domingo, dezembro 18, 2005

Nuno..meu irmão Nuno

Hoje o meu pai gritou comigo.

perguntou "quem é que cortou assim o queijo?"

notei, muito claramente, que havia um tom de censura velada na sua voz (semelhante à da conta de telefone Tele2, embora um pouco mais subtil). A auréola por cima dele latejava a verde fluorescente "perigo!perigo!"

Pelo que fiz o que sei fazer melhor, descartei as culpas para cima do meu irmão.

"Foi o Nuno" - delatei eu, com um profundo desprezo na voz, como quem diz "raios partam o miúdo, fez 21 anos este fim de semana a e ainda parece que anda na pré-primária a preparar os lanchinhos".

"ai dele quando chegar a casa!" - setenciou o meu pai - "vai ter que aprender! quando viver na casa dele pode fazer toda a m.. que quiser, aqui, NÃO!"


e eu assenti com a cabeça, praticamente lacrimejando à laia de " já não se fazem pais destes, bondosos e pacientes, com tanto apreço pela domesticidade do lar!"

Quando o vi fora do meu campo de visão, corri pela vida até ao meu quarto, telefonei para o 96 do meu irmão e mal ele atendeu implorei que se acusasse. Estranhamente, ele disse "está bem". Seria da idade? Um surto repentino de altruísmo??

Quando ele chegou a casa, já tarde, ainda ouvi o meu pai com voz de trovão: (e eu escondidinha debaixo dos cobertores)

- Com que então o queijo corta-se assim ?!!

Responta pronta e certeira:

"Não fui eu, foi o Dédé." E foi-se embora muito lampeiro, com aquele cu agigantado a desequilibrar os alicerces.

(Explicação científica: O Dédé é o melhor amigo do meu irmão, que ficou ontem a dormir cá em casa por causa do aniversário.)

Nunca senti tamanho reconhecimento para com o meu irmão. Denunciar um amigo, que nunca terá oportunidade de se defender e que, ao invés, cairá nas más graças dos meus pais para todo o sempre, que o repudiarão qual mãe solteira de grande promiscuidade,


para salvar o rabinho da minha irmã que, após 25 anos de vida, chacina o queijo e depois ainda o esconde dentro do frigorífico no compartimento das cenouras e alho francês para ninguém o descobrir..

é de homem.

Parabéns Nuno. Pela tua grande confusão interior e nítido desfazamento de prioridades.