Vou falar-vos de um curso que
tirei há uma década atrás, e que se tornou numa das coisas mais IMPORTANTES na minha
vida,
e através da qual percebi a motivação de todas, mas absolutamente
todas, as acções estranhíssimas que já tomei na vida.
Há 10 anos, dois amigos extremamente perspicazes e cautelosos, falaram-me de um curso chamado
ENEAGRAMA, ensinado nas faculdades de Psicologia da Ivy League. Um curso em que (muito
sinteticamente), se ensina que já na Antiguidade existiam 9 padrões de comportamentos ou
personalidades. Eles vinham perturbados.
Fiz esse curso com
uma amiga minha, VIRGEM E UMA GRANDESSÍSSIMA BEATA.
Descobri então que a minha
personalidade é designada a de TIPO 8: “A
Confrontadora (parte chata)/PROTECTORA (parte fofa)”: sou forte e quero proteger quem não o é, e o meu pecado capital, que me assombra desde que
sou gente até que morra, e que pode ser mitigado mas nunca erradicado, é
a LUXÚRIA.
Eu estava em choque... realmente tenho um historial absolutamente admirável de broncas, confusões, próprias e de terceiros, do "estás comigo ou estás contra mim”, o mundo é uma selva e a LEI É A DO MAIS FORTE.
Concomitantemente, percebi que
também a minha amiga virgem também estava profundamente chocada, mas na
realidade nunca chegámos a debater bem este assunto uma vez que, minutos após
começarmos a falar da nossa personalidade, principiámos as duas um DEBATE ENÉRGICO em plena sala.
Aparentemente, aos olhos dos
outras personalidades, nós as 2 estávamos a brigar, mas na realidade estávamos
apenas a trocar argumentos vigorosos, nariz com nariz. Nada mais.
A malta do curso viu-nos a
resfolegar e fazer peito, até porque também a minha amiga virgem tinha toda uma
energia que eu, à data, associei à falta de sexo. Motivo da ilusória contenda (bastante
válido):
Ambas achámos que tínhamos a personalidade
Confrontadora/Protectora, mas recusávamo-nos a aceitar que a outra também a tinha!
Ou seja eu, a bitch luxuriosa, recusava-me a aceitar que uma virgem deslambida
(eye roling) se atrevesse a dizer que tinha a mesma personalidade que a minha.
E vice-versa, já que ela, enquanto trucidava o meu carácter aludindo a questões
porcas e chamando-me à tromba estendida de Carne Fraca, benzia-se e pedia a
Jesus para me perdoar por eu ser tão burra e com tão pouco discernimento.
Trocaram-se argumentos valorosos,
voaram intensas canetas pelos ares, perdigotos em todas as direcções. Imediatamente
interveio o professor que nos ministrou o curso, perguntou o que se passava, e cada
uma explicou, exactamente ao mesmo tempo e tentando sobrepor o tom de voz à
outra, que era CIENTÍFICAMENTE IMPOSSÍVEL ambas termos a mesma personalidade
tipo 8,
EU - Até porque ela tem 30 anos e
é virgem, (luxuriosa o c…) ;
ELA- E ela é uma tarada mas não é
protectora. Ela assusta toda a gente só de arregalar os olhos!
(Inchei o peito de orgulho).
E…. bem, o cabrão estava a rir-se.
- “Realmente, aqui a palavra chave para nos ajudar a identificar esta personalidade é a Luxúria”. – esclareceu.
Eu arreganhei logo a tacha à
virgem deslambida. Burra, a achar que era igual a mim… Mete a tua inexistente luxúria no cu e vai procurar outra personalidade
– pensei.
“Mas…Luxúria não é simplesmente no sentido sexual da palavra, mas sim no
significado de Intensidade, Exuberância, Energia. São intensas em tudo o que
fazem. Oito ou oitenta, tudo ou nada. E, nesse sentido, e sexualmente falando, podem
até ser imorais por um lado, ou
moralistas rígidas, por outro” .
Calámo-nos, combalidas. Ele não
sabia da minha vida privada, e muito menos que ela era virgem.
“Tenho a dizer-vos que me parece que na realidade, têm exatactamente a
mesma personalidade”. Virou-se e falou
para o resto da turma “Percebem agora
quando disse que era muito fácil identificar os Confrontadores? “, e
apontou para nós as duas, todas descabeladas a arfar, parecíamos dois orangotangos
em disputa por comida.
Risota generalizada daqueles
lambe-cus .
No final da manhã, fomos
almoçar juntas, super emocionadas e intrigadas. Conversámos entusiasticamente, fazendo uma
retrospectiva sobre as nossas supostas diferenças. Eu comi pernil assado que
nem um abade, ela depenicou 3 bagos de qualquer coisa e um bocado de brócolos.
Regressámos ao curso, melhores
amigas, como sempre. As pessoas totalmente incrédulas, a olharem para nós.
“Ah, pormenor: este tipo de personalidade, por exteriorizar tão bem a
sua visceralidade interior, no fundo a sua Raiva, explode, resolve o assunto e fica
tudo óptimo numa questão de minutos. Não remoem ódios.”– esclareceu o
professor.
O Eneagrama ensinou-me
também que nem todos têm que pensar
como eu (aqui foi o choque principal. O horror, o descalabro, noites
sem dormir), e existem outras 8 personalidades maravilhosas por esse mundo
fora, que agora entendo melhor.
Acima de tudo, aprendi que apesar
de ser uma Bruta Encouraçada, o meu caminho é tentar baixar a guarda e ser uma
pessoa assumidamente Vulnerável e continuar ainda assim, a tentar ser
Protectora dos Frascos e Comprimidos. A Madre Teresa de Calcutá, eu e Trump temos
exactamente a mesma personalidade de Confrontadores/Protectores, embora ela
esteja no topo, ele na cauda, e eu um cu acima dele.
Mas como caricaturar é o melhor
remédio, pois não nos devemos levar muito a sério, eis a descrição
absolutamente maravilhosa que a Desciclopédia faz da Personalidade o Confrontador/Protector ou, dito de outra forma:
O Mandão Infantil
São psicopatas sanguinolentos, teimosos e vivem se achando o rei da cocada
preta. Essas pessoas não pensam em nada que não tenha sangue, tem mania de querer fazer antes de todo mundo, ele vai disputar até
a oportunidade de ser eletreocutado.
São geralmente líderes de torcidas organizadas e assassinos em série.
Fazem várias coisas ao mesmo tempo, tudo mal feito.
(E esta
sou eu.. Que orgulho desmedido).
Ps- Percebi então que a minha amiga virgem não se
exaltou por falta de sexo. Foi pura intensidade. Na noite de núpcias estraçalhou
marido em mil pedaços. Eu não vi. Pagava para ter visto, mas não consegui, a
minha intensidade de coscuvilhice contendeu com a dela de privacidade.
É, decididamente, das minhas pessoas preferidas com quem conversar.










