terça-feira, julho 23, 2019

Volta Adrian Mole. Também já não tenho 13 anos.


Não é para me gabar, mas as minhas qualidades de madrasta transcendem-me e ficarão para a história destas 2 crianças, minhas enteadas -  um já faz o bigode e outras coisas, o outro ainda não percebi muito bem.

Ficou claro desde o início: vivem connosco, existem 2 casas de banho. Estão expressamente proibidos de utilizar a minha. Por dois motivos óbvios:

1.º Quero ter o direito, liberdade e garantias de que o meu soutien pode estar a secar algures por cima da cabine de duche, sem ter receio de que o mesmo seja observado, vilipendiado, manejado e/ou fotografado.

2.º Sabe Deus o que eles se lembram de fazer quando estão solitários, e eu que sou rapariga não faço a mais pequena ideia para onde vai a solidão deles, e se for para a sanita, corro o risco de ficar grávida novamente. Acho que li demasiadas vezes o Adrian Mole, eu ia jurar que a solidão leva ao lavatório, mas o Pedro avisou-me que não, já não digo nada.

Recentemente ouvi o mais velho dizer ao mais novo, em risota abafada, que a vizinha estava no truca-truca . (sic) (Deve ser aquela vizinha de cima bem mais velha que eu, que envergonha os meus jovens 38 anos, aquilo não pode ser considerado clinicamente normal).
Aproveitei logo.

- Ai ouviste ? – perguntei eu de frente, olhos nos olhos.
Silêncio.
- Então, ouviste ou não?
Ouviu-se um sumido e angustiado “sim” (do mais velho, o mais novo riu-se por ele ter sido apanhado)
-Já agora,  vocês já ouviram eu e o vosso pai? No truca-truca? Na minha altura era pinanço mas enfim...

 Silêncio. Agora dos dois.

 - Ouviram ou não? No meio da confusão, perdemos a noção do barulho...

O horror puro no olhar daquelas crianças semi- embuçadas e um já com um pé no 10.º ano. Priceless.

- Combinamos assim: se eu ou o vosso pai estivermos a fazer demasiado barulho,tipo…grande chavascal, façam-me um favor a e a vocês próprios…

- Saimos e compramos pizzas ? - mais novo, ainda em choque mas já com um ratinho no estômago.

- Não. Batem à porta e avisam que estamos a fazer demasiado barulho. 

A montanha-russa de emoções que aqueles dois sentiram no espaço de 2 minutos, foi de uma riqueza vivencial inigualável.

i)A palavra truca-truca em surdina que eu, com os meus ouvidos de tísica apanhei;
ii)O meu “olha lá”, em plenos pulmões, susto de morte, eu morria se os meus pais me apanhassem nestas conversas;
iii)A incredulidade/ twilight zone quando menciono a palavra “chavascal”.
iv)A patética alegria de pensarem que tinham autorização para saírem  e ir comprar comida!
v)A noção da obrigação formal a que ficam adstritos de que, caso oiçam alguma coisa, têm que ir avisar, batendo à porta.

Se me fizessem isso, enquanto adolescente, tinha um enfarte. No entanto, depois de saber que estas crianças jogam no GTA uma espécie de 2ª vida mas online, mundo esse em que são traficantes de droga e gastam muito, mas muito dinheiro em miúdas nuas e carros, precisam mas é de acordar para realidade, para o mundo não-ficcional.

Sim, vivem lá em casa, existem regras, têm que me avisar.  E nada de fugir porta fora e ir comprar pizzas (só a meu expresso pedido).

Pedrito e Picha D´Aço (lembram-se? o mais novo gosta de ser assim tratado, quem sou eu para o julgar): SIM! O vosso inócuo pai e a madrasta fazem cenas. SÓRDIDAS, super sórdidas. Muito mais que o GTA possa alvitrar.

Alguém teria que vos dizer.

 #quemtemumaMadrastadestastemtudo

quinta-feira, junho 20, 2019

Big Brother (Great Husband)





Já alguma vez disse que o meu marido entrou em 2001, no Big Bother 3? Fica a consolação de que altura os reality show não eram o degredo que são hoje - ainda assim, meu Deus, por que é alguém, voluntariamente, alinha numa coisa destas?

Ele, Pedro. Porque sim, porque pode, porque não quer saber o que os outros pensam. Sabe lidar com a crítica, desmonta argumentos em minutos, tem total indiferença para quem não lhe interessa. Adoro, super sensual.

Especialmente porque eu, à data, embrulhava-me em guerras dia sim dia não, fazia questão de comprar a confusão dos outros, fervilhava em emoções fortes, desmontava com brilhantismo argumentos ao chapadão nas trombas, e tudo isto em nanosegundos.

Não me orgulho (...um pouquinho) - (alguma saudade dos tempos em que a juventude nos permitia calar uma pessoa com grande honestidade física, sem grandes canseiras racionais). 
Enfim,

Ei-lo aqui na capa da revista do Correio da Manhã, 2 dias antes do Final do Ano de 2001, altura em que se saberia se seria o vencedor.

Lembro-me muito bem desta capa, porque, consabidamente, eu retenho demasiada informação irrelevante, esquecendo-me de conceitos básicos (panar bifes do lombo, tentar fazer puré com batatas cruas, deixar o carrinho de bebé numa fila de supermercado  – em meu abono, tenho a dizer que empurrava 2 carrinhos: um de supermercado, outro de bebé. Calhou de ser o da criança, acontece).

Voltando à capa. Meu Deus. Tanto se me apraz dizer. Mas não vou.

Posso apenas, à laia de comentário, referir que ainda hoje me choca a quantidade de cabelos que ele tinha plantados naquela cabeça. Credo. Tantos. Como é que somem assim de um dia para o outro?! Mundo estranho.

Mas gosto da frase: “Todos apostam no Pedro”. E como não? No meio dum Tigrão, duma Liliana Aguiar, dum toureiro chamado Aníbal…Pedro era, inegavelmente, a última coca-cola do deserto.

Ora, eu apostei nele há 9 anos atrás. Depois da lista de coisas deprimentes e merecidas que vivenciei, confesso que esta aposta, para mim, foi de uma tremenda genialidade.

Encontrei este souvenir lá na arrecadação, um cartão do BB. E à pergunta de dinâmica de grupo do Grande Irmão, “se fosse um objecto, qual seria?”

Pedro: Um cubo de gelo, frio e transparente.

Ahaha, tão Pedro. E seria ele lá outra coisa. Só se fosse um átomo de hidrogénio.
Reflecti.


Susana - Um martelo de orelhas, cabo em aço e ponta arranca-pregos.





terça-feira, junho 18, 2019

Eu e a Zuca



Após uns meses de interregno, e de muita insistência de uma Brasileira de 25 anos, que casou com um homem rico de 50 anos, voltei a escrever.

A brasileira é giraça, com grande sexyness. Veio lá dos quintos dos infernos do Brasil, Fortaleza penso eu, onde o meu marido - por eventual precaução ou dizendo mesmo a sua opinião (nunca saberei), insistiu em que nunca tinha visto tanta mulher feia por cada metro quadrado. Instintivamente olhei-o de perfil, é o meu melhor ângulo.

Parte engraçada: a brasileira veste-se bem, é inteligente, é chique, daquela chiqueza que arrepanha o coração – por muito dinheiro que ganhe (que, note-se, não ganho), jamais terei aquele cenário.

Pior: é paciente, é cautelosa e eficiente. E é apaixonada pelo marido, que conheço pessoalmente e reconheço que para pessoa cinquentenária, está muito bem.

(Pequena pausa de choque, relembro-me que daqui a apenas 10 anos terei essa idade. Náusea.)

Portanto, a zuca que no primeiro parágrafo aparenta ser uma vaca sabida, surpreende agora o internauta com o seu perfil de mulher forte, uma Margaret Tatcher acabritada,  a Coco Chanel do Ceará.

Nem sei por que menciono Coco: “uma mulher deve ter 2 coisas na vida: um vestido preto e um homem que a ame”.  Apontamento mental:
1.º E eu uso o vestido preto exactamente com o quê? Descalça?
2.º O homem ama-me, mas há reciprocidade? Eu amo-o? 

Quem leu o blogue há uma vida atrás, deve recordar o infeliz que um dia encheu-me a caixa de comentários com precisamente 500 (quinhentos) “Amo-te”. Não fosse ele estar sob o jugo da Lei da Saúde Mental (internamento compulsivo por esquizofrenia paranoide pela minha pessoa. Aparentemente as esquizofrenias podem ter alvos directos, tipo pessoas, carros, garrafas de água. Um susto), até teria tido alguma graça.

Adiante, a brasuca é muito adorável. Fosse eu homossexual, traçava-a. Eu gosto de mulheres fortes. Não de compleição física (nada contra: been there, done that), mas de carácter. Eu aparento ser forte. E tento. Sou razoavelmente competente, mas nada se equipara a esta mulher.

A título meramente exemplificativo: eu tive um bebé, e passados 3 meses, estava ainda ao nível físico e social de um porco semi-inconsciente.

Ela teve 2 gémeas bem gordas. Passados 15 dias, ei-la a amamentar: uma em cada mama, telemóvel preso entre a orelha e o ombro - (ombros régios, muito bonitos) e a escrevinhar num Moleskine.

 - És tão eficiente, disse-lhe eu, empurrando discretamente o meu caderno da Staples para dentro da mala.
 - E tu és tão engraçada – respondeu ela. E chamando uma das enteadas, apresenta-ma e diz-lhe: esta é a Salsicha, aquela não conseguia fazer côcô (sic) na casa do namorado mas um dia ficou lá um TAROLO ENORME A BOIAR NA SANITA!

Riram-se imenso.

Reflecti. Esta brasuca é assertiva.  Num debate qualquer - que não envolvesse sociopatas ou travecas sem dentes -, eu nem o iniciava, dava-me logo por vencida, atirava o microfone ao ar e projectava-me  para o colo dela.

E a história preferida dela é a do Floater.

Cheguei a casa e fui relê-lo no embaraço do meu quarto, mesmo ao lado da fatídica casa de banho.. Opá…muito bom. Eu sou o máximo! Sou super engraçada. Ri-me como se fosse a primeira vez. Talvez porque me lembre como foram aqueles 10 segundos de conversa ao telefone, num crescendo formidável.

Nada a fazer, lamento. Sou muito espirituosa.  E graças a esta brasuca, apeteceu-me voltar a escrever.

Obrigada Zuca.Fosse eu solteira e homossexual, e não fosses tu de uma religião esquisita, lá das palhotas Cearenses, e muita areia para o meu camião, TENTAVA A MINHA SORTE.

E assim termino esta minha narrativa - uma espécie de Fábula de La Fontaine da Margem Sul, mas com todos os seus atributos: simples, bela e simbólica.

Não têm nada que agradecer.





domingo, abril 01, 2018

Cozinhar: Parte Infinita



Uma das minhas avós tem um livro que sempre me causou um misto de cólera e exaltação, chamado: " A Mulher na sala e na cozinha".

Esta obra-prima, de uma  prendada Laura Santos, mais do que um livro com receitas simples para eu ensaiar no fogão, como bacalhau de caldeirada à fragateira ou cabeça de porco com feijão branco e hortaliça, é na realidade um verdadeiro compêndio sobre economia doméstica,  que ensina  à mulher como trabalhar na boa ordem, asseio e zelo  da sua cozinha.

 Eu, que gosto de manter os amigos por perto, mas os inimigos mais  perto ainda, pedi-lhe o livro. A minha avó, que soube que eu, já com 16 anos, tentei  fazer puré no passevite com batatas cruas, deu-mo, esperançada.

Este livro da década de 70, que tem na capa uma jovem beleza de Petrarca, com uma graciosa blusa branca de decote drapeado e rímel nas pestanas de cima e de baixo (enfim, a imagem típica de quem acabou de fazer a tal cabeça de porco), teve sempre o condão de me fazer sentir um homem, e feio.

Num capítulo dedicado ao esmero e apresentação da refeição,  a D. Laura adverte, por exemplo, a pôr sempre na mesa  de jantar uma cestinha para o pão, coberta com um naperon de organdi, uma taça com fruta da época e uma cantarinha de barro com água fresca. Que estupidez. Com 4 filhos em casa, o mais novo de 6 semanas, mando-os beber água directamente da torneira e  atiro com umas carcaças para cima da mesa . Depois, é descascar umas tangerinas e obrigá-los a  limpar as mãos à toalha da mesa ou aos pijamas.

Mas, para mim, a parte mais perturbante do livro é aquela em que  a autora avisa insistentemente e deixa boa nota: a dona de casa deve levantar-se bem cedo de manhã- antes do marido, aprumar-se, arranjar o cabelo e maquilhar-se com discrição a fim de, quando este já se tiver levantado,  lhe levar uma xícara de café. A importância deste gesto? Toda. Ou é ela a preparar-lhe a chávena... ou será mais tarde a SECRETÁRIA DO MARIDO!

AUTCH!

Não deixo de achar ternurento ela fiar-se na ideia que mantém o marido de rédea curta com um bom penteado. Eu, pelo sim pelo não, e não obstante a minha farta cabeleireira, iniciei-me recentemente nas aulas de  POLE DANCE. Têm sido as piruetas (para já, no chão) mais complicadas que já dei em toda a minha vida mas, macacos me mordam se não estou dispensada da galinhola à transmontana!

E se um dia, precisar mesmo, mesmo de cozinhar, fá-lo-ei num total pranto, MAS calçada com os meus  novos sapatos de STRIPPER.

Desta não te lembraste tu, pois não Laura Santos? Rima: merda pra ti e os teus naperons de organdi .



quinta-feira, março 29, 2018

Maternidade, outra vez


Já tive o meu 2.º filho. Quase 2 meses depois deste nascimento, sinto-me a regressar à vida real, provinda de uma espécie de Brumas de Avalon do Puerpério. Poderia ter sido um período místico e comevedor,  mas não, foi um profundo DESESPERO. Ao género de, e muito simplistamente, “como é que me fui meter nesta merda outra vez. Este pensamento começou horas antes da cesariana e terminou, sensivelmente, ontem.

Este bebé, o João, é muito fofo: tem um cabelo farto e preto que lhe cai elegantemente sobre o pescoço e as orelhas, assim como um nariz ainda meio esborrachado, não recuperado do inchaço. Desde o início que me fez lembrar alguém, mas quem seria? Pensei, pensei, avaliei-o. Subitamente, uma epifania:

O meu filho João é a cara chapada do Clancy Wiggum, chefe da polícia dos Simpson. Em versão saudável, não corrupta e fofinha. Deus me ajude.

Nos dias que passei na maternidade, andei a cirandar pelos quartos todos. O mulherio, que está na tal fase apalermada das brumas nebulosas do pós-parto, quedava-se todas pelos seus  aposentos, e se não fosse eu andar a percorrer corredores e a espreitar para dentro dos quartos, não teria constatado 3 coisas:

1.º- Que o meu filho (não obstante assemelhar-se a um desenho animado), era o bebé mais distinto daquela maternidade, com as suas suíças elegantes e cabelo hirsuto, um ar meio bebé/meio revisor oficial de contas. Um orgulho.

2.º  Ao invés, eu era a mãe com o ar mais desgraçado daquele hospital. Curiosamente, no 1.º dia, constatei que fui a única a fazer cesariana. Em bom rigor, tinha a obrigação moral de ser a mais aprumada, uma vez que a minha bacia não abriu e a vagina permaneceu intacta. Mas a realidade é que há algo em mim (uma maldição? genética?) que não me permite ficar com um ar de pessoa após um parto. Uma cara gigantesca de balão, com uns dentes lá perdidos no meio da boca. Um retrato fiel da galinácea do “Chicken Run”.

3.º - Apesar de estar um farrapo,  inicialmente senti-me um farrapo jovem, com imenso potencial para recuperar. Foi por isso que encarei com profundo horror, a quantidade de mães muito mais NOVAS do que eu! Um escândalo!!  Mães que horas antes tinham o cérvix completamente escanquerado mas, em questão de horas, estavam prontas para ir ao cinema.  Ao meu lado  ficou uma rapariga de 19 anos, fresca e airosa. Reflecti: eu com 19 anos tinha que pedir autorização à minha mãe para ir à Feira do Livro, quanto mais atrever-me a ter relações sexuais completas.

A realidade é que os meus 37 anos, ao lado daquela juventude folgosa, colocaram-me naquela semana numa situação de pré-menopusa e foi uma sensação muito, muito estranha. Ou seja, eu parecia não só uma Galinha, mas uma Galinha VELHA. À saída, tiram-me uma fotografia. Eu bem que não queria, mas lá apanhei o cabelo e apresentei meu melhor sorriso. Ficou algo semelhante a isto:







quarta-feira, setembro 20, 2017

Parafilias e afins

Um dia destes disse ao meu marido que notava que alguns senhores ficavam muito interessados a olhar para mim, na minha condição de grávida.

A cara dele traduziu um misto de gozo e de compaixão.  Achou hilariante eu insinuar que homens se interessavam por grávidas de 8 meses (que é o que eu pareço).

Pois se há coisas bem mais esquisitas, como gostar de mulheres sem dentes! Qual é a admiração de se olhar para uma mulher supostamente fértil?Até digo mais, o modus operandis destes senhores é praticamente o mesmo:

- olham uma pessoa de alto a baixo mas detêm-se na barriga (as pupilas dilatam-se e esboçam um ligeiro esgar, tipo fome, ou ansiedade não sei)
- depois olham para a cara (micro-segundos )
- descem às mamas grandes  (estremecem)
- voltam a olhar para a barriga (pupilas dilatam-se pela 2ª  vez).

 E aí ficam a marinar até se aperceberem que estao a ser observados. Uns envergonham-se, mas atrevo-me a avançar que é uma modesta minoria.

Eu quase que acompanho o monólogo da pessoa que me percorre mentalmente:

Barriga - "Hum, esta engravidou… em algum momento teve que se relacionar sexualmente…"
Cara"Inseminação? Naaa… esta engravida só de guardar a factura da pílula"
Mamas– "Pára tudo!! Dúvida: está prenha ou já amamenta?"
Barriga – "Grande pagode que deve ter sido" (suspiro)

O meu colega de escritório é diferente do meu marido. Não só sabe que isso existe, como consegue dizer de cor os melhores sites pornográficos de pregnofilia, e quis mostrá-los (neste ponto da conversa  as duas estagiárias presentes na sala começaram aos gritos).

 Curiosamente, o meu colega até acha as grávidas umas grandessíssimas focas e terminou dizendo que lhe faz todo o sentido o fetiche das pessoas sem dentes. 

Concordo. Há que derrubar a intolerância, vivam os fetiches que nos dão mil alegrias...





segunda-feira, setembro 18, 2017

Já só faltam 151 dias!

Grávida de 19 semanas.  E já engordei todo o peso recomendado numa gravidez de 9 meses (pânico, terror).

Com os olhos pregados no chão, mortificada de vergonha, lá fui à nutricionista de gestantes da CUF (não podia ir à última nutricionista depois da desonra épica da  gravidez do Francisco). Depois de 1 hora de negociação, vozes altercadas e recriminações subliminares da nutricionista, saio do consultório a suar em bica e com uma dor de cabeça enorme e vou para o escritório com a dieta na mão.

Antes de chegar, encontro-me com a minha amiga Tininha à porta do escritório.  Tira-me o papel da dieta da mão e lê com interesse.

E agora, eis a verdadeira diferença entre Pessoas Saudáveis, Magras e Equilibradas (atenção: não me refiro às pseudo-magras que se alimentam a tabaco, coca-cola diet e cápsulas Biolimão) e a minha Pessoa:

Tininha (Magra Salutar) : O que é isto?!

Eu (Bem-Nutrida  Sôfrega): Já engordei 12  quilos. É A merda da minha dieta.

Tininha: O QUÊ???DIETA??SE EU COMESSE ISTO TUDO REBENTAVA LOGO E MORRIA AGONIADA!!

Releio a dieta nascida de um braço-de-ferro entre titãs, eu a implorar de um lado que não me tirasse o pão, a nutricionista a rugir do outro a esfregar-me nutrientes subitamente essenciais numa gravidez.
Olho para a Tininha com um misto de vergonha e vontade de lhe chegar  com a mão fechada à cara.

Tininha: Epá, a sério, tu comes isto tudo?

Eu (desalentada): NÃO, EU COMO 10 VEZES ISSO!!! OU TU ACHAS QUE EU COMO ALPERCES DESIDRATADOS  DE LIVRE E ESPONTÂNEA VONTADE??? EU ODEIO ALPERCES, AINDA POR CIMA DESIDRATADOS! EU  QUERO É PÃO COM CHOURIÇO  E BITOQUES!! EU NEM SEI BEM A DIFERENÇA ENTRE UM ALPERCE E UM PÊSSEGO!

Vi pela expressão saudável dela (rapariga nascida e criada no Alentejo profundo, latifundiária até ao último costado), que estava mortinha para me explicar as diferenças, e enaltecer todas as frutas do mundo e damascos e afins.

- E OLHA QUE NÃO SEI NEM QUERO SABER!!!

Não insistiu mais. Tentou até mudar de assunto e perguntou-me qual já era o peso do bebé.

- 280 gramas  - respondi.


Viemos as 2 desoladas no elevador.