quarta-feira, dezembro 12, 2007

Os enganados

Anúncio: A partir de dia 1 vou escrever todos os dias neste blogue.

Curiosidade: adorei o Beowulf, apesar de ter ficado com uma dor de cabeça valente após ter estado uma hora a discutir com o tarado sexual do Renato que esteve o filme todo fixado nos bicos das mamas da Angelina Jolie.

Há-de cá vir.

segunda-feira, outubro 22, 2007

A Lição

Aqui há uns tempos uma menina ex-projecto crescer, de origens humildes, revelou grande em voltar a pertencer à associação, desta feita como animadora.

Ouro sobre azul, não fosse o facto dessa menina não jogar com o baralho todo. Mas enfim, parafuso a mais, parafuso a menos, lá fizemos uma reunião de introspecção e, tendo ido a votos, achámos que lhe deveriamos conceder uma oportunidade de integrar o projecto.

Assim sendo, convocámo-la a uma reuniãozita na capela, e, condescendentes, lá lhe comunicámos que a aceitávamos como monitora, tinha era que se portar bem e não morder ninguém.

Feliz, a adolescente agradeceu-nos. Mas adiantou, logo de seguida, que não poderia participar na colónia de férias porque ia a correr para a China.

Entreolhámo-nos subtilmente. O mais longe que a miúda tinha ido na vida foi de autocarro da junta à aldeia do Sobral, aquela das miniaturas do barro.

- ah, então vais para a China... - comentou alguém

- vou, vou à China, vou a correr! - completou ela orgulhosa.

Não sabiamos se haviamos de rir pela imagem da miúda a correr esbaforida até à China ou lamentar pela inimputabilidade de uma rapariga tão nova.

Lá lhe demos dinheiro para um gelado e ficámos ainda a rir um bocado à pala dela.

Até a termos visto no Telejornal, medalha de ouro ao peito, acabada de chegar dos Special Olympics de Xangai.

domingo, outubro 14, 2007

O meu carro

Ah pois é, após anos incessantes de labuta rigorosa, comprei o meu primeiro carro. Escusado será dizer que, durantes os primeiros dias, esta viatura de um azul lindíssimo foi a luzinha dos meus olhos.

Ele eram beijos, afagos ternurentos, um roçar de nariz na porta do condutor, carícias breves mas intensas.

Orgulhosa, levo-o pela primeira vez a passear, acedendo a um pedido desesperado do meu irmão, para o ir buscar ao Técnico a propósito de nem sei o quê.

Tiro o carro da garagem ( tarefa hercúlea devido aos 4 pilares gigantes, uma máquina de costura, uma máquina de passar a ferro, um estaminé de parafernália electrónica e dois veículos estacionados).

E lá vou eu estrada fora, uma lágrima a querer descair e o peito ardendo de felicidade. Estaciono, vou ter com ele ao bar, três dedos de conversa com os colegas e regressamos a casa.

No parque de estacionamento, o choque, o terror puro. Do lado direito do carro, riscos gigantes.

Depois de um pseudo-colapso anafilático, recuperei a consciência e desatei a correr para a portaria, em direcção aos seguranças. E lá foi o meu irmão atrás de mim, esbracejando tal como eu, exigindo ver as cassetes de vigilância e vociferando ameaças expressas contra colegas, funcionários e membros do Conselho de Direcção e Comité Científico.

Exaustos, e após uma promessa solene que no dia seguinte haveria uma averigação oficiosa ao incidente, regresso a casa simplesmente deprimida, mas ainda assim confiante nas autoridades.

Entramos dentro da garagem e a primeira coisa que se avista é um pilar branco listado de azul. O meu irmão olha para mim, rancoroso:

- "já viste a figura que andei a fazer?"

Naquela altura senti mesmo as orelhitas a baixarem-se-me, um ratinho perdido no esgoto, um pequeno Ratatui órfão de família e de amor.

Moral:
Os riscos no estúpido do pilar sairam.
Equimoses no meu lindo carro azul.
Uma grande dor de alma.

sábado, outubro 06, 2007

I see dead people

Exposição do Corpo Humano

(não, não vou discutir se os espécimes eram asiáticos ou africanos, recuso-me a entrar numa discussão inútil e por demais evidente - asiáticos - ou há todo um universo mitológico que se desmorona).


Entro numa sala e vejo um caixote de vidro repleto de maços de tabaco, inseridos numa ranhura pelos corajosos visitantes. Por cima, uma inscrição que incita: "Deixe de fumar, agora".

Excitada, vou buscar o Renato à sala das artérias

(muito esquisito é este miúdo, a chatear-me porque me detive no único corpo nu de uma mulher nesta exposição machista - peço perdão por ser curiosa e ter uma oportunidade única de saber se sou anatomicamente normal - enquanto ele próprio fica 20 minutos em frente a uma árvore bronquiológica, exclamando de olhos vidrados: que lindo, que lindo)

Arrasto-o até chegarmos ao caixote do tabaco. Inquiro-o: "então, é desta?"

Ele observa, guloso, os maços de tabaco. Olha para ambos os lados, e vendo-nos sozinhos, desafia-me: "achas que consegues meter a mão no buraco?" Incrédula, olho com atenção o hiper-racional e sensato namorado que supunha ter. Julgo ver uma sumida linha de saliva a descer-lhe rosto abaixo.

Fugi dali horrorizada. Tenho que repensar o ultimato do "o Malboro ou eu". Não sei viver sozinha.

sexta-feira, setembro 28, 2007

A Dúvida

Esta semana fui assistir ao julgamento de uma colega, que envolvia um seu arguido um pouco sui generis, preso num estabelecimento prisional.

Fui com a minha amiga Zélia, comparsa das brincadeiras, e sentámo-nos as duas no banco das visitas, emocionadas com o início da audiência.

Mas o certo é que, ainda esta nem tinha sido aberta, já vinha um Sr. Funcionário Judicial, a suar em bica, lívido de desespero, sem articular palavra conexa:

- o arg.. o ar..fug.. arghhh o arg..

E eu e a Zélia a mirá-lo atentas, tentando decifrar a charada:

- o arg...arghhh...o arg..oh meu ..fug.. arghh e atirava com a cabeça para trás e a língua para fora,

Finalmente apareceu outro Funcionário, com um pacote de açúcar, enfiou-lho garganta abaixo e o homem lá recuperou a consciência:

- o arguido..ó meu Deus, o arguido... fugiu! Não está na cela, fugiu!

Motim na sala, só faltou os restantes arguidos atirarem-se janela fora, com pânico de um arguido foragido - quiçá armado - esquecendo-se, por momentos, que eles próprios, num certo momento da sua vida, foram uns pequenos patifes.

Até que vem uma Funcionária, lúcida como qualquer mulher que se preze, e acalmou os 2 Funcionários esclarecendo-os:

- O arguido já vem aí.

Burburinho.

E segundos depois, entra uma mulher de porte altivo, cabelos pretos escorridos, calças justas e botas altas, batôn nos lábios e o rabinho a dar a dar.

Silêncio.

- Foi erro do guarda, explica a Funcionária, enquanto olha invejosa para a D. Travesti

Pois é, parece que quem deveria ter metido o arguido na cela dos homens, se entreteve tanto e tão bem a olhar para as suas maminhas baloiçantes e quadris rebolantes, que se esqueceu estar perante um travesti NÃO OPERADO por isso, e para todos os efeitos legais, tinha um pénis (minúsculo e atrofiado, segundo me confidenciou - hihi) e dois testículos (pequenitos também, tipo isto..)

Mas no meio disto tudo, se há uma coisa que eu aprendi ou reforcei é:

- os homens são particularmente estúpidos, especialmente se estão à rectaguarda de um travesti, absorvendo o seu traseiro bojudo e a babarem-se farda abaixo.

- Eu, enquanto espectadora igualmente à rectaguarda, percebi que não vale a pena um travesti operar-se e pôr proteses no rabo,

se tem umas costas largas de dois metros que só lhes falta estar à porta do Mussulo a barrar entradas e a conduzir um saxo cup.

Espero que seja absolvido. a.

quinta-feira, setembro 20, 2007

Um grito de revolta

Quem me conhece sabe que o meu cabelo tem vida própria. Só lhe falta ter dentes e dois olhos lá pelo meio. De resto, faz o que quer de mim, rebola-se, abespinha-se e depois faz um pequeno capacete do lado esquerdo que simpelsmente me enoja, mas é meu e vou ter que viver com isso.

Acontece que a única coisa que o semi-domina é um daqueles pentes tipo piolhos, com um cabo de aço muito fininho e que serve para fazer um risco decente em cima da cabeça.

Tendo eu ido a uma prisão que não é das mais rigorosas, levei o pente no meio de um livro. Quando a mala passou pela máquina raio-x, accionaram-se toda uma panóplia de sons agudos, luzes vermelhas e portas que se fecharam atrás de mim. Guardas armados até ao pescoço cercaram-me e obrigaram-me a abrir a mala.

Resignada, abri o livro e saquei do pente dos piolhos. Depois de um momento de descontracção, durante o qual os guardas se riram, e friso bem, RIRAM do meu pente, lá passei a mala outra vez pela máquina raio-x.

E mais uma vez a máqui a apitou louca, descontrolada, e guardas armados se posicionaram atrás de mim, evitando uma possível fuga.

- QUE MAIS TEM AÍ? - vociferou o chefe. Tremelicante, abro a minha mala e não vislumbro nada de mal.

- Nada..- asseguro, enquanto rezo baixinho para que não me abram a caixinha dos tampões maxi .

Pois é que foram mesmo directos a ela. Inspeccionaram-na, com ar intrigado, enquanto me apetecia gritar: NÃO SÃO TORPEDOS SENHORES, EU METO ISSO NO PIPI

Depois de uma breve inspeccionadela e alguns sorrisos cúmplices com os restantes colegas, o guarda devolve-me a caixa dos tampões, seguro que não foi aquilo que fez disparar a máquina. E com uma fila de 50 familiares dos presos atrás de mim, furiosos pelo tempo de espera, finalmente o denso mistério resolve-se:

- O QUE É ISTO? -pergunta ele enquanto segura num objecto comprido cor de rosa

- É um baton- esclarece, solícito, outro guarda mais novo.
- Ah, pois é, é um baton - confirma o chefe. - vá, passe lá

E devolvem-me o objecto supostamente letal, que de baton tem muito pouco, já que é um comprido frasco de perfume da sephora, mas enfim, o que eu queria era vir-me embora antes que as visitas me fizessem a folha.

- Desculpe, o meu pente - peço eu com os melhores modos que consigo.
E devolvem-mo rindo, mortinhos para me aconselharem Quitoso.

Tive pena daqueles pobres de espírito. Se não sabem sabem distinguir um baton de um frasco de perfume, sabe-se lá o que é que aquela gente inventa na intimidade. Ofereceram-me em tempos uma t-shirt que dizia "boys, clitoris it´s not a greek island"

Tudo isto para dizer que tenho pena daquelas esposas.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Só naquela

Palavra que não sou de intrigas (há quem afiance que sim),

mas, tipo: é impresão minha, ou o Jumbo de Alfragide desapareceu?
É que ou eu estou sempre muito bêbeda quando desço os cabos d´ávila ou então aquela coisa não está mesmo lá.

E como nunca ouvi ninguém interpelar-me dizendo "ó susana, já reparaste que o Jumbo já não está no mesmo sítio", e nos últimos tempos o que mais oiço é "susana, já reparaste que conduzes no meio da estrada estiveste a beber ou quê" ,

começo a pensar que isto talvez seja uma cabala, e, a ser, advirto desde já que a minha condução é perfeitamente ajustada à realidade social e NÃO A VOU alterar. Não gosto de me atirar às bermas,

peço perdão por ter visão lateral.

Caso não seja, tenho medo. Muito medo.

quinta-feira, agosto 23, 2007

Nasceu uma estrela. Origem: Desconhecida

Olá.

Hoje faço 27 anos e vou-vos contar porque é que neste dia, 23, descobri uma verdade horripilante.

Este ano o meu pai resolveu pintar a casa toda por dentro. Quando eu me apercebi de semelhante intenção, o meu coração parou. Explico: Eu tenho um péssimo hábito - chunga, é certo, mas tão reconfortante que é: colar cenas nas paredes.

A minha sorte até agora foi o meu pai nunca ter pintado o meu quarto. O que significa 7 anos ininterruptos de coladelas nas paredes, nem eu própria sei bem de quê,

mas essencialmente posters de macacos vestidos de bebés e com duas fraldas (juro, não sei o que me deu), luas com caras e querubins em tons pastel, enfim, tudo isto colado com fita-cola daquelas para atar ligaduras, é que a minha mãe trabalhava no Hospital do Desterro e trazia essas gosmas de graça para casa (vulgo furtadas).

Por isso, se fizerem um pequeno esforço, conseguirão imaginar o estado lastimável das paredes por debaixo daqueles posters de refinado bom gosto.

Dia 19: o meu pai pinta a sala - tremo
Dia 20: o meu pai pinta o corredor - continuo temerosa
Dia 21: o meu pai anuncia que vai começar a pintar os quartos. Não diz qual será o primeiro - fico com dor de barriga. Começa pelo do meu irmão.
Dia 22: antes de eu ir trabalhar apercebo-me que se dirige ao meu quarto. Saio de casa em estado catatónico.

Dia 22 às onze da noite, já quase dia 23 : pé ante pé meto as chaves à porta. Não oiço gritos nem urros cossacos. Benzo-me e vou cumprimentar os meus pais.

Faltam 15 minutos para a meia-noite ou seja, para deixar de ser a Susana, a Javardola e voltar ser a recordação afectuosa daquele bebé, um pouco estranho de enormes pés, mas no fundo uma promissora promessa e consolo para aqueles ansiosos jovens pais.

Já viste as paredes do teu quarto? - oiço eu vindo da sala.

Dirijo-me a ele e faço o meu olhar de traquinice, só me faltou a fisga no bolso e os peúgos rotos a arrastar pelo chão.

Deu-me um beijo e um calduço suave, encarando-me com um sorriso carinhoso no rosto. "Vitória", pensei. "Que timming excepcional"!

Hoje passei a manhã INTEIRA a raspar a parede com uma espátula e diluente celuloso. E palavra de honra que ainda não acabei. Só posso ser adoptada.

segunda-feira, agosto 20, 2007

SPORTING

6ªF vendi-me.

Em traços gerais, porque a história é longa:

- 6ª à noite
- matar tempo entre as 20h e as 23h
- solidão

não, não me prostituí.

Pior. Fui ver o Sporting-Académica. (eu sou do Benfica).


Pior ainda:

O meu irmão, que me levou, assistiu ao jogo num camarote onde estavam os familiares do capitão de equipa. Eu, a preta da família, assisti ao jogo entalada entre um gajo semi-nu a tocar tambor e cheirar a azedo, letras garrafais escritas no peito "Directivo XXI", e entre uma azeiteira simplesmente assustadora que cuspia a valorosos decibéis " Ó Briosa vai p´puta que vos pariu",

não sei o que é que se passou, mas quando dei por mim, entoava muito animada hinos e expressões bizarras tipo "Tunél" e "Stotofixe", sem nunca sequer ter percebido afinal a que equipa pertencia a baliza à minha frente, e acreditem...

foi tãaaao fofo! E palavra, quase que me vieram as lágrimas aos olhos quando cantei "Até morrer, Sporting Allez", primeiro de comoção depois, um súbito ataque de riso só de imaginar se aqueles histéricos sonhassem que eu era do Benfica.

Enfim, lá saí contente: matei as três horas e no dia seguinte saí no Record.

Pudera, a única gaja com dentes na claque.

PS- Directivo Ultra XXI , se alguém nessa claque souber ler, afianço que este blogue é meramente lúdico e acabo por caricaturar um pouco o cenário. De qualquer forma, não sabem onde eu moro.

sexta-feira, agosto 17, 2007

Nova lei da imigração

Descobri um local onde qualquer clima de terror armado tipo Serra Leoa parece brincadeirinha de boiolas.

Quem já lá foi, sabe reconhecer imediatamente o sítio a que me refiro.

Os que ainda não acertaram, nunca foram. Ao SEF.

O Sef é um local simplesmente aterrador, escuro como breu (e não me refiro à homogeneidade dos africanos). A primeira vez que lá entrei, e afianço que ainda não tinha transposto os dois sapatinhos, ouvi um sonoro "OIÇA LÁ SUA PALHAÇA ONDE É QUE VOCÊ PENSA QUE VAI?".

Já nem me lembro o que balbuciei, mas ainda antes de lhe responder já eu estava a ouvir do ouro lado , num claro sotaque nordestino, " É PUTA É, VAI-SE PÔR NO FIM DA FILA!", apoiada por vigorosos aplausos de uns quantos ignorantes que nem percebiam o português e me olhavam lascivamente para os tornozelos.

Enfim, um cenário bucólico, ideal para uma jovem de 26 anos se desenvolver emocional e socialmente. Começo a sentir saudades da faculdade.

quinta-feira, agosto 16, 2007

A proprietária

oh joy oh happiness tenho um portátil no meu quarto há 15 dias.

15 dias? então porque não escrevi antes? fácil: o portátil foi-me gentilmente cedido por australiano, tipo da austrália, e o teclado é simplesmente uma coisa assustadora. Como eu sou um bocado burra, o meu irmão não me ajuda, o meu pai chega cansado da labuta e o meu namorado mora longe, eu, na minha sacramental ignorância achei que, por algum motivo, eu tinha que criar atalhos nas teclas para todos os caracteres que faltavam. E eram muitos. o ç, o ~, os acentos, uma parafernália de letras que sempre tive por certas e afinal percorrem insondáveis caminhos conforme os países e respectivos continentes.

Isto para dizer que durante 15 dias tentei colocar atalhos em todas as letrazinhas. Claro que para me lembrar das teclas tive que criar um caderninho e, posteriormente, fazer umas etiquetas e colocar com um bocado de cuspo mais ou menos onde calhava.

Graças ao meu bom Deus, e estando eu já prestes a ter um colapso nervoso daqueles que dão psicose e eventual internamento,

chorando baba e ranho por demorar 5 minutos a escrever a palavra coração e acertar com os parentesis e abre-aspas, chega finalmente o meu irmão de férias, ri-se às gargalhadas com as minhas etiquetas salivadas e cheias de dedadas bem sujas,

e em 30 segundos vai ao painel de controle, altera a opção de "teclado - portugal" e vai para a casa de banho, ainda a enxugar as lágrimas do rosto.

Eu, por turno, não sabia se também havia de secar as minhas ou continuar a chorar num registo dilacerado.

Optei por me rir. E por contar a toda a gente. Sou pouco esperta mas lambi um Toshiba a custo zero. MUAHHHHHHH

terça-feira, julho 31, 2007

Já agora

quem é que teve a pouca urbanidade de apagar os meus últimos 5 ou 6 posts?

X ou Y eis a questão

Um destes dias precisei desesperadamente de um favor. Depois de pedir a todos os meus amigos de infância, de liceu, da rua e da catequese e de ter recebido umas valentes negas, dei-me por vencida e fiz a única coisa que, por mais abjecta que fosse, era a única possível: pedi ao meu irmão.

Às duas da manhã lá fui eu, de fininho, com alguns rodeios e meias palavras, sorrisos temperados e muita, tanta!, boa-educação, e perguntei:

- Podes dar boleia amanhã a 4 crianças da associação para podermos ir à praia de Carcavelos?

Acto contínuo, ele responde :

- Posso.

Estranho.

- São é 30 euros, mais 5 para a gasolina.

- Mas é pelas crianças!

- 30 euros, e pagos agora.

Chulo.

Mas depois, uma ideia brilhante. Fui directa à mala da minha mãe, abri a carteira e retirei duas notas de €10 e umas moedas. Depois, fui ao quarto da minha mãe, acordei-a com uns tabefes nas costas e expliquei:

- mãe, tirei-te 30 euros.

ela, num profundo estado de sonolência, inquire: "porquê?"

ao que eu respondo, num porte egrégio e profundamente digno:

- é o preço a pagar por teres educado uma criança que tinha tudo para ser normal numa verdadeira besta sem qualquer noção de abnegação e delicadeza.

Calou-se.

E eu ri-me, ri-me, até no dia seguinte ser acordada às sete e meia aos gritos pela minha mãe para ir devolver os trinta euros. Devolvi e, chorosa, lá fui ao meu "migalheiro" e retirei o dinheiro.

Agora o deprimente da história (verídica, o que seria da minha vida sem o PC), é que no dia seguinte algumas crianças faltaram.

Susana, à porta da capela, mais uma vez de fininho e numa infinita doçura:

- Olha, afinal já não preciso de boleia. Faltaram 5 miúdos.

- Ok.

Ok? Então e a explosão de loucura mais o acesso de cólera galopante?

- Tchau - lança ele, entanto põe o carro a trabalhar.

- Anda cá, dá-me então o dinheiro!

- Já ajuda no Sudoeste- grita ele já no fim da rua.


Porquê pai?...
Bela merda de cromossoma que foste generosamente doar. Não valia mais teres outra gaja?

segunda-feira, maio 28, 2007

Scream

Fui obrigada num destes dias a tomar contacto com um cliente acusado de um homicídio. Quando digo tomar contacto, refiro-me unicamente a pegar num dossier de arquivo azul escuro, folhear os relatórios e autos de detenção e, mais importante, observar as fotografias apensas ao processo.

E agora passo a enunciar a forma profissional como o fiz:

Com os olhos fechados, peguei nas fotografias e coloquei-as no parapeito da janela. (só esta operação minuciosa demorou-me uns tortuosos 5 minutos, durante os quais embati em todos os objectos imóveis e inertes existentes naquele gabinete).

Após uns minutos de respiração descontrolada, inspirei fundo e disse para comigo própria que a Humanidade estava dependente de mim e se eu não olhasse para as fotos o mundo iria explodir e morríamos todos e para toda a eternidade. (shiuu, é infantil mas infalível)

Então, de longe dos meus 13 metros de distância da janela, pálpebras cerradas, testa franzida e um nojo incontrolável só de pensar em livores cadavéricos,

ganhei coragem e descolei os olhos.
(Estão a ver o Kevin do Sozinho em Casa? Só me faltou a espuma de barbear e a falta de pilosidade, vulgo bigodes). A minha boca abriu, arregalei-me toda e gritei.

Malta, é oficial, tenho mamas e não tenho tomates.
Três vivas para as brigadas de homicídio do meu país.

quinta-feira, maio 10, 2007

Condução sem carta. Dá para acreditar?

E o insólito aconteceu.


Ontem estava particularmente bem disposta. Tinha um julgamento de manhã, mas uma coisa ligeirinha, sem dramas.


Lá fui eu para o tribunal, a assobiar contente com o casaco pendurado ao ombro e óculos de sol a enfrentar confiante o mundo.


Começa a audiência, o juiz fala, o procurador, fala, e a Susana começa a discursar. Não sou de intrigas nem falsas modéstias, mas quando estou bem disposta falo e até falo bem.

Ainda a procissão ia no adro, e eu, inflamada exaltava as virtudes do meliante que ali estava, quando este, subitamente, se agarra ao peito e cai no chão.


Sem saber muito bem o que fazer, e até porque não sou de deixar coisas a meio, ainda largo duas ou três palavritas sumidas. Mas depois de o ver estendido no chão a minha sensibilidade feminina, vulgo 6º sentido, manifestou-se e aí eu achei por bem calar-me.


De qualquer forma, também não me parece que naquela altura alguém me estivesse a ouvir, especialmente a juíza que se tinha levantado e levado a mão à cabeça desesperada e a procuradora que fugiu como um tiro para o segundo piso, onde decorria um julgamento de vários médicos.


Depois, lá vem o INEM, leva o meu arguido e eu fico na sala, sozinha, sentada numa cadeira ao canto


ridícula na toga xs que não me serve, a olhar para a biqueira da bota e a pensar para com os meus botões que tudo mas tudo me acontece.


Felizmente o arguido sobreviveu ao ataque cardíaco e foi internado.


Agora a questão que se coloca:
Quem é que lhe vai comunicar a sentença?
CREDO, EU NÃO!

ps- para os mais incrédulos, é favor confirmar na secretaria dos juízos criminais de lisboa

segunda-feira, maio 07, 2007

não é mentira, é mentirinha

Num destes dias tive que escrever numas alegações porque é que Belas era um melhor sítio para uma criança viver que uma aldeola perdida ali para os lados de Vila Franca.

Tudo começou numa audiência em que ninguém parecia saber onde se situava a minha ilustre terra. Fiquei de trombas porque essa não é, definitivamente, uma pergunta que alguém civilizado faça.
Depois, outro ainda teve a inóspita lembrança de me perguntar se a minha terra tinha algum jardim!

Se tem algum jardim???!!! Imaginei-me imediatamente de dedo em riste apontado ao nariz: " Meretíssimo seu energúmeno, mais informo que Belas É um jardim. "

Mas fiquei calada que nem um rato a trincar nervosamente a beiça. Vinguei-me nas alegações escritas, adiantando todas as maravilhosas qualidades da terra, o seu património natural, vegetal, arquitectónico e geográfico,

a ilustre serra da carregueira, os jardins, as quintas e solares aristocráticas, as fontes palacianas e o aqueduto das águas livres , (bolas, até mencionei as pegadas dos dinaussauros de carenque)

- por acaso ter-se-ão violentamente enganado os visionários construtores do Belas Clube de Campo e do Lisboa Sports Club? I DONT THINK SO!

Escrevi tanto e de tal maneira que no fim até eu própria me convenci que Belas era o local ideal para se viver,

nela imaginando os meus filhinhos em alegres gargalhadas brincando no seu triciclo debaixo do alpendre, um marido garboso lendo um livro (culto) de mecânica aeronáutica (macho, muito macho) recostado numa árvore de frutos,
E eu, magra, sem barriga, ombros ossudos com as clavículas à mostra, peito erguido e cabelo preto escorrido nas costas, a comer um pacote de cheeto´s de queijo ou daqueles cones de milho, feliz e serena.

Depois esbofeteei-me duas vezes na face e acordei para a vida.
Caramba, não vejo a hora de ter dinheiro me submeter a uma mamo e a uma lipo e mudar-me para o Estoril.

quinta-feira, maio 03, 2007

Para o damião não sei o quê

Houve uma pessoa que me escreveu e disse que o facto de eu ter passado a moderar os comentários reflecte a minha posição de, eventualmente,

não ser boa pessoa e não gostar de discutir nem receber críticas.

É notório que este ser amorfo pura e simplesmente nunca leu o blogue nem sequer os comentários.

Porque sou apologista da filantropia e gosto muito de partilhar, adianto-te que nunca recusei um comentário

mas infelizmente há uma pessoa, leitora deste blogue, que sofre de perturbações mentais e e escreve 10 comentários pornográficos ou simplesmente dementes por dia, para cada post, escrevendo ainda ameaças graves.

Por consideração a quem me lê, e devido aos muitos pedidos para que moderasse os comentários pois chegava a ser confrangedor ter que ler semelhante coisa,

acedi, e deixou de ser automático.

Por conseguinte, arruma as botinhas e o acordeão, e vai chatear outro blogue, porque se bateste à porta errada foi, definitivamente, esta.

Freak

Quem é? O Preconceito, novamente.

Recebi ontem um arguido.

Mulato, um verdadeiro armário, vinha com a cara feita num bolo, repleta de hematomas e nódoas negras.

Sentou-se à minha frente a um metro de mim.

Instintivamente, segurei no telefone portátil pronta a desferir-lhe um golpe mortal caso tivesse a infeliz ideia de me agredir e tentei descalçar uma das botas para me melhor colocar em debandada.

Muito calmo, esteve 10 minutos ininterruptos a elucidar-me sob as suas anteriores condenações e levantou-se para ir embora.

Para quebrar o gelo, eu, sempre com as minhas brilhantes e oportunas intervenções, aponto para as equimoses e digo "então adeus e até ao dia julgamento, não se meta é em mais confusões!"

Ele estaca e olha para mim.

Um arrepio percorre-me e penso interiormente que, daí a um minuto, se não falecer, ficarei pelo menos comatosa no Amadora-Sintra.

"Confusões?" – inquire
Esboço o famigerado sorriso icterício.

"Sou diabético há muitos anos. Ultimamente, quando vou pôr os meus miúdos ao infantário ou vamos brincar para o jardim, fico sem força e desmaio.

No Sábado estava na Igreja à espera da minha filha que ia a sair da catequese e bati na esquina de um banco. Levei 12 pontos".

diabetes?
catequese?
filha?
Igreja?


Com os olhos marejados, só não o levei para minha casa, deitei-o no sofá , calcei-lhe uns peuguinhos da Serra da Estrela, enrolei-o num cobertor de lã caprina e depositei-lhe um beijo amoroso na testa

porque simplesmente não calhou.


Senegalês escoriado – bhacccc
Senegalês religioso e diabético – quero. adoro.

sexta-feira, abril 20, 2007

m...´s anatomy

Fui ao centro de saúde (inominado, para não ser presa daqui a 4 dias). Ir aquele antro psicotrópico é sempre uma experiência aterradora, especialmente o acto de sentar nos sofás mais andrajosos que há memória, repletos de todos os bichos conhecidos na ciência da Parasitologia, e ainda ficar frente a frente com a minha médica de família que suspeito desconhecer a totalidade das consoantes.

Há já algum tempo que a epitetei como a profissional mais burra de todos os tempos, de todas as civilizações, de todos os campos gravitacionais.

Esta semana, depois de 5 horas nos famigerados e mega-povoados sofás, entrei no gabinete da médica ainda a coçar-me por dentro da blusa num processo complexo de limagem de antebraço (pulga ou piolho, acabei por não descobrir). A doutora, extremosa como sempre, nem perguntou o motivo da comichão. (Suspeito que se entrasse de braço dado com um macaco idoso a escorregar por uma liana ela nem bateria uma pestana).

Respirei fundo, refreei o meu ímpeto maléfico de lhe dar um pontapé na fuça e estendi-lhe um relatório de umas análises com uma mão coçando-me aflitivamente com a outra.

"Você não tem nada" – respondeu aquele Cu diplomado.

Como nada, pensei. Ainda nem há 20 segundos tinha lido nas observações o nome da infecção.
"Drª, penso que..penso que não, acho que tenho.." – titubeei eu

"Não tem nada" – repetiu

"Então e isso que está aí escrito nas observações?" – questionei em voz sumida

"Hum. Ah,está bem" - condescendeu

Palavra de honra. Não existe uma merdinha qualquer de um juramento de Hipócrites ou Hipólito? Será que o mencionado senhor sonha que semelhante negligência estava prestes a ser cometida não fosse a sagacidade e lucidez de espírito desta pobre sobrevivente que hoje (miraculosamente!) vos escreve?

Sempre gostava de saber o que é aquela primata antropóide estava a fazer nesse dia.
Eu, ofendida e em pose altiva, pelo menos aquela que é permitida a uma pessoa acossada de pulgas-saltimbancas desde os dedos dos pés até à base da nuca, saí do gabinete.

Nunca mais lá volto, Deus queira que nunca mais fique doente ou então que me dê clarividência para me auto-medicar. Coitado do Pobre.

terça-feira, abril 17, 2007

CARAMELO! CHOCOLATE

Estou sem palavras.

Há 20 minutos atrás, enquanto deambulava pelo maravilhoso mundo da Wkipédia pesquisando sem qualquer rumo criterioso (jurista estatal blá blá blá), deparei-me com uma lista de síndromes. Emocionada e, convenha-se, com louvável paciência e tempo livre, analisei um a um.
De repente, sem apelo nem agravo travo conhecimento com o síndrome de Ehlers-Danlos ou Cutis elastica.

Aprofundo esta doença genética. Descubro que um dos sinais consiste em tocar com a língua no nariz.

Lentamente, em frente ao monitor, estico a língua.
Após uma breve hesitação e muito cautelosamente, soergo-a na vertical.
Grito lancinante.

Tremendo, leio o resto do artigo e descubro que o grau de gravidade do síndrome determina a expectativa de vida do paciente.

...Xau amigos. Depois de ter passado pela nefasta sensação da língua a acariciar-me gentilmente a testa suspeito que não vou chegar à ternura dos 40.

2 conclusões se retiram:
- se eu fosse depravada e solitária grandes aventuras se adivinhariam (nota do editor: não sou)
- F...se antes isto que o de Tourette

sexta-feira, abril 13, 2007

Perguntas Diárias PARTE I

- A Shakira é ou não prima do Cocas? Se não é prima, detém ou não um qualquer laço de parentesco com o mencionado batráquio? Será plausível uma mera coincidência de pregas vocais e véu palatino? Hum...i dont think so.

- Quem foi o egrégio e brilhante estratega do marketing que resolveu criar o desodorizante que dura 48 horas?

- Porque é que ninguém ainda deu uma chapada valente na Iva Domingues, a artista anteriormente conhecida por Iva Pamela ex-partner do saudoso Carlos Ribeiro no Made in Portugal ou lá o que era aquilo? Será que sou só eu que acho que ela é uma pobre coitada , gira, é certo, mas dolorosamente burra, com a mania que é perspicaz , completamente parcial, com piadas de mau gosto e armada em estrela naquele programa de sanita? Algo me diz que já sei porque é o Pedro Mourinho deu bem à soleta!

- Como é que é possível que em pleno sec. XXI ainda HAJA (ANÓNIMO ANÓNIMO AQUI ESTÁ O TEU MOMENTO DE GLÓRIA! UM ERRO POR TI CORRIGIDO! QUE PENA NÃO TERES NAMORADA NEM AMIGOS, QUÃO ORGULHOSOS FICARIAM ELES POR SEMELHANTE FEITO?! OH EGRÉGIO ANÓNIMO COMO TE PODEREI AGRADECER A SAGAZ CONJUGAÇÃO DESDE VERBO?! DINIS, CAUTELA! CASO ELE CORRIJA MAIS UM ERRO (UM!) FICARÁ EMPATADO CONTIGO! seres pensantes que não saibam que circular na faixa da direita a uma velocidade superior à das outras NÃO É uma ultrapassagem nos termos do código estradal? Como é que é possível um casal de namorados não se falar durante uma semana só o fazendo após parecer verbal de um sub-director da DGV? Hum. É bem possível. E emocionante. Principalmente quando se ganha.

- Como é que é possível ainda ninguém se ter apercebido que o filme Zona J originou uma das maiores injustiças de que há memória no patético panorama cinematográfico português: a Núria Madruga, cuja prestação teatral dispensa comentários, aliás, não dispensa, é um perfeito e frondoso cagalhoto que nem mexer os olhos sabe, anda por aí nas telenovelas, e o Félix Fontoura, par amoroso, que até nem se saiu mal e deveria ter visto o seu talento ser melhor explorado, só porque era pretinho está hoje a vender sapatos à comissão na Guimarães da Amadora.

quinta-feira, abril 12, 2007

A verdade da mentira**

A associação a que pertenço convidou um conhecido grupo de hip hop, para animar uma tarde das nossas crianças, com cantigas, coreografias e sermão típico das boas práticas e costumes,
convite esse a que o grupo generosamente acedeu, em pleno período das férias pascais.

Antes da actuação (que se revelou o máximo e proporcionou uma tarde muito bem passada, que fez a miudagem delirar e gritar até ficarem roucos), um membro do grupo dirigiu-se a nós pedindo para tirar umas fotos.

- claro, claro – apressámo-nos nós a concordar, orgulhosos de aquele grupo querer uma recordação nossa associação.

- Ao fim e ao cabo também serve para a nossa própria publicidade... – reconheceu o famoso vocalista.– Sempre damos a conhecer uma outra vertente da banda, mais humana, percebes? Mais que trovadores urbanos somos pessoas com sentimentos e preocupações.

Um outro membro questionou:
- Vocês são muito conhecidos não são? Estivemos a pesquisar, têm casas nos Açores e na Madeira não têm? Ainda são umas 2 mil crianças, vivem mesmo nas casas da associação não é? – num misto de interesse e verdadeiro apreço.

Olhei para os 21 ranhosos amorosos que por ali pululavam. Lembrei-me das instalações concedidas com muito boa vontade mas simplesmente bafientas, numa das salas ligeiramente podres da paróquia.

Algo na minha cabeça piscava como um neón e me advertia “PERIGO, PERIGO, estes gajos acham que nós somos uma outra associação e se eu disser alguma coisa se calhar arrumam as trouxas

e bazam, bazam, e vão para casa, casa.

E eu, (abrindo a pestana tana) sorrio complacente: - Fazemos o que podemos...

Nunca uma mentira me soube tão bem.
Quer dizer, de certeza que já houve, mas por agora não me recordo.

terça-feira, abril 10, 2007

Se a Yuppi sonhasse

Indo eu para o jantar de uma amiga bióloga que reunia nessa noite, em sua casa, outros colegas de profissão e veterinários, fui interveniente num infeliz sinistro tendo atropelado um cão ao pé de um cruzamento.

(Para quem me conhece bem, sabe que o verbo atropelar acoplado ao substantivo cão não auspicia nada de muito proveitoso. Com efeito, posso sinceramente afiançar que sob o meu ponto de vista atropelar um cão é uma acção muito semelhante quiçá, equivalente, a segurar um bebé por um tornozelo arremessando-o repetidamente de cabeça contra a esquina bem polida de um armário).

Depois de uma pancada forte e seca, oiço um ganir desesperante. Imediatamente, e com o sangue frio que me é característico, larguei as mãos do volante tendo com as mesmas tapado os ouvidos, cerrando os olhos com força e baloiçando-me autistamente à espera que aquele som terminasse e alguém acudisse o animal porque eu estava noutra dimensão.

Passados uns segundos uma mulher bate no vidro. Acena-me um ok e diz que o cão está bem. E, para meu grande espanto, vejo o cãozinho amoroso a saracotear-se alegremente ao lado do carro. Estupefacta, suspiro fundo e sigo o meu caminho. Chego a casa da minha amiga e, ainda a tremer, conto a história. Depois, remato com o final feliz e sorrio aliviada para todos quanto me ouvem.

Estranhamente, vejo rostos fechados e testas franzidas.
Um dos amigos da amiga elucida-me:

- Bem, o mais provável é esse cãozinho ter andado mais 30 metros e ter-se esticado morto no meio do chão, devido a uma enorme hemorragia interna.

E prosseguiu, filosófico: - Basicamente todos os seus órgãos vitais entram em falência e minutos depois do embate deve ter sofrido um choque hipovolémico afogando-se no seu próprio fluxo sanguíneo enquanto fica sem oxigénio e as todas as células morrem após um estado profundo de sofrimento.

Politraumatizada, levei a mão ao peito, certificando-me que ainda respirava.

quinta-feira, abril 05, 2007

Bom gosto? Hilarious

Ontem fui a casa da minha avó deitar fora o equivalente a meia tonelada de coisas que não lembram a ninguém, vulgo lixo. Esta é uma tradição que já se vai mantendo há alguns anos, dado que esta minha querida avó tem uma incapacidade técnica para distinguir as coisas úteis daquelas que, não só não têm qualquer utilidade prática, como até são desconcertantes do ponto de vista vegeto-animal

Assim, depois de muito choro e bramidos lancinantes lá consegui que a velhinha barricada na casa de banho me desse voluntariamente coisas que aqui me esquivo de denunciar porque acima de tudo temo que isto tudo possa ser genético e daqui a 50 anos vêm-me cobrar este texto.

Certo é que para lá desencantei uma serapilheira gigante repleta de malas e sapatos. Não sei precisar a idade cronológica, mas penso que da era pré-25 de Abril (mas já pós-1932). Munida de luvas esterilizadas, pego naquilo com um cuidado ínfimo de forma a que nada me tocasse e dirijo-me ao caixote do lixo. Infelizmente o saco, demasiado cheio e demasiado bafiento para se aguentar com atroz tormento, rompe-se todo e cai tudo no chão.

Surpreendida, observo com atenção e constato que no meio daquele aterro de entulho se vislumbram dezenas de pares de sapatos e outras tantas malas completamente usáveis nesta moda de meia estação. Se eu tivesse a mania da suspeição, quase que diria que os big boss da Lanidor, Zara, Massimo, Decenio e afins desceram dos seus ateliês de tecelagem e enfiaram-se na adega da minha avó à procura do mais remoto e inqualificável lixo urbano.

Ou seja, este verão, tudo o que seja sapatos feios de avós e tias-avós virgens da Moimenta da Beira (assim como contentores de roupa usada - colecta 1983-84), está super, super chiquê.

Agora na Páscoa vou à terra vasculhar os armários e Deus me perdoe o pecado da soberba mas sim, este ano, eu vou brilhar!
E ver muito ratinho morto no meio dos baús à pala do sulfato de sódio, quem mandou não ser roedor silvestre?

quarta-feira, abril 04, 2007

A Shakira mexe-se bem e canta muito mal - mas é FAMOSA

Devo anunciar que hoje de manhã ia-se perdendo (oh eufemismo adocicado!) uma adorável blogger nestas acidentadas estradas portuguesas.

Eram 8h45 e a minha pessoa ia-se esbardanando toda debaixo de um camião com 5 eixos. Ia eu a atravessar uma passadeira da Expo e o mencionado pesado tenta travar mas, para meu infortúnio, vem a escorregar rua fora e eu com uns altos pretos de 9 cm tento correr pela vida mas o máximo que almejo foram 4 ridículos passos achinesados.

Felizmente o mega-camião trava e não me mata. O senhor pede desculpa, mas segue. Eu, profundamente irada perante tamanha insolência, tento trepar até à janela do condutor e dar-lhe umas chapadas. Mas, como continuo com os famigerados saltos altos, fico-me apenas pelas intenções, fazendo mega-manguitos e gritando umas asneiras valentes.

Estava eu ainda nesses propósitos ( "Assassino, bandido!") quando atento bem no camião. Em letras garrafais (garrafais..tss tss - Times New Roman tamanho 390) leio:

SHAKIRA´S BIG WORLD

Calei-me imediatamente e fui a correr veloz atrás do camião. Meu Deus, ser atropelada/ferida não mortalmente pelo veículo da senhora - que atenção: não gosto, mete-me medo e se ela me perguntasse as horas naquele vozeirão de Hércules num beco escuro de noite eu desmaiaria imediatamente transida de purro terror -

foi o passo mais próximo da fama que já alguma vez dei. Ainda tentei que uma das roda me passasse por cima de um dos sapatos, chamei John, Jim, Jack, mas o condutor do pesado ia lesto quase que parecia um ligeiro e desapareceu-me do horizonte.

Desapontada, imaginei-me na Cuf a ser cumprimentada por uma Shakira chorosa e combalida, desgostosa de semelhante acto cometido por um dos seus subordinados. Um concerto a ser adiado, a TVI a entrevistar-me, a minha professora da primária "sempre soube que ela ia ser alguém".

Não foi ainda desta que saí do anonimato.

domingo, abril 01, 2007

Pulícia Jodiciária (manobras de distracção para não me apanharem no Google)

Sábado passado tive a rica ideia de ir ao exame da PJ artilhada com numerosos apontamentos complementares não autorizados, colocados estrategicamente em vários recantos do meu corpo e peças de vestuário.

À saída de casa, reflecti sobre a prudência de semelhante acto.

Nãoera exame da Faculdade de Direito
Não era exame da Ordem

Era a PJ.

Se esta instituição detivesse alguma dignidade material, no mínimo ofereceria dois labradores à entrada da faculdade, um paisana a fumar junto às casas de banho, uma mulher a revistar-nos as cuecas, outra a introduzir-nos dedos no recto, um coordenador no telhado a interceptar chamadas telefónicas e um agente encoberto infiltrando-se nas conversas.

Fiquei com tamanha dor de barriga que desembaracei-me das cábulas e atirei tudo para a bagageira, levando apenas os 2 códigos.

Infelizmente, o único rex que para lá vi foi um cão famélico orbitado de moscas, o telhado estava deserto e ninguém me revistou excepto um supervisionador de provas que me despiu com os olhos enquanto limpava o cuspo dos cantos da boca.

Depois de ter asssistido, profundamente enojada e durante 3 horas ininterruptas, a pessoal a copiar desencantando cábulas das orelhas e de entre os dedos dos pés, fui a praguejar e blafesmar o caminho inteiro para casa.

Que bando de meninas, não é nada como nos filmes.

(Senhores inspectores que mesmo após a manobra ardilosa do título cá venham parar após cerrada investigação no Google:

este blog tem um intuito meramente lúdico e não corresponde, de todo, a qualquer situação verdadeira que tenha ocorrido na minha vida. Basicamente, invento numerosos eventos caricatos de maneira a ludibriar alguns visitantes mais crédulos, nunca me ocorrendo trapacear para entrar em tão prestigiosa organização.

Aproveito desde já para tecer os maiores elogios à v/ corporação, adiantando ainda que moro ao pé dos GOE e sopro sempre um breve beijo quando os vejo ali em Carenque.

Sou uma cidadã temente à lei e o único sinal que desrespeitei na minha vida foi um atrás do ombro esquerdo que tive que remover cirurgicamente pois não ficava mesmo nada bem com tops de alcinhas

Susbcrevo-me respeitosamente,

Salsicha Girl)

quinta-feira, março 29, 2007

Arma Letal 1

Lembram-se daquele frasco de doce de gila, que tão negligentemente ofereci ao meu diabético pai ? Tentei remediar o estrago, comprei-lhe as peúguinhas mas o certo é que fiquei com a compota ao deus-dará.

Vai daí, lembrei-me de a reciclar e oferecer à minha avó materna agora no seu 74.º aniversário.
Ontem veio cá jantar. Após o lauto festim desencanta um saco plástico do LIDL e endereça-mo:

- Toma Susana, é aquele doce de gila. Não gostei, mais valia o pão-de-ló – apalestrou ela, com uma profunda sensibilidade nazi.

O meu pai olhou para mim. Eu olhei para ele. Sorri. Ele não.
Conclusão, saiu-me bem cara aquela prenda de € 2.

Fiquei com um pai ofendido, uma avó desconsiderada e um produto simplesmente ascórbico nas mãos.
(vou guardá-lo para a troca de prendas com os meus colegas. Que não lerem este blog, naturalmente).

segunda-feira, março 26, 2007

O Cabeleireiro e o Homossexual

Já há algum tempo que foi por mim constatado que todos os cabeleireiros são homossexuais.

Excepto um amigo meu que, pelo contrário, nada deve às hormonas masculinas e esquemas tipológicos de sedução, engate a fins, e sempre se saiu muito bem com o sexo oposto. Demasiado bem, dirão alguns compinchas invejosos, que ficam a jogar póquer em casa enquanto ele se diverte pelas noites catalãs.

Este fim de semana ficámos todos num quartel militar.
Ele, um relações públicas por excelência, conversava entusiasticamente com dois ou três militares.

Eu, cujo cabelo desenfreado (e o qual nunca, numa vida de 26 anos consegui dominar) insistia em entrar olhos, nariz e orelhas adentro, fui ter com ele e pedi-lhe que me pusesse um ganchinho.
Ele logo agarrou no dito e, com inigualável mestria manejou-o de forma a que a minha franja psicótica se mantivesse 10 minutos acachapada à cabeça.

3 homens completamente imóveis fitavam o meu amigo num misto de horror e incompreensão.

Aquele que ainda há 1 minuto conversava num vozeirão de macho tinha não só acabado de pegar num gancho da Hello Kitty, como o tinha manuseado e, inclusive, colocá-lo destramente numa cabeça humana, sem ter furado nenhum olho ou orifício mais próximo.
Pior, tinha ainda chamado a mencionada cabeça para, veja-se!, o colocar do outro lado para "ficares com o rosto menos pesado e um visagismo mais leve".

Realmente, mexer em cabelos não é necessariamente gay. Mas só em casos muito, muito especiais.

quinta-feira, março 22, 2007

xarope de seiva?

Ainda reportando aquele assunto da minha burra, andrajosa e socialmente lastimável conhecida que quer ir fazer os exames da PJ - esquecendo-se do pormenor de que não consegue correr, mal respira e praticamente não anda (já se alvitrou que ela teria um ou dois pares de grilhões ocultados pelos tornozelos) –

ontem ela veio falar comigo e com umas amigas.

Conversou nem 5 minutos. Afastou-se. Vimo-la a descer, devagar devagarinho, tal qual como tivesse acabado de parir um filho e não quisesse rebentar os pontos do perineu.

Ficámos quedas a observar o fenómeno. Após uns minutos de atenta reflexão, alguém quebrou o silêncio e avançou:

- Talvez vá fazer uma rigorosa dieta.

Ficámos caladas a olhar para ela.

- Quer dizer..talvez fique a soro – corrigiu

Continuámos a fitá-la.

- Ok, se calhar só lá manda uma perna.

Muito bem, gosto de raciocínios assim. Segmentados mas puramente lógicos.

segunda-feira, março 19, 2007

Pai há só um. mas por pouco

Hoje, dia do Pai, cometi o maior sacrilégio que tenho memória.

Logo pela manhã, o meu pai foi-me esconjurar ao quarto, bradando que eu sou sempre a mesma coisa, uma grande mandriona e "levanta os pés e põe-nos a mexer!".

Pois é, desta vez não levantei os ditos e rodopiei-os em pequenos círculos, obedecendo em sentido estrito à ordem clamada (o meu sentido de humor é simplesmente fascinante).

Não, desta vez eu corri para os braços dele, exclamei "Feliz Dia do Pai!!" e ofereci-lhe uma lembrancinha que comprei à Marta, para ajudar o Grupo de Jovens dela: um frasco de um doce de gila caseiro.

Bem, se o arrependimento matasse o homem tinha-se fulminado diante dos meus olhos. Com um ar repleto de remorso e amargura, o sr. meu pai agradeceu-me emocionado e enfiou a viola no saco.

Chego ao trabalho, orgulhosa de tamanha lição de generosidade.
Anuncio a dádiva.

Vira-se uma colega: - "Mas ó Susana, o teu pai não tens diabetes?"
"F.., ca..., q m..!"
- " Bem, mais valia dares-lhe logo duas cápsulas de cianeto".

É o que dá uma gaja esforçar-se e tentar inovar.
Lá vou eu ter que ir à Massimo comprar-lhe o anual par de peúgos.

sexta-feira, março 16, 2007

Retrato de um País

Ontem fiquei mais 45 minutos para além do meu horário de trabalho, a terminar um processo. Quando saí da sala dei de caras com o Director. Este, profundamente chocado, olhou para mim como se eu o tivesse mandado vendar os olhos, pegar numa lambreta e obrigado a fazer acrobacias no Poço da Morte.

Encostou-se à ombreira da porta e, após uns segundos de recobro, perguntou-me o que é que eu estava ali a fazer.

Estive a analisar um processo – adiantei.

O Sr. Director perscrutou-me, incrédulo. E eu, de um azul ciático, esboço um sorriso demente e fico estática no mesmo sítio.

Fitou-me mais uma vez chocado e acabou por ir-se embora, voltando-se ainda 2 ou 3 vezes para se certificar que eu não era um espectro óptico exorcizado.

45 (quarenta e cinco minutos!). Nem quero imaginar o que sucederia se lá tivesse ficado uma hora completa. (No mínimo uma acção de inabilitação seguida de internamento compulsório).

quarta-feira, março 14, 2007

A maldade

Soube que uma rapariga minha conhecida vai fazer o exame para a PJ, já no final deste mês.

Situação Fáctica:
Mede 1.55 e pesa 81 kg (nota de rodapé: valor estimativo arredondado por defeito).
É má, estúpida e cheira a adega de viticultor .
Não é particularmente esperta mas está a estudar aturadamente para os exames escritos.

Situação Hilariante:
Ela não sabe que para entrar para a Polícia Judiciária, não basta ter brilhante nota e dar umas corridinhas com as mamonas a ondular seduzindo inspectores-júri com taras sado-obesas. Existe mesmo um requisito mínimo, que inclui uma tabela anexa e que indica que meias-lecas como nós, de 1.55 a 1.60 têm que ter no máximo 58 kilos bem medidos nas balanças oficiais.

Auto-Avaliação:
Básica? Sou.
Má? Concedo.
DELATORA? Jamais.

Elemento moral da história:
Não vou abrir a boca.

segunda-feira, março 12, 2007

Despique desigual

Hoje logo pela fresquinha, ligo a televisão e fico ao corrente de um sem número de roubos não sei do quê (cabos de bronze ou ferro ou similares), numa terreola bragantina, que obstaram a que os seus habitantes pudessem usufruir da electricidade.

Jornalista (num tom profissional, sereno e circunspecto): então e como é que se apercebeu que tinha falhado a electricidade?

O Verdadeiro Português (com um ar nobre e compungido)- ´Tão, eu ´tava na Internet. A ver.. (pausa) na internet..a pesquisar. A ver umas coisas... (Pausa) (ganhando balanço) Estava a pesquisar– completa ele, mas com os olhos fitos nas algibeiras.

Sabem onde estão as "Mulheres de Bragança", que tão bravamente pugnaram pela recatez dos seus lares contra as brasileiras assanhadas?
Estão num cantinho enegrecido junto à lareira a chorarem copiosamente pelos tempos que eram e já não voltam a ser.

Transmontanas esforçadas –0 / Pornografia Livre- 30

sexta-feira, março 09, 2007

Homem, mas dos honestos

Ontem não comemorei o Dia Internacional da Mulher, porque basicamente sou um homem.

Chegada do ginásio, e garanto-vos que é a verdade nua e crua, a primeira coisa que faço é arregaçar as mangas, ficar praticamente em ceroulas e obrigar cada colega meu a apalpar-me os bíceps, tríceps e, num dia particularmente produtivo, os glúteos e a parte interna das coxas.

Em tempos ria-me impiedosamente da boçalidade e trejeitos rurais dos gajos da musculação, daqueles que, fazendo 40 flexões e levantando 60 kgs se prostravam frente ao espelho mirando-se jubilosos de hercúleo feito, e lançavam breves olhares de soslaio certificando-se que, no mínimo, três sócios e dois visitantes cirandavam nas redondezas.

Actualmente sou aquela que faz meia flexão de joelhos (assumidamente aldrabada) , levanta uma toalha com um braço e a garrafa de água mais chave do cacifo na outra e fica assim, imóvel , bebendo sofregamente a sua imagem reflectida no espelho, e cada vez que, à laia de músculo uma ligeira batata, bem, hum..., enfim, uma minúscula ervilha assoma no seu (em tempos taberneiro!) braço,

lança urros de alegria e abraça o primeiro indigente que lhe apareça no meio da rua.

Esperem até conseguir levantar uma barra.

terça-feira, março 06, 2007

Q.E. = 0

Sábado, numa escala, depois dos dez minutos mais entediantes de toda a minha vida, sou chamada para falar com um detido.

Vou até aos calabouços, saltitante e pró-activa, e deparo-me com o alegado criminoso.
Dirijo-me à cela e avisto o menino mais amoroso, mas quando digo amoroso, é mesmo FOFUXO na mais genuína e gritante acepção da palavra.
Um rapazinho dos seus 18 aninhos, olhos enormes rasos de água, ponteados por umas enormes pestanas pretas, estava sentado num banco com os bracinhos cruzados no colo. As mãos, nervosas, aquietavam os cotovelos nus, e a pobre criança tremia como varas verdes, olhando para a biqueira dos sapatos numa vergonha inominável. Quando se apercebeu da minha presença, ergueu os olhos suplicantes, e , com o beicinho a tremer, levou as mãos ao peito numa prece contrita. Basicamente, pareceu-me um gatinho recém-nascido à procura de um pires de leite e uma pequena posta de perca do rio.

Encostei-me docemente às grades e, olhando-o directamente naqueles maviosos olhos azuis perguntei-lhe num tom maternal: "então, porque é que estás aqui?"

- "assalto à mão armada, com caçadeira de canos serrados"

E eu, discretamente, afasto-me das grades

e faço o sinal da cruz

(E ele, continuando
"posse de droga, tentativa de homicídio" - E mais uns quantos crimes os quais nem sabia que existiam quanto mais o regime penal aplicável).

Fugi calabouços fora, a repensar a minha inteligência emocional e capacidade de avaliar pessoas e situações. Nitidamente, é má. Condoídamente (levará acento?) má.

sexta-feira, março 02, 2007

Runaway Train

Já vos aconteceu estarem a sair do metro, correndo pela vida para tentarem apanhar o comboio,
verem o monitor que anuncia as partidas e chegadas e repararem que, curiosamente nesse mesmo minuto, está prevista a entrada de um Roma Areeiro na linha 8,

então sobem meio estropiados as escadas rolantes e, felizes (suspirando de alívio!), ouvem o barulho da locomotiva,

mas depois reparam que estão numa ponta da plataforma e o Roma Areeiro passa por vós e estranhamente parece ir parar somente na outra ponta,

então vocês correm, calcanhares nas costas e braços esvoaçantes (versão Tom Sawyer/Entrecampos) tentando alcançar a última composição,

e, finalmente, apercebem-se que o comboio NÃO está a chegar mas sim a IR-SE EMBORA,

e que estão a correr esbaforidos estação fora, perseguindo um comboio em pleno andamento, enquanto os palermas da linha 7 e linha 2 de dedo em riste apontam para vocês e se riem à boca podre?

Já?
Muito mais aquietada, obrigada.


(PS- houve quem alvitrasse, e mal (aqui no cubículo laboral) que este post tem demasiadas semelhanças com outro. Desafiei-os a nomearem qual. Não conseguiram. Estendo a pergunta (e uma paulada na testa) a quem tiver a mesma opinião. )

terça-feira, fevereiro 27, 2007

O Congolês II

Num destes azafamados dias, tive que ir à Segurança Social.

Debruçada sobre a mesa, com uma mão agarrava a funcionária pelos colarinhos e clamava misericórdia enquanto com a outra segurava um lencinho de papel e limpava o narizinho fungoso, resultado de um útil choradinho mas, confesso, bastante cansativo.

Por fim, a funcionária lá se compadeceu e levantou-se indo buscar o documento necessário.
Eu, vitoriosa, sorri maquiavelicamente e recolhi os documentos espalhados pela mesa.

De repente, surge-me vindo nem sei bem de onde, um pequeno marginal, meio aciganado com franco mau aspecto e a ponta de uma arma branca a sorrir num bolso de um casaco.

"Ó Meu Deus, será possível ser roubada aqui em pleno guichet?" interroguei-me eu

O ciganolas debruçou-se sobre mim encostando-se-me ao ouvido:

(e eu "Ó Meu Deus, será possível ser roubada, apalpada e, quiçá, violada em pleno guichet?")

"Olhe, peço imensa desculpa, corro o risco de ser indelicado mas penso que devo adverti-la que, da maneira como está sentada, estará, eventualmente, a expor-se demasiado".

E afastou-se gingando com a sua arma num bolso e a mão no noutro.

Atordoada, lá puxei o elástico das cuecas e fiquei cabisbaixa, chorosa não por ter as ditas de fora mas porque continuo a ser uma grandessíssima atrasada preconceituosa.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Ajuda especializada

Hoje abri a minha primeira conta de poupança.

Passados 25 minutos, retornei derrotada ao banco para perguntar o que fazer, caso pretendesse levantar já algum dinheiro.

Bati fundo na minha curta e depauperada existência.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Conspurcação de uma menor

Quando eu frequentei pela 1ª vez um ginásio, já lá vai mais de uma década, tive um sábio instrutor de musculação (sim, a sério, são um adjectivo e substantivos que efectivamente se podem conjugar!) que me advertiu que:

O homem e a mulher fazem parte do reino animal e comportam-se como tal. As fêmeas só querem cuidar das crias e os machos só querem copular indistintamente com todas elas.
Após ouvir conversas intermináveis de amigas que não têm sexo há 2 anos mas já pensam em que maternidade querem ir parir (CUF Descobertas está em 1.º lugar), e de amigos que se esmifram em mentiras labirínticas para poderem cobrir a amiga, a amiga da amiga e uma prima de Fornos de Algodres da amiga da amiga (haja fôlego para tanta amizade), suspeitei que o sábio musculoso tinha razão.

Felizmente lembrei-me que tenho terror a partos, vaginas dilatadas e vulvas inchadas.
E um namorado que é macho mas muito gaja e abomina confusão.

Hoje olho para trás e acho que o eremita musculoso queria era tirar uma lasquinha.
É atrasado tem teorias parvas. Não o quero para pai dos meus filhos.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

O Paquiderme

Hoje manhã houve um tremor de terra e o edifício abanou todo. Como eu estou no 3.º andar, a repercussão foi ainda maior.

Ora, nano-segundos antes do impacto eu levantei-me da secretária e fui buscar uns códigos à prateleira. Estava eu a recolher o de 2003 quando toda a sala se virou para mim. Estaquei com o código na mão e devolvi-lhes o olhar.

“Susana, foste tu?”
“Fui eu o quê?”
“FUJA FUJAM! ISTO VAI ABAIXO, FUJAM PELAS ESCADAS!” – gritou alguém no corredor

E parte tudo em debandada comigo atrás. Chegámos cá abaixo e a malta toda excitada, com a mão no peito e a suspirarem fundo. Cruzei os braços, de trombas, e virei a cara para o lado.

“Que foi Susana?”
Nem respondi.

Há um sismo que abana um edifício que comporta 1100 empregados e perguntam-me se fui eu a levantar-me da cadeira.

Mas sabem o que é verdadeiramente mau? É que eu não senti absolutamente nada. E depois ainda pensei que estavam a gozar e fui a última a fugir, só o fazendo porque encontrei naquele virote um bom motivo para ir para a rua beber café.

2 conclusões:

- o meu hipotálamo não está a fazer um bom trabalho.
- Nunca mais falo aos meus colegas.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Bom Dia!

Hoje de manhã, aqui na Expo, desfilou uma imponente parada policial, com as autoridades engalanadas nos seus lustrosos uniformes e montadas em cima de poderosos alazões de sangue puro.

Os airosos polícias, a quem só faltavam dois penachos atrás de cada orelha e uma pluma espetada no rabo tamanha era a vaidade que os consumia, olhavam para todos os lados certificando-se que nem uma única alma desviava os olhos de tamanha parada.

Eu, na realidade, fui uma dessas pessoas. É que não consegui mesmo deixar de olhar para dois polícias que, lado a lado, trotavam em cima dos respectivos cavalos, os quais, sem qualquer sentido de dignidade e respeito pela ética militar derrocavam violentas conchas de bosta em frente ao Vasco da Gama. Atenção, sublinho, não estamos a falar de amorosos montinhos, mas sim de dejectos de proporções simplesmente inqualificáveis. E que lançaram no ar (já de si pouco impoluto graças ao Tejo) um odor peculiar, ligeiramente almiscarado com notas secas, que deixou os peões atordoados e os condutores aliviados por estarem hermeticamente protegidos.

Enfim, um momento único de contribuição para o prestígio e valorização moral das forças armadas. A juntar aquele em que ia com mais duas amigas e o bófia arrota para uma delas: "eh cavalona, partia-te essa bilha toda!"

terça-feira, fevereiro 06, 2007

As aparências

Aqui há umas noites estava no carro e o namorado aponta para umas ervas e diz:

“Olha ali que grande ratazana”

Debruçada sobre a janela observando-a atentamente acrescento:

“Ai é enorme, parece um coelhinho”.

Silêncio. Ele numa voz compassiva,

- “Vês...”

O meu olhar tornou-se vítreo e fiquei pálida como um círio.
Tornei-me naquilo que abominei ser. Por segundos fui a menina bojuda da Torre de Belém a confundir um rato de esgoto com um adorável leporídeo. Mas caramba, a ratazana do outro post estava em plenas exéquias fúnebres, imóvel de pernas para o ar, esta avistei-a de soslaio pois fugiu num ápice por entre as couves!

Conclusão sumária:

A miúda era mesmo burra
e as ratazanas também
eu não
e coelhos são só para pendurar nas oliveiras de cabeça para baixo e fazer arroz na Páscoa.

Adoro cães

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

A Quebra

Há quem tenha avançado que eu estou viciada no Casino.

Elucido que eu estou viciada sim, mas em algo muito mais (sotaque mineiro) gostoso...

Caros confrades,

estou oficialmente convertida ao “Lost”. O engraçado é que ainda antes de ter visto um único episódio, já sabia a história toda até à 3ª série, episódio 6, filmado em Novembro de 2006 nos E.U.A: Veículos informativos: =>wikipédia + www.lostinlost.globolog.com.br

Por favor, viciem-se, para poderem conversar comigo e trocarmos ideias, bilhetinhos e fazermos conspirações. Advirto que tenho uma teoria particularmente inteligente mas só a divulgarei quando tiver assegurados pelo menos um estrado num palco de 25 cm e 5 holofotes sobre a minha pessoa (o estrado estará sob, espero).

E meu Deus,

Perdoa-me atempadamente pela quebra dos seguintes mandamentos:

6.º - Guardar castidade nas palavras e nas obras
9.º- Guardar castidade nos pensamentos e desejos
10.º - Não cobiçar as coisas alheias.


MAS QUE DIVINDADE GREGAÉ AQUELA A QUE DÃO O NOME DE SAWYER? E como é possível ao 3.º dia Fazeres coisas tão belas e ao 4.º Mandá-las para outro continente??

God, make me Pure but not yet.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Ronaldo, a micro-versão

Ontem, no casino de Lisboa, fico frente a frente com um chinês.

Até aqui nada de inaudito, é sabido que no casino coabitam 58 asiáticos por cada 2 europeus e 0.005 afro-hindus.

O que se revelou verdadeiramente intrigante foi o facto deste chinês, e passe, obviamente a alarvidade racial que dentro de 5 segundos vou escrever mas que corresponde, afinal a uma constatação estético-visual,

Este chinês era, na realidade, BONITO. Eu sei, eu sei, sou uma mentirosa compulsiva e a grande maioria dos meus posts estão despudoradamente adulterados. Mas, afianço-vos, aquele exemplar possuía traços fortes, maxilares bem definidos, testa larga e confiante. O cabelo, despenteado, era de um preto-azeviche brilhante e bem cuidado. Uma boca pequena, mas cheia, brancos alvos e um sorriso doce. Sem mencionar, claro, dois olhitos rasgados simplesmente amorosos, que saltitavam alegremente pelas várias casas da roleta.

Enfim, gostei. E gostei também de saber, hoje no Diário da Manhã, que o Sr. Chinês é uma nova aquisição do Benfica.

É simplesmente irrefutável: eu tenho faro para a coisa - cheiro futebolistas à distância.
(e ANTES DOS JOGOS, que sob o ponto de vista higiénico-sanitário torna a façanha muito mais meritória).

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Será que? Não.

Caríssimos,

É com incontido orgulho que declaro que nada escrevi esta semana porque,

Tambores-check
Tamboristas-check
Rufos crescentes-check

Estive a trabalhar!!!!

...

Num processo judicial de um amigo meu.

No horário de expediente.
Ainda não foi desta que justifico as vossas contribuições à máquina administrativa.
Sorry...

quarta-feira, janeiro 24, 2007

O Vício ou as notas de 500

Ontem fui ter com o meu irmão ao casino de Lisboa. Neste último mês tornei-me sócia de uma parelha-maravilha ao disponibilizar-lhe o capital necessário para ele efectuar apostas na roleta. Basicamente eu largo o guito ele abençoa-o com a sua estratégia.

Idiota, murmurarão vocês, enquanto se apiedam desta que aqui escreve.
Calminha, replicarei eu, molhando o indicador enquanto faço a contagem das notas.

Dez pessoas em roda de uma máquina virtual, nove literalmente apopléticas. De vez em quando ouvia-se um “P.. da máquina, que granda filha da p..., que m.. de máquina, f...-se que esta m... tá toda f..., c.. ma f..”. Nas primeiras vezes ainda me assustei mas à 6.º: “ SUA P... NÃO TE FICAS A RIR, MÁQUINA DE UM C.... VOU-TE PARTIR TODA, AI TÁS-TE A RIR TÁS A CRESCER PRA MIM???” e eu olho para o homem, colérico, a levantar a mão a um televisor como quem diz “vá, responde lá agora sempre quero ver o que é que dizes”, e o televisor, coitado, simplesmente a mostrar o jogo e susceptível de ser digitado para se efectuar a aposta, sinceramente senti pena daquele ser amorfo.

Saímos com um sorriso na cara e o dinheirinho no bolso.
O meu irmão é muito cagalhoto em inúmeras situações, mas noutras lá se redime e torna-se num ser híbrido quase que, atrever-me-ei, interessante.
(embora indubitavelmente semítico e de uma avareza aflitiva, onde é que já se viu 10% a quem generosa e altruisticamente injectou o capital?)

terça-feira, janeiro 23, 2007

Albânia -> Chelas

Há 2 anos atrás, Lisboa recebeu o encontro mundial juvenil de Taizé, no qual, num amoroso abraço ecuménico, se distribuiu várias nacionalidades por várias paróquias. Após 2 dias descobri, sem grande surpresa confesso, (esta minha alma esclarecida alumia-me os meandros mais obscuros da humanidade) que:

- Os italianos, suecos, finlandeses, holandeses, franceses e monegascos foram todos colocados na Linha de Cascais, nas paróquias, a título meramente exemplificativo, de Paço D´Arcos, Oeiras, Algés e Parede.

- Os romenos, moldavos, lituanos, ucranianos e tártaros da crimeia foram todos corridos a pontapé para a Damaia e a Reboleira, conhecendo inclusive dois polacos que foram repatriados para o Cacém.

Eu - ah e tal já repararam que mandaram os pobrezinhos para as zonas mais ranhosas? Os bielorussos ficaram todos num pequeno sotão do Pendão, os de Milão em luxosos aposentos nas casas estorilenses espraiadas à beira-mar.

Alguém ligeiramente ofendido e que não mora no município da capital: Então o que é que se retira do facto de 5 chechenos terem ido parar a Torres Vedras?

Olhei para ele, esbocei um sorriso amarelo (o que a juntar aos olhos auspicia mesmo uma valente anemia falciforme) e concluí que não havia saída. Eu e a minha grande boca suburbana.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Mu

Auferido o precioso salário, aqui vou eu (fogo no rabo, - que rabo? – perguntará o costumado anónimo) directa à casa das malas. Ao fim de 4 meses de namoro a uma carteira linda de pele castanha, estico o American Express Platina e saio da loja radiante, abraçada à espécime com as beiças a tremer de felicidade.

À noite vou ao cinema, mas como entretanto haviam esgotado os bilhetes para o “Scoop”, lá entro, meio contrariada, no único filme disponível aquela hora: “Geração Fastfood”. Arrepiando caminho, esclareço que no final fui obrigada a visionar uma cena de abate bovino, no qual se viam vacas a serem içadas por uma perna num prelúdio de acto homicida e assisti a todo um ciclo produtivo que ocorre no matadouro.

Após 10 minutos de membros estraçalhados, de olhos obliterados, litradas de sangue jorrado e pele arrancada, fico meio tonta e levanto-me.
Olho para a mala nova, nem 24 horas na minha posse, e, agarro-a enojada com a pontinha de dois dedinhos, pedindo mil perdões ao animal que ali jazia.
Acto contínuo, passo pela zona de restauração e fiquei louca a salivar por um duplo cheeseburger.
Comi-o e já é oficial, sou um ser humano totalmente execrável.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Sexo forte? Isto?

Cenário idílico, o amanhecer numa falésia do Guincho. O meu namorado, com a sua voz forte mas timbre doce sussurra-me:

- Tens os lábios mais bonitos que já alguma vez vi.

Sorrio, envergonhada, incitando-o a continuar:

- E o teu narizinho perfeito, que eu sei que é teu, só teu, és senhora do teu nariz!

Eu coro, rindo-me baixinho e querendo ouvir mais;

- E os teus olhos..

Soergue-me o queixo, cuidadosamente, olhando-me nos olhos com uma doçura infinita:

- E os teus olhos..

Olhar mais atento

- Estranho, os teus olhos são...são amarelos, têm em baixo uma bolsa de gordura, tipo sebo saturado. Tens que ver isso, olhos amarelados não pode ser coisa boa. Será que é contagioso? Que horror, é que são mesmo amarelados!

Honra e bom proveito não cabem em saco estreito. Irada virei costas ao ocaso e obriguei-o a levar-me a casa.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

É idiota, ´tás a ver?

Fui hoje à minha primeira consulta de pré-operatório oftalmológico num hospital público.

Entrei lá às 9h30, a hora previamente marcada, e fui atendida às 13h15.

Mal entro vejo um médico novo, de rosto irado e olhos coléricos.

- ESTÃO A CHAMAR POR SI DESDE AS 9 HORAS!!! PARA A PRÓXIMA ESTEJA MAIS ATENTA! FRANCAMENTE!!!

Dos grasnidos que coligi pareceu-me ainda que me chamou um ou outro nome, de qualquer forma fiquei a titubear porque algo ali me transcendia.

- Mas eu ... – inicio

- Estou a brincar Susana! Estou só a brincar - ri-se enquanto me aperta a mão vigorosamente.

Já não é muito normal um desconhecido fazer-nos isto.
Já não é muito normal um desconhecido licenciado em Medicina fazer-nos isto.
Mas alguém cometer semelhante acto (muito espirituoso, por sinal) a quem esteve 3 anos, repito, três (três) anos em lista de espera é completamente suicida.

Olhei para o espelho das letras e apeteceu-me quebrar-lho em pleno crânio. Desviei a atenção para uns óculos garrafais com dois kgs de lentes e imaginei-os desferidos sobre um baixo ventre desprevenido.
Respirei fundo e sorri falsamente (tenho uns olhos miseráveis mas um sorriso amoroso).

Estranho pensar que colocarei a minha visão à mercê de um ser humano que literalmente NÃO VÊ, nem com uma lupa multifocal, que é o palerma do hospital.

terça-feira, janeiro 16, 2007

Anita vai ao grego

No Sábado passado fui a um jantar a casa de uma amiga, refeição essa que haveria de consistir num prato normal, cozinhado pela anfitriã, e um outro vegetariano, elaborado por um nosso amigo.

Quando entro na sala deparo-me com um cenário retirado directamente do 2.º capítulo do Génesis:

De um lado um tabuleiro delicioso de bacalhau com natas, com parmesão gratinado e acabamentos de luxo.

Do outro lado, um tabuleiro com meia dúzia de alcachofras, quatro beringelas e umas susbtâncias mortas que boiavam reluzentes atreladas a um par de grelos regados a vinagrete. Pareceu-me ainda vislumbrar (mas não garanto) uma anémona do mar viva com duas lentilhas a fazer de corninhos e um inverterbrado indecifrável que variava entre um cavalo-marinho e um peixe-abrótea há muito em decomposição.

Ah pois, e aqui o dilema bíblico... perante aquela mesa dividida, no fundo nada mais que a árvore da ciência do Bem e do Mal, que fazer?

- ferir susceptibilidades de um mui amigo vegetariano e dedicado, e alambazar, regalada, o meu bandulho naquele tentador bacalhau gratinado?
- Ferir susceptibilidades do meu nobre estômago e comer o que a mim, à vista desarmada, se me assemelhava a algo muito perto de cócó? (a dignidade da minha amiga estava, desde há muito, assegurada, pois um bando de indigentes esfomeados clamavam pelo bacalhau desde que lhe tinham posto a vista em cima)

Enfim, perante a questão, tomei a que me parecia ser a melhor e mais equitativa solução: comer um pouco de cada um dos pratos.
Adianto que o bacalhau soube-me a nêsperas, os grelos a cevada e nem com meio litro de tisana Pleno fiquei recomposta da violência a que submeti o meu sistema digestivo. Por segundos, visualizei o suco peptídeo a descer, fumegante, o meu duodeno, e então assomou-se-me tudo à boca à laia de represália.

Se tentarmos agradar a todos o mais provável é acabarmos com a cara ou o rabo na sanita, por isso, jovens deste país, não sejam provincianos como eu e tenham a hombridade de, perante semelhante situação, dar um passo em frente e, mão ao peito, olhar no horizonte afirmar: “amigos amigos, comezainas à parte. Eu opto pelo bacalhau e digo NÃO às beringelas”.

sábado, janeiro 13, 2007

Lol.

Esta semana, para não variar, encontrava-me na sala de trabalho partilhada com os restantes sub-30, quando, no meio da costumada demência infantil e graçolas despropositadas, ouve-se uma frase lançada não só com sotaque germânico mas com a seriedade que lhe é acoplada:

" AS AFTAS ARRRDEM E AS FRRRRRRIDAS IDEM"

Aquele gentio todo riu-se em uníssono.

Eu sorrio e acrescento: "ah, é coincidência não é? que quer dizer em alemão?"

Silêncio sepulcral na sala.

"Estou a gozar" - esclarece-me pacientemente a autora da piada hilariante. "É como dizer Sida em japonês - iraokumata"

Silêncio (meu)

Enfim, é a geração que temos, de invulgar, aguçada e acutilante inteligência social. De um humor cirurgicamente mordaz e requintado.

Requiem pela Função Pública.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

ESTC

Ontem fui à Escola Superior de Teatro e Cinema, na Amadora. Se eu fosse de fazer intrigas quase que diria que:

- ou tinha sido violentamente abduzida e estava nos confins de outra galáxia
- ou, e numa perspectiva mais modesta, em pleno ensaio geral de uma pantomina do Cantiflas. (das piores, as últimas de 1970).

Depois de quase ter morrido de susto quando avistei uma rapariga literalmente igualzinha ao Aladino, com umas pantufas pontiagudas e umas calças de balão, apaguei-me definitivamente quando choquei de frente com uma miúda com umas gigantescas galochas vermelhas de verniz , com chapéu de guizos amarelo a condizer.

Com as minhas calças de vinco, casaco preto e botas de salto senti-me uma doente externa do Amadora Sintra. Mas esperei pacientemente pela minha amiga e fiz o ar mais composto que consegui.

Até ver um professor com umas peúgas da serra da estrela pelos joelhos, calçando uns All Star castanhos com umas línguas de fogo. Aí benzi-me e fugi escola fora, só parei na estação e escondi-me atrás de um congolês. Senti-me infinitamente mais segura.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

A Velhice

A semana passada recebi uma chamada da minha avó, que me comunica numa voz sofrida:

“Susana, hoje faltou a água, eu ando esquecida e não fechei a torneira, quando cheguei a casa tinha a cozinha toda inundada e agora certamente que estraguei a loja de baixo, só tem televisões e rádios, com certeza que nada se aproveita e eu vou ter que pagar tudo”.

Fez uma pausa e adiantou: “Não te preocupes que não vou deixar dívidas, vendo a minha casa e alugo um quartinho barato”.

Fui logo ter com ela, que, ainda em estado letárgico e agarrada a um terço, rezava condoída uns responsos e arranjava forças para começar o encaixotamento dos seus pertences.

Dirigi-me à tal loja dos electrodomésticos. O homem tinha apenas a soleira da porta pingada e mesmo assim quase que aposto que foi o “Jacob”, canídeo do homem do talho em pleno processo de marcação de território.

Depois de saber que não, não tinha que alugar um quartinho, revigorou-se-lhe a alma e, como qualquer velho que se preze, apressou-se a desancar a Junta, a Carris, o homem do talho e a Caixa Nacional de Pensões (já eu não ser metida ao barulho foi mero golpe de sorte).

Despedi-me com dois beijinhos: “a velhice não perdoa..” – ri-me
“Panela velha é que faz comida boa” - retorquiu
“Gaba-te cesto que..”
“Pimenta no cu dos outros é refresco.” – interrompeu-me, altiva, fechando-me a porta na cara.

É a riqueza da neta, esta minha avó.

domingo, janeiro 07, 2007

A mete nojo

Esta semana fui chamada como SOS para acudir a uma boa amiga que tinha ficado sem namorado, do qual gosta imensamente e sem o qual não perspectiva vida futura alguma.

Estrada fora, a 150 à hora, lá chego a casa dela onde a encontro lavada em lágrimas.

Bla bla bla, pieguice para aqui, miminho para ali " e deixa estar que assim ficas melhor", "és uma mulher fantástica, vais ser muito feliz", até que ela, no meio de um soluço entrecortado e antes de um suspiro mais prolongado me diz:

"pois, e agora parece que toda a gente tirou a semana para me chatear, o editor da FHM inglesa já me mandou nao sei quantos e-mails para eu ser capa em Março, já estou cansada de tanta conversa e propostas de reunião".

E eu, o mais pausadamente que consegui, arfando ligeiramente até não conseguir respirar de todo: "Desculpa?... capa de Março da FHM inglesa?"
"Sim, que cena burgessa, já viste? como se eu não tivesse mais em que pensar"

A sério, nunca, em toda a minha larga existência, me apeteceu tanto partir os dentes a alguém.

E lá ficou ela, com o seu mega corpo de sonho a marinar o seu desgosto.