago e comer o que a mim, à vista desarmada, se me assemelhava a algo muito perto de cócó? (a dignidade da minha amiga estava, desde há muito, assegurada, pois um bando de indigentes esfomeados clamavam pelo bacalhau desde que lhe tinham posto a vista em cima)

Enfim, perante a questão, tomei a que me parecia ser a melhor e mais equitativa solução: comer um pouco de cada um dos pratos.
Adianto que o bacalhau soube-me a nêsperas, os grelos a cevada e nem com meio litro de tisana Pleno fiquei recomposta da violência a que submeti o meu sistema digestivo. Por segundos, visualizei o suco peptídeo a descer, fumegante, o meu duodeno, e então assomou-se-me tudo à boca à laia de represália.

Se tentarmos agradar a todos o mais provável é acabarmos com a cara ou o rabo na sanita, por isso, jovens deste país, não sejam provincianos como eu e tenham a hombridade de, perante semelhante situação, dar um passo em frente e, mão ao peito, olhar no horizonte afirmar: “amigos amigos, comezainas à parte. Eu opto pelo bacalhau e digo NÃO às beringelas”.

sábado, janeiro 13, 2007

Lol.

Esta semana, para não variar, encontrava-me na sala de trabalho partilhada com os restantes sub-30, quando, no meio da costumada demência infantil e graçolas despropositadas, ouve-se uma frase lançada não só com sotaque germânico mas com a seriedade que lhe é acoplada:

" AS AFTAS ARRRDEM E AS FRRRRRRIDAS IDEM"

Aquele gentio todo riu-se em uníssono.

Eu sorrio e acrescento: "ah, é coincidência não é? que quer dizer em alemão?"

Silêncio sepulcral na sala.

"Estou a gozar" - esclarece-me pacientemente a autora da piada hilariante. "É como dizer Sida em japonês - iraokumata"

Silêncio (meu)

Enfim, é a geração que temos, de invulgar, aguçada e acutilante inteligência social. De um humor cirurgicamente mordaz e requintado.

Requiem pela Função Pública.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

ESTC

Ontem fui à Escola Superior de Teatro e Cinema, na Amadora. Se eu fosse de fazer intrigas quase que diria que:

- ou tinha sido violentamente abduzida e estava nos confins de outra galáxia
- ou, e numa perspectiva mais modesta, em pleno ensaio geral de uma pantomina do Cantiflas. (das piores, as últimas de 1970).

Depois de quase ter morrido de susto quando avistei uma rapariga literalmente igualzinha ao Aladino, com umas pantufas pontiagudas e umas calças de balão, apaguei-me definitivamente quando choquei de frente com uma miúda com umas gigantescas galochas vermelhas de verniz , com chapéu de guizos amarelo a condizer.

Com as minhas calças de vinco, casaco preto e botas de salto senti-me uma doente externa do Amadora Sintra. Mas esperei pacientemente pela minha amiga e fiz o ar mais composto que consegui.

Até ver um professor com umas peúgas da serra da estrela pelos joelhos, calçando uns All Star castanhos com umas línguas de fogo. Aí benzi-me e fugi escola fora, só parei na estação e escondi-me atrás de um congolês. Senti-me infinitamente mais segura.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

A Velhice

A semana passada recebi uma chamada da minha avó, que me comunica numa voz sofrida:

“Susana, hoje faltou a água, eu ando esquecida e não fechei a torneira, quando cheguei a casa tinha a cozinha toda inundada e agora certamente que estraguei a loja de baixo, só tem televisões e rádios, com certeza que nada se aproveita e eu vou ter que pagar tudo”.

Fez uma pausa e adiantou: “Não te preocupes que não vou deixar dívidas, vendo a minha casa e alugo um quartinho barato”.

Fui logo ter com ela, que, ainda em estado letárgico e agarrada a um terço, rezava condoída uns responsos e arranjava forças para começar o encaixotamento dos seus pertences.

Dirigi-me à tal loja dos electrodomésticos. O homem tinha apenas a soleira da porta pingada e mesmo assim quase que aposto que foi o “Jacob”, canídeo do homem do talho em pleno processo de marcação de território.

Depois de saber que não, não tinha que alugar um quartinho, revigorou-se-lhe a alma e, como qualquer velho que se preze, apressou-se a desancar a Junta, a Carris, o homem do talho e a Caixa Nacional de Pensões (já eu não ser metida ao barulho foi mero golpe de sorte).

Despedi-me com dois beijinhos: “a velhice não perdoa..” – ri-me
“Panela velha é que faz comida boa” - retorquiu
“Gaba-te cesto que..”
“Pimenta no cu dos outros é refresco.” – interrompeu-me, altiva, fechando-me a porta na cara.

É a riqueza da neta, esta minha avó.

domingo, janeiro 07, 2007

A mete nojo

Esta semana fui chamada como SOS para acudir a uma boa amiga que tinha ficado sem namorado, do qual gosta imensamente e sem o qual não perspectiva vida futura alguma.

Estrada fora, a 150 à hora, lá chego a casa dela onde a encontro lavada em lágrimas.

Bla bla bla, pieguice para aqui, miminho para ali " e deixa estar que assim ficas melhor", "és uma mulher fantástica, vais ser muito feliz", até que ela, no meio de um soluço entrecortado e antes de um suspiro mais prolongado me diz:

"pois, e agora parece que toda a gente tirou a semana para me chatear, o editor da FHM inglesa já me mandou nao sei quantos e-mails para eu ser capa em Março, já estou cansada de tanta conversa e propostas de reunião".

E eu, o mais pausadamente que consegui, arfando ligeiramente até não conseguir respirar de todo: "Desculpa?... capa de Março da FHM inglesa?"
"Sim, que cena burgessa, já viste? como se eu não tivesse mais em que pensar"

A sério, nunca, em toda a minha larga existência, me apeteceu tanto partir os dentes a alguém.

E lá ficou ela, com o seu mega corpo de sonho a marinar o seu desgosto.