quarta-feira, abril 08, 2020

O meu amigo José


Hoje vou falar-vos de uma pessoa muito importante na minha vida. É um grande amigo meu, que, à minha semelhança, e apesar de grandes falhas nas sinapses nervosas, tem qualidades inigualáveis. A personalidade dele (do Eneagrama e do senso comum)  é a do Entusiasta, é o Optimista nato, aquele que “vê” o copo sempre meio cheio.

 Quem já leu o blogue recordar-se-á do José, o meu colega ADVOGADO CEGO, e com o qual já vivi aventuras que não fosse eu uma GAJA e ele NÃO VER UM CU, seríamos tal e qual o Tom Sawyer e o Huckevberry Finn - (ele o heróico e divertido Sawyer, eu sua fiel seguidora das barracas Finn).

Atentem, por favor. O meu amigo Entusiasta, Optimista é:

CEGO - não é zarolho - é mesmo cego profundo; não tem olfacto porque tem uns pólipos gigantescos no nariz, tem asma, sinusite; é diabético, tem distúrbios de filtrações dos rins, não pode comer muitas proteínas, DOCES PROIBIDOS PARA O RESTO DA VIDA.

Mas, a vida, para ele, é um ENORME PAGODE! Costuma é lamentar-se de não ter mais dinheiro para consumir pornografia naqueles computadores com monitores com relevo, mas nada que ele não ultrapasse com outros expedientes.

*Lembrei-me agora que um dia ele foi convidado para ser presidente de uma grande instituição de “invisuais e amblíopes”. Não aceitou: “Eu?!Deus me livre! Aquilo é tudo uma CAMBADA DE CEGUETAS!” benzeu-se ele, ateísta convicto.

Estivemos hoje ao telefone a recordar algumas histórias do blogue. (O José, por fazer parte daquele grupo que se apaga num estalar de dedos caso o vírus o apanhe, está altamente barricado em casa e, infelizmente, é um infortunado não pode propriamente ver NETFLIX. )

Relembrámos com saudade a  História não-profissional mas que invarialmente mete ladrões” :http://salsichanaotedesgraces.blogspot.com/2010/01/historia-nao-profissional-mas-que.html

Resumo básico: Era uma vez um ladrão filho da puta que estroncou a fechadura do meu veículo e furtou o computador do José, que estava brilhantemente escondido sabe Deus aonde, ele não tem propriamente muita noção de espaço e senso direccional e eu escudo-me no meu deficit de atenção.

Pormenor: isto foi na R. Gomes Freire, literalmente EM FRENTE AO PORTÃO DA POLÍCIA JUDICIÁRIA! Há ladrões cá com uma afoiteza, que eu e José até ficámos tristes por não termos tido oportunidade de o conhecer.

Já na porta de casa dele, o José larga-se a rir. O computador furtado estava num estado já pré-depressivo e valia uns 300€. Mas, no meu carro, tinha estado camuflado um item muito mais valioso: a sua BENGALA FALANTE E VIBRATÓRIA, com 2 meses de uso e com o preço base de 2500€!!

Eu já tinha reparado na sua bengala topo de gama (digamos que pais de José são como os pobrezinhos da Comporta, mas mais educados e inteligentes), que vibrava quando se aproximava de obstáculos (nada de muito ostensivo). 

O que eu não sabia é que, caso vibrasse, ele tinha a opção do suporte áudio, a fim de verbalizar que impedimentos se avizinhavam (frases feitas de uma base de dados, ditadas por uma voz feminina brasileira). Fiquei maravilhada porque nunca me tinha apercebido do áudio; perguntei por que não o usava.

“Sabes lá o que eu passo com esta gaja” – desabafou.  “Brasileiras…”
Conta-me tudo”.
“Começa a falar naquela voz de piroca: mais para baixo, mais para o lado, avance, para cima e eu … GRANDE ERECÇÃO no meio do metro de Picoas! Não dá pá!”.

Muito bom. E assim se esventram 2.500€ porque a Voz, para um cego, é praticamente tudo.

Ainda assim, mesmo não gostando particularmente da bengala, e como bom Entusiasta que é, achou hilariante a incompetência do larápio, ficou todo contente e bateu imensas palmas.

Hoje ao telefone:
 - Então como estás ?
 - Óptimo! A dar brilho à minha medalha!
  - Hum… conotação sexual?
 - Nada. Zero. Estou literalmente a limpar a minha medalha de ouro com um paninho de flanela e pasta de dentes.
 - Choca-me…
 - Nunca te disse que uma vez ganhei um campeonato de judo lá no S. João de Brito?
- Judo?! Ganhaste ? E ele também era cego?
- Não, não era cego mas era ESTÚPIDO! Enganou-se nas horas. Ganhei por falta de comparência. Fiz uma festa naquele dia! Minha rica medalha!

Oiço-o aplaudir e beijocar qualquer coisa do outro lado de telefone.

E por falar no S. João de Brito, lembrei-me de outra história que ele me contou.

O José, líder nato para a cretinice própria da adolescência, era alvo de severos ralhetes por parte de um tal Padre Gaspar, eclesiástico elegante, paramentado com lindas batinas e estolas ao pescoço.

 Ele, nada podia fazer. Na realidade, enquanto presidente da associação de estudantes até tinha um especial dever de zelo, o que muito contrariava a sua natureza de pandegueiro.  Mas congeminou um plano. 

Pediu de joelhos aos progenitores que fossem a um canil e adoptassem o cão mais feio, mais famélico, mais pulguento e enrodilhado em moscas que lá existisse. Os pais, que anos antes até tinham sugerido a compra de um cão bem ensinado, mas que José, educadamente, declinou - porque o que ele queria mesmo era um ALCE (!), acharam peregrina a ideia do canídeo ranhoso, mas sempre era melhor que nada.

E assim, lá chegou à metrópole, assustado de morte, o cão mais feio de sempre resgatado do canil de Pedrógão Grande. À chegada, foi presenteado com uma linda placa. “GASPAR” lia-se, em letras garrafais. José mandou ampliar a foto, desenhou-lhe uma espécie de uma estola, e colou-a carinhosamente no seu cacifo. Padre Gaspar ROSNOU FEIO!

Adoro Entusiastas....Exemplos de personalidades dados pela Desciclopédia do Eneagrama:Teletubies, Muppets, Deadpool e gays em geral (adoro gays, subscrevo).Esclarecimento: podia ser, mas este meu amigo não é gay.

Um gigantesco abraço ao meu afectuoso José, que mesmo nas alturas mais sombrias, me obriga sempre a ver o copo meio cheio. De absinto alucinógeno.

Padre Gaspar contemplando a sua foto no cacifo e amaldiçoando o dia em que aceitou a candidatura no Colégio S. João de Brito do ceguinho fofinho e sobredotado. 




terça-feira, março 24, 2020

Em tempos de quarentena...nada a ver.


Vou falar-vos de um curso que tirei há uma década atrás, e que se tornou numa das coisas mais IMPORTANTES na minha vida,

e através da qual percebi a motivação de todas, mas absolutamente todas, as acções estranhíssimas que já tomei na vida.

Há 10 anos, dois amigos extremamente perspicazes e cautelosos, falaram-me de um curso chamado ENEAGRAMA, ensinado nas faculdades de Psicologia da Ivy League. Um curso em que (muito sinteticamente), se ensina que já na Antiguidade existiam 9 padrões de comportamentos ou personalidades. Eles vinham perturbados.

Fiz esse curso com uma amiga minha, VIRGEM E UMA GRANDESSÍSSIMA BEATA.

Descobri então que a minha personalidade é designada a de TIPO 8: “A Confrontadora (parte chata)/PROTECTORA (parte fofa)”: sou forte e quero proteger quem não o é, e o  meu pecado capital, que me assombra desde que sou gente até que morra, e que pode ser mitigado mas nunca erradicado, é a LUXÚRIA.

Eu estava em choque... realmente tenho um historial absolutamente admirável de broncas, confusões, próprias e de terceiros, do "estás comigo ou estás contra mim”, o mundo é uma selva e a LEI É A DO MAIS FORTE. 

Concomitantemente, percebi que também a minha amiga virgem também estava profundamente chocada, mas na realidade nunca chegámos a debater bem este assunto uma vez que, minutos após começarmos a falar da nossa personalidade, principiámos as duas um DEBATE ENÉRGICO em plena sala.

Aparentemente, aos olhos dos outras personalidades, nós as 2 estávamos a brigar, mas na realidade estávamos apenas a trocar argumentos vigorosos, nariz com nariz. Nada mais.

A malta do curso viu-nos a resfolegar e fazer peito, até porque também a minha amiga virgem tinha toda uma energia que eu, à data, associei à falta de sexo. Motivo da ilusória contenda (bastante válido):

Ambas achámos que tínhamos a personalidade Confrontadora/Protectora, mas recusávamo-nos a aceitar que a outra também a tinha! Ou seja eu, a bitch luxuriosa, recusava-me a aceitar que uma virgem deslambida (eye roling) se atrevesse a dizer que tinha a mesma personalidade que a minha. E vice-versa, já que ela, enquanto trucidava o meu carácter aludindo a questões porcas e chamando-me à tromba estendida de Carne Fraca, benzia-se e pedia a Jesus para me perdoar por eu ser tão burra e com tão pouco discernimento.

Trocaram-se argumentos valorosos, voaram intensas canetas pelos ares, perdigotos em todas as direcções. Imediatamente interveio o professor que nos ministrou o curso, perguntou o que se passava, e cada uma explicou, exactamente ao mesmo tempo e tentando sobrepor o tom de voz à outra, que era CIENTÍFICAMENTE IMPOSSÍVEL ambas termos a mesma personalidade tipo 8,

EU - Até porque ela tem 30 anos e é virgem, (luxuriosa o c…) ;
ELA- E ela é uma tarada mas não é protectora. Ela assusta toda a gente só de arregalar os olhos!

(Inchei o peito de orgulho).

E…. bem, o cabrão estava a rir-se. - “Realmente, aqui a palavra chave para nos ajudar a identificar esta personalidade é a Luxúria”. – esclareceu.

Eu arreganhei logo a tacha à virgem deslambida. Burra, a achar que era igual a mim… Mete a tua inexistente luxúria no cu e vai procurar outra personalidade – pensei.

Mas…Luxúria não é simplesmente no sentido sexual da palavra, mas sim no significado de Intensidade, Exuberância, Energia. São intensas em tudo o que fazem. Oito ou oitenta, tudo ou nada. E, nesse sentido, e sexualmente falando, podem até ser imorais por um lado, ou moralistas rígidas, por outro” .

Calámo-nos, combalidas. Ele não sabia da minha vida privada, e muito menos que ela era virgem.

“Tenho a dizer-vos que me parece que na realidade, têm exatactamente a mesma personalidade”. Virou-se e falou para o resto da turma “Percebem agora quando disse que era muito fácil identificar os Confrontadores? “, e apontou para nós as duas, todas descabeladas a arfar, parecíamos dois orangotangos em disputa por comida.

Risota generalizada daqueles lambe-cus .

No final da manhã, fomos almoçar juntas, super emocionadas e intrigadas. Conversámos entusiasticamente, fazendo uma retrospectiva sobre as nossas supostas diferenças. Eu comi pernil assado que nem um abade, ela depenicou 3 bagos de qualquer coisa e um bocado de brócolos.

Regressámos ao curso, melhores amigas, como sempre. As pessoas totalmente incrédulas, a olharem para nós.

“Ah, pormenor: este tipo de personalidade, por exteriorizar tão bem a sua visceralidade interior, no fundo a sua Raiva, explode, resolve o assunto e fica tudo óptimo numa questão de minutos. Não remoem ódios.”– esclareceu o professor. 

O Eneagrama ensinou-me também que nem todos têm que pensar como eu (aqui foi o choque principal. O horror, o descalabro, noites sem dormir), e existem outras 8 personalidades maravilhosas por esse mundo fora, que agora entendo melhor.

Acima de tudo, aprendi que apesar de ser uma Bruta Encouraçada, o meu caminho é tentar baixar a guarda e ser uma pessoa assumidamente Vulnerável e continuar ainda assim, a tentar ser Protectora dos Frascos e Comprimidos. A Madre Teresa de Calcutá, eu e Trump temos exactamente a mesma personalidade de Confrontadores/Protectores, embora ela esteja no topo, ele na cauda, e eu um cu acima dele.

Mas como caricaturar é o melhor remédio, pois não nos devemos levar muito a sério, eis a descrição absolutamente maravilhosa que a Desciclopédia faz da Personalidade o Confrontador/Protector ou, dito de outra forma:



O Mandão Infantil

São psicopatas sanguinolentos, teimosos e vivem se achando o rei da cocada preta. Essas pessoas não pensam em nada que não tenha sangue, tem mania de querer fazer antes de todo mundo, ele vai disputar até a oportunidade de ser eletreocutado.
São geralmente líderes de torcidas organizadas e assassinos em série.
Fazem várias coisas ao mesmo tempo, tudo mal feito. 


(E esta sou eu.. Que orgulho desmedido).


Ps- Percebi então que a minha amiga virgem não se exaltou por falta de sexo. Foi pura intensidade. Na noite de núpcias estraçalhou marido em mil pedaços. Eu não vi. Pagava para ter visto, mas não consegui, a minha intensidade de coscuvilhice contendeu com a dela de privacidade.

É, decididamente, das minhas pessoas preferidas com quem conversar.


sexta-feira, março 13, 2020

O Perninhas

Fui contactada por uma alemã imponente, que me pediu para visitar o seu namorado, um amável  recluso africano, com 1.95 metros de altura, preso por tentativa de homicídio qualificado. E lá vou eu, toda entusiasmada para o EP, adoro histórias de faca e alguidar (especialmente sem falecimentos pelo meio).

Nessa 1.ª visita, fiquei assoberbada de emoções. NUNCA TIVE ninguém que me matraqueasse TANTAS PALAVRAS, e contando-me TÃO POUCO em TANTO TEMPO. Eu estava num frangalho emocional sem precedentes.

Quando finalmente ele chega ao FACTO ILÍCITO propriamente dito…eu já tinha desligado há que tempos. Regra geral desligo em, aproximadamente, 20 minutos, e eu já estava ali há mais de 1 hora e meia. A parte boa é que realmente eu tenho uma capacidade excepcional de fingir que estou a ouvir pessoas. É um dom, confesso.

Eis quando ele PÁRA de contar (o quer que seja que ele tinha dito), e eu farejo silêncio. Ele olha para mim, ávido de uma resposta que o aquiete enquanto alegado homicida.

Estou numa situação delicada, perdi-me há, pelo menos, 30 minutos atrás. E quando digo perdi-me, não minto. Não fazia porra de ideia do que ele me estava a perguntar, se é que era uma pergunta. Até poderia ser uma ameaça, por Deus…sou tão incauta que até me irrito a mim própria. E ele continuava a olhar para mim, calado.

Também eu optei por permanecer em silêncio mas, note-se, um silêncio muito expressivo. É um olhar de compaixão acompanhado de uma exalação de ar, controlada mas incisiva - como quem se depara com algo que, se não fosse tão inacreditável e injusto como  prisão preventiva, até dava para rir. 

Eis que ele, inopinadamente, salva-me. E apavora-me, também.

Chega a cadeira para junto de mim (MEDO!) e com uma rapidez alucinante, nem tive tempo de perceber ao que ia, ele iça uma perna gigante rasando o meu nariz, arregaça as calças e exibe-me, triunfante… uma GRANDESSÍSSIMA PERNA DE PAU!

E quando digo grande…não se olvide que ele tem praticamente 2 metros. Cada mão dele, é uma nalga minha. Digamos que o meu deficit de atenção eclipsou-se no imediato e nunca estive tão atenta na vida.

Penso que mostrar-me a perna de pau foi, concomitantemente, um acto de exibicionismo e de contextualização criminosa. Ficou extremamente claro que aquela condição era algo que não lhe causava qualquer constrangimento, mas sim um certo orgulho. Deixou-me até tirar e publicar uma fotografia.

Fiquei a pensar que um gesto vale por mil palavras,  e f…, aquele homem esteve ali a entendiar-me com banalidades deprimentes, quando afinal tinha um apontamento colossal debaixo das calças (boçalmente falando, até seriam duas).

E recomeça a falar, volta a desfiar o seu rol de queixas, e aí sim, eu entro em modo de sobrevivência, activo todos os meus neurónios memoriais, e apanho o que se segue:

-  foi uma luta entre primos;
- motivo: honra e mais não sei quê, ainda hoje não estou totalmente esclarecida, isto dos africanos e da sua honorabilidade é uma questão sociológica interessante;
- com caçadeira;
- tiro no tórax;
- INEM salvou o primo;
- foi só para o assustar (ok. bem-sucedido).

And last but not least:

O tiro disparado foi unicamente para se defender, porque o primo irritou-se com não sei o quê,  e ele é MUITO PERNETA e o outro primo é MUITO LESTO e corre que nem um gato-bravo e ele ficou com medo! (obrigo-me a não rir).

Palavra de honra: EU ACREDITO MESMO que esta pessoa não teve intenção de matar. E quem conhece a minha adorável personalidade distorcida: quando eu acredito, ACREDITO MESMO. E a Verdade, é a MINHA VERDADE. E quero obrigar os outros a também acreditarem, nem que seja ao chapadão, o que em tribunal me frustra imenso, como imaginam, nunca sei o que fazer à minha visceralidade incontida.

Naquele julgamento, transfigurei-me numa gorila enjaulada (elegantemente vestida). Entra a vítima (“vítima o car… “pensei eu – “filho da p…, queixinhas de merda, vai-te encher de moscas”), e preparo-me para o trucidar, fico doente com pessoas dissimuladas.

O Sr.Vítima/Falso de Merda entra, vai para o lugar que lhe indicam, olha para trás para o banco dos réus, vira-se, corre em direcção ao arguido e TUNGAS! ESPETA UM GRANDE ABRAÇO NO PERNINHAS!!!E o ambiente é mágico, ambos carinhosamente estreitados, submersos na sua própria realidade espacio-temporal (até que  os guardas prisionais se atiram para cima dos dois, pensando que se estão novamente a tentar matar).  

Odeio dar parte de fraca, mas aquilo foi muito comovente. Mas lá se foi toda a minha estratégia processual. O Sr. Vítima/Falso de Merda é, afinal, uma jóia de pessoa, e eu não tenho como atacar pessoas vulneráveis. Tratei-o na palminha das mãos, perguntando à generosa vítima se havia perdoado o ofensor e ele chora e diz que sim, que ele próprio também teve muita culpa!

À saída abraçam-se outra vez, os guardas já a passarem-se dos carretos com tanta ternura e movimentos bruscos. O Ministério Público pede prisão, mas suspensa. 

No dia da leitura, o Perneta é sentenciado a 5 anos de prisão, suspensa na sua execução e sujeita um regime de prova - coisa simples a tratar com técnicas de reinserção social, unicamente 2 vezes por ano. É imediatamente libertado.

Ele dá-me um grande abraço que quase me estropia, e notem que eu tenho arcaboiço (o homem por não ter uma perna deve dar montes de importância aos membros superiores: ora mune-se de armas e dá tiros, ora abraça-as vigorosamente. Homem interessante… deve ser uma roleta russa de emoções ser-se amigo dele).

Como saiu em liberdade, combinei com o guarda prisional ir levá-lo ao EP no meu carro, para ele ir buscar os seus pertences (e ver se lambia mais qualquer coisinha...nem que fosse o almocinho). O Pernas pede para ir à casa de banho. O senhor guarda fica ali comigo no corredor, à espera do mandado de libertação.

E lá vai o arguido à casa de banho dos homens, no piso 2 do grandioso tribunal de Almada (vai aos saltinhos meio coxos - relembremos que aquilo não é propriamente uma prótese de fibra de carbono).

 O homem demora. Mau…concedemos que ele só tem uma perna e como bom africano de 2 metros deve ter um pichão enorme e super trabalhoso. Mas já estava a demorar demais…. Espreitamos para dentro de um outro corredor onde estão as casas de banho e as salas de testemunhas e vimos o arguido a regressar.

E aí, eu e o guarda quase que rebentamos de riso. Atrás dele: a sinalética da casa de banho dos homens - era, nada mais nada menos, que uma figura masculina, SEM UMA PERNA!

A sério, nesse dia Deus estava super bem disposto: agraciou-me com um cliente correctíssimo, com um colectivo de juízes e MP sensatos, com uma condenação perfeitamente justa e fez-me rir tanto à porta da casa de banho de homens -  lugar o qual, por princípio e por definição, eu odeio, tenho nojo e DÁ-ME VÓMITOS!

Cereja no topo do bolo:

O Pernas FALTOU A TODAS as entrevistas da Reinserção Social. Falhou o regime de prova e revogaram-lhe a pena suspensa, tornando-se efectiva. Está neste momento a bater com os COSTADOS E A SUA ÚNICA PERNA num EP da zona Centro.

Tive vontade de o estoirar  mas, como sabem, estou no limiar da delinquência mas ainda do lado de cá. Continuámos amigos.


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segunda-feira, março 02, 2020

Emoções fortes nas Berlengas


Tenho que contar esta história de foro profissional com alguma cautela (e quem me conhece sabe que cautela é uma palavra ulcerosa que me consome por dentro).

Existem várias delegações da PJ por este país fora. Esta história decorre numa delas. Chamar-lhe-ei Polícia Judiciária das Berlengas, não comprometo ninguém.

Fui contactada por um cliente recorrente, daqueles que só se mete em problemas e do mais diferenciado que existe, se não é do cu é das calças, impressionante.

 Que é que foi?”
“Ah e tal, rusgas em casa…armas…bla bla bla eu não fiz nada;
                Mas  eu tenho  muito medo”.

Adoro esta honestidade intelectual. Fui ter com ele, lá numas moitas escondidas do bairro.
Pedi esclarecimentos exactos. Voltou a falar em armas, mostrou-me o mandado de busca que o pai lhe tinha enviado pelo WhatsApp (furibundo, ofereceu-lhe até uma sova) e  afiançou-me que isto era um equívoco, que não era nada com ele.

Li o mandado e as considerações que o juiz tinha tecido. Efectivamente a palavra “armas” estava lá escrita, mas nada de muito alarmante. "Isso é uma história de uma rixa, bla bla bla e eu não tenho nada a ver com isso”

Explicou-me onde estava no dia daquela ocorrência. Olhos nos olhos. Posso ser uma idiota e achar que se podem panar bifes do lombo, mas EU SEI LER a cara de um inocente.

Precisava de dinheiro, e só o justificaria com uma deslocação à Polícia Judiciária. Somei prós e  contras, avaliei sumariamente a possibilidade de ele ficar realmente preso, ou ser apenas constituído arguido, reli aquele mandado de busca tão clean, super ligeiro e boa onda e decido avançar.

 - Vamos à PJ, peça dinheiro ao seu pai.
 - ARGHHHHHH não quero, que medo. (Fiquei na dúvida se medo seria ir à PJ ou aos bolsos do pai, calculei com fosse um misto dos dois).

Dinheirinho no soutien, e lá fomos nós bater à porta desta PJ. Aparece o Sr. Inspector do processo  - chamar-lhe-ei  Sr.  Inspector Cara de Cu à Paisana (CCP), para salvaguardar identidades, embora mais de 2/3 se encaixe nesta categoria.

Quando pus o meu pé dentro daquela sala, vi logo que estavam reunidas todas as condições para aquilo dar MERDA DA GROSSA.

Na sala estavam vários inspectores, homens e mulheres, que trocaram uns olhares entre si, senti imediatamente ondas hertzianas estranhíssimas.  Uma espécie de hostilidade mal direccionada.

Fomos conduzidos para a mesa mais distante da porta. Oiço do outro lado da sala: “Ó CCP, já informaste o Chefe?”
” – CCP sorriu.
E eu pensei: “ JÁ FOSTE. Susana, és uma jumenta”.

Foram-lhe comunicados em voz clara e bem audível, todos os factos de que era suspeito. Cada frase que eu ouvia, a minha tensão arterial subia.

O Insp CCP começa a desfiar o rol de armas envolvidas e relacionadas com o meu constituinte, caçadeiras de canos serrados, espadas, catanas, sabres e baionetas. E percebo que havia uma vítima mortal a lamentar.

Eu tinha a certeza que o burro do meu cliente era, apesar de tudo, inocente (embora não pareça à luz da factualidade apontada). Mas muito burro, NUNCA SE  MENTE AO ADVOGADO! DEIXEM AS MENTIRAS PARA NÓS!!

Enquanto ouvia os factos - para os quais não estava definitiva e psicologicamente preparada, e com as risotas de hienas dos PJ atrás de mim, senti-me uma bruxa a ser queimada em praça pública. A advogada estúpida que conduziu directamente o seu cliente para o calaboiço.

O Inspector CCP, num tom meio disfarçado de gáudio com ilusória seriedade (nem devia estar a acreditar na sorte naquele dia), pede-me que o acompanhemos até lá “abaixo”.

O cliente vai ainda sem algemas. Começo a tentar visualizar escapatórias possíveis, mas o gajo tem excesso de peso enfim, um pesadelo. O cliente/pré-recluso entra numa sala, supostamente para fazer o cliché fotográfico e eu fico cá fora, toda lixada da vida.
Depois,

O ACONTECIMENTO DO ANO:  O cliente sai, e SAI EM LIBERDADE! Embora em profundo choque, recomponho-me como quem nunca equacionou outra hipótese, dou umas boas tardes ríspidas ao Cara de Cu à Paisana, enquanto o olhar dele soletra-me claramente: “é uma   questão   de  TEMPO”, e saio de rabinho a dar a dar,  toda contente.

No dia seguinte, choque outra vez: Insp CCP telefona-me. “Aparentemente” as fotografias tinham ficado “mal tiradas”. Pergunta-me se podemos lá ir, ainda durante a parte da manhã.

MERDA PARA ISTO TUDO, qualquer dia dá-me um treco. Disse que ia falar com o cliente .

Aconselhei-me com vários advogados da velha guarda. “Não o podem prender nessas circunstâncias” asseguram-me.  Vai. Não é certamente para nenhuma fotografia, mas vai e tenta perceber o que é que ele quer” – incentiva-me um colega.

E lá fui eu e o cliente pré-obeso. Voltamos às masmorras cá em baixo. Levam o homem não sei para onde e aparece o Insp. CCP. Seriedade SINISTRA.  Preparo-me para o embate.

- Dra.
- Sim, Sr. Insp. CCP
- SEI DE UMA COISA.

Estou numa situação de areias movediças, mas ao menos este PJ faz tudo à tromba estendida e eu respeito bastante a frontalidade.

Cruzei os braços e encarei-o de frente. Aguardei pelas exigências (a chantagem até poderia ser benéfica para todos os envolvidos, prejudicando-se eventualmente um terceiro, era uma questão de sopesar interesses).

O olhar dele endureceu.
- E É SOBRE SI.

Gelei. Ahhhhhh cum c…, eu sabia que ainda ia sobrar para mim! Tenho  uma quota-parte de delinquente, fiz coisas que não devia, ir na minha peugada deve ter sido relativamente simples.

Silêncio.

- “OPÁ !DESCOBRI O SALSICHA!!! SOU FÃ!! ADOREI, ADOREI!!!Desde ontem que já li quase tudo para trás! Não consegui parar! Adorei! Grande escrita, parabéns! Sou fã!”!

Se um unicórnio protésico me aparecesse à frente naquele momento, eu não ficaria mais atónita do que estava.

A transformação dele foi absolutamente surpreendente. Já não estava em modo de mono/autoridade mas sim de adorável diabrete.

“Tive que a pesquisar na internet porque não tinha o seu número. Encontrei este Salsicha…espectáculo… já não me ria assim há já muitos anos”. “Por favor, escreva mais”.

Em choque anafilático, agradeci os elogios inesperados; o cliente repetiu efectivamente as fotografias e saí com ele para a rua. O sol brilhava, os pássaros chilreavam, o mundo tinha cores vivas.

“Isto há dias do car..” – pensei eu.

E no dia 22 de Fevereiro, pela primeira vez neste ano de 2020, voltei a escrever. Obrigada a quem me lê e, 

                                      muito especialmente, ao Senhor Inspector ex CARA DE CU.

Obviamente vou re-denominá-lo, embora possa levar algum tempo: tenho muita imaginação mas nunca apelidei amavelmente um polícia em toda a minha vida. Saí oficialmente da minha zona de conforto. E com muito gosto.



sábado, fevereiro 29, 2020

A importância da Fita Adesiva a dormir, vulgo método Buteyko


 Já aqui escrevi que falo bastante não só a dormir, como também  fico num estado semi-lúcido a ver televisão, chegando a ter alucinações. Asseguro, no entanto (a mim própria e aos outros), e faço ponto de honra nisso, que estou a tomar a mais plena das atenções ao que estou a ver:

- Pedro cuidado com a  curva, vais mais devagar– advirto eu.

- Susana, acorda, estamos a ver Netflix .

- Eu estou acordada! (tocaram-me num ponto sensível) – Eu até consigo reproduzir na íntegra a última legenda que passou.

                                        “ Sê corajosa, sabes que tens que ser o ganha-pão da tua família”.

- Susana, estamos a ver os Dois  Papas.  Garanto-te que nenhum velho disse isso.

 - Hum. Estranho.


Também quando já estou na  cama a dormir, faço confidências íntimas, arrancadas com todo o gosto pelo Pedro. Na última vez até escrevi num post, se bem se lembram, que a dormir lamentei-me- “Dói-me o pénis”.

Esta noite, o fenómeno repetiu-se. Mas foi desproporcionalmente pior L E olhem que já é muito ser-se gaja e sofrer da pila.

Pedro de manhã:

 - Sabes o que disseste esta noite?

- F… cum c…, ai a merda, tens que deixar de fazer isso! Tens que parar, eu estou a dormir, sinto-me  violada na minha intimidade!

- Olha por acaso até foste tu que me abordaste...

- F… e que estupidez é que  eu disse?

Riu-se. Pigarreou:


- “Passa-me aí esse pastelinho rápido,  que o Pedro agora não está a ver!”.


Porra.

 Sim, eu adoro comer. Tenho um amigo que me disse: “Se uma mulher olhasse para mim como tu olhas para este croquete, casava-me logo com ela".

O problema é que realmente, a única pessoa que eu não quero ver-me a comer como uma alienada na fase maníaca é, precisamente, o Pedro.

O ciclo é vicioso, as histórias são muitas.  Invitavelmente, cada vez que ele se ausenta de uma qualquer mesa de refeições (normalmente na casa dos meus pais ) -  (e para ir à casa de banho), eu fisgo logo um queijo brie  com nozes , ou um terço de um salame.

Há duas semanas, na casa dos meus pais, quando o Pedro se ausentou, comecei a deglutir a um velocidade vertiginosa um pão de alho que já estava parcialmente trincado. Por norma, a coisa passa despercebida, mas desta vez o Pedro voltou logo, muito mais veloz do que eu previra.

Foi absolutamente admirável o meu sangue-frio, mesmo a parecer UM RAIO DE UM HAMSTER com um manancial de comida escondida nas bochechas.

- Epá que granda desbaste que alguém deu aqui num pão, e fui só fazer o número 1”  - gozou ele.

Continuei imperturbável: ao domingo pululam pessoas na casa dos meus progenitores. É um verdadeiro CLUEDO, o criminoso pode ter ser sido qualquer um: eu, os meus primos, os meu filhos -  e não sabemos todos que as crianças são  umas grandessíssimas lambonas?

Voltando ao “Passa-me aí esse pastelinho rápido,  que o Pedro agora não está a ver!” Tentei:

- Não disse nada.

- Ai disseste disseste! Até te perguntei: de quê? E tu:  um qualquer, mas rápido!


Epá, que momento embaraçoso. Susana, pedir um pastel furtivo, à revelia do marido…ao próprio?! Seriously? Senti-me outra vez como um hamster. Aliás, devo ter sido um noutra vida: tenho o mesmo apetite,  as mesmas bochechas dilatáveis, a mesma pelúcia preta e aspecto cilíndrico.

A diferença é que os bichinhos distribuem bem o peso do corpo, e depois correm na rodinha todos atléticos  e sexys.  Eu sou um roedor acabado.


 Olá Pedro, já leste este post? Um grande beijinho para ti e para os teus interrogatórios pidescos.  Pénis molestados, pastéis  furtivos, qualquer dia ouves o que não  queres. Just saying.






sábado, fevereiro 22, 2020

Patrulha Pata, onde andam vocês, seus caninos mal amanhados, quando é realmente preciso?!


 No dia 17 de Agosto de 2011, num post intitulado:  Quero a minha querida Mãe. Mãe. Mãe, escrevi o quão prostrada por ter que saber cozinhar bases de sopas (mesmo com cábulas), e fazer máquinas de roupa por cores. O mundo era lugar confuso.  Mas a esperança que eu depositava em mim própria era comovente. Vejamos:

“Eu sei que isto passa. Que um dia farei isto de olhos vendados, com uma perna às costas, dobrada ao meio, a esticar o cabelo e a fumar um cigarrinho. Mas, acreditem - enquanto isso não acontece (tipo saber seleccionar a mais brilhosa hortaliça ou o melhor espadarte fumado) sinto-me, oficialmente, um triste espectáculo. Repito: faço outras maravilhas.” http://salsichanaotedesgraces.blogspot.com/2011/08/quero-minha-querida-mae-mae-mae-mae.html


Susana, Susana, Susana…Resenha escrita aos dias vinte e dois  de Fevereiro de 2020:

1.º - Não fazes nada de jeito de olhos abertos, imagine-se vendados, já teria ardido o prédio inteiro.

 2.º - Gerir tarefas do lar com uma perna às costas e dobrada ao meio? E como é pensas que em 2020 andarias no meio da rua? Elegantérrima, de nobre e majestoso porte?! Dobrada ao meio e de pernas à banda andas sempre tu, em plena rua, toda quinadinha da ossatura.

3.º - Esticar o cabelo?! Hein? O cabelo lava-se e seca-se com a toalha das mãos, normalmente suja de alguma base . (Na realidade,  o truque  não são pranchas nem secadores, é usarmos camisolas com decote em V para não nos olharem para a cara).

4.º Fumar cigarrinho não, nunca!!O Rui Unas (fonte de Lei) sempre disse: “miúda que fuma, já pina”. Acho que  esta é uma das frases mais prodigiosas que ouvi e, em bom rigor,  condicionou-me até hoje. Sou uma miúda , não fumo e os meus filhos são, sob o ponto de vista canónico e científico, verdadeiros  Mistérios da Fé. 

Por isso Susana de 2011, …se te sentes um triste espectáculo nesse ano, compra um grande baldinho de pipocas e saltemos para 2020:

1.º -  Quarenta anos. Parecia ficção científica mas sim, o tempo anda e não é para trás. A parte boa é que, se numericamente falando tens 39 anos, o teu comportamento continua a não se coadunar com a idade cronológica. Pontinha de orgulho mal disfarçada :).

2.º- Asna, não, não aprendeste a cozinhar. (Um  místico disse que  tinhas  um bloqueio na cozinha. Tens é  um bloqueio intelectivo. Diferenciar espinafres e agriões?! São verdes, têm forma ramalhete, como não os confundir??; e espadarte fumado (?)  - devo ter visto no Google, não me lembro sequer disso existir, quanto mais de o comprar. Olha, merda para isso tudo).

3.º - Não lavas unicamente cuecas de 2 filhos emprestados de 5 e 6 anos, lavas mas é :
- incontáveis pares de boxers de galifões de 16 e 14  anos;
- cuecas do de 7 anos que ainda está a aprender a limpar o rabo e não está a ser fácil a aprendizagem;
- e trocas fraldas, o que é, no meio deste pesadelo hitchcockiano, um bálsamo para a tua saúde mental.

 Note-se, efectivamente fazes várias máquinas de roupa, mas não propriamente separadas por cores. Encadeamento técnico da separação roupística:

** Pões na máquina TUDO o que está na tulha de roupa suja, sentas-te no chão e calcas bem com os  pés o tambor, até não caber mais um alfinete.(Se der para pôr toalhas pões, se não, voltam para as respectivas casas de banho, que a sujidade não há-de ser assim tão intolerável).

Ademais,

4.º – Sobes umas escadas de um TRILICHE até literalmente ao tecto, lanças-te em voo picado para cima da útima cama e, com lágrimas de dor descendo pelo rosto,  tentas mudar os lençóis  conforme podes. Eu nem sei bem para onde fica a parte da cabeça ou dos pés, mas desconfio que o miúdo também não. E mais não te é exigido.

Sim,  leste bem, passaste de miúda jovial,  boa onda e risada fácil, para pessoa que tem que ir mandar fazer um triliche nos Foros da Amora (nada contra, grande terra, bons clientes).

Mas reiteiro, tal como em 2011: “Faço maravilhas”. Adaptadas à idade, claro, mas o compromisso e o esforço permanecem inalterados. E isso não tem preço, não se ensina, emana de uma personalidade intensa, imodestamente falando.


Se fosse homem casava comigo, claro, eventualmente com take away por perto e um grande desapego a camisolas de lã (reduzidas a 3 quartos de manga).

Um longo minuto de silêncio pelos sonhos distantes de mocidade.




terça-feira, julho 23, 2019

Volta Adrian Mole. Também já não tenho 13 anos.


Não é para me gabar, mas as minhas qualidades de madrasta transcendem-me e ficarão para a história destas 2 crianças, minhas enteadas -  um já faz o bigode e outras coisas, o outro ainda não percebi muito bem.

Ficou claro desde o início: vivem connosco, existem 2 casas de banho. Estão expressamente proibidos de utilizar a minha. Por dois motivos óbvios:

1.º Quero ter o direito, liberdade e garantias de que o meu soutien pode estar a secar algures por cima da cabine de duche, sem ter receio de que o mesmo seja observado, vilipendiado, manejado e/ou fotografado.

2.º Sabe Deus o que eles se lembram de fazer quando estão solitários, e eu que sou rapariga não faço a mais pequena ideia para onde vai a solidão deles, e se for para a sanita, corro o risco de ficar grávida novamente. Acho que li demasiadas vezes o Adrian Mole, eu ia jurar que a solidão leva ao lavatório, mas o Pedro avisou-me que não, já não digo nada.

Recentemente ouvi o mais velho dizer ao mais novo, em risota abafada, que a vizinha estava no truca-truca . (sic) (Deve ser aquela vizinha de cima bem mais velha que eu, que envergonha os meus jovens 38 anos, aquilo não pode ser considerado clinicamente normal).
Aproveitei logo.

- Ai ouviste ? – perguntei eu de frente, olhos nos olhos.
Silêncio.
- Então, ouviste ou não?
Ouviu-se um sumido e angustiado “sim” (do mais velho, o mais novo riu-se por ele ter sido apanhado)
-Já agora,  vocês já ouviram eu e o vosso pai? No truca-truca? Na minha altura era pinanço mas enfim...

 Silêncio. Agora dos dois.

 - Ouviram ou não? No meio da confusão, perdemos a noção do barulho...

O horror puro no olhar daquelas crianças semi- embuçadas e um já com um pé no 10.º ano. Priceless.

- Combinamos assim: se eu ou o vosso pai estivermos a fazer demasiado barulho,tipo…grande chavascal, façam-me um favor a e a vocês próprios…

- Saimos e compramos pizzas ? - mais novo, ainda em choque mas já com um ratinho no estômago.

- Não. Batem à porta e avisam que estamos a fazer demasiado barulho. 

A montanha-russa de emoções que aqueles dois sentiram no espaço de 2 minutos, foi de uma riqueza vivencial inigualável.

i)A palavra truca-truca em surdina que eu, com os meus ouvidos de tísica apanhei;
ii)O meu “olha lá”, em plenos pulmões, susto de morte, eu morria se os meus pais me apanhassem nestas conversas;
iii)A incredulidade/ twilight zone quando menciono a palavra “chavascal”.
iv)A patética alegria de pensarem que tinham autorização para saírem  e ir comprar comida!
v)A noção da obrigação formal a que ficam adstritos de que, caso oiçam alguma coisa, têm que ir avisar, batendo à porta.

Se me fizessem isso, enquanto adolescente, tinha um enfarte. No entanto, depois de saber que estas crianças jogam no GTA uma espécie de 2ª vida mas online, mundo esse em que são traficantes de droga e gastam muito, mas muito dinheiro em miúdas nuas e carros, precisam mas é de acordar para realidade, para o mundo não-ficcional.

Sim, vivem lá em casa, existem regras, têm que me avisar.  E nada de fugir porta fora e ir comprar pizzas (só a meu expresso pedido).

Pedrito e Picha D´Aço (lembram-se? o mais novo gosta de ser assim tratado, quem sou eu para o julgar): SIM! O vosso inócuo pai e a madrasta fazem cenas. SÓRDIDAS, super sórdidas. Muito mais que o GTA possa alvitrar.

Alguém teria que vos dizer.

 #quemtemumaMadrastadestastemtudo