domingo, março 12, 2017

Nem dou título

O meu filho teve recentemente uma fissurinha no rabo, o que proporcionou longas horas de cumplicidade Mãe e Filho na casa de banho.

Era ele no trono lavado em lágrimas, e eu no chão no frio, sentada em cima das pernas, também em lágrimas, com um formigueiro desgraçado a consumir-me o músculo tibial.Conversávamos muito, e acabámos por chegar à parte em que ele tinha trazido no domingo anterior, de casa de uma amiguinha, uma linda TIARA.

Sim, a criança, agarrou-se à tiara da miúda e colocou-a delicadamente na própria cabeça rapada com gel . Olhou-se ao espelho e deve ter adorado o que viu, porque não só a levou para casa (a proprietária ficou tão admirada que não se importou que ele a subtraísse), como quis dormir com ela!

Tudo bem. Sem stress (mentira, escândalo).

Nesses  longos simpósios na casa de banho, esclareceu-me que um dia ia ter um bebé na barriga. Expliquei que apenas as meninas poderiam ter bebés. Olhou-me condescendente e repetiu: "Não, EU vou ter um BEBÉ na minha barriga, eu gosto muito de BEBÉS", e ajeitou majestosamente a sua tiara na cabeça rapada.

Ok. Sem stress.(mentira, surto de hiperventilação)

Nesta última sexta-feira, dia em que, aparentemente, a sua condição clínica melhorou, mas em que tivemos mais um colóquio de 1 hora na sanita, falámos sobre tudo. Sobre como era bom ir à terra da avó apanhar limões, como era giro calçar as galochas e ir à fazenda, depois ele confidenciou-me:

- "Mamã, sabes o que vou ser quando for grande?"

Olhei para a tiara cravejada de pedras preciosas, para a perninha cruzada de uma forma encantadora, nem que eu treinasse uma vida, ficaria sempre a anos luz de tanta elegância e distinção a defecar.

-" Queres ser.... bailarina é isso? Diz à mãe, é bailarina?  - estava consumida, o meu instinto de mãe dizia-me que era bailarina.

-" Não mamã. Quero ser Professora" .

- "Professor? Que giro, que profissão tão bonita! "

-"Não mamã, quero ser PROFESSORA"-  corrigiu-me, sem perder o porte altivo e sempre de coluna vertebral erecta.

 Chamei o Pedro, tivemos uma conversa franca: " Pedro. se o miúdo for GAY, só tenho este filho e acaba-se aqui a minha linhagem e quando eu falecer Susana desaparecerá para todo o sempre nesta vida terrena e não sobrará uma única micro-célula genética para me perpetuar! Nem uma merdinha de um protozoário com o meu DNA inscrito para recomeçar qualquer coisa que se assemelhe a mim !!!!!

Não acho bem, acho até muito mal!"


- "Achas que podemos tentar agora o 2.º filho ? "  (Bater de pestanas duplo)

Pedro, sintético:  "Agora não. E se for ratão pode ter um filho na mesma. Mas aí é que a fissurinha vai dar problemas a sério. Nem quero pensar no estado desse rabo".

Olhei para o meu Francisco, lindo como Jesus  (tentei ignorar a tiara). Querido 2.º filho, aguenta-te que não foi desta que o pai se comoveu. Paciência, vou pensar noutro ardil.







sábado, janeiro 07, 2017

EMEL é rabo.

Esta é uma história sobre valores humanos e, sobretudo, Gratidão.

Há uns anos que eu tenho a 8.ª maravilha do mundo, algo chamado “dístico da EMEL”, que me permite estacionar no Saldanha em Lisboa, todo o ano, por 12€ (sim, chorem todos, chorem muito).

No entanto, antes deste encanto, eu tinha que estacionar o meu carro e entregar a chave a um Sr. que era muito alcoólico, mas muito gentil, e que me punha os tickets dentro do tablier quando chegavam os psicopatas da EMEL.

Esclareço que o senhor andava sempre roxo das quedas monumentais que dava naquela calçada, mas nunca falhou nenhum ticket. Levava €20 pelo serviço.

Acreditem ou não, aquele Sr. Alcoólico, que mal se aguentava nos caniços, tinha uma fiel freguesia estimada em mais ou menos 50 pessoas, e a coisa funcionava muito bem: de manhã as pessoas entregavam as chaves dos seus veículos, ao final do dia os condutores iam recolhendo as suas chaves.

Se ficássemos a trabalhar até depois das 18h30, era o próprio Sr Alcoólico, já bêbedo que nem um cacho, que nos ia entregar as chaves aos respectivos prédios. Claro que muitas vezes estava tão bêbedo, tão bêbedo, que demorava uma eternidade a encontrar o nosso local de trabalho, primeiro porque se enganava 20 vezes na localização o prédio, e depois enganava-se 20 vezes no andar. Demorava uma média de 10 minutos para encontrar a nossa chave, mas sabia-as todas de cor.

Ora, naquela altura, havia um mito urbano que dizia que esse Sr. Alcoólico era um ex engenheiro de renome, que tinha trabalhado muitos anos no estrangeiro e que estava prestes a receber uma reforma choruda.

De ressalvar que o homem, que era avinhado mas muito esperto, percebeu que eu era a advogada mais desorientada do Saldanha e pedia-me sempre dinheiro adiantado.

Apelava-me frequentemente ao coração, chorando-se com a renda em atraso do quarto em que vivia, a falta de comida, os pijamas rotos; mas depois voltava a pedir-me dinheiro como se nada fosse, esquecendo que eu tinha já tinha pago e afiançando a pés juntos que eu estava a dever a última mensalidade.

(Eu andava sempre permanentemente confusa, acho que fui enganada todos os meses, uma vez que ele ficava ofendidíssimo com a minha insinuação de que já tinha pago, e normalmente adiantado. Ainda assim, mesmo que eu pagasse 40€, tinha a vida salva e isso não tinha preço).

Tudo isto para dizer o seguinte: uma vez ele apareceu todo sorridente, lágrimas nos olhos e disse que finalmente tinha-lhe sido atribuída uma reforma de Inglaterra e recebia 3500€ por mês! Mostrou-me uma carta e tudo.  

Fiquei chocada por um alcoólatra crónico, sempre sentado no vão de escadas, ganhar mais que eu. Mas depois agarrou-me na não, olhou-me nos olhos, um olhar de perfeito bêbedo mas tão sincero e comovido e disse-me:

mas eu não esqueço quem me fez bem, não esqueço, nunca irei esquecer. Por isso eu vou continuar por aqui, afinal, não tenho ninguém na vida, só vos tenho a vocês, e não tenho palavras para vos agradecer o que fizeram por mim, sobretudo a Susana” (ahhhhhh pois!!! naquele  momento tive a confissão tácita que ele me enganava sempre, e fazia-me pagar 2 vezes ao mês, o lambão).

Primeiro fiquei super aliviada. Não saberia o que fazer ao meu carro se não fosse o Sr. Alcoólico.

E também fiquei emocionada. Aquele homem, bêbedo ou não, estava-me grato, e a gratidão é uma palavra maravilhosa, um sentimento nobre, de um poder imenso.

Epá, então não é que NUNCA MAIS VI O FILHO DA P*** NA MINHA VIDA!!! NUNCA!!!!

quarta-feira, novembro 30, 2016

Susana e Jon Snow. Soa tão bem.

Fomos a Londres recentemente, a casa de uns grandes amigos (B e M, almas gémeas como nós). Eu, Pedro, 3 filhos. A gata ficou, numa depressão menopáusica, greve de fome, o habitual.

Dias antes pedi a morada ao meu amigo, a fim de projectar todo um percurso desde o aeroporto de Heathrow até à casa deles, tarefa que só me de pensar nela me dava cabo dos nervos, quanto mais executá-la.

Ele enviou-me a morada. Pus no Googlemaps e descobri que do aeroporto a casa dele eram uns simpáticos 15 minutos. Descobri também que da casa dele ao centro de Londres, eram uns horripilendos 75 (setenta e cinco) minutos de autocarro.

Fiquei a olhar para o mapa (eu não percebo muito de mapas, mas este não enganava muito porque tinha legendas com bonecos).Redesenhei novamente o percurso e os horários já planeados. Absolutamente impossíveis de cumprir, pelo que delineei nova estratégia, com outro percurso e  recurso à UBER. 

Ficava pobre para o resto da vida, e continuava a demorar 50 minutos a chegar ao centro.

Fiquei exaurida emocionalmente. Quando o Pedro chegou, confirmou a morada mas confortou-me dizendo que o importante era a experiência e estarmos todos juntos. Sabia que era mentira e imaginei os 3 putos a estrafegarem-se num autocarro 75 minutos e lacrimejei.

Mais à noite, a mulher do meu amigo mandou-me um e-mail com indicações sobre a feira Winter Wonderland. Esse e-mail trazia dois “Ps”.

O primeiro  “Ps“ dava-me conta que não devia ligar à morada que o marido enviara porque era mentira (aparentemente, correspondia a uma morada numa conhecida localidade assombrada na Grã-Bretanha. Asshole).

Afinal, viviam num quarteirão mesmo no centro de Londres.

O segundo ” PS “ dizia, com incrível ligeireza, que íamos certamente gostar da casa deles, pois ficava num sítio muito calmo e seguro para as crianças e que, curiosidade, moravam no tal quarteirão o Jon Snow da Guerra dos Tronos, assim como o o pai do anão que morreu no banco do pensador.

JON SNOW????!!!? Tive que ser imediatamente reanimada. Recuperei, primeiro para insultar o meu amigo pela morada falsa, depois dar-lhe conta da minha enorme satisfação em ficar perto do meu querido Jon Snow.

E a realidade é que lá, fiz uma verdadeira caça ao homem, com a desculpa de ir encontrar (no que me pareceram ser horas intermináveis) esquilos merdosos com o meu inocente filho.

O miúdo uma vez, num único minuto, conseguiu ver um séquito de esquilos, e muito contente virou-se para mim e disse: “Ó Mãe, tantos esquilos, hoje é dia de São Esquilo!”. Achei tão bonito… Instituí: 21 de Novembro será para sempre dia de “São Esquilo”.

Ou dia” Em que Dei 20 Voltas ao Quarteirão e o JS Não Apareceu e Eu ia Morrendo Gelada até Porque Não Sou da Patrulha da Noite e Vivo em Portugal -  Beira Litoral Mas, Por Quem Sois! que Consolo! Vi Esquilinhos Super Fofos.

Ainda vou escolher. Mas Dia de São Esquilo é mais fácil de se desenhar.
E Londres foi muito isto. E mais algumas coisas.

  

domingo, outubro 30, 2016

Quem fala a dormir?

Acordei de manhã e o Pedro estava de olhar vidrado, fixado em mim. Assustador...

" Eu com esta cara de cu e ele a olhar para mim" - pensei inocentemente.

- "Susana, sabes o que disseste esta noite?" - inquiriu.

 Medoooo, muito medoooo!!!!É verdade que eu falo muito a dormir. E durmo bastante.  Eu até acho que toda a gente fala mas, aparentemente,  eu consigo ir do simples balbuciar com os olhos revirados de sono,  para conversas completas e selectas, entrecortadas apenas por pequenos roncos devido ao meu desvio do septo nasal.

Já não é a primeira vez que o Pedro me consegue  reproduzir o nosso diálogo sonâmbulo, e confesso que não me sinto muito à vontade porque naquele estado lastimável, o meu interlocutor consegue  conduzir a conversa e perguntar coisas até níveis assustadores...

(Ele nunca me conseguiu tirar esqueletos do armário, mas sei que é uma questão de tempo, mais uns 5 ou 6 anos e vou-me espalhar ao comprido).

- "Sabes o que disseste?" - repetiu. Não percebi se ele estava nervoso ou apenas impaciente, mas como o Pedro é um ser praticamente robótico, sem emoções visíveis, fiquei em modo de hiper-ventilação.

"Que terei eu dito??? Pensa Susana, pensa!! O que fizeste nas ultimas 24 horas que te comprometesse? Ou 48 horas? Ai, pode ser até uma semana, um mês!! ARGHHHHHHHH PENSA!!!!!"

- "Não sei. O que é que eu disse?" - desisti. 

- "Bem, ontem fui deitar-me e como te encolheste, perguntei se estava tudo bem ..." - começou ele.

- "E eu disse o quê? ahhh Nossa Senhora do Pranto ajudai-me nesta hora ahhhhhh!)" 

"Tu disseste-me: DÓI-ME O PÉNIS!!!"

Credo.

"Mas não foi um simples "Dói-me o pénis" - continuou ele." Foi mesmo com ímpeto e vivacidade. " DÓI-ME O PÉNIS!!!! - " imitou ele.

Até hoje. Dou voltas à cabeça.

1.º - Por que raio me doeria o pénis?!
2.º - Por que motivo disse"pénis" em vez de de "picha" ou "mangalho", palavras que me são muito mais  usuais??

Olhei-o receosa. Mas ele ainda não tinha acabado a minha imitação e já se tinha escangalhado todo a rir na nossa cama.


Ufa,ainda bem que falei no meu (?!).  Também nunca falaria de outro, porque não ando propriamente a ver  pénis no meu quotidiano. Mas a realidade é que a dormir, o céu é o limite e caramba, se eu sonho, e muito! "Dói-me o Pénis", na minha humilde opinião, é simplesmente MUITO BOM. Palmas para mim própria.

sábado, outubro 15, 2016

INTERDITO A PAIS, SOGROS, TIOS E IDOSOS AFINS.

Estando eu e Pedro a ver a nova série “O Exorcista”, na nossa mais recente aquisição, chamada Raspberry Pi, (que eu nem sei explicar bem o que é, mas basicamente é um chip que contém todas as séries e filmes do mundo, quase todos com legendas em português  - SIM É VERDADE. Eu vi o 1.º episódio do Dr. Phil, emitido em 2002, ou seja, há 14 anos, ia morrendo de emoção);

Começámos a ouvir a nossa vizinha num chavascal sem precedentes. Não sei se alguma vez vos falei dela, mas é uma sensual e inteligente mulher divorciada, por volta dos seus 50 anos (o Pedro discorda, nada menciona quanto à sua sexyness (que é inegável), diz é que é muito burra por causa das reuniões do condomínio. Mas eu não acredito, dada a profissão dela - que não posso revelar;

Eu acho que ele está apenas a disfarçar o seu interesse platónico pela vizinha, porque é inegável que é muito sexy e sensual, logo só lhe resta aniquilar a inteligência para me aquietar o ciúme.

Basicamente, a senhora não faz o amor. Ela FAZ TUDO E UM PAR DE BOTAS e eu sou obrigada a ouvir TUDO, especialmente se vou à casa de banho e a intimidade dela entra-me TODA PELA CANALIZAÇÃO ADENTRO.

No início foi chocante. Estamos a falar de um chavascal de barulheira e gritaria e porcalhices que chegavam a durar 25 minutos!! Mas o que é isto?! Depois passou para interessante, posteriormente para irritante. E felizmente, o rapaz (20 anos mais novo) um dia desapareceu.

Entretanto, veio outro rapaz. Ditosamente, com este só sou obrigada a ouvi-los entre 10 a 15 minutos, haja algum bom-senso .

Voltando ao início, a tremer de medo a ver essa nova série “O Exorcista”, com Geena Davis, começo realmente a ouvir o que parecia ser uma possessão demoníaca, a da vizinha. Fui logo cuscar tudo à casa de banho. 

Quando cheguei à sala o Pedro perguntou de forma bastante rude: “Com estes berros, deve ser é nas nalgas, não?”. E eu: “Ai Pedro, que dureza, que malcriado”. Mas reflecti e disse: “Sim, deve ser nas nalgas, Que horror, que nojo, não há outra explicação para o que se está a passar ali. Porcalhona, uma Mãe de família!!!”

Era absolutamente inconstitucional aquela barulheira e chiar da cama, que, ironicamente, até nos remetia para o cenário inicial da miúda do exorcista, em que ela pulava da cama até ao tecto, alta gritaria e obscenidades do piorio.

Já não havia condições sociais e de entretenimento para continuar a ver a série. Fomos para a cama. Eu já estava a morrer de sono. E quando estou a morrer de sono, e quero mesmo é dormir, eu digo ao Pedro: “PELO AMOR DE DEUS, MISERICÓRDIA. PIEDADE”. E ele não me toca. Se eu disser outra coisa qualquer (dor de cabeça etc), não há apelo nem agravo, vai tudo a eito, mas um dia reparei que, se invocasse Deus ou Nossa Senhora de Fátima, ele recuava.

Bem, apesar de estar com muito sono, com tamanha algazarra eu própria não tive coragem de me negar e pedir Misericórdia. Disse foi logo: “Não comeces com grandes ideias e devaneios que eu estou muito cansada”. (Ele sabe do que estou a falar - vocês não, sorry).  Ele avançou. Eu protegi as  partes pudendas/podengas com as minhas mãozinhas, mais numa de Mãe recatada e cândida, do que um não-incentivo. É quase uma obrigação moral não me vender logo por dois tostões e basicamente era suposto ELE INSISTIR MAIS! Mas não insistiu. Disse:

Tu pareces aqueles restaurantes (???) em que nos apresentam o CARDÁPIO, com os menus do dia, mas depois já está tudo riscado, não há nada.”  Depois esganiçou a voz e imitou-me: “Ai a vizinha, que horror, pocalhona” –  para te esquivares àquilo que tu sabes”. Ri-me. “Depois  matas-me logo  a expectativa ”daquilo”(sorry  leitores, não posso escrever o que é na blogosfera). Por fim, tapas-te toda com as mãos! “

Portanto, em vez de dizeres o que não posso fazer, diz-me o que eu posso fazer .”

E ficou à espera da resposta, muito compenetrado. Eu ainda estava a pensar que ele me tinha chamado “cardápio”, e que até tinha tido bastante graça, quando ouvi a vozinha dele esperançada: “Talvez uns peitinhos de frango? Posso?”

Desatei-me a rir. Era a vizinha num berreiro e eu à gargalhada. Já não consegui fazer absolutamente nada. Ria-me sempre. Entretanto a vizinha lá se calou, e o rapaz também deixou de se ouvir.

Já eu tinha enxugado as lágrimas mas ainda estava nas minhas dissertações filosóficas acerca da comicidade da palavra “cardápio”, que simplesmente adoro, a par das palavras “pistachio”, “mochila”, “pijama” e “morcela”, quando me apercebo que o Pedro tinha adormecido. Baixei gradualmente  para o  tom mais monocórdico que consegui e assegurei-me que ele estava mesmo a dormir.

Fiquei toda contente, mas no dia seguinte tive que me fingir ofendida. “Onde já se viu, marido meu a adormecer comigo na cama??!!  Este portento de mulher??”. E agora perguntam os mais curiosos, mas assim ele não lê o blogue e apanha-te nas tretas?

Não, tenho a certeza que quando estava a adormecer pensou : “Amanhã, esta gaja vai fingir-se de ofendida, e dizer “Onde já se viu, marido meu a adormecer comigo na cama??!! Este portento de mulher?? ”

É o único problema das almas gémeas. Há muito pouco a esconder e fugir. Escapatória, no meu caso, só clamando por Misericórdia, Piedade e Clemência (uma delas basta).

Bolas. Que Homem Honrado que eu tenho em casa. Que orgulho desmedido.






domingo, outubro 02, 2016

Quinta da Regaleira. Mágica, mas não resultou comigo.

Eu e o Pedro fomos passear à Quinta da Regaleira. Aquilo não começou lá muito bem, porque apesar de eu não estar de saltos altos, mas sim com umas confortáveis sabrinas (as quais odeio, pareço uma anã com sabrinas, aliás, pareço uma anã com pré-obesidade, (sem nada contra estas senhoras, claro).

Ainda assim, mesmo de sabrinas, ao fim de 2 minutos de subida eu estava fisicamente exausta. Pior, eu já coxeava e tinha o coração a palpitar. Então depois de subir o que me pareceram ser as várias centenas degraus do Santuário de Lamego,

Chegámos a um lindo sítio, um lago esverdeado, com umas enormes pedras tipo nenúfares, que iam dar a uma misteriosa e escura gruta, que depois soube chmar-se "Gruta do Labirinto". 



Entreolhámo-nos.

Pedro: -“ EU SEI QUE VAIS CAIR DENTRO DO LAGO, ainda assim queres tentar passar”?
Susana: “ EU SEI QUE VOU CAIR.  Vale a pena tentar?” – perguntei, esperançada que ele me dissesse para darmos meia volta e irmos à nossa vida.
Pedro: “Sim, claro. Por que não desafiar a Lei das Probabilidades?

Fiquei calada. Olhámos ambos para a dezena de pessoas que saltitavam naquelas pedras. Pais com bebés a tiracolo, japoneses com material fotográfico no valor de milhar de euros, reformados gigantes da Dinamarca praticamente a andarem sobre o lago como Jesus, e TODOS chegaram ao outro lado do lago, à tal gruta, sãos e salvos. TODOS.

Pedro: “Tenho a certeza que vais dar um tralho, de qualquer forma pode sempre haver uma variável aleatória que faça com que não caias”.
Susana: “ Hum… e quão variável é essa variável e fala em português sff”.
Pedro “  Bla bla bla sigma-álgebra (?) que gera a varável. Esquece. Sabemos que vais cair, que queres que te diga mais?

Olhei para o lago. Vi uma senhora a passá-lo com um recém-nascido atado às costas.
Bolas. Eu tinha que conseguir.

Primeiro foi o Pedro, que nem uma Leonor formosa e segura que vai à fonte.

Então eu arrisquei tudo. O lago era de um verde escuro, de tão alguento e peixoso que estava. O tempo parece que parou naquele minuto. Uma espécie de Matrix na Regaleira. Deixei de ouvir barulho, apenas o bater do meu coração, que entretanto disparou e estava a mil.

E lá vou eu de sabrinas, a sentir-me um paquiderme a saltitar de nenúfar em nenúfar. E depois, CHEGUEI À OUTRA MARGEM!

Já dentro da gruta, o Pedro abraçou-me com força, em silêncio e emocionado.

Eu era uma força da natureza, contra tudo e contra todos, e jamais alguém me tiraria isso. Resolvi fotografar o lago para memória futura daquele momento. Virei à direita na gruta e CAÍ DIRECTA NA MERDA DO LAGO!!!!!


O Pedro foi lá buscar-me, eu morta de vergonha com algas que se entranharam até dentro das unhas dos pés. Japoneses a fotografarem-me. Sorri, super querida, se a foto ia parar a Tóquio, ao menos que fosse com algum ponto positivo.

E lá retomámos o caminho certo. O amor é isto. Ir com uma pessoa verde até à cintura e achar perfeitamente normal, porque não se contraria a Lei das Probabilidades.

Quando chegámos ao hotel e fui tomar banho… Intraduzível. Algas que saiam dos sítios mais recônditos do meu ser. E eu já nem tinha sabrinas, tinha era duas algas gigantes, cada uma com uma sabrina lá dentro.

E se a visita à Regaleira não foi lá muito positiva no início, dado o meu desespero face a subidas e encostas; posso dizer que até terminou bastante bem. É que foi um fartote de rir, entre nós os dois, durante horas a fio. LOVE YOU!!  

sábado, setembro 24, 2016

No meu tempo...

 De manhã, quando saio para trabalhar, tenho logo umas 10 chamadas não atendidas no telemóvel. Eventualmente porque a minha manhã começa muitas vezes num período que, por um qualquer Observatório Astronómico, já não se denominaria “manhã”. Tipo um “antes de almoço, mas mais cedo”. Adiante.  

Naquele dia devolvi as chamadas para telemóveis, e tinha lá um n.º fixo, que eu não conhecia, nem vislumbrava donde pudesse ser, uma vez que eu conheço os indicativos quase todos para evitar telefonemas de prisões que não me interessem.

“263……hum…” “Vale de Judeus?  Zezito de certeza! Nem pensar”. E não atendo hihihi (eventualmente tenho que atender ao final do dia, após 30 chamadas frenéticas).

Então liguei para aquele número fixo. Dantes a conversa inicial (quando eu era uma jovem advogada, snif), era sempre complicada, porque muito dos telefonemas vinham de reclusos que, em abono da verdade, para além de não serem santos eram uns paranóicos e desconfiados de merda.

Antes eu iniciava as hostilidades com uma empatia encantadora: “Olá,bom dia! Ligaram para mim há pouco, quem é?”. Resposta invariável: “Eu não liguei para ninguém, o que é queres?” e eu delicadamente: “Tinha esta chamada não atendida, DE CERTEZA que ligou para mim”, “Não liguei nada, mas quem é que fala ,hã, quem és tu?” “Eu sou advoga…” INTERROMPIAM LOGO!
- “AHHHHHH SRA. DRA., como está, peço imensa desculpa, não sabia quem era, olá como está? Passou bem, a família?” Uma deprimência.

Volvida uma década, faço logo uma alocução inicial nos meus telefonemas para não me entediarem com as suas vozes e perguntas de idiotas. Devolvi então a chamada e o telefone tocou.

Pessoa: “Estou?”

Eu (seca e claramente): “Bom dia, o meu nome é SUSANA ALEXANDRE, sou ADVOGADA, tinha uma chamada não atendida deste número há 10 MINUTOS ATRÁS. E sim, tenho a certeza, foi este número que ligou. Posso saber com quem estou a falar?”

Pessoa: “Bom dia, meu nome é PEDRO CARMO, tenho uma empresa, SOU O TEU MARIDO, e na realidade, este é o teu número fixo de casa”.

Pessoa/Pedro/Marido: “E não fui eu que liguei há 10 minutos atrás, foi a Sra. Advogada que, para variar, não sabia do seu telemóvel, e ligou do seu número fixo para encontrá-lo. Já agora grave este número no telemóvel porque é o seu, há pelo menos, 6 anos. E convém tê-lo. Só naquela…”

 (Glup)

Se me dissessem há 20 anos - quando o conceito de telemóvel era prosa narrativa de um concurso de ficção científica, -  que eu um dia não ia saber o meu número fixo de casa, eu não acreditava.

Dantes, os números fixos da nossa casa, dos melhores amigos e até vizinhos, eram memorizados automaticamente! Mas ainda bem que hoje há telemóveis, eu hoje sou completamente inapta para decorar um número de telemóvel que não seja o meu.

Efectivamente, a memória deteriora-se. Noutro dia mandei o miúdo para a minha sogra e esqueci-me de lhe vestir as cuecas. Eu esqueci-me de lhe vestir as cuecas!!!!
Claro que pus a culpa imediatamente no pai, mas isso não invalida que eu estou a ficar velha e esquecida.

Então gravei o meu próprio número fixo de há 6 anos. Uma das coisas mais estranhas que já fiz na vida. (E se já fiz coisas estranhas, até tremo só de pensar no Juízo Final.)