quarta-feira, novembro 30, 2005

Os avôzinhos

Ontem vi um casal de velhotes amorosos no metro.

Se há coisa que eu mais adoro neste mundo, para além de bébés e cães é de velhos. Sou capaz de ficar uma eternidade a olhar embevecida para esses seres misteriosos que, acho, mereciam todas as honras terrenas, mais que não seja porque, na sua maioria, exercem a actividade mais linda do mundo que é a de serem avós.

Bem, ontem, vinha emaranhada nestes pensamentos delico-doces, cheia de ternura por esse casal que, mal se aguentando em pé, se apoiavam mutuamente um no outro, mas de mãozita dada e com uma atenção desvelada um para com o outro.

Eis quando senão chegam ao acesso para sair, e se largam imediatamente, indo cada um para o seu canal de saída, a passo militar e ar decidido. O velho saca do passe e abre a porta dele.

Entretanto a velhota olha para ele muito sabida e fica à espera. "De quê?" - pensei eu, resposta que logo obteria. À espera que ele passasse o seu passe pela canal dela.
Como estas passagens funcionam por sensores de movimento, o velhote teve tempo de abrir o dele, o dela, e de sairem cada um pela sua portinhola,que imediatamente se voltou a fechar atrás deles.

E lá foram eles, com um ar muito lampeiro, (cheirando-me que não era a primeira vez que incorriam em tal infracção), voltando a assumir segundos depois o ar de avós da santa terra, ansiando com as lágrimas nos olhos pela visita dos netinhos na Consoada, enquanto afagam o "Farrusco", sua única companhia nas serranias transmontanas.

Eu, pasmada, fiquei a pensar que, realmente, nunca me tinha lembrado daquilo, pois sempre que não tenho título válido para sair, colo-me literalmente a algum ser humano mais compreensivo e apanho com as portas laterais uma em cada nalga, ao mesmo tempo que a minha espinha dorsal é violentamente lançada para a frente, a cabeça para trás, o pescoço para o lado, esforçando-me sempre para manter um ar saudável, (esboçando até, por vezes, um leve sorriso como quem diz "até gosto, escusam de se estar a rir")

enfim, um espectáculo triste de se assistir.

Nesse dia aprendi que a idade é mesmo um posto (para além claro, dos elevados ensinamentos técnicos)! Provavelmente são incontinentes. Mas o dinheiro que poupam nos títulos gastam nas fraldas. Parece-me uma troca justa.

domingo, novembro 27, 2005

Eu sou assim..

Já me aconteceram várias coisas na vida.

Não me refiro a estas deprimentes que aqui conto. É natural que as mais agressivas as reserve para mim.

Mas hoje, acordei triste, o dia correu mal, a noite também se afigura péssima. E por isso, vou divagar um pouco, ao contrário do que é costume. Antes que bazem a velocidades recordistas, deixem-me só advertir-vos que, melancólica como estou, vou contar uma coisa que penso que nunca contei a ninguém.

Gente, vós não tendes mais que fazer do que esperar sofregamente pelos meus segredos mais recônditos?! Get a life..!

sábado, novembro 26, 2005

O 100.º POST!

É com lágrimas nos olhos e profundamente emocionada que vos anuncio que este é o meu 100.º post.

Reli um, logo no incício, que versava sobre as cores pastéis do canil de Mafra, escrito à pressão para perfazer o número lindo de 5 (!) posts. Mal sabia eu que, volvidos 5 meses, e muitos episódios decorridos, a saber:

- colónia anual do Projecto Crescer
-infecção urinária de Julho, Agosto, e Setembro (eu sou asseada, tenho é problemas nefrológicos)
- ida a Colónia
- festejo dos meus 25 anos (quarto de século)
- festejo de um ano e meio de namoro a 29 de Setembro (eu sei, assombroso não é?)
- ocorrência de erros médicos, por negligência grosseira
- paralização do lado esquerdo da face
- término do estágio
- ideia peregrina de tentar ser magistrada (eu sei, se eu, louca varrida, passo a ser um órgão de soberania, deixa de haver fé na Humanidade)
- choque causado pela notícia de saber que tenho que ir obrigatoriamente à oral, independentemente da nota que tiver no exame escrito que será no próximo dia 10, pois em vez de apresentar 1700 créditos, apresentei, por lapso, 1645. (esperem, deixem-me hiperventilar uns minutos)


voltei,

- confissão do episódio do frango na cara
- confissão do episódio do "Children´s Drugs"
- confissão do episódio da minha suposta gravidez num top da Zara

enfim... Obrigada por terem partilhado comigo estes momentos. Eu posso não ter o baralho todo, mas, vós sabem, em consciência, que também não têm.

Um grande bem haja. Este blogue termina aqui.



Brincadeirinha. Vou só ali comer uns Manhãzitos (que mais parecem Manhozozitos porque são nojentos - mas a minha mãe ainda não foi ao pão hoje) e, naturalmente, voltarei.

Hasta

quinta-feira, novembro 24, 2005

Susana na A1

Já não me basta ser parastésica, como sou para-burra.

Hoje ia no meu carro, descansadinha a 70 à hora na A1, quando vejo uma ambulância atrás de mim, ainda um pouco longe, com as suas letrinhas vermelhas

Eu, que ia embalada docemente ao som de Faith No More, entro no meu estado característico de pânico, e já que estava na faixa do lado esquerdo tentei meter-me o mais à direita possível.

Por pouco não me enfaixei num campo hortícula, mas, tendo rogado à Virgem auxílio, fui poupada de tal vergonha, e limitei-me a ouvir 2 dezenas de buzinas simultâneas, profundamente indignadas, pais de família horrorizados, com as cabeças de fora e os punhos cerrados a chamarem-me nomes menos próprios e ameaçarem-me de pancada.

Depois deste suplício, fiquei mais aliviada porque se calhar a minha manobra suicida até serviu para salvar o pobre enfermo da ambulância, que entretanto passava à minha esquerda.


Quando ela me ultrapassou só me lembro de pensar: "parastésica estúpida"..

Era uma Toyota Hiace branca, com letras garrafais vermelhas a dizer "Triumph Internacional".

Matar-me por causa de uma carrinha cheia de cuecas e soutiens?
A minha família num sofrimento indizimável..e algures uma dona de casa hiper-excitada com as suas fio dental nº 44.

Tenho que largar as drogas.

OFICIALMENTE NÃO SE DESCE MAIS BAIXO QUE ISTO

Epístola do ser humano mais azarado do mundo aos seus confreires:

Caríssimos,

Hoje fui ao dentista remover os últimos pontos da minha cirugia a dois dentes inclusos.
Perguntar-me-ão vocês: "E foram eles removidos?"

Ao que responderei "sim, efectivamente foram".

Mas não se entusiasmem, não badalem os sinos, não zurrem os burros, não pipiem os mochos, não grasnem os patos. Não.

TOMEM ATENÇÃO:

Durante a micro-cirurgia de há 15 dias, o tão prendado destista rompeu-me vários nervos . O resultado foi a perda de sensibilidade no lado esquerdo da face, incluindo lábios e gengivas. Não achei muito normal, mas hoje perguntei-lhe o que se passava.

Reaparem, neste momento eu não sinto metade da cara mas tenho o conforto de saber que esta patologia se chama "parastesia", e vai regressar ao seu estado normal dentro de 1 ano .

Ops,

desculpem,

caí da cadeira no sentido figurado porque ainda não estou a acreditar no que ouvi hoje naquele consultório.

1 ano com metade da cara literalmente anestesiada. Nervos rompidos, dentes estraçalhados, ó Meu Deus, que mais tormentas me reservarás??

Já tomei 2 valiums porque não me sinto com forças de enfrentar o ano civil de 2005/2006 de boca à banda. Agradeço mensagens encorajadoras, já sabem é que não consigo retribuir convenientemente. O "obrigada" sai-me um pouco disforme. Aliás, vou evitar dizer o quer que seja na próxima temporada.

Até daqui a um ano,

Ass: Susana A Parastésica

segunda-feira, novembro 21, 2005

Esparrelas patriotas

Para o ordenamento jurídico português, se eu der um empurrão em alguém, e essa pessoa cair para o chão e, por um grande (gigantesco) azar lhe cair um raio em cima no preciso momento em que ela está prostrada, sou acusada de um crime de homicído por negligência.

Hoje está a trovejar. Vou andar na rua em passinhos de lã.

domingo, novembro 20, 2005

é um capachinho

Neste momento em que vos escrevo, o meu irmão ouve "A Cabana" do José Cid.
Pior: tem esse episódio musical menos feliz, em "repeat".

Porquê a informação? Não é para envergonhá-lo. é mesmo para desabafar. Estou a dar em louca.

Injustiças

Eu vivo em Belas. Tristemente, mas vivo.

Mas há, pelo menos, uma pessoa que vive numa terra alentejana chamada Estrumeira (colega do meu irmão, miúdo giro, divertido, inteligente). E é de lamentar. Não se dá hipóteses a habitantes em topomínias destas.
Eu sei, também sofro a discriminação na pele, por muito que tente insinuar que estou a escassos metros (centenas, em abono da verdade) do Clube de Campo. Tentei-o fazer sentir-se como um ser humano normal. Fiz-lhe um chá de cidreira, barrei-lhe um pão com compota, mostrei-lhe o meu vídeo da Profissão de Fé.
Tudo isto na esperança de o fazer esquecer que ele é, na realidade, um Estrumento ou, pior, um Estrumício.

Mas afinal, qual é o encanto de Linda-a-Velha? (reparem, dá-se uma no cravo outra na ferradura; foi linda, mas agora é velha, provavelmente sem dentes e incontinente).

Temos que ser uns para os outros.

Não havia alternativa

A minha mãe há muitos anos trabalhava num hospital civil de Lisboa, profundamente assustador, ali na Almirante Reis chamado Desterro.

Havia no serviço dela uma fotografia aumentada numa escala a 60%, com a legenda "Infeccção nas Criptas de Morgani".

Para terem uma ideia aproximada, a fotografia reportava um caso muito grave de hemorróidas e fissura anal, na qual se mostrava distintamente o que poderia acontecer a a um rabinho saudável caso o Morgani nos atacasse.

Pior: havia no quadro a seguir uma fotografia com a legenda "hemorroidectomia", a qual não consigo traduzir por palavras. Acreditem, não consigo.

Tudo isto para dizer que quando não tinha aulas, era obrigada a ir para o trabalho da minha mãe. Então tinha sempre que passar por esse corredor onde estavam as fotografias emolduradas (sim..que grande orgulho..) como quem passa pela Casa do Terror, a tremer e cheia de nojo.

Um dia, depois dessa temerosa provação do corredor, sentei-me na cadeira da minha mãe e, vendo um tubinho elástico todo catita, começo a soprar nele, colocando a outra extremidade nas orelhas, nariz e outros orifíciosque tais.

De repente levo com um carolo gigante, uma chapada brutal e um empurrão que me fez levantar vôo e, ao mesmo tempo, cuspir o tubinho, que outra coisa não era senão uma algália masculina.

A minha mãe, em pânico, gritava "isso é para pôr na pila dos homens!" e para mim, criança com 9 anos, não havia nada de mais monstruoso do que o falo masculino pelo que quase desmaiei de pavor.

Depois desse episódio deprimente recusei-me a ir para o emprego da minha mãe,pelo que ficou estipulado que, quando não houvesse aulas, iria para o emprego do meu pai, numa Central Eléctrica da EDP.

Na primeira vez que lá fui, ainda não tinham passados 20 minutos quando mexi numa fonte de alimentação. Qual não é o meu grande espanto quando oiço um barulhinho sinuoso e apanho um valente choque de 220 volts.

Todos os presentes ficaram preocupados mas depois riram-se muito, imagino que tenha sido um grande gáudio ver uma criança de 9 anos, com um vestidinho vermelho e verde xadrez, e uma boina verde a condizer, completamente chamuscada e ainda a fumegar.

A conclusão que retirei desta tormenta é que, mais triste que uma criança sujeita a visões hemorrodais e com uma algália masculina na boca, e que uma criança esturricada na presença de adultos é, sem sombra de dúvida,

uma criança sem opções. Passei a ficar sozinha em casa, considerou-se ser a alternativa mais segura.

quarta-feira, novembro 09, 2005

Make Over



Não sei se já viram um programa que dá no People & Arts que, concomitantemente, me fascina e me causa repulsa. Em abono da verdade reconheço que me fascina mais do que me repulsa, porque o vejo religiosamente todas as noites, à uma da manhã.

E acreditem, o espectáculo que dou a tentar não soçobrar ao violento sono não é bonito de se ver. Mais: é profundamente patético.

O programa é "Extreme Makeover".

Pessoas basicamente feias submetem-se a cirugias plásticas e ficam muito giras (umas mais que outras, depende sempre da matéria prima).

Ora o que é que eu pensei:

Se este programa fosse feito em Portugal, escreveria eu uma carta à produção suplicando para que lipoaspirem, cortem, reduzam, suguem, façam o que for preciso para eu ficar melhor?

Resposta: Não. Em Portugal não.

Mas se eu estivesse de férias na Tanzânia e, miraculosamente, conseguisse ser seleccioanda, sim, obviamente que sim! (Tenho que começar a ir de férias com o Gonçalo e, se possível, influenciar os destinos turísticos da família).

A exigência não seria assim tão acentuada, apenas:

- cirurgia dentária, queria 7 dentinhos de cima com porcelana (branca, leitosa - sublime)
- levantamento de pálpebras para não parecer que tenho olhos à la Trissomia 21, que tenho e escusam de o negar;
- retracção do queixo (não muita, ligeiramente)
- colocação de maçãs do rosto (e, finalmente, saberei onde pôr blush, em vez de o pôr praticamente dentro das orelhas)
- pigmentação das olheiras, para um cor de pele pêssego-acetinado);
- colocação de sardas (adoro, adoro, adoro)
- lipoaspiração ao pescoço
- lipoaspiração aos braços
- lipoaspiração ao abdómen
- lipoaspiração às coxas
- colocação de músuculos na barriga das pernas (sub-reptícios, evidentemente)
- redução mamária

não, esqueçam, voltem a pôr as mamas,

- cirurgia oftalmológica
- extensões de cabelo até à 4º omoplata, num tom castanho escuro - acobreado

Pronto, basicamente era isto.

Mas, recordem-se, fora de Portugal, não quero os 11 distritos do país a rirem-se às minhas custas!

Vejam com os vossos próprios olhos. E tenham medo, muito medo


Ok. confessem lá que não ficaram tentados!

sexta-feira, novembro 04, 2005

Mais uma

Recordo este episódio com desvelado carinho, pois nesse dia sei que eu e o Gonçalo proporcionámos o momento de humor da noite a centenas de desconhecidos, estúpidos, mas desconhecidos.

Eu e ele fomos uma destas noites (em que conseguimos acertar o nosso confuso calendário) ao cinema.

Depois de enorme discussão na fila dos bilhetes, onde não faltaram ameaças, choro, amuos e pauladas, resolvemos ir ver "Virgem aos 40". Ainda meio aborrecidos e praticamente de costas voltadas entrámos na sala e sentámo-nos nos respectivos lugares, sempre fazendo questão de demonstrar que nos irritávamos mutuamente.

Mesmo antes do início do filme entraram dois homossexuais (não tem nada a ver, mas sabem que eu gosto de adjectivos), que prontamente nos informaram que estávamos sentados nos lugares deles. Cadeiras 15 e 16.

O Gonçalo, como sabem, não é muito bom de se assoar quando está chateado, e, em abono da verdade, refira-se que eu já lhe tinha esgotado quase toda a sua paciência. Escrevo só que os maricas não foram propriamente bem tratados.


A certa altura já todos os olhitos curiosos se debruçavam em nós os 4. (Sublinhe-se que a sala do cinema estava a abarrotar.)
Por fim, o Gonçalo é condescendente e diz em voz alta:

- Bem, se calhar foi a gaja estúpida dos bilhetes que se enganou.

e, alto e a bom som, depois de muito barafustar contra a senhora, e em tom de enfado pelos deprimentes homossexuais:

- onde é que já se viu, marcar-se 4 lugares para 2 cadeiras! eu tenho aqui no bilhete, cadeira 15 e 16 na sala 5.

Homossexuais:
- pois. é que esta é a sala 4.

Gonçalo
- então mas isto não é para "Virgem aos 40"?

Gargalhada geral na sala.

Resposta em coro:
- não, isto é para "Os Irmãos Grimm"

Susana, em alvoroço, a agarrar na mala e no casaco, já com uma perna na porta de saída, e em tom teatral:
- Gonçalo Manuel, se querias ver este filme bastava dizer, escusavas de fazer esta fita!
E fui-me embora mt ofendida, com a sala toda a rir-se.
Viémos embora, apanhámos o "Virgem aos 40" quase a meio.

Felizmente reconciliámo-nos.
Chegámos à conclusão que seria muito duro enfrentarmos aquela vergonha sozinhos.